Ensaio · Sensibilidade · Escrito CXL

CXL

Uma Parte de Cada Vez

Sobre o ser que sente, e como reaprender a sentir o corpo e o mundo ao redor, região por região

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Aba I

Abertura e I · Merleau-Ponty e o corpo próprio

Aba II

II e III · A varredura vipassana, e a dança gumboot sul-africana

Aba III

IV e V · A ginga da capoeira, e o fechamento

Parada no meio da sala, sem motivo particular para estar ali além de ter interrompido o que fazia, a pessoa percebeu de repente que não conseguia lembrar a última vez que tinha sentido, de verdade, o chão sob os próprios pés. Não o gesto automático de caminhar, que o corpo executa sozinho há décadas sem pedir licença à consciência. A sensação real: a textura do piso, a temperatura levemente diferente entre um ponto e outro, o peso distribuído de um jeito específico entre calcanhar e dedos.

Tentou, então, prestar atenção ao ar entrando pelo nariz. Também ali encontrou o mesmo vazio: o ar entrava, os pulmões se enchiam, tudo funcionando perfeitamente bem, só que sem ninguém realmente presente para notar. Era como se o corpo inteiro tivesse virado piloto automático havia tanto tempo que a própria pessoa já nem lembrava como era estar de fato dentro dele, sentindo cada parte em vez de apenas carregá-la de um compromisso para o outro.

I

O Corpo Próprio

Sobre Maurice Merleau-Ponty, e o corpo como meio de acesso ao mundo antes do pensamento

Essa desconexão entre estar vivo e sentir-se vivo tem nome na filosofia, e o francês Maurice Merleau-Ponty dedicou boa parte da carreira a investigá-la. Em Fenomenologia da Percepção, publicado em 1945, Merleau-Ponty propôs uma virada radical em relação à tradição filosófica que o precedeu: em vez de tratar o corpo como um instrumento que a mente usa para captar informações sobre o mundo, como se fosse um aparelho de medição separado de quem pensa, ele argumentou que o corpo é o próprio meio pelo qual o mundo se torna acessível, antes de qualquer pensamento consciente entrar em cena.

Merleau-Ponty batizou esse conceito de corpo próprio, distinguindo-o do corpo objeto que a medicina ou a biologia estudam de fora. O corpo próprio não é algo que se tem, como quem possui um carro ou uma ferramenta. É algo que se é. Antes de qualquer análise racional sobre o que está pisando ou o que está respirando, já existe uma camada inteira de percepção acontecendo, silenciosa, direta, incorporada, que a filosofia ocidental anterior tendia a ignorar em favor de explicações puramente mentais e racionais sobre como conhecemos o mundo ao redor.

O que Merleau-Ponty descreveu com rigor acadêmico, a pessoa parada na sala vazia sentiu como perda concreta: em algum ponto da rotina adulta, o corpo próprio, presente e sentindo cada detalhe, foi sendo substituído por um corpo objeto, funcional, eficiente, mas cada vez mais desabitado por dentro.

O próprio filósofo insistia que essa percepção incorporada não vinha depois do pensamento, como resposta a um estímulo já processado pela razão. Vinha antes. O bebê que ainda não sabe falar já reconhece o rosto da mãe, já sente frio, já se orienta no espaço, tudo isso através do corpo, muito antes de qualquer capacidade de raciocínio abstrato entrar em ação. Merleau-Ponty argumentava que essa camada de percepção nunca desaparece na vida adulta, apenas fica soterrada sob tantas camadas de rotina automática que a maioria das pessoas simplesmente esquece que ela ainda está lá, funcionando o tempo todo, esperando atenção.

O corpo que sente já sabia antes de a mente aprender a chamar aquilo de saber.

II

A Varredura

Sobre a meditação vipassana, e reaprender a notar uma parte de cada vez

Do outro lado do mundo, uma tradição de meditação bem mais antiga que a fenomenologia francesa já tinha desenvolvido, séculos atrás, um método prático para reverter exatamente esse tipo de desconexão. A meditação vipassana, ensinada hoje em retiros de dez dias organizados pela tradição de S.N. Goenka, que por sua vez recebeu a técnica de mestres birmaneses ligados a uma linhagem que remonta, segundo os próprios praticantes, ao ensinamento original do Buda, propõe um exercício chamado varredura corporal.

A técnica consiste em percorrer, mentalmente e com atenção total, cada região do corpo, começando pelo topo da cabeça e descendo devagar até a ponta dos pés, depois repetindo o trajeto de volta, notando qualquer sensação presente naquele instante específico, por mais sutil que seja, sem tentar mudá-la nem julgá-la como boa ou ruim. O objetivo não é relaxar, embora o relaxamento costume acontecer como efeito colateral. O objetivo é simplesmente voltar a notar o que o corpo já estava sentindo o tempo todo, mas que a mente, distraída em outras direções, tinha parado de registrar.

Mais de dois milhões de pessoas ao redor do mundo já passaram por esse tipo de curso, segundo dados do próprio instituto de pesquisa vipassana sediado na Índia, o que torna essa provavelmente a técnica de meditação budista mais praticada da atualidade. A insistência em fazer a varredura parte por parte, nunca tentando abarcar o corpo inteiro de uma vez, carrega uma lição prática que vale mesmo fora do contexto religioso original: sentir tudo ao mesmo tempo é impossível, e tentar fazer isso de uma vez só costuma resultar em não sentir nada com clareza nenhuma. Sentir uma parte de cada vez, com atenção real, é o único jeito que realmente funciona.

Praticantes descrevem um efeito curioso que costuma surgir por volta do oitavo dia de retiro, quando a varredura já foi repetida centenas de vezes: sensações que antes pareciam incômodas, uma coceira leve, uma tensão antiga no ombro, um formigamento qualquer, passam a ser percebidas com uma espécie de curiosidade neutra, sem a reação automática de querer afastá-las imediatamente. A técnica não promete eliminar sensação nenhuma. Promete apenas devolver a capacidade de notá-la sem reagir de imediato, o que, segundo a própria tradição, já é boa parte do caminho para sofrer menos com o que o corpo sente.

III

Quando a Bota Fala

Sobre a dança gumboot, e o corpo virando linguagem onde a voz foi calada

Na África do Sul, uma forma inteiramente diferente de atenção corporal nasceu não da busca espiritual, mas da necessidade bruta de sobreviver a uma opressão concreta. Nas minas de ouro do Witwatersrand, a partir do final do século dezenove, trabalhadores negros recrutados de vilarejos distantes eram proibidos, sob as regras impostas pelos donos das minas, de conversar entre si durante o trabalho nos túneis. Calçados com botas de borracha pesadas, fornecidas para proteger os pés da água estagnada e contaminada que alagava boa parte das galerias subterrâneas, esses trabalhadores desenvolveram um código de comunicação alternativo: batendo as próprias botas contra o chão e entre si, criando padrões rítmicos capazes de transmitir mensagens inteiras sem uma única palavra falada.

O que começou como estratégia de sobrevivência debaixo da terra se transformou, nas horas livres acima dela, na dança hoje conhecida internacionalmente como gumboot dance, ou isicathulo. Tapas nas botas, palmas, estalos, batidas sincronizadas do corpo inteiro contra o próprio corpo e contra o chão passaram a carregar, além da função prática original, também crítica velada às condições de trabalho, disfarçada de entretenimento diante dos próprios supervisores da mina, que assistiam aos espetáculos sem nunca decifrar o que realmente estava sendo dito ali.

Onde a voz foi calada à força, o corpo inteiro aprendeu a falar. Nenhuma varredura silenciosa de atenção interna, como a vipassana propõe, seria capaz de produzir esse tipo específico de linguagem corporal. A gumboot dance exigia o oposto: extroversão total, cada músculo em comunicação ativa com outros corpos ao redor, sentindo e sendo sentido ao mesmo tempo, numa escuridão onde os ouvidos e a pele precisavam fazer o trabalho que a boca não podia mais fazer.

A prática sobreviveu à própria mina. Depois que a legislação sul-africana mudou e a proibição de falar durante o trabalho deixou de existir, o gumboot dance já tinha se consolidado como expressão cultural própria, capaz de ultrapassar a função original de código secreto e se tornar espetáculo reconhecido em teatros e escolas ao redor do mundo. O que nasceu de uma mordaça imposta de fora virou, décadas depois, orgulho reivindicado de dentro, sinal de que até a linguagem forjada sob repressão pode acabar sobrevivendo à própria repressão que a originou.

Vale perguntar que linguagem o próprio corpo desenvolveu nos lugares onde a palavra não cabia, e se ela merece ser escutada agora.

IV

Este Grande Sistema de Razão

Sobre a ginga da capoeira, e o corpo como leitura constante do espaço

No Brasil, uma arte marcial disfarçada de dança, ou uma dança disfarçada de arte marcial, dependendo de quem explica, oferece talvez a síntese mais completa entre esses dois extremos: a atenção interna da meditação e a comunicação corporal externa da resistência. A capoeira, proibida por lei no Brasil entre 1889 e 1937, sobreviveu justamente disfarçando combate como festa, escondendo golpes reais dentro de movimentos que pareciam apenas brincadeira rítmica ao som do berimbau.

O movimento central da capoeira, chamado ginga, foi definido pelo próprio Mestre Pastinha, um dos grandes responsáveis por sistematizar e preservar a vertente conhecida como Capoeira Angola, como uma coordenação perfeita de movimentos corporais destinada a distrair a atenção do adversário e revelar, ao mesmo tempo, a malícia considerada fundamento essencial da arte inteira. Pastinha chegou a descrever o corpo do capoeirista com uma expressão que soa quase filosófica: este grande sistema de razão.

A ginga jamais para. Mesmo quando nenhum golpe está sendo trocado, o corpo do capoeirista continua em movimento leve, constante, lendo o espaço ao redor, o peso do adversário, a distância exata que separa um ataque possível de um ataque ainda distante demais para valer a pena. Essa leitura contínua exige exatamente o tipo de presença sensorial completa que a pessoa parada na sala vazia, no início deste ensaio, tinha percebido ter perdido havia tanto tempo que nem lembrava mais como recuperá-la.

Mestre Bimba, responsável por sistematizar a vertente conhecida como Capoeira Regional a partir de 1932, insistia com os alunos que a ginga precisava se tornar tão automática quanto respirar, para que a atenção consciente ficasse livre para notar tudo o mais que importava naquele instante: o pé que se deslocava, a respiração do adversário, o som do berimbau ditando o ritmo do jogo inteiro. A automatização do movimento básico, paradoxalmente, era o que abria espaço para uma presença sensorial mais completa em tudo à volta, não menos.

V

Uma Parte de Cada Vez

Fechamento

A pessoa que continuava parada na sala, agora depois de atravessar mentalmente essas quatro tradições tão diferentes entre si, decidiu experimentar algo simples: fechou os olhos e começou, devagar, pela cabeça, tentando notar o que realmente estava sentindo ali, sem pressa de chegar logo aos pés. Não conseguiu sentir tudo de uma vez. Ninguém consegue. Mas sentiu, com clareza inesperada, o peso específico das próprias pálpebras fechadas, algo que não parava para notar havia quem sabe quantos anos.

Nenhuma das quatro tradições reunidas aqui promete que sentir o corpo inteiro de volta seja simples ou rápido. Merleau-Ponty passou uma carreira acadêmica inteira só para descrever o fenômeno com precisão. Os praticantes de vipassana dedicam dez dias de silêncio total só para reaprender a técnica da varredura. Os mineiros sul-africanos transformaram décadas de opressão em linguagem corporal. Os capoeiristas levam anos até a ginga deixar de ser gesto ensaiado e virar leitura instintiva do espaço. O que todas as quatro têm em comum, apesar da distância entre elas, é a recusa em tentar sentir tudo de uma vez só. Cada uma, à sua maneira, ensina a mesma coisa: uma parte de cada vez, com atenção real, é como qualquer corpo volta a acordar por dentro.

Talvez essa seja, no fim, a lição mais simples e mais difícil de aplicar: nenhum corpo se recupera de uma vida inteira de piloto automático numa única tentativa isolada. Recupera-se do mesmo jeito que qualquer uma dessas quatro tradições ensina, sem pressa, sem exigir o corpo inteiro de volta amanhã de manhã, contente em sentir, hoje, só mais uma parte de cada vez.

Ninguém sente o corpo inteiro de uma vez, quem tenta acaba não sentindo nada direito.
Onde a voz foi calada, o corpo aprendeu sozinho a virar linguagem completa.
A malícia da ginga e a varredura silenciosa nascem do mesmo gesto, atenção total, parte por parte.
Antes de seguir apressado, pare um instante e sinta só uma parte de cada vez.

Dedicatória

A quem já parou no meio do dia e percebeu que não sentia o próprio corpo havia tempo demais.

Ainda percorrendo, parte por parte, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · O Corpo Próprio
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