Polis · Paraná · Escrito CXXXVI

CXXXVI

A Pedra Lembra, o Líquen Avisa

Sobre o Parque Estadual de Vila Velha, e duas formas de testemunhar o tempo: a pedra que vê eras como instantes, e o líquen que vê apenas o instante presente

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Aba I

Abertura e I · Vila Velha, a cidade de pedra

Aba II

II e III · A ruptura de Gondwana e as furnas, e quem habitou os Campos Gerais

Aba III

IV, V e VI · Os liquens e Rosemeri Moro, as furnas como ecossistemas, e o fechamento

O sol já ia baixo quando a silhueta apareceu no fim da trilha, e por um instante quem chegava ali jurou estar diante de ruínas de verdade: uma torre inclinada, um arco desgastado, o que parecia ser a base de uma muralha derrubada há séculos. Nenhum letreiro ainda tinha sido lido, nenhuma placa consultada. Só a sensação estranha, quase corporal, de estar entrando numa cidade abandonada que ninguém sabia ter existido.

De perto, a pedra corrigia a fantasia sem apagá-la de todo: não havia argamassa, nem marca de talhe, nem qualquer sinal de mão humana. O que parecia arquitetura era rocha sozinha, esculpida por um arquiteto que não tinha pressa nenhuma. E ainda assim aquela cidade impossível continuava ali, de pé, esperando havia um tempo tão comprido que a palavra século soava pequena demais para nomeá-lo.

I

A Cidade Que Ninguém Construiu

Sobre o Parque Estadual de Vila Velha, e trezentos milhões de anos de erosão paciente

O lugar é o Parque Estadual de Vila Velha, nos Campos Gerais do Paraná, a poucos quilômetros de Ponta Grossa. Criado em 1953 e tombado em 1966, o parque protege um conjunto de formações rochosas tão parecidas com ruínas de cidade medieval que os primeiros moradores da região, ainda no século dezoito, decidiram batizar o lugar exatamente assim: vila velha.

A base geológica mais antiga desse cenário começou a se formar entre trezentos e noventa e cinco e quatrocentos e vinte e um milhões de anos atrás, num período em que a região hoje coberta pelos Campos Gerais era fundo de um mar raso. Ali se depositaram, camada sobre camada, os sedimentos arenosos que viriam a se tornar a Formação Furnas, base de todo o conjunto. Muito mais tarde, há cerca de trezentos milhões de anos, com o planeta atravessando uma era glacial e a região situada bem próxima do Polo Sul, novas camadas de areia se acumularam sobre a anterior, cimentadas por óxido de ferro, o que explica o tom avermelhado que domina a paisagem hoje.

O restante do trabalho coube ao vento e à chuva, escultores pacientes que passaram os últimos trezentos milhões de anos desgastando as partes mais frágeis da rocha e deixando de pé apenas os blocos mais resistentes. O resultado são cerca de vinte e três formações batizadas pela população local com nomes que ajudam a memória a lidar com o inexplicável: a Taça, o Camelo, a Esfinge, a Proa de Navio, a Tartaruga. Nenhuma delas foi desenhada por ninguém. Todas nasceram do mesmo processo lento de eliminação, a pedra que sobrou depois que tudo o que era fraco já tinha sido levado embora pelo tempo.

A Taça, formação mais fotografada do parque, ilustra bem esse processo: uma base estreita sustentando um topo bem mais largo, geometria que parece desafiar o equilíbrio, mas que é exatamente o contrário disso. A parte fina resistiu porque era mais dura, mais rica em óxido de ferro cimentando os grãos entre si. A parte larga no topo sobreviveu porque funcionava como um teto protegendo o que estava por baixo da chuva direta. Não existe nenhum capricho ali. Existe apenas geologia comum, seguindo regras comuns, ao longo de um tempo incomum demais para a intuição humana conseguir abarcar sem ajuda de números.

II

Duas Rupturas

Sobre o Arco de Ponta Grossa, a quebra de Gondwana, e o nascimento das furnas

Nenhuma dessas formas, porém, explica sozinha por que a rocha antiga de repente ficou visível na superfície, nem por que existem, espalhados pelo mesmo parque, poços verticais que se abrem no chão sem aviso algum. A resposta para a primeira pergunta remonta a um evento de escala verdadeiramente planetária: há cerca de cento e trinta milhões de anos, durante a fragmentação do supercontinente Gondwana que originaria a abertura do Atlântico Sul, forças tectônicas provocaram um forte soerguimento conhecido hoje como Arco de Ponta Grossa. Esse movimento trouxe à superfície camadas de rocha que, até então, estavam soterradas havia centenas de milhões de anos, e abriu também fraturas profundas que atravessam o arenito de ponta a ponta.

São exatamente essas fraturas que explicam a segunda pergunta. Ao longo de milênios, água da chuva infiltrada nessas rachaduras, ligeiramente ácida, foi dissolvendo e carregando grãos de areia de dentro para fora, escavando vazios subterrâneos cada vez maiores até que, em algum momento, o teto desses vazios desabou sob o próprio peso. O resultado são as furnas, doze crateras verticais espalhadas pelo parque, algumas com mais de cem metros de diâmetro e profundidade equivalente, apelidadas antigamente de caldeirões do inferno por quem as via de cima sem entender como se formavam.

Duas rupturas, então, uma cósmica e outra íntima, compõem a mesma paisagem: a quebra de um supercontinente inteiro que devolveu a rocha antiga à luz do dia, e o colapso silencioso e contínuo de vazios que a própria água esculpiu por dentro da pedra, sem que ninguém em nenhum século tivesse presenciado o exato instante do desabamento.

Um continente inteiro se quebrou para que essa pedra específica voltasse a ver a luz do dia.

III

Quem Habitou os Campos

Sobre os Kaingang, o Caminho das Tropas, e o paraíso terrestre de Saint-Hilaire

Muito antes de qualquer turista tirar fotografia diante da Taça, os Campos Gerais já eram território habitado havia séculos pelo povo Kaingang, que organizava aldeias fixas nas áreas de campo aberto e usava as matas próximas aos rios para caça, pesca e abrigos temporários. A chegada de colonizadores luso-brasileiros à região se intensificou a partir da abertura do Caminho das Tropas, rota que, ao longo dos séculos dezoito e dezenove, conduzia milhares de cabeças de gado e mulas desde o Rio Grande do Sul até os mercados de Minas Gerais e São Paulo, atravessando exatamente o planalto onde hoje fica o parque.

Em 1820, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire cruzou essa mesma região durante uma longa expedição científica pelo Brasil meridional, e deixou registrado, entre notas botânicas e observações sobre os costumes locais, um comentário que se tornaria célebre: chamou os Campos Gerais de paraíso terrestre do Brasil, encantado com paisagens que poucos europeus tinham documentado até então. O relato de Saint-Hilaire também descreveu, sem meias palavras, o clima de tensão entre os povos indígenas que resistiam ao avanço das tropas e os fazendeiros e tropeiros que ocupavam cada vez mais território campo adentro.

Depois dos tropeiros vieram, ao longo do século vinte, levas de imigrantes europeus, poloneses, holandeses, alemães, que se somaram à cultura cabocla já formada e deram aos Campos Gerais a mistura que a região carrega até hoje: tropeirismo, herança indígena e sotaques trazidos de longe, convivendo no mesmo pedaço de planalto que abriga a cidade de pedra.

IV

A Flor Que Exige Se Abaixar

Sobre os liquens, Rosemeri Moro, e as testemunhas de vida curta

Nem toda testemunha do tempo, porém, precisa ter quatrocentos milhões de anos para valer a pena ser ouvida. Espalhados pelos troncos das árvores ao redor dos arenitos, crescem liquens, organismos formados pela associação simbiótica entre um fungo e uma alga, sem raiz nenhuma, que absorvem água, nutrientes e qualquer substância presente no ar diretamente pela superfície do próprio corpo. Essa mesma característica que os torna capazes de sobreviver em quase qualquer superfície os torna também extremamente sensíveis a poluentes atmosféricos como o dióxido de enxofre: onde o ar está limpo, os liquens prosperam; onde a poluição avança, eles desaparecem por completo, fenômeno que cientistas batizaram de deserto liquênico. Um organismo de vida curta, sem memória de eras geológicas nenhuma, funciona assim como termômetro preciso do exato instante presente.

Algo parecido, embora por caminho bem diferente, acontece com a vegetação rasteira que cobre o campo nativo ao redor das formações rochosas. A bióloga Rosemeri Segecin Moro, pesquisadora da Universidade Estadual de Ponta Grossa e uma das principais responsáveis pelo mapeamento científico da flora dos Campos Gerais, dedicou boa parte da carreira a documentar exatamente essas espécies: plantas herbáceas de porte baixo, adaptadas ao fogo, ao solo raso e aos ventos constantes do planalto, fáceis demais de ignorar por quem caminha rápido demais olhando só para as pedras grandes lá na frente.

O convite que o trabalho de Rosemeri Moro deixa implícito é simples de enunciar e fácil de esquecer na prática: apreciar essa vegetação de verdade exige o gesto físico de abaixar o corpo até a altura dela, porque nenhuma dessas espécies foi feita para ser vista de pé, de longe, apressadamente. A cidade de pedra impressiona por sua escala monumental. O campo nativo aos pés dela só se revela para quem aceita, ainda que por um instante, ficar do tamanho dele.

Pesquisas conduzidas por Rosemeri Moro e colegas também documentaram algo preocupante sobre esse campo nativo: áreas submetidas a pisoteio intenso de visitantes e pastejo de gado mostram queda mensurável na diversidade de espécies vegetais, processo de seleção que favorece as plantas mais resistentes em detrimento das mais raras e delicadas. A vegetação que exige atenção cuidadosa para ser vista é, também, a que mais sofre quando ninguém presta essa atenção antes de pisar em cima dela.

Admirar o grande é fácil e rápido. Cuidar do pequeno exige uma lentidão que quase ninguém reserva na agenda.

V

Doze Mundos Isolados

Sobre as furnas como ecossistemas próprios, e a fauna ameaçada do entorno

Dentro de cada furna, esse mesmo princípio de escala se repete numa chave ainda mais radical. Isoladas do ambiente externo por paredes verticais de até cem metros, as doze furnas do parque desenvolveram, cada uma, um microclima próprio: umidade mais alta, temperatura mais estável, luz filtrada apenas pela abertura estreita no topo. Esse isolamento permitiu que espécies de samambaias, musgos e árvores de sombra se estabelecessem em condições que não sobreviveriam do lado de fora, criando ecossistemas praticamente independentes uns dos outros a poucos metros de distância.

Nos fragmentos de mata com araucária que ainda restam ao redor dos arenitos e das furnas, pesquisas já registraram a presença de espécies ameaçadas de extinção como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, o bugio-ruivo e a jaguatirica, animais que dependem diretamente da conservação contínua desse mosaico de campo aberto, floresta e rocha para continuar existindo. O parque, reconhecido nacionalmente como um dos sítios geológicos mais importantes do Brasil, segue recebendo, todos os anos, dezenas de milhares de visitantes que vêm justamente atrás da cidade de pedra, muitas vezes sem saber que caminham também sobre um arquivo vivo de ecossistemas em miniatura.

A araucária que sombreia parte dessas trilhas também é, ela mesma, uma testemunha ameaçada: árvore símbolo do Paraná, hoje reduzida a uma fração pequena da cobertura florestal original do estado, vítima do mesmo ritmo acelerado de ocupação que quase apagou o campo nativo ao redor dela. Cada furna que ainda abriga essa vegetação de sombra intacta funciona, também, como uma cápsula do tempo vegetal, preservando um pedaço do que a região inteira já foi antes de virar pasto e lavoura.

VI

A Pedra Lembra, o Líquen Avisa

Fechamento

A pessoa que chegou ao fim da trilha, na abertura deste ensaio, viu a cidade de pedra antes de saber qualquer coisa sobre os quatrocentos milhões de anos guardados ali dentro. É natural que tenha sido assim: a pedra grande impressiona primeiro, sempre, porque a escala dela fala diretamente ao corpo, sem precisar de explicação nenhuma. Mas a mesma paisagem guardava, o tempo todo, duas outras testemunhas bem menores e bem mais silenciosas: o líquen que muda de cor conforme o ar muda de qualidade, e a flor rasteira que só se deixa ver por quem aceita se abaixar até ela.

Talvez a lição mais honesta que Vila Velha ofereça seja exatamente essa: existe testemunho em escalas radicalmente diferentes, e nenhuma delas invalida a outra. A pedra testemunha eras inteiras tratando-as como se fossem instantes. O líquen e a flor pequena testemunham apenas o instante presente, mas com uma precisão que nenhuma rocha antiga jamais teve. Aprender a ler as duas ao mesmo tempo, a monumental e a minúscula, talvez seja a única forma completa de realmente atravessar um lugar como esse.

A pedra grande fala de longe. A flor pequena só fala para quem se abaixa.
Quatrocentos milhões de anos cabem numa formação, e cabem também num líquen de poucos meses.
Nenhuma escala de tempo invalida a outra, cada uma testemunha o que só ela alcança.
Antes de fotografar a cidade de pedra, agache-se uma vez para ver o que cresce aos pés dela.

Dedicatória

A quem já se abaixou para ver de perto o que a pressa sempre deixa passar batido.

Ainda agachado diante do campo, Santos Moisés.

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I · A Cidade Que Ninguém Construiu
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