Quem escreve
Santos Moisés
Uma conversa de mesa, antes dos textos.
Se for para começar pelo começo, começo pelo vazio.
Senta. A mesa é de plástico e a cadeira balança um pouco, mas dá para ficar. Os cachorros já estão nas cadeiras do lado, então pode puxar a sua.
Os ensaios começaram pela inquietação. Passei 35 anos dentro de uma religião e, quando saí, pisei no vazio. As fronteiras do que eu entendia estavam se alargando, e foi ali que percebi que a vida era mais densa e mais funda do que parecia da janela por onde eu olhava. Gente de muitas épocas e de muitos cantos do mundo já tinha mergulhado nas perguntas que agora me ocupavam, e o que essas pessoas deixaram precisava ser tocado. Entendi também que a cátedra de um conhecimento não é o que eu sei, mas o que a humanidade já experimentou.
Passei mais de vinte anos entre estratégia, empresas e startups, e aprendi a resolver problemas. Faltava um lugar para as perguntas que não se resolvem: por que a gente repete o que repete, o que deixamos para os outros, quem decide a medida da sombra. Este projeto é pessoal, não profissional. No fundo, é uma tentativa de compreender a vida como um todo e de me responsabilizar por ela, e não só pelas partes que dão resultado. Escrevo para me entender e, com sorte, para que alguém se reconheça.
Escrevo a partir de uma pergunta, o que quer dizer que não sei onde o texto termina quando começo. Para quem passou vinte anos em estratégia, é uma maneira pouco eficiente de trabalhar. Parto de uma cena, de um erro, de uma frase ouvida. Chamo vozes de várias tradições para conversar com ela e aceito que a conclusão pode me contrariar. Se um texto fecha com uma resposta fácil demais, eu desconfio dele.
Por isso a coleção tem gêneros diferentes: nem toda pergunta cabe na mesma forma. Algumas pedem um argumento longo. Outras pedem um personagem para dizer o que o argumento não alcança. Há as que só se resolvem olhando um lugar de perto, a vida de alguém, uma viagem, um poema ou um instante sem tese. O gênero é a porta que escolho para a pergunta, e cada leitor entra pela que lhe for mais leve.
Quase tudo começa a pé. Muitos textos nasceram caminhando pela Praia de Iracema, entre o calçadão e uma mesa de bar, e outros na varanda do décimo quarto andar, entre as plantas e os pássaros que chegam de manhã. Caminhar me ensinou a olhar antes de concluir. A observação dá o material, que pode ser um gesto, um som, uma placa. A escrita dá a forma, e o pensamento acontece no meio. Escrevo no tablet, de frente para o mar, com o Bob e a Betty nas cadeiras ao lado, e raro é o texto que não leva um pouco desta mesa.
Nasci em Juazeiro do Norte, e a cada visita volto mais perto da minha origem. Foi Fortaleza que me acolheu e me deu a minha família. Escrevo de uma cidade onde o mar e o sertão se encontram na conversa de qualquer mesa. Ela me deu uma hospitalidade sem cerimônia, um humor que desmonta a solenidade e uma convivência diária com a desigualdade que não deixa a filosofia ficar elegante demais. Daqui vieram a Praia de Iracema, o Banco Palmas, o Pirambu, Sérvulo Esmeraldo, Leonilson, a seca e a baleia. Não escrevo sobre o Nordeste como assunto. Escrevo a partir dele, e depois saio para conversar com o mundo, de Atenas a Harare.
O que espero de quem lê é pouco e é muito. Que feche o texto com uma pergunta que não larga, e não com uma resposta pronta. Que reconheça algo que já estava ali, esperando apenas um nome. Que olhe a sua rua, a sua mesa e a sua pressa com um pouco mais de atenção, e que isso mude uma coisa pequena: o jeito de escutar, de pedir ajuda, de agradecer, de decidir. Se alguém, depois de ler, sentar uma tarde sem tela, já valeu.
Se quiser conversar, o e-mail é santosmoises@gmail.com. E se um dia passar por Fortaleza, a cadeira ao lado continua livre.
Santos Moisés
Por onde começar
Três portas, se quiser entrar agora.
- A Pergunta do Poço
Uma fábula sobre o que é filosofia, para quem prefere começar pela pergunta.
- Vamos Para a PI?
Uma polis sobre a praia onde esta mesa fica.
- A Mesa Sem Cabeceira
Um ensaio sobre conversar com quem pensa diferente.