Fábula · Filosofia · Escrito CXLVIII
A Pergunta do Poço
As Conversas do Terreiro, I: uma fábula sobre o que é filosofia, quando o poço baixa e ninguém concorda com a causa
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Aba I
Abertura, I e II · A água baixa e a assembleia
Aba II
III e IV · A palavra e a vala
Aba III
V e VI · A regra e a última pergunta
Aba IV
VII a IX · A interpretação, o galo e o sábio sem livro
Aba V
X a XIII · A rã, a vaca, o pombo e o poço
Na Fazenda das Quatro Vozes, o poço ficava no centro do terreiro.
Não era o maior da região nem o mais fundo, mas todos os caminhos da fazenda passavam perto dele. As galinhas bebiam ali antes de atravessar para o galinheiro. As vacas paravam na borda quando voltavam do pasto. Os cavalos bebiam em silêncio, os porcos revolviam a lama ao redor e os pássaros desciam em pequenos grupos, sempre olhando para os lados.
A parede de pedra tinha riscos. Cada estiagem que a fazenda atravessara deixara o seu, um traço raspado com prego na altura em que a água parou de descer. Os mais antigos estavam cobertos de limo, e ninguém lembrava quem os fizera nem quantos eram.
O poço também era antigo. Dizia-se que fora cavado antes de a fazenda ter nome. Alguns afirmavam que o abrira o primeiro fazendeiro. Outros juravam que a água brotara sozinha, no dia em que a terra percebeu que os animais precisavam de um lugar em comum.
Farofa, o pombo, preferia uma terceira versão.
“Eu ouvi dizer que o poço foi aberto por uma mula viajante que conhecia os segredos das montanhas. Ela fugiu antes do amanhecer e deixou a água de lembrança.”
“De quem você ouviu isso?”, perguntou Rumina.
Farofa inclinou a cabeça.
“De uma andorinha que ouviu de um cachorro que passou uma temporada na fazenda vizinha.”
“Então você não sabe.”
“Eu não disse que sabia. Disse que ouvi.”
Naquela manhã, o balde subiu rangendo com meio fundo de água turva. E a água, lá embaixo, estava abaixo do último risco da parede.
I
O Anúncio
Sobre o galo que conhecia a causa antes de olhar o poço
As galinhas se amontoavam ao redor da borda. As vacas esperavam a vez. Os cavalos batiam os cascos no chão, e até os ratos, que raramente apareciam em público, espiavam de uma fresta do celeiro.
Estouro subiu no barril de madeira, abriu as asas e gritou:
“ATENÇÃO! O POÇO ESTÁ SECANDO! É O FIM DA FAZENDA!”
Todos os animais olharam para ele. O galo respirou fundo, satisfeito com o efeito.
“Eu sabia que isso aconteceria. Avisei muitas vezes.”
“Você nunca avisou”, disse Rumina.
“Avisei em pensamento.”
“Pensamento não chega aos outros”, observou Baltazar, que se aproximava com a bolsa de couro no lombo.
“Chega quando é importante”, respondeu Estouro.
Baltazar se inclinou sobre a borda. Olhou a pedra úmida, o balde, os riscos antigos e o pouco de água que brilhava no fundo. Depois testou com o casco a lama ao redor, como fazia antes de atravessar qualquer lugar.
“É verdade. O nível baixou.”
“Eu disse!”, gritou Estouro. “E a causa é evidente.”
“Qual?”, perguntou Rumina.
“O pombo.”
Farofa, pousado no telhado do celeiro, abriu o bico.
“Eu?”
“Você passa o dia voando e levando água para longe nas penas. Todo mundo sabe que pombo carrega umidade.”
“Nunca ouvi isso”, disse Farofa.
“Porque você não presta atenção às próprias penas.”
Rumina olhou para Baltazar.
“Isso é possível?”
“Não dessa maneira.”
“Então de que maneira?”
Baltazar pegou o giz e desenhou um círculo na terra batida.
“Antes de falar da causa, precisamos saber o que aconteceu. Há quanto tempo a água está baixa? Choveu menos? Alguma nascente foi desviada? Estamos usando mais do que antes? Há vazamento?”
Estouro bateu as asas.
“Excesso de pergunta! O que precisamos é de uma solução.”
“Qual?”, perguntou Rumina.
“Proibir os animais de beber.”
O terreiro ficou em silêncio.
“E depois?”, perguntou Farofa.
“Depois veremos.”
“Se todos pararem de beber, não teremos mais água”, disse Rumina.
“Mas o poço não estará vazio.”
Baltazar fechou os olhos por um instante.
“É uma solução que preserva o poço e destrói quem depende dele.”
“Pelo menos é uma solução firme.”
“Firme não é a mesma coisa que boa.”
O galo desceu do barril e caminhou até a borda.
“Vocês estão complicando uma coisa simples. A água está baixa, a fazenda está em perigo. Precisamos decidir quem terá direito de beber.”
“Essa já é outra pergunta”, disse Rumina.
“Não. É a pergunta.”
“Não é. A primeira pergunta é: por que a água está baixa?”
“E a segunda?”, quis saber Farofa.
Rumina olhou para o poço.
“O que devemos fazer.”
“E a terceira?”, perguntou Baltazar.
Ela pensou um pouco.
“Quem tem o direito de decidir.”
“Eu posso decidir. Falo mais alto.”
“Isso faz de você o mais alto”, disse Baltazar. “Não o mais sábio.”
Quem grita a causa antes de olhar o poço cuida da própria voz, e a água fica esperando.
II
A Assembleia do Tamarindo
Sobre o que se sabe, o que se supõe e o que se deve fazer
Como ninguém chegava a acordo, os animais convocaram uma assembleia à sombra do velho tamarindeiro. Fazia calor. Uma vespa rondava o cocho e ninguém ousava espantá-la.
Estouro queria falar primeiro. Farofa queria contar o que vira nos campos vizinhos. Rumina trouxe o caderno de folhas amarradas com barbante. Baltazar levou a vara e o giz.
Estouro subiu numa caixa.
“Declaro aberta esta reunião sobre o desastre do poço. A causa é a irresponsabilidade de alguns. A solução é uma regra dura. E quem discordar está ajudando a secar a água.”
“Quem são os irresponsáveis?”, perguntou Rumina.
“Os outros.”
“Quais outros?”
“Os que não entenderam.”
“E como saberemos se entendemos?”
Estouro apontou para ela.
“Essas perguntas são uma tentativa de atrapalhar.”
“Ou de entender”, disse Rumina.
Farofa desceu do telhado e pousou no galho mais baixo do tamarindeiro.
“Eu trouxe notícias. Na fazenda do outro lado do rio, o poço também está baixo. No sítio da estrada, o riacho diminuiu. Na colina, encontrei uma vala nova. A água está sendo levada para um terreno onde plantaram uma lavoura grande.”
Baltazar ergueu a cabeça.
“Você viu a vala?”
“Vi.”
“Viu a água passando por ela?”
“Vi.”
“Viu quem a abriu?”
“Não.”
“Então temos uma pista, não uma conclusão.”
Estouro se impacientou.
“Se a água está indo para outro lugar, basta mandar que volte.”
“Quem vai mandar?”, perguntou Farofa.
“O responsável.”
“E quem é o responsável?”
“O dono da lavoura.”
“E se ele disser que a água também pertence a ele?”
O galo ficou calado por um segundo. Depois falou mais alto:
“Então será preciso falar mais alto do que ele.”
Baltazar desenhou três linhas no chão.
“Vamos separar três coisas. Primeiro, o fato: a água está baixa. Segundo, a possível causa, que pode ser a vala, a falta de chuva ou o uso excessivo. Terceiro, o que consideramos justo fazer a partir disso.”
“Por que precisamos separar?”, perguntou Rumina.
“Porque podemos saber o que aconteceu sem saber o que fazer. E podemos desejar uma solução justa sem ter compreendido o problema.”
“Então conhecer um fato não basta?”
“Não.”
“E ter uma opinião também não?”
“Também não.”
“E perguntar basta?”
“Perguntar é o começo.”
Estouro bateu o pé no chão.
“Se tudo é começo, quando chegaremos ao fim?”
Baltazar olhou para ele. Sentiu a impaciência subir pela garganta e a segurou como se segura uma carga mal amarrada.
“Talvez o fim de uma pergunta seja o começo de uma responsabilidade.”
O galo não gostou da frase, principalmente porque não a entendeu.
Saber o que aconteceu e saber o que fazer são dois ofícios, e a pressa mora na fronteira entre eles.
III
O Que É Filosofia?
Sobre a palavra que ninguém na fazenda sabia carregar
Rumina inclinou a cabeça.
“Baltazar, você está fazendo filosofia?”
A palavra era nova para uns e velha para outros. Os animais se mexeram nos lugares.
Estouro aproveitou.
“Filosofia é quando alguém não sabe responder e faz mais perguntas para esconder isso.”
Farofa ergueu uma asa.
“Ouvi dizer que filosofia é uma doença que dá em bicho que pensa demais.”
“De quem você ouviu?”, perguntou Rumina.
“De um macaco que lia papéis no porto.”
“E ele sabia o que dizia?”
“Parecia saber.”
Baltazar fincou a vara na terra.
“A palavra vem de uma expressão antiga que quer dizer amor à sabedoria.”
Estouro gargalhou.
“Amor? Então filosofia é uma declaração de afeto a uma ideia?”
“Quase. Quem ama a sabedoria admite que ainda não a tem. Por isso procura, pergunta, examina.”
“Então o filósofo é quem sabe que não sabe?”, perguntou Rumina.
“É quem não transforma o que ainda não sabe em certeza. Mas também não usa a dúvida de desculpa para nunca aprender.”
Farofa pousou no chão.
“Qual é a diferença entre filosofia e curiosidade?”
“A curiosidade quer descobrir. A filosofia também quer saber o que muda depois que descobrimos.”
Rumina anotou no caderno, uma linha para cada pergunta: o que é, por que é assim, poderia ser diferente, o que devemos fazer.
“Falta uma”, disse Baltazar.
“Qual?”
“Como sabemos que sabemos?”
Estouro levantou a crista.
“Eu sei que sei porque tenho certeza.”
“E como você sabe que sua certeza não está enganada?”
“Porque é minha.”
Rumina olhou para o jumento.
“Essa resposta não resolve nada.”
“Nem toda resposta firme explica.”
Baltazar apagou parte do círculo com o casco.
“Filosofia não é decorar nome difícil. Nem falar enrolado, nem ter opinião sobre tudo. É examinar as ideias que orientam a vida. É perguntar se o que parece natural é mesmo necessário.”
Farofa olhou a fazenda inteira do alto do telhado.
“Então serve para entender o poço?”
“Serve para entender o poço, a sede, a divisão da água e por que alguns animais acham que podem decidir sozinhos.”
“E o galo?”, perguntou Rumina.
“Serve para entender por que alguém fala muito sem saber, por que os outros acreditam e por que às vezes preferimos uma certeza errada a uma dúvida honesta.”
Estouro cruzou as asas.
“Estão usando a filosofia para me criticar.”
“Estamos usando para perguntar por que você acha isso”, disse Rumina.
IV
A Vala
Sobre quando perguntar e quando carregar a folha até o formigueiro
Baltazar propôs que os quatro fossem investigar. Farofa voaria até a colina para ver a vala. Baltazar seguiria o curso da água pelo chão. Rumina faria perguntas aos animais do campo. Estouro anunciaria a partida.
“Por que eu?”, perguntou o galo.
“Porque você anuncia bem.”
Estouro gostou da tarefa, embora tenha anunciado a expedição como “a grande operação de salvamento, liderada pelo animal mais corajoso da fazenda”.
“Você não é o líder”, corrigiu Rumina.
“Não sou?”
“Você só anunciou.”
“Foi um anúncio importante.”
“Importância não muda a função.”
“E quem decidiu a função?”
Rumina sorriu.
“Agora você está fazendo filosofia.”
Seguiram pela estrada de terra. No caminho, encontraram uma fila de formigas carregando folhas. Estouro parou diante delas.
“Vocês vão para onde?”
“Para o formigueiro.”
“E por que não para outro lugar?”
“Porque é o nosso caminho.”
“Quem decidiu?”
A formiga olhou para ele.
“Não temos tempo para essa pergunta. Estamos trabalhando.”
Rumina ficou pensativa.
“Uma pergunta pode ser importante e ainda assim não ser a pergunta certa para este momento.”
Baltazar assentiu.
“Filosofar não é parar tudo para perguntar sem fim. É saber quando uma pergunta precisa ser feita e quando a ação não pode esperar.”
Chegaram à colina no fim da tarde, com o sol deitando as sombras compridas sobre o campo. Farofa voou em círculos. Do alto, viu a vala atravessando a terra e levando água para a lavoura nova. Viu também outra coisa: a vala não fora aberta para esconder água, como alguns já imaginavam. Vários animais a haviam cavado para que a chuva forte não levasse embora a terra fértil.
“Há mais de uma causa!”, gritou do alto. “A chuva foi menor, a fazenda usou mais água e a vala desviou parte do fluxo. Ninguém sozinho secou o poço.”
Baltazar percorreu a margem da vala.
“E a água está indo para uma plantação que vai alimentar a fazenda inteira.”
Estouro ergueu o bico.
“Então está resolvido. A água foi desviada para produzir comida.”
“Não”, disse Rumina. “Ainda falta perguntar quem decidiu, se todos puderam participar e se existe água suficiente para todos.”
“Mas a plantação é boa.”
“Uma finalidade boa não torna justo qualquer método.”
Baltazar olhou para a vala e depois para a fazenda, lá embaixo.
“Precisamos de uma regra para a água. Mas a regra tem de considerar o conjunto: a plantação, os animais, a chuva, o futuro e os que ainda não nasceram.”
Farofa pousou perto dele.
“Os que ainda não nasceram também têm direito à água?”
“Eles não estão aqui para pedir. Isso não nos autoriza a esquecer que virão.”
Rumina ruminou a ideia por alguns minutos.
“Então justiça não é só dividir o que existe agora. É cuidar para que a divisão de hoje não destrua o amanhã.”
Baltazar sorriu.
“Agora você está filosofando.”
Uma pergunta também precisa de hora: há tempo de perguntar e há tempo de levar a folha até o formigueiro.
V
A Regra da Água
Sobre a regra que nasce do conflito e do caderno aberto
Na manhã seguinte, os quatro voltaram ao terreiro. Estouro subiu ao barril.
“Depois de uma investigação profunda, conduzida por mim e por meus companheiros, descobrimos que o poço está baixo por várias razões. Portanto, a solução é beber menos.”
“Isso é uma conclusão”, disse Rumina. “Não é uma regra completa.”
Estouro olhou para Baltazar.
O jumento se aproximou.
“Precisamos medir quanto entra e quanto sai. Consertar a vala para que proteja o solo sem tirar água demais do curso principal. Combinar horários e quantidades. Cuidar da plantação sem esquecer o poço. E rever a regra quando a chuva mudar.”
“Isso parece complicado”, disse uma galinha.
“É mais complicado do que gritar uma ordem”, respondeu Baltazar. “Mas é menos complicado do que viver numa fazenda sem água.”
Rumina acrescentou:
“Também precisamos perguntar quem participa das decisões. Se todos dependem da água, todos devem poder falar sobre o uso dela, mesmo que nem todos saibam tanto.”
Farofa completou:
“E a informação precisa circular direito. Toda semana, alguém conta quanto de água entrou, quanto foi usado e o que foi mudado. Assim ninguém depende só de rumor.”
Todos olharam para o galo.
Estouro pigarreou.
“Posso anunciar os números.”
“Depois de verificar os números”, disse Rumina.
“Depois de verificar os números”, concordou o galo.
Foi a primeira vez que ele acrescentou uma condição à própria voz.
Nas semanas seguintes, os animais fizeram o que a regra pedia. Limparam o fundo do poço. Repararam a vala. Revezaram os horários de uso. Plantaram espécies que pediam menos água. Abriram um caderno público, preso a um poste do terreiro, onde cada decisão foi anotada com a data e o nome de quem a propôs.
Rumina riscou, com o prego do portão, um traço novo na parede do poço. Era o mais baixo de todos. Ao lado dele, pela primeira vez, alguém registrou também o motivo: chuva menor, vala, uso. Os riscos antigos continuavam calados. Este falava.
O poço não voltou a ficar cheio de imediato. Mas deixou de baixar.
Regra boa tem caderno aberto: quem pode conferir o número dispensa a fé no anunciante.
VI
A Última Pergunta
Sobre o que o poço devolve a quem se inclina
Certa noite, os quatro se sentaram junto à água. O céu estava limpo, e a lua aparecia no poço como uma moeda quieta.
“Então filosofia é resolver problemas?”, perguntou Farofa.
“Às vezes”, disse Baltazar. “Mas nem todo problema filosófico se resolve como se conserta uma vala.”
“É descobrir a verdade?”, perguntou Rumina.
“Também. Mas precisamos perguntar que verdade estamos procurando e o que vamos fazer com ela.”
Estouro olhou para a lua refletida.
“É pensar antes de falar?”
“É pensar antes de afirmar que já sabe.”
O galo ficou calado por algum tempo. Como o silêncio era raro nele, os outros perceberam.
“Posso fazer uma pergunta?”, disse enfim.
Rumina se aproximou.
“Pode.”
“Se eu não souber a resposta, ainda posso participar da conversa?”
Baltazar respondeu sem hesitar:
“Você sempre pôde.”
“Então por que eu gritava tanto?”
Ninguém respondeu logo. Rumina foi a primeira.
“Talvez porque você confundisse participar com vencer.”
Farofa acrescentou:
“Ou porque achava que, se não falasse primeiro, ninguém sentiria sua falta.”
Estouro abaixou a cabeça.
Baltazar tocou o chão com a ponta da vara.
“É uma pergunta importante. Não precisamos respondê-la esta noite.”
“Vou ruminar essa ideia”, disse Rumina.
“Você pode ruminar”, respondeu Estouro, “mas eu também posso pensar.”
“Pode”, disse ela. “Pensar não é propriedade das vacas.”
Farofa abriu as asas.
“Vou levar essa notícia para a fazenda.”
Baltazar olhou para ele.
“Leve, mas não faça dela boato.”
“Vou dizer só que o galo fez uma pergunta.”
“E isso é verdade?”
“Eu estava aqui e ouvi.”
“Então pode dizer.”
Farofa voou até o telhado. Rumina ficou junto ao poço, olhando a lua na água.
“Baltazar, qual é a pergunta mais importante da filosofia?”
O jumento olhou para os caminhos que saíam do terreiro.
“Talvez esta: como devemos viver?”
“E qual é a resposta?”
Baltazar sorriu.
“É a pergunta que não termina quando achamos uma resposta. Volta sempre que a vida muda.”
A água permaneceu em silêncio. Mas aquela noite deixou uma coisa nova no terreiro: o poço não servia só para matar a sede. Servia também para devolver perguntas.
Quem se inclinava sobre a borda via o próprio rosto misturado ao rosto dos outros e, mais ao fundo, a lua. O galo descobria que a voz podia ficar menor sem desaparecer. A vaca entendia que uma pergunta pode virar caminho. O pombo percebia que olhar de cima não bastava para conhecer o peso do chão. E o jumento, pela primeira vez em muito tempo, não explicou nada.
Apenas ouviu.
Há conversas que só começam quando o mais barulhento pede licença para não saber.
VII
O Que a Fábula Pergunta
Sobre quatro animais e as vozes que chegaram antes deles
Toda fábula é uma escola pequena, e esta usou um terreiro como sala de aula. Ninguém ali recebeu uma lição. Cada um recebeu a pergunta que combinava com o seu defeito.
A fazenda tem quatro movimentos de conhecimento. Farofa vê, e pode não compreender o que vê. Estouro fala, e pode não saber o que diz. Rumina pergunta, e pode demorar a decidir. Baltazar compreende, e pode demorar a agir. Nenhum deles basta sozinho. A sabedoria, se existe na fazenda, nasce do atrito entre os quatro: ver com amplitude, falar com responsabilidade, perguntar com coragem, compreender para agir.
Essa conversa é mais velha que o terreiro. Cinco vozes, em lugares e séculos que nunca se cruzaram, desenharam sem saber o terreiro inteiro. Vale ouvi-las, com a ressalva de que nenhuma diz a última palavra.
VIII
Estouro e o Barulho Sem Compromisso
Sobre Harry Frankfurt e a diferença entre mentir e não se importar
Em 1986, o filósofo americano Harry Frankfurt publicou na revista Raritan um ensaio com um título que as bibliotecas relutaram em catalogar: On Bullshit. Em 2005, a editora da Universidade de Princeton o transformou num livro de 67 páginas pequenas. A tese cabe numa frase. Quem mente se importa com a verdade, porque precisa conhecê-la para escondê-la. Quem fala bullshit não se importa se o que diz é verdadeiro ou falso.
Frankfurt parte de uma anedota. Fania Pascal, que ensinara russo a Wittgenstein nos anos 1930, tirou as amígdalas e estava no hospital quando ele telefonou. Ela resmungou que se sentia como um cachorro atropelado. Wittgenstein respondeu, irritado, que ela não sabia como se sente um cachorro atropelado. Para Frankfurt, o defeito da frase mora em outro lugar: ela nem tenta acertar.
A anedota é discutida, e há quem ache que o disparate daquela conversa estava mais no filósofo do que na amiga. Fica de pé o que interessa: existe uma distância entre errar e não se importar com o erro. O pombo carrega umidade nas penas? Estouro não mentiu, porque não sabe se é verdade e também não quer saber. “Avisei em pensamento” serve para o mesmo fim. A frase só precisa ocupar o centro do terreiro.
Por isso Frankfurt achava o bullshit um inimigo da verdade pior que a mentira. O mentiroso ainda reconhece a autoridade do que é verdadeiro e luta contra ela. Quem fala sem se importar ignora a autoridade, e o hábito dessa indiferença vai desfazendo, pouco a pouco, a capacidade de dizer o verdadeiro quando se quer. O tratamento de Estouro não é o silêncio. Ele continua alto. Aprende a pôr uma condição na própria voz, depois de verificar os números.
IX
Baltazar e o Sábio Sem Livro
Sobre Henry Odera Oruka e a filosofia que nunca precisou de escrita
Baltazar não leu nada. Aprendeu a pensar carregando água, escutando conversa de todos os lados e testando a terra com o casco. Há uma tentação de ouvir isso como folclore, uma sabedoria simpática de gente simples. O filósofo queniano Henry Odera Oruka (1944 a 1995) desconfiou justamente dessa condescendência.
Nos anos 1970, na Universidade de Nairóbi, ele saiu à procura de pessoas das comunidades quenianas, letradas ou não, que refletissem criticamente sobre a vida, a morte, a justiça e o poder. Entrevistou-as e publicou os diálogos em Sage Philosophy, de 1990. Contra quem dizia que filosofia só existe onde há escrita, defendeu que a memória de um sábio pode ser tão consistente quanto um livro.
A distinção que Oruka fez serve à fazenda inteira. De um lado ficou o que chamou de sabedoria popular, os ditados que um povo repete. Do outro, a sagacidade filosófica: o indivíduo que examina o ditado em vez de repeti-lo. A frase de Baltazar, “não é porque acontece há muito tempo que está certo”, é exatamente a que separa uma coisa da outra. A bolsa de couro cheia de pedra, giz e semente é um arquivo oral, como as entrevistas de Oruka.
O método teve críticos, entre eles o nigeriano Peter Bodunrin. A dificuldade é real, e dá para vê-la no terreiro: quem entrevista escolhe o que perguntar e o que registrar. É por isso que o sábio sem livro continua precisando de Rumina, a vaca que lhe faz a pergunta que ele ainda não tinha.
X
A Rã Que Não Saiu do Poço
Sobre Zhuangzi e os limites do que se enxerga de dentro
No capítulo “As Águas de Outono”, o Zhuangzi põe frente a frente dois senhores das águas. O do Rio Amarelo está orgulhoso porque as cheias de outono alargaram tanto o rio que, de uma margem, não se distingue um boi de um cavalo na outra. Então ele segue a corrente até a foz e dá de cara com o mar. O Senhor do Mar do Norte lhe diz que não se pode falar do mar a uma rã de poço, presa ao seu espaço, nem do gelo a um inseto de verão, preso à sua estação, nem do Caminho a um erudito de visão curta, preso ao que lhe ensinaram.
São três prisões: o lugar, a estação e a doutrina. A fazenda tem as três. Estouro mora na doutrina, e repete frases até virarem paisagem. Baltazar mora na estação, e a prudência o faz esperar a formulação perfeita enquanto a injustiça cresce. Farofa escapou do lugar, vê o desenho inteiro do alto, e carrega o erro oposto ao da rã: de cima não se ouve quem chora dentro do poço.
O mesmo capítulo guarda uma história menor. Uma rã convida a tartaruga do Mar do Leste a visitar o seu poço. A tartaruga tenta entrar, o joelho esbarra na borda e ela desiste. Então conta o tamanho do mar, e a rã fica sem fala. Ninguém na fazenda viajou até o mar. Mas a vala, a colina e as notícias do rio de longe fizeram o papel da tartaruga: algo maior que o terreiro bateu na borda do poço.
A lição, aqui, é outra: aprender a se inclinar sobre a borda sem abandonar o poço.
XI
Rumina e a Moral Que Responde
Sobre Monteiro Lobato e as vozes que comentam a fábula
A forma que esta fazenda usa já existe no Brasil. Monteiro Lobato publicou as Fábulas em 1922, reunindo histórias de Esopo e La Fontaine com algumas de sua autoria. Em edições posteriores, passou a pôr Dona Benta para contá-las e as crianças do Sítio do Picapau Amarelo para comentá-las. Narizinho, Pedrinho e a boneca Emília perguntam, discordam, desconfiam da moral que vem no fim. De uma dessas histórias, Emília tira a ideia de reformar a natureza um dia.
O ganho é antigo e continua útil: a moral deixa de ser sentença e vira assunto. Rumina é parente dessas crianças, uma vaca que não aceita a moral do galo sem perguntar a quem ela serve.
Lobato também é um aviso. A obra dele tem passagens racistas, apontadas por pesquisadores, e nada obriga a escolher entre admirar a forma e examinar o conteúdo. Fazer as duas coisas é justamente o que a fazenda ensina: ler um mestre com o caderno aberto, e riscar com prego o que não resiste ao exame.
XII
Farofa e a Notícia Que Corre
Sobre Vosoughi, Roy e Aral e a pressa do que é falso
Farofa nasceu muito antes das redes sociais e se daria bem nelas. Em 2018, os pesquisadores do MIT Soroush Vosoughi, Deb Roy e Sinan Aral publicaram na revista Science o maior estudo já feito sobre como circulam notícias verdadeiras e falsas. Foram cerca de 126 mil histórias no Twitter, de 2006 a 2017, repassadas por uns 3 milhões de pessoas mais de 4,5 milhões de vezes e classificadas por seis organizações independentes de checagem.
O resultado incomoda. A notícia falsa tinha 70% mais chance de ser repassada, e a verdadeira levava cerca de seis vezes mais tempo para chegar a 1.500 pessoas. Quando os robôs foram retirados dos dados, a diferença continuou, o que aponta para as pessoas. Os autores sugerem um motivo: a notícia falsa é mais nova, e quem compartilha novidade parece estar por dentro.
Farofa conhece esse prazer. “Eu só entreguei a mensagem” é a desculpa que ele daria. O remédio que a fazenda inventa é pequeno e chato: dizer só o que viu e ouviu, de onde veio, e anotar no caderno aberto. O estudo mede o Twitter, e “falso”, ali, é o que as checadoras classificaram. Não prova nada sobre toda a conversa humana, mas confirma uma desconfiança do terreiro: a verdade costuma chegar mais devagar.
XIII
O Poço Que Devolve Perguntas
Sobre viver com consciência das perguntas que as escolhas carregam
Quem ouviu as cinco vozes percebe que nenhuma resolve a fazenda sozinha. Frankfurt cuida da fala, Oruka da escuta de quem não escreve, Zhuangzi da borda do poço, Lobato do comentário que vira conversa e Vosoughi do que circula. Quatro delas iluminam um animal cada, e Zhuangzi ilumina o poço onde os quatro vivem. Sem as outras, cada animal adoece de um jeito conhecido.
Filosofar, no fim, não é ter opinião sobre tudo, nem complicar o que pode ser simples. É aprender a perguntar com honestidade, separar fato de opinião, procurar as ligações entre as coisas e pensar nas consequências do que se decide. E não termina no pensamento. Uma pergunta bem feita pode mudar uma regra, uma ideia examinada pode impedir uma injustiça, e uma conversa pode ensinar uma comunidade a cuidar do poço que é de todos.
Entender a vida como um todo, que é o que esta coleção tenta, começa por saber onde se está, o que se sabe e quem ainda não foi ouvido.
Quem pensa melhor não é quem responde mais depressa, mas quem aprende a viver com mais consciência das perguntas que suas escolhas carregam.
O poço baixou e o terreiro gritou,
cada um com a causa que mais lhe servia.
Foi preciso descer até a pedra úmida
para ver que a água tem mais de uma história.
O galo aprendeu a pôr uma condição na voz,
a vaca, a fazer da pergunta um caminho,
o pombo, a pesar o que leva nas asas,
o jumento, a calar quando era hora de ouvir.
Quem se inclina na borda vê o rosto dos outros
misturado à lua, no fundo do escuro.
O poço devolve o que se pergunta:
como viver, se a vida muda toda vez que chove?
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem ainda consegue dizer, no meio da conversa, “eu não sei”.
Aprendendo a perguntar ao poço, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?