Fábula · Religião e Liberdade · Escrito CXLIV

CXLIV

O Reino dos Patos

Sobre uma família de patos selvagens que aceita o abrigo de uma fazenda, paga o preço da cerca e reconstrói, fora dela, o caminho de volta ao céu

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Aba I

Abertura, I a III · A chegada, a visita e o povo da lagoa

Aba II

IV a VI · O Fazendeiro que vê, o canto e a casca

Aba III

VII a X · A pedra, a Casa Grande, a fresta e o espelho

Aba IV

XI a XIII · A despedida, a muda e a interpretação

Havia quatro dias que o vento vinha de lado. O pato que guiava a formação sentia, a cada batida de asa, o puxão da agulha escondida atrás dos olhos. Ela nunca lhe tinha mentido, e apontava o sul como quem aponta uma mesa posta. Atrás dele, o ar assobiava nas penas de três corpos cansados. O menor já não batia as asas por ritmo, e sim por teimosia.

Embaixo, a terra escurecia em retalhos. Num deles algo brilhou, um disco de água cercado por um desenho reto demais para ser obra da natureza. Cheiro de grão. Cheiro de palha. Alguém cantava lá embaixo num tom que chamava.

O pato da frente hesitou no meio de uma batida. Foi essa hesitação, tão pequena, que a história inteira guardaria como seu começo.

I

A Chegada

Sobre quem eram os patos antes da cerca

Themba guiava o bando havia onze invernos. Aprendera a rota com a mãe, que a aprendera com a avó, que a recebera de um vento anterior a todas as memórias. Sabia ler a estrela que não se move, o cheiro da chuva atrás da serra, o jeito de um rio que está por secar. Conhecia a fome e não a tratava como inimiga, porque era professora: quem aprende onde o grão se esconde aprende também onde o mundo respira.

Voava ao lado de Nomvula, que dividia com ele as noites de vigia. Levavam os dois filhos: Zanele, de olhos atentos e perguntas demais, e Lwazi, o menor, que ainda confundia cansaço com medo.

Pousaram na água sem pressa e foram recebidos antes de terminarem de sacudir as penas. Um cisne imenso e branco deslizou até eles, o pescoço curvado em cortesia, a voz mansa de quem nunca precisou gritar.

“Sou Sipho. Fiquem à vontade, viajantes. Aqui ninguém passa fome.”

Nomvula sentiu os ombros afrouxarem pela primeira vez em quatro dias.

II

A Visita

Sobre a cerca que protege nos dois sentidos

Sipho os levou a todos os cantos. O celeiro cheirava a sol guardado. O curral das vacas soprava um bafo morno que fez Lwazi rir pela primeira vez na viagem. No galinheiro, as galinhas ciscavam em paz. Num canto do pomar, uma figueira derrubava frutos que ninguém precisava buscar.

Chegaram por fim à criação dos patos. Eram brancos, redondos, calmos. Tinham um tanque de pedras alisadas, abrigo de palha limpa e um comedouro sempre cheio. Ninguém ali tinha uma cicatriz.

Themba sentiu um incômodo que não soube nomear. Em toda a sua vida, jamais vira tantas criaturas juntas sem uma marca de luta ou de fome. Ao redor de tudo corria uma cerca baixa, de madeira clara, bem cuidada.

“É para o bem de vocês”, explicou Sipho, notando o olhar. “Por causa da raposa.”

Zanele reparou que a cerca valia nos dois sentidos. Guardou a observação para si, como guardava quase tudo.

Dormiram aquela noite na palha. Foi o sono mais fundo que tiveram em meses.

Ao amanhecer, a fazenda inteira parecia ensaiar uma festa. Os galos disputavam o horizonte, as vacas mugiam em contralto e uma multidão de passarinhos que ninguém convidara enchia as árvores de conversa. A luz descia dourada sobre o tanque. Quando Sipho se aproximou, a pergunta já estava em todos os rostos antes de ser feita.

“Fiquem. Há lugar para vocês. Aqui começa uma vida nova.”

Themba olhou para Nomvula, e Nomvula olhou para os filhos. Ninguém precisou pensar muito.

III

O Povo da Lagoa

Sobre o mito do povo escolhido e as bênçãos recebidas

Nas primeiras semanas, aprenderam a história de onde estavam. Os patos da lagoa a contavam com um orgulho sereno, sem arrogância aparente, como quem fala de uma herança.

No princípio, diziam, o Fazendeiro tomou um punhado de barro branco e moldou o Primeiro Pato com as próprias mãos. De todos os que voavam pelo mundo, só aquele fora escolhido para ter um lugar, um nome e uma finalidade. Os brancos descendiam dele. Eram o Povo da Lagoa.

Os outros, os que riscavam o céu em V, eram chamados de Soltos. Não era xingamento, ao menos no começo. Era diagnóstico: aves sem dono, sem sentido, sem amanhã garantido, que o vento carregava para onde quisesse.

Tudo o que a lagoa tinha era bênção. O milho vinha toda manhã. A raposa nunca entrava. O inverno, ali, não congelava o tanque, porque o Fazendeiro quebrava o gelo antes que o frio vencesse. Os patos agradeciam cada uma dessas coisas como prova de que eram amados, e nenhum perguntava quem construíra a cerca que mantinha a raposa do lado de fora.

O primeiro sinal de uma cerca é o conforto de quem ainda não percebeu de que lado dela está.

IV

O Fazendeiro Que Vê

Sobre o Deus que se importa com cada pena

Havia uma ideia que sustentava todas as outras. O Fazendeiro via cada pato. Sabia quantas penas cada um tinha, quem desperdiçara um grão, quem sonhara mal. Importava-se. Contava os dias de cada um como quem conta moedas que ama.

Nomvula chorou naquela noite, de puro alívio. Nunca ninguém lhe dissera que sua vida pesava para alguém. Na estrada, vivera sob o céu indiferente, e agora havia Alguém.

O que ela não percebeu, e levaria anos para perceber, é que a mesma frase que consola também vigia. Quem é visto a cada instante deixa de ter um canto de si onde possa errar sozinho.

Na primeira lua cheia, os recém-chegados participaram da Bênção das Asas. O Fazendeiro, com mãos largas e muito cuidado, aparou as penas mais longas de cada um. Dizia que era para que o vento não os levasse nas noites tristes. Não houve dor, só uma mansidão estranha. Themba pensou que era justo: quem tem um lar não precisa de asas compridas.

Zanele passou a noite olhando as próprias penas caídas na palha. Pareciam pequenas demais para terem sido tão importantes.

V

O Canto do Agradecimento

Sobre a gratidão desviada de quem a merece

Toda manhã soava um sino. A menina da casa, de pés descalços e baldes pesados, atravessava o quintal e espalhava o milho pelo chão. Os patos formavam fila, voltados para a Casa Grande, e grasnavam juntos o Canto do Agradecimento, que era dirigido ao Fazendeiro.

Na segunda semana, Zanele fez uma coisa que ninguém ali fazia havia gerações. Quando a menina passou, ela inclinou a cabeça para ela e grasnou baixinho, só um obrigado.

O Conselho dos Velhos reuniu-se naquela tarde. Bongani, o mais antigo, magro de tanto vigiar, chamou a pata à frente de todos.

“A mão é apenas instrumento. Quem agradece à mão ofende Aquele que a move.”

Zanele perguntou, com sinceridade, se ele não achava que o milho também passava por muitas outras coisas: a chuva, a terra, o trabalho de quem plantava. Bongani sorriu com pena.

“Tudo isso é distração. A gratidão não se parte em pedaços. Ou vai inteira ao Alto, ou se perde.”

Foi assim que, com o tempo, os patos pararam de agradecer uns aos outros. Para que agradecer ao vizinho que cedeu um canto da palha, se o canto também fora dado pelo Fazendeiro? A gratidão, que antes corria entre as criaturas como água entre raízes, foi sendo desviada toda para um único ponto, longe, para cima. O chão ao redor ficou seco, e ninguém notou.

Quando a gratidão só sobe, o chão de quem está perto vai secando sem aviso.

VI

A Casca

Sobre a moral policiada e o medo do diferente

As estações passaram. Os filhotes de Themba cresceram dentro da cerca. Lwazi já não perguntava pelo céu. O próprio Themba deixara de olhar as estrelas, porque a lâmpada do poste tornava a noite pálida e confusa. Quando o vento do sul cheirava a viagem, ele dizia a si mesmo que era só cansaço.

Nesse tempo foi aprendendo as regras da lagoa. Eram muitas, e todas pequenas.

Nadava-se apenas dentro do círculo de pedras. Ninho só se fazia dentro da linha de palha. Comia-se ao toque do sino, nunca antes. Quem violava uma regra era lembrado no coro da manhã, diante de todos, e a lembrança voltava a cada estação, como uma pedra que se joga sempre no mesmo lugar do rio.

As patas rolavam no pó de cal para ficarem tão brancas quanto o Primeiro. Havia uma de penas pintadas de castanho que nunca se branqueava direito. Diziam que a cor dela era erro dela, não do Fazendeiro, e ela vivia à margem do tanque. Dois patos que dividiam o mesmo ninho foram empurrados para o canto mais úmido da lagoa. O Fazendeiro vê, diziam, e o que Ele vê é repugnância. O Conselho decidia, e as patas escutavam do lado de fora, porque o ninho era delas, mas a palavra era dos machos.

Certa tarde pousou junto à cerca um ganso do norte, de passagem, cantando uma canção antiga para a lua. Os patos se juntaram para ouvi-lo, e logo para rir. Aquela era superstição de aves pobres, sem Fazendeiro, sem Livro. Alguém precisava ensiná-lo. Pior: alguém precisava salvá-lo.

A cada estação repetia-se o mesmo ritual. Os patos corriam até a cerca e, quando um bando passava no alto, gritavam para o céu.

“Venham! Estão perdidos! Há um lugar para vocês!”

Os bandos lá em cima ouviam apenas barulho, e seguiam em frente.

O mais curioso é que a maioria dos patos da lagoa era bondosa. Cuidavam dos doentes, dividiam a sombra, choravam nos enterros. Sipho nunca levantou a voz. Quando corrigia, sempre dizia as mesmas palavras, com os olhos úmidos: “É por amor”. E acreditava.

VII

A Pedra do Cocho

Sobre o livro que não admite pergunta

Perto do comedouro havia uma pedra chata, marcada por riscos fundos. Os patos diziam que eram palavras do Fazendeiro, e que nelas estava toda a verdade. Os velhos as interpretavam, e a interpretação valia mais que a pedra.

Zanele sabia seguir rastros desde pequena. Sentou-se diante da Pedra durante muitas manhãs, estudando cada sulco com o mesmo cuidado com que o pai lia a estrela.

Num risco, descobriu que o Fazendeiro amava todas as criaturas vivas. Dois sulcos adiante, que o milho pertencia só aos que cantavam. Um terceiro dizia que toda ave nascera para voar, e um quarto que do ovo da pata não nasceria asa de voo longo.

Perguntou a Bongani qual dos riscos valia.

“Todos. A Pedra não se contradiz. Seu olho é que é fraco.”

Ela insistiu, com delicadeza. Bongani deixou de sorrir.

“Perguntar é o primeiro passo para a fome.”

Naquela noite, Zanele ouviu os patos comentando que ela tinha olhos fracos. Passou a ser chamada assim, sem maldade explícita, apenas como quem descreve uma doença.

Quem proíbe a pergunta já desconfia de que a resposta não aguenta o olhar.

VIII

A Casa Grande

Sobre a promessa que desvaloriza o céu de agora

A promessa era o centro de tudo. Quem vivesse bem na lagoa, quem cantasse com fervor, quem não quebrasse as regras, seria conduzido, no Grande Dia, à Casa Grande. Lá, o fogo nunca se apagava, a mesa nunca esvaziava e o milho nunca acabava. O tempo da lagoa era apenas a antessala.

Essa ideia mudava a maneira de olhar tudo ao redor. A chuva, o amanhecer, a água fria numa manhã de outono, o cheiro da terra depois da tempestade, tudo isso virava passagem, coisa menor. Os patos olhavam o céu com desdém.

“O céu é para quem não tem Casa”, diziam.

A cada ano alguns eram escolhidos. Eram sempre os mais gordos, os mais obedientes, os que mais cantavam. O Fazendeiro vinha buscá-los com as próprias mãos, vestido com roupa limpa, e a lagoa inteira aplaudia. A fumaça subia da chaminé nessa noite com um cheiro que Lwazi, ainda pequeno, não conhecia, e que provocava em seu estômago uma fome que ele não entendia.

Ninguém voltava para contar.

IX

A Fresta

Sobre o dia em que uma conta foi feita

Foram oito invernos. No oitavo, o Grande Dia chegou como sempre, com o sino mais solene e a lagoa de penas arrumadas. Entre os escolhidos estava Bongani, o próprio Bongani, que ensinara a todos que aquele era o maior prêmio. Foi levado à porta com o peito estufado, e o último grasno de agradecimento dele ecoou pelo quintal.

A porta se fechou.

Zanele ficou diante dela até a noite. Esperou que ele voltasse para contar o que vira. Esperou depois que a lagoa dormiu e depois que a lâmpada do poste acendeu. Ninguém saiu.

Então, pela primeira vez, ela fez uma conta. Oito invernos, mais de quarenta patos levados, nenhuma notícia. O que sabiam da Casa Grande, afinal? Só o que os que ficavam diziam uns aos outros.

Foi nesse momento que um bando atravessou o céu escuro, bem alto. Ouvia-se o bater coletivo das asas, aquele som que ela havia esquecido. Ao seu lado, Themba levantou a cabeça.

A agulha atrás dos olhos dele, adormecida por oito anos, pulsou.

Ele não disse nada. Os filhos nunca tinham visto o pai em silêncio daquele jeito.

Foi a conta que a fé nunca deixou ninguém fazer: quantos entraram, quantos voltaram.

X

O Espelho da Lagoa

Sobre o nome que a gratidão carregava

Naquela madrugada começou a chover. Chuva grossa, daquelas que lavam tudo. Themba ficou sozinho na água, imóvel, e viu o pó de cal escorrer de seu pescoço, levado pela enxurrada. Sob a brancura emprestada, a cor voltou: um verde profundo, que ele não via havia tanto tempo que quase não o reconheceu no reflexo.

Nomvula veio ficar ao lado dele. Disse, olhando a água:

“Eu agradeci ao Fazendeiro todos os dias, por tudo. E nunca soube o nome da menina que me trouxe o grão.”

Lwazi, que já era um pato crescido, perguntou o que era o céu. Ninguém soube responder.

Foi então que ouviram o chamado vindo da casa, aquela voz de mulher cruzando o quintal:

“Siyabonga!”

A menina, que arrastava os baldes, levantou a cabeça. Uma galinha repetiu o grito. Zanele, de repente, arregalou os olhos. Aquela era a palavra do Canto do Agradecimento. Era a palavra que os patos cantavam todas as manhãs, a palavra cujo significado ninguém da lagoa sabia mais, herdada de um tempo remoto em que o primeiro pato aprendera o canto ouvindo a mãe da menina chamar a filha pelo nome.

Era o nome dela. A lagoa inteira, durante gerações, vinha agradecendo ao Alto uma palavra que significava nós agradecemos, e que era o nome da pessoa a quem sempre devera a gratidão. E ainda ensinara que ela era só uma mão.

Sipho apareceu entre as pedras, os olhos molhados. Compreendera sem que ninguém explicasse.

“Eu os recebi com amor”, disse. “Era amor, eu juro.”

“Eu sei”, respondeu Themba. “É isso que mais dói.”

XI

A Despedida do Que Foi Bênção

Sobre abrir mão do que também era amor

Decidiram partir. A decisão não veio num rompante. Foi se formando como uma água que sobe devagar numa raiz, e quando chegou à superfície já era certeza.

Ainda assim, abrir mão custou caro. Deixavam o milho garantido, a palha limpa, a promessa da Casa Grande, o conforto de pertencer a um povo especial. Deixavam também Sipho, que os chamou até o último instante, com uma ternura que nunca fora fingida.

A lagoa soube antes do amanhecer. Alguns patos ficaram em silêncio. Outros gritaram: ingratos, perdidos, sem Fazendeiro. Uma pata pequena, de penas castanhas, a mesma que sempre vivera à margem, foi a única que os acompanhou com os olhos até a cerca, sem dizer palavra, e Zanele nunca esqueceria aquele olhar.

“Lá fora tem raposa”, avisou alguém.

“Tem”, respondeu Zanele. “Sempre teve. Era o preço de estar no mundo.”

Saíram pela cerca numa noite sem lua, andando, porque as asas ainda não respondiam. O rio ficava depois do pasto, entre juncos altos, e foi lá que se esconderam.

XII

A Muda

Sobre reconstruir a fé fora da cerca

Os primeiros dias foram os mais difíceis. A fome voltou, não mais como professora, mas como um estranho que já não reconheciam. Lwazi chorou de noite, com saudade do milho. Nomvula também sentia falta de uma coisa pior do que o milho: a certeza de que alguém contava suas penas.

“Ninguém vai contar”, disse ela uma noite, sem amargura, apenas constatando. “Vamos ter que nos contar uns aos outros.”

Themba precisou reaprender a ler o céu. No começo as estrelas pareciam borradas, como se a lâmpada do poste ainda queimasse atrás dos olhos. Depois de semanas, a velha agulha foi se afinando. Ele reencontrou a constelação que nunca se move e chorou como filhote.

As penas aparadas só voltariam depois da muda. Havia semanas de espera, expostos, sem poder voar, atentos a cada ruído entre os juncos. Zanele e Lwazi cavavam o barro atrás de caracóis, bicavam raízes, aprendiam de novo onde o rio guardava seu alimento. Era trabalho duro, e era delicioso, porque cada grão achado lhes pertencia, num sentido que nenhum milho distribuído jamais lhes dera.

Foi nessa época que a fé deles mudou de endereço. Não sumiu. Deixou de ser dirigida a um Alguém distante que contava penas e passou a repousar no vento que vinha do sul, na estação que voltava, no bando que se refazia, no próprio corpo que reaprendia a ter fome e a saciá-la. Era uma fé menor em tamanho e muito maior em chão.

A fé que sobrevive à cerca é a que aprende a olhar para baixo e para os lados.

Certa tarde, Zanele viu a menina descer ao rio para lavar um balde. Ficou imóvel entre os juncos. A menina não a viu. Zanele esperou que ela se curvasse, e então grasnou baixo a velha palavra, desta vez para a pessoa que sempre fora o seu destinatário.

A menina ergueu a cabeça, procurou, não encontrou nada. Mas sorriu, como quem ouviu um bom dia sem saber de onde veio.

Na primavera, as penas novas cresceram longas e fortes. Os quatro subiram juntos num fim de tarde. O primeiro voo foi curto, trêmulo, mais queda que voo. O segundo foi melhor. No terceiro, Themba sentiu a agulha pulsar para o sul, e o bando inteiro virou com ele, sem hesitar.

Em algum lugar do mundo, outros povos desenharam um pássaro que voa para a frente com a cabeça virada para trás. Seu bico segura um ovo, o que ficou lá atrás e vale a pena levar. Assim voaram os quatro, olhando para trás só o necessário para buscar o que tinham deixado, e levando adiante o que valia.

XIII

A Interpretação

Sobre os que já disseram isto antes

Toda fábula tem uma pergunta escondida, e esta pergunta já foi feita muitas vezes, em muitas línguas, por gente que jamais se encontrou.

O sul-africano Steve Biko escreveu em 1971 que a arma mais potente do opressor é a mente do oprimido. Ele crescera dentro do cristianismo e, justamente por isso, defendia que uma pregação digna deveria ensinar que é pecado deixar-se oprimir, e não o contrário. Era isso que Bongani nunca ensinou aos patos.

O queniano Ngũgĩ wa Thiong'o viu que a dominação mais importante ocupa o universo mental dos dominados, o modo como se percebem e percebem o mundo. Notou também que essa dominação se faz por consentimento, sobretudo por meio de educação e religião. A cerca baixa de madeira clara era isso.

Em 1937, na Nova Escócia, Marcus Garvey discursou que outros podem libertar o corpo, mas só nós mesmos libertamos a mente. Foi essa sentença que décadas depois entrou numa canção de Bob Marley. Os patos que partiram descobriram o mesmo: ninguém abre a porta da mente por fora.

O ganês Kwasi Wiredu propôs uma “descolonização conceitual” e leu o Deus dos akan como um arquiteto, não um criador a partir do nada, um modo de revisar a própria tradição sem destruí-la. Há quem o critique, defendendo que é possível ser religioso e fundar a moral no cuidado humano. Essa ressalva importa para esta fábula: o alvo não é quem crê, é a servidão que se faz passar por fé.

Muito antes, o jovem francês Étienne de La Boétie perguntou por que povos inteiros aceitam um tirano que é um homem como os outros, e não um colosso invencível. A resposta dele: o costume, a manipulação dos poderosos, e a religião e os preconceitos como grandes auxiliares. Ele não pedia que se derrubasse o colosso. Pedia apenas que se deixasse de sustentá-lo.

O Buda, falando aos habitantes de Kesaputta, recomendou algo que ainda surpreende. Não creiam por ouvir dizer, por tradição, por escritura, nem porque o mestre é nosso. Pergunta-se, antes, o que as coisas produzem: quando vocês mesmos sabem que causam dano e sofrimento, abandonem. Essa passagem é conhecida como a carta budista da livre investigação. Zanele diante da Pedra do Cocho fazia exatamente isso.

E Paulo Freire ensinou que o oprimido, antes de se libertar, hospeda dentro de si o opressor. Por isso a libertação começa por dentro, pela consciência, e por isso dói.

A fé não é a vilã desta história. O vilão é a cerca que ela aprende a erguer quando esquece de perguntar a quem serve. Os patos que voltaram ao céu não perderam a fé. Mudaram o endereço dela, do alto distante para o chão que se pisa e as pessoas que se abraçam.

Há cercas que cantam baixinho
e chamam a prisão de lar.
Há asas que o cuidado apara
sem nunca deixar sangrar.

Mas a água, quando chove,
lava o cal do que se é,
e o verde volta ao pescoço
de quem aprende a ter fé

no vento, na estação, no bando,
na mão que dá sem cobrar,
e no céu, que nunca prometeu
nada além de ser lugar.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem já sentiu a agulha pulsar atrás dos olhos, e teve a coragem de escutar.

Ainda aprendendo o nome de quem espalha o milho, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

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