Tratado · Cidadania · Escrito CXLV

CXLV

O Que a Urna Não Decide

Um tratado sobre o que a eleição não decide: as estruturas de poder, os ciclos de decepção e a responsabilidade de cada um, com exemplos de sociedades vencidas que voltaram, em quatro continentes

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Aba I

Abertura, I e II · O país partido ao meio, e Raymundo Faoro

Aba II

III e IV · Norbert Elias, e Ibn Khaldun com Albert Hirschman

Aba III

V e VI · As derrotas que tinham razão, e Olson com Ostrom

Aba IV

VII a IX · Ashoka, Milton Santos e a síntese

A fila dobrava os corredores no local de votação, e quem estava no meio dela já tinha desistido de calcular a hora. Era domingo, fazia sol desde cedo, e o pátio cheirava a café requentado de garrafa térmica. À frente, uma mulher segurava o título de eleitor dobrado em quatro, do jeito que se segura um bilhete de ônibus que não se quer perder. Atrás dela, um homem de camisa verde abanava o rosto com a carteira de identidade. Dois lugares adiante, outro, de camisa vermelha, reclamava que não tinha bebedouro.

Ninguém falou de voto. Falaram do calor, de um primo que mudou de cidade, de quanto tempo aquilo ia levar. O de verde emprestou a caneta ao de vermelho, que precisava assinar alguma coisa e tinha esquecido a sua. A mulher da frente comentou baixinho que a cadeira do mesário era pior que a da repartição onde trabalhou trinta anos, e os dois riram, cada um do seu jeito.

O bipe longo da urna atravessou a porta da sala, e a fila inteira ergueu a cabeça ao mesmo tempo, como se faz na igreja quando o sino bate fora de hora. Depois voltaram ao calor.

Quando a mulher saiu, segurou a porta para quem vinha atrás. Segurou até o homem de verde passar, e só então soltou.

I

O País Partido ao Meio

Sobre o primeiro turno de 2026, o método e a hipótese do ressentimento

Na noite de 4 de outubro de 2026, com todas as urnas apuradas, Flávio Bolsonaro, do PL, tinha 47,03% dos votos e Lula, do PT, 45,16%. A diferença, de menos de dois pontos percentuais, mandou os dois para o segundo turno, marcado para 25 de outubro. Este texto foi escrito entre as duas datas e foi pensado para continuar de pé seja qual for o resultado da segunda.

O mapa da votação conta mais que o número total. Lula teve 62,94% no Nordeste, contra 31,64% de Flávio. No Sul foi o inverso: Flávio com 60,73%, Lula com 30,66%. No Norte e no Centro-Oeste, Flávio passou dos 57%. No Sudeste ficou à frente por 51,99% a 39,67%. O mesmo país produziu duas maiorias regionais quase simétricas, e a soma delas deu um empate.

Há quem leia esse resultado como cegueira coletiva. A palavra pressupõe que só uma das metades enxerga. Uma descrição mais honesta é miopia compartilhada: cada campo vê com nitidez o defeito do outro e com desfoque o próprio.

Antes de qualquer análise, convém fixar três regras de método, porque sem elas um texto sociológico vira panfleto com notas de rodapé. A primeira é a régua única: toda pergunta feita a um campo precisa ser feita ao outro. A segunda é descrever comportamentos e posições, nunca rótulos, porque palavras como “ultra” e “extremo” dizem mais sobre quem fala do que sobre quem é descrito. A terceira é testar a hipótese que mais agrada a quem escreve, e não apenas as que desagradam.

Uma hipótese muito difundida diz que o voto foi de ressentimento, empurrado por lideranças evangélicas e dirigido contra o PT. Os dados ajudam e atrapalham. Nas pesquisas anteriores ao primeiro turno, Flávio aparecia com cerca de metade das intenções entre evangélicos, e Lula com perto de um quarto. Entre católicos, Lula ficava na frente com folga. Mas pesquisadores que ouviram evangélicos de perto insistem que não existe um voto evangélico unificado, e a vantagem de Flávio nesse grupo oscilou bastante ao longo do ano. No Ceará, os levantamentos de março mostravam Lula na frente em quase todos os recortes e atrás apenas entre evangélicos. A religião pesa, mas não explica sozinha.

Outro dado desfaz a ideia de que o país escolheu “contra o sistema” em bloco. Em abril, o Datafolha registrava que 48% dos eleitores não votariam em Lula de jeito nenhum, e 46% diziam o mesmo de Flávio. Quase metade do país rejeitava cada um dos dois que chegaram ao segundo turno. Isso descreve um eleitorado encurralado entre duas recusas, mais do que um eleitorado entusiasmado com uma saída. Parte do voto é adesão, parte é fuga, e as duas se misturam na mesma urna.

Antes de perguntar em quem o vizinho votou, vale perguntar do que ele tem medo. O voto costuma ser a parte mais visível de uma resposta.

II

Quem É o Sistema

Sobre Raymundo Faoro, o estamento e o patrimonialismo

Dizer que o eleitor votou contra o sistema exige dizer antes qual sistema. A resposta mais incômoda a essa pergunta, no pensamento brasileiro, vem de Raymundo Faoro, advogado gaúcho nascido em Vacaria em 1925, que publicou em 1958 Os Donos do Poder. Com o aparato conceitual de Max Weber, Faoro sustentou que o Estado brasileiro, desde a herança portuguesa, é governado por uma camada que ele chamou de estamento burocrático: um grupo que ocupa a máquina pública, define os próprios privilégios e trata o Estado como patrimônio, não como serviço. O nome técnico dessa lógica é patrimonialismo.

O ponto de Faoro que interessa aqui é que o estamento não tem partido. Muda o governo, mudam os nomes nos gabinetes, e o desenho do poder sobrevive: os ministérios, os cargos, as carreiras que se protegem, os fundos que irrigam as legendas, a ponte entre dinheiro privado e decisão pública. Governos de campos opostos governaram com a mesma máquina, e cada um costuma achar que a sua parte nela é inocente. Quem vota contra o sistema tem, portanto, um alvo difuso e pode errar de endereço.

Vale registrar o limite dessa leitura. Há quem aponte que a tese tende a comprimir séculos num único vício e deixa pouco espaço para as conquistas coletivas reais do país. O próprio Faoro teve atuação destacada na luta pela democracia no fim da ditadura militar, o que sugere que ele enxergava no mesmo Brasil um potencial que a teoria geral não captura.

Aplicando a régua única: onde estão as engrenagens desse estamento hoje? Nos partidos de todas as cores que dividem fundos públicos. Nos tribunais e nas corporações que se protegem. Nas igrejas de várias denominações que negociam espaço junto ao poder. Nos grandes veículos de comunicação, nas associações de empresários e nos sindicatos que sabem cobrar. Não proponho culpar ninguém por nome. Proponho observar que um eleitorado tão dividido tem em comum uma desconfiança que merece ser levada a sério: a de que quem decide não presta contas a quem paga. Essa desconfiança é anterior a qualquer eleição e vai sobreviver a esta.

O erro mais comum é imaginar que trocar quem ocupa a cadeira troca o desenho da cadeira. A urna escolhe ocupantes. O desenho muda por outros caminhos, mais lentos, que o resto deste texto procura mapear.

Quem aponta o dedo para o sistema costuma esquecer que ele também é feito das escolhas pequenas de cada dia, as suas incluídas.

III

Ressentimento, de Quem?

Sobre Norbert Elias, os estabelecidos e os outsiders

Nos anos 1950, numa cidadezinha inglesa perto de Leicester, que o livro batizou de Winston Parva, o sociólogo Norbert Elias e o professor local John Scotson estudaram um bairro operário dividido em dois grupos. Os dois tinham renda parecida, trabalho parecido, religião parecida. A única diferença relevante era o tempo de moradia: um grupo estava ali havia gerações, o outro tinha chegado, no máximo, fazia vinte anos. O livro, Os Estabelecidos e os Outsiders, saiu em 1965 e mostra o que acontece a partir desse detalhe pequeno.

Os moradores antigos monopolizaram os espaços de poder local, como as associações e os clubes. Passaram a se descrever como gente melhor, mais decente, e os recém-chegados como gente desordeira, mesmo quando os fatos não sustentavam isso. O instrumento era menos a lei que a fofoca. Histórias sobre as piores famílias do outro grupo circulavam como retrato de todos, enquanto os melhores momentos do próprio grupo eram tomados como retrato de todos os seus. Elias descreveu a imagem de “nós” e a imagem de “eles”, e notou que os excluídos acabavam, em parte, aceitando a imagem imposta.

Troque a fofoca de quintal pelos grupos de mensagens e a lógica reaparece idêntica. Cada campo conhece de cor os cinco piores episódios do outro e as cinco melhores obras do seu. Cada um atribui ao adversário a pior intenção possível e a si mesmo a melhor. E cada um se sente, ao mesmo tempo, o estabelecido que defende a casa e o outsider que ninguém escuta. Quem se enxerga só como vítima se dispensa de perguntar o que anda fazendo com o poder que tem.

É nessa chave que o ressentimento precisa ser examinado. Há quem vote contra o PT movido por uma mágoa antiga, feita de preços altos, de insegurança, de cansaço com escândalos, de costumes que sente desrespeitados. Há também quem vote contra o outro lado movido por mágoa simétrica: a de ver conquistas sociais ameaçadas, a de se sentir tratado como ignorante pelo adversário. Nos dois casos o mecanismo é o de Winston Parva, a sensação de que o outro grupo usufrui de um lugar que não merece. O ressentimento é um sentimento humano comum, e atribuí-lo apenas ao lado de que não gostamos é, ele próprio, uma forma de ressentimento.

Antes de listar os erros do outro lado, experimente listar os acertos dele. É um exercício de aritmética honesta.

IV

A Roda dos Ciclos

Sobre Ibn Khaldun e Albert Hirschman

Há quem diga que trocar de governo de tempos em tempos é saudável, e é, sob uma condição que quase ninguém menciona. Ibn Khaldun, historiador nascido em Túnis em 1332, escreveu no século XIV talvez a primeira teoria sociológica da alternância de poder. O centro dela é uma palavra árabe, asabiyya, que se traduz mais ou menos como sentimento de grupo: o laço que faz um povo agir junto, ceder junto, sacrificar-se junto. Esse laço, observou ele, é mais forte nos começos, quando o grupo é pobre e ameaçado, e se desgasta à medida que a vida fica confortável. Chegam o luxo, os privilégios herdados, a distância entre quem governa e quem é governado. Uma dinastia, dizia, raramente passa de três gerações de uns quarenta anos. Ao fim delas, outro grupo, de laço mais forte, ocupa o lugar.

Dois detalhes importam. Primeiro, para Ibn Khaldun a queda não vem de um vilão. Vem de dentro, do próprio êxito. Segundo, o ciclo dele é de dinastias, não de partidos, mas a lição atravessa os séculos: o que decide se uma alternância renova ou destrói é quanta coesão resta no corpo social quando o poder muda de mãos. Se há muita, a troca é um respiro. Se há pouca, é uma disputa por espólio.

Seis séculos depois, o economista Albert Hirschman, nascido em Berlim, procurou o motor psicológico de um ciclo parecido. Em Shifting Involvements, de 1982, perguntou por que as sociedades oscilam entre períodos de grande interesse pelos assuntos públicos e períodos de recolhimento na vida privada. A resposta dele é a decepção. Quem busca felicidade no consumo e na vida particular acaba frustrado, porque os bens prometem mais do que entregam, e se volta para a ação pública. Mas a ação pública também decepciona: poucos se esgotam de tanto compromisso e muitos se afastam por falta de participação. O recuo para o privado reinicia a roda.

Lidas lado a lado, as duas teorias deixam uma conclusão desconfortável para qualquer campo. A onda que leva um grupo ao poder é feita, em parte, da decepção com o grupo anterior, e a decepção com o grupo atual já está sendo fabricada. Ninguém é dono da onda. Os dois lados deste empate foram, em outros ciclos, a decepção um do outro.

A tese de que os ciclos são necessários procede, portanto, mas com ressalva. Ela vale quando as regras que organizam a troca sobrevivem a quem as perde: a imprensa livre, a justiça independente, o voto secreto, a contagem confiável. Hirschman deixou ainda outra ferramenta, num livro de 1970. Diante de uma organização que decepciona, o cidadão pode sair ou pode reclamar de dentro. A saída, na política, tem nomes conhecidos: a abstenção, o voto nulo, o desprezo por tudo que é público. A voz dá trabalho, mas é a única que muda alguma coisa. Um país que escolhe a saída em massa deixa a roda girar sem ninguém para guiá-la.

Cansaço com a política não é tolice. Muitas vezes é o aviso de que as promessas ficaram maiores que as entregas.

V

As Derrotas Que Tinham Razão

Sobre Chile, Brasil, Polônia e Grécia: quando a escolha certa foi vencida pelo sistema

Existe um tipo de história que a roda dos ciclos não explica sozinha: a da sociedade que escolheu o que considerava certo e foi vencida mesmo assim. Aqui o sistema deixa de ser abstração e ganha nome, hora e meio de ação. Vale olhar quatro casos, de países e épocas diferentes, com uma regra de honestidade: em nenhum deles o lado que tinha razão estava livre de erro, e em nenhum o sistema era só vilão.

Em setembro de 1973, um golpe militar derrubou no Chile o governo socialista de Salvador Allende, eleito pelo voto. Pesaram nele a pressão externa, que incluiu o que se chamou de bloqueio invisível dos Estados Unidos, e também a economia conduzida pelo próprio governo, com inflação acima de 286% ao ano quando ele caiu. Historiadores discordam sobre o peso de cada fator. Ninguém discute o que veio depois: dezessete anos de ditadura. Em 5 de outubro de 1988, num plebiscito que o regime convocara, 55,99% dos chilenos votaram não à continuação de Pinochet, contra 44,01% do sim. A campanha do não evitou o caminho óbvio, que seria atacar o ditador, e apostou numa alegria que dizia aos eleitores que o futuro lhes pertencia. A vitória não zerou o passado, e Pinochet continuou comandando o Exército até 1998. Ainda assim, o sistema que parecia definitivo em 1973 foi vencido quinze anos depois na mesma urna que pretendia controlar.

No Brasil, a derrota mais lembrada é a de 25 de abril de 1984. Depois de um ano de comícios, que chegaram a um milhão de pessoas no Rio e a um milhão e meio em São Paulo, a Câmara votou a emenda que devolvia ao país a eleição direta para presidente. Foram 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções, e faltaram 22 votos para os dois terços exigidos. Mais de cem deputados nem apareceram, e essas ausências pesaram tanto quanto os votos contrários. Os relatos da época falam em luto coletivo. O sistema ali não precisou de tanques, bastou um quórum. E a derrota não foi o fim da história. O presidente de 1985 foi escolhido de forma indireta, mas a transição já corria, e quatro anos depois o país tinha uma nova Constituição e, em 1989, votava diretamente para presidente com 22 candidatos na disputa. O movimento perdeu a votação e ganhou o rumo.

Na Polônia, o Solidariedade nasceu em 1980 nos estaleiros de Gdańsk e chegou a reunir cerca de 10 milhões de filiados, algo como um quarto da população. Em 13 de dezembro de 1981, o governo decretou lei marcial para esmagá-lo, e o sindicato passou à clandestinidade. O sistema parecia ter vencido. Mas a economia seguiu em crise e, em 1989, depois de uma mesa de negociação que durou de fevereiro a abril, houve eleições parcialmente livres. Em 4 de junho, os candidatos do Solidariedade ganharam 99 das 100 cadeiras do Senado e todas as 161 que a lei permitia à oposição disputar na câmara baixa. A vitória ensina também o outro lado do ciclo. Sem o inimigo comum, que unia tudo, o movimento se rachou em poucos meses, e a política polonesa seguiu dividida. Ganhar uma rodada não encerra a política.

A Grécia de 2015 é o caso mais ambíguo, e por isso o mais honesto. Em 5 de julho, 61,3% dos gregos disseram não, num referendo, às condições que os credores propunham em troca de novos empréstimos. O governo festejou. Mas os bancos estavam fechados desde o fim de junho, com saques limitados a algumas dezenas de euros por dia, e o Banco Central Europeu havia congelado a liquidez. Em 13 de julho, o primeiro-ministro assinou um acordo que levou ao terceiro memorando, mais duro, segundo vários relatos, do que o rejeitado dias antes. Há quem culpe a pressão dos credores, e há quem culpe a aposta do governo e a pergunta ambígua do referendo, que muitos europeus leram como um sim ou não ao euro. Os dois lados têm parte da razão. O caso mostra que o voto pode ser claro e o espaço para executá-lo, estreito, e que ter razão sobre o que se quer não equivale a ter um plano para o que vem depois.

Os quatro casos têm um desenho em comum. O sistema venceu com ferramentas diferentes: a força armada no Chile, o quórum no Brasil, a lei marcial na Polônia, a liquidez bancária na Grécia. Em três deles a sociedade voltou, e não por milagre. Voltou porque manteve a pergunta viva, organizou-se, escolheu campanhas que convidavam em vez de ameaçar e negociou quando foi preciso. No quarto, o desfecho ainda é discutido. Nenhum caso autoriza a ideia de que quem tem razão acaba vencendo. Autorizam algo mais modesto: quem tem razão e permanece organizado costuma ter outra rodada.

Perder com razão é uma dor específica. Ela só vira força quando alguém decide continuar organizando o que a derrota desorganizou.

VI

O Carona e o Comum

Sobre Mancur Olson e Elinor Ostrom

O economista Mancur Olson fez, em 1965, uma pergunta que parece boba e não é: por que grupos grandes, com interesses comuns, tantas vezes não agem em conjunto? Em A Lógica da Ação Coletiva, ele argumenta que numa multidão cada indivíduo sente que a sua contribuição é pequena demais para fazer diferença, e que o benefício, se vier, chegará a todos de qualquer jeito, inclusive a quem não contribuiu. Nasce o carona, aquele que usufrui do bem comum sem pagar o custo de produzi-lo. Sem incentivos seletivos que recompensem quem participa, grandes grupos tendem a falhar. E há uma consequência política que Olson deixou escrita e costuma passar despercebida: pequenos grupos organizados, unidos por benefícios concentrados, podem dominar maiorias que se mantêm difusas.

Isso reordena a conversa sobre quem quer usufruir do sistema sem compromisso coletivo. O carona não tem partido. Há carona na empresa que sonega e no sindicato que protege privilégio, no eleitor que reclama de tudo e não vota, no servidor que se acomoda, no fiel que cobra da igreja sem servir à vizinhança, no militante que só participa quando o ganho é pessoal. E há, nas minorias organizadas que Olson descreveu, um poder desproporcional sobre a agenda pública. Culpar um campo por esse comportamento é trocar sociologia por torcida.

A resposta mais fecunda a Olson veio de uma cientista política que não era economista de formação. Elinor Ostrom passou décadas estudando comunidades que dividem recursos escassos, como águas, florestas e pastos, e mostrou que muitas delas, contra a previsão pessimista, se autorregulam e duram séculos. Recebeu o Nobel de Economia em 2009. Entre os casos que estudou está o Tribunal das Águas de Valência, onde toda quinta-feira, diante da porta da catedral, nove representantes dos irrigantes, de capa preta, julgam as disputas da semana, numa prática que vem da Idade Média e talvez seja a justiça mais antiga ainda em funcionamento na Europa. Outro é a aldeia suíça de Törbel, nos Alpes, que ela visitou nos anos 1980 para entender como seus pastos comuns se mantinham.

De centenas de casos, Ostrom extraiu oito princípios de desenho que se repetem nos arranjos bem-sucedidos. Dois bastam para o argumento: quem fiscaliza responde perante os usuários, e os conflitos se resolvem por mecanismos baratos e rápidos. Os casos de sucesso não têm todos os princípios, mas costumam ter a maioria. Ela dizia, em resumo, que as pessoas não são nem inteiramente anjos nem inteiramente demônios. Respondem ao desenho das regras.

Se o carona é uma tentação estrutural, o remédio também é estrutural: regras feitas por quem as cumpre, fiscalização que presta contas, punições graduais, justiça acessível. Nada disso depende de quem ganhou a eleição, e quase tudo pode começar em escala de condomínio, de associação de moradores, de conselho escolar. O comum não espera o governo.

Todo condomínio é um laboratório de democracia. Quem aprende a resolver ali uma disputa por vaga de garagem já treina para disputas maiores.

VII

A Concórdia como Política

Sobre Ashoka e o décimo segundo édito

No século III antes de Cristo, o imperador indiano Ashoka mandou gravar em rochas e pilares, por todo o território que governava, editos dirigidos aos seus súditos. Um deles, o décimo segundo dos grandes editos de rocha, trata de um problema que parece escrito para este domingo. Ashoka honra todas as seitas, tanto os ascetas quanto os que vivem em casa, e pede que ninguém elogie a própria seita nem critique a alheia senão por razões específicas e com moderação. O argumento dele é prático. Quem desqualifica outras crenças por devoção exagerada à sua prejudica a própria seita, porque a rebaixa diante dos outros. A concórdia, concluía, é o que merece louvor, e concórdia quer dizer ouvir com boa vontade o que os outros consideram sagrado. Para dar corpo à ideia, criou funcionários encarregados de cuidar de todos os grupos religiosos, sem exceção.

O contexto importa. Ashoka escrevia depois da guerra de Kalinga, cuja devastação, ele próprio admite em outro edito, pesou na sua consciência. Falava como alguém que tinha visto de perto o preço de uma certeza imposta pela força.

Há uma lição direta para um país em que a religião virou fator eleitoral, e ela vale para os dois lados da mesa. Líderes religiosos que misturam púlpito e palanque, sejam pastores ou padres, deveriam ouvir Ashoka. Mas quem despreza o crente como ignorante também deveria, porque a certeza secular de ser o lado esclarecido repete o mesmo desvio com sinal trocado. A régua única precisa ser rigorosa neste ponto: respeitar a fé sincera de milhões de brasileiros não obriga ninguém a aceitar o uso político dela, e criticar esse uso não obriga ninguém a desprezar a fé. O edito pede só que a crítica seja específica, moderada e, antes de tudo, informada sobre o que o outro realmente crê.

Discordar com precisão é uma forma de respeito. Quem erra a descrição do outro já perdeu a conversa antes de começar.

VIII

O Que se Faz Depois da Fila

Sobre Milton Santos, a Pastoral da Criança e as enchentes do Rio Grande do Sul

Milton Santos, geógrafo baiano nascido em 1926, passou a vida estudando como o espaço e o poder se entrelaçam. No livro Por uma Outra Globalização, de 2000, ele organizou a leitura do mundo em três. A globalização como fábula é a versão oficial de um progresso inevitável e para todos. A globalização como perversidade é a vivida pela maioria, com desigualdade, desemprego e pobreza. A globalização como possibilidade é a que poderia nascer das contradições da segunda. Sua tese central é que a globalização atual não é irreversível e que a semente de outra pode brotar entre os pobres, que, vivendo a escassez, desenvolvem uma racionalidade própria, mais ligada ao lugar e à solidariedade que à competição pura. Em outros trabalhos, falou de uma cidadania mutilada: a do brasileiro que tem direitos no papel e não os alcança no dia a dia. A esperança dele é política e concreta. Nasce de baixo, em cada lugar, no trabalho de quem precisa cooperar para sobreviver.

O Brasil tem exemplos documentados dessa semente, e dois deles passam por cima de qualquer divisão partidária. O primeiro é a Pastoral da Criança. Em 1983, a pedido da Conferência dos Bispos, a pediatra Zilda Arns montou uma rede de líderes comunitárias voluntárias que ensinavam as mães a preparar o soro caseiro e a acompanhar o peso das crianças. Nos lugares onde o trabalho começou, a mortalidade infantil chegava a 127 mortes por mil nascidos vivos, e os números da própria Pastoral apontavam, entre as crianças acompanhadas, índices bem abaixo de vinte. A obra de uma igreja virou política pública de fato, sem esperar governo nenhum. Zilda Arns foi indicada três vezes ao Nobel da Paz.

O segundo exemplo é recente. Nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, mais de 340 municípios foram afetados e mais de meio milhão de pessoas ficaram desalojadas. Antes que o poder público alcançasse todos os pontos, moradores com barcos, canoas e jet skis, chegados de vários estados, resgataram milhares de pessoas, e em poucos dias a imprensa já contava mais de vinte mil. Logo a discussão sobre quem merecia o crédito da solidariedade entrou na pauta política. É a prova de que nenhum campo tem o monopólio de cuidar do outro. O cuidado, quando acontece, vem antes da discussão sobre ele.

A solidariedade que aparece na calamidade já existia antes dela. A tragédia só tirou o pano de cima.

IX

Possibilismo

Sobre a responsabilidade de cada um depois do voto

Voltemos à fila. Ela se desfaz no fim da tarde. O voto de cada um fica guardado numa urna que ninguém abre, e o que sobra é a vizinhança: o homem de verde e o de vermelho continuam morando a três quarteirões um do outro. A urna decide quem ocupa o cargo por quatro anos. Não decide se esses dois vão dividir um bebedouro, se o conselho da escola funciona, se o síndico presta contas, se o vizinho idoso toma o remédio na hora.

Hirschman deixou, para momentos assim, uma disposição de espírito a que deu o nome de possibilismo. Não é otimismo, e ele desconfiava de quem previa o melhor com facilidade. É a atenção treinada para descobrir caminhos, ainda que estreitos, que levam a resultados que o cálculo das probabilidades dava como fechados. A história, dizia, é cheia de desvios improváveis. Ele mesmo, nascido em Berlim em 1915, teve de deixar a Alemanha ainda adolescente e passou a vida enxergando saídas onde outros viam muro. Um país partido ao meio tem, por definição, caminhos estreitos. Eles existem.

E o que cabe a cada um? Václav Havel, dramaturgo tcheco, escreveu em 1978 um ensaio sobre o poder dos que parecem não ter nenhum. Seu personagem era um verdureiro que pendurava na vitrine, entre as cebolas, um cartaz com a palavra de ordem do regime, não por acreditar nela, mas por medo de parecer desleal. Havel notou que o regime dependia daquele cartaz e de milhões iguais a ele, porque a mentira só sustenta o sistema se for universal. No dia em que o verdureiro retira o cartaz, mostra que a imagem é de papel. A responsabilidade individual, nessa leitura, começa em coisas pequenas e visíveis: cada um decide o que pendura na própria vitrine.

Na vitrine de cada eleitor, hoje, há cartazes. Alguns dizem que o outro lado é irrecuperável. Outros dizem que a solução virá de cima, de um nome, de um partido, de uma data. Retirar esses cartazes não exige renunciar a nenhuma convicção política. Exige trocar a pergunta “quem vai nos salvar” por “o que posso fazer a três quarteirões de casa”.

O percurso, em resumo, é este. A urna escolhe ocupantes, e o desenho do poder que Faoro descreveu muda por outros caminhos. O ressentimento é um sentimento comum que cada campo atribui só ao outro. Os ciclos são necessários e só renovam quando as regras sobrevivem a quem perde. Houve sociedades que acertaram e foram vencidas, e as que voltaram o fizeram permanecendo organizadas e convidando em vez de ameaçar. O carona é uma tentação de todos, e a resposta é institucional e local. A concórdia, como mostrou Ashoka, protege a própria crença. E a esperança, em Milton Santos, nasce de baixo. O que a urna não decide é o que cada um faz na manhã seguinte.

Não é preciso mudar de opinião para mudar de gesto. Basta decidir que o outro continua sendo gente.

Depois da fila, a calçada,
depois do voto, o vizinho.
A urna escolhe quem manda,
o bairro escolhe o caminho.

Há ciclos que giram sozinhos
e ciclos que alguém conduz.
A decepção, mal usada, é treva,
bem usada, vira luz.

Retire do vidro o cartaz,
providencie o bebedouro que falta.
Quem cuida do que é de todos
não espera por mandato.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem antes de digitar o número, já compreendeu a responsabilidade que é viver entre tantos diferentes.

Ainda aprendendo a conviver com quem pensa diferente, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura, I e II · O país partido ao meio, e Raymundo Faoro
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