Ensaio · Tempo · Escrito LXV
As Experiências que os Livros Contam
Sobre a cultura do presente que, por falta de leitura, não se conecta com os sentimentos do passado
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I
O regime do presente eterno
II
Os ciclos que já se repetiram
Todo sebo tem o mesmo cheiro, não importa a cidade. Cola envelhecida, papel que amarelou devagar durante décadas, uma poeira fina que já não sai por mais que se bata a lombada contra a mesa. É um cheiro que nenhum livro novo tem, porque nenhum livro novo teve tempo de acumular tanta coisa: o suor de quem leu no ônibus, a umidade de uma estante mal ventilada, o sol que bateu de esguelha numa prateleira por anos seguidos. Quando você compra uma edição amarelada num sebo, não está comprando só o texto. Está comprando a prova física de que outra pessoa segurou aquele mesmo volume antes de você, provavelmente com um sentimento parecido com o seu.
É essa prova que está desaparecendo da vida de quem só lê feed e notícia.
I
O regime do presente eterno
Sobre François Hartog e o conceito de presentismo
O historiador francês François Hartog dedicou boa parte de sua obra a estudar como cada época organiza sua relação com o tempo, o que ele chama de regime de historicidade. Em Regimes de Historicidade, publicado em 2003, Hartog descreve o regime que domina o presente como presentismo: um tempo em que o presente deixou de ser um ponto de passagem entre um passado que ensina e um futuro que se planeja, e passou a ser a única categoria disponível para pensar qualquer coisa. O passado vira nostalgia decorativa. O futuro vira ansiedade genérica. Só o agora tem peso real.
Viver só de notícia e feed é a forma mais eficiente já inventada de produzir esse regime dentro de uma única cabeça. A notícia não tem profundidade histórica por definição: existe para relatar o que está acontecendo agora, comparado quando muito com o que aconteceu ontem. O feed é pior ainda, porque nem sequer organiza por data. Empilha o presente sobre o presente, sem hierarquia temporal nenhuma, até que a sensação de estar vivendo o momento mais grave da história vire crônica, permanente, um pano de fundo emocional que nunca se dissolve porque nunca é confrontado com nenhuma referência anterior de verdade.
O presente sem comparação sempre parece o mais grave de todos, porque é o único que você tem em mãos para comparar com alguma coisa.
O sebo é o contrário exato disso. Cada livro amarelado ali dentro carrega uma data escondida na composição química do papel, no tipo de encadernação, às vezes numa dedicatória apagada na primeira página. Abrir um desses livros é entrar em contato físico com um tempo que não é o seu, e que insiste, só de existir, em lembrar que o seu tempo não é o único que já existiu.
II
A brisa dos séculos
Sobre C.S. Lewis, o esnobismo cronológico, e Confúcio
O escritor britânico C.S. Lewis, antes de se tornar um dos ensaístas mais lidos do século vinte, precisou superar um obstáculo que ele próprio batizou de esnobismo cronológico: a aceitação automática de que o clima intelectual da própria época é superior ao de qualquer época anterior, e de que qualquer ideia que saiu de moda foi, por isso mesmo, desmentida. Foi um amigo, Owen Barfield, quem o forçou a perceber o erro embutido nessa lógica. Uma ideia sair de moda não prova que ela era falsa. Prova apenas que ela deixou de ser conveniente para o gosto de uma geração específica.
Lewis chegou a uma conclusão incômoda: a própria época também é, ela mesma, apenas um período entre outros, com suas próprias ilusões características, as mesmas ilusões que parecem invisíveis justamente por serem tão compartilhadas que ninguém sente necessidade de defendê-las. E deu um remédio prático para esse problema, simples o bastante para caber numa frase: deixar o vento limpo dos séculos atravessar a mente, lendo pelo menos um livro antigo para cada livro novo que se lê.
O filósofo chinês Confúcio, nos Analectos compilados por seus discípulos entre os séculos seis e cinco antes de Cristo, resumiu essa mesma ideia numa fórmula que atravessou dois mil e quinhentos anos sem perder força: revisitar o antigo é o caminho para compreender o novo com clareza. Não se trata de nostalgia, nem de romantizar o passado como se ali tudo fosse melhor. Trata-se de reconhecer que o novo só é de fato compreendido por quem tem, para comparar, alguma coisa que não é novo.
III
Os ciclos que já se repetiram
Sobre Ibn Khaldun e Marilena Chauí
No norte da África do século quatorze, num período de instabilidade profunda que atravessava a região do Magrebe e a Península Ibérica, o historiador tunisiano Ibn Khaldun escreveu a Muqaddimah, obra que o historiador britânico Arnold Toynbee chegaria a chamar, séculos depois, de a maior obra do gênero já produzida por qualquer mente em qualquer lugar. Ibn Khaldun observou algo que soa banal quando resumido e é devastador quando levado a sério: sociedades sobem e caem em ciclos previsíveis, movidos pela força ou pelo enfraquecimento daquilo que ele chamava de asabiyyah, a coesão de grupo que sustenta qualquer civilização de pé.
Nenhuma crise de coesão social, nenhuma sensação de que tudo está se desfazendo, é a primeira da história humana segundo esse diagnóstico. É, quando muito, mais uma repetição de um padrão que Ibn Khaldun já tinha catalogado no século quatorze, olhando para impérios que já tinham subido e caído dezenas de vezes antes dele nascer.
No Brasil, a filósofa Marilena Chauí, professora titular de filosofia na Universidade de São Paulo, descreve em Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária um mecanismo parecido em escala nacional: a sociedade brasileira repete, geração após geração, o mesmo mito fundador sem nunca processar de fato a própria história, como se cada nova crise fosse sempre a estreia absoluta de alguma coisa nunca vista, e não mais uma volta do mesmo problema estrutural que já apareceu, com outra roupa, dezenas de vezes antes.
Uma sociedade sem memória histórica trata toda crise como inédita, porque nunca guardou registro de que aquela mesma crise já bateu antes na porta.
É exatamente esse tipo de amnésia que a leitura antiga interrompe. Um livro escrito há séculos sobre uma crise de coesão social não é uma curiosidade histórica sem uso prático. É um espelho retrovisor que mostra que a estrada já teve essa curva antes, e que existe registro de como ela foi ou não foi atravessada.
IV
A companhia através dos séculos
Sobre o que fica quando o livro se fecha
Volte ao sebo, ao cheiro específico daquele volume amarelado que nenhum livro novo tem. Esse cheiro parece, à primeira vista, apenas sinal de decadência física do papel. Mas é, na verdade, a prova mais concreta disponível de que alguém, em outro século, também teve medo, também errou feio em decisões importantes, também tentou entender a própria época sem ter garantia nenhuma de que ia conseguir.
Ninguém morreu no século passado sem deixar, em algum livro, o registro de como foi sentir aquilo que hoje parece exclusivo de agora. A angústia de agora não é original. Já foi sentida, nomeada, atravessada e sobrevivida por gente que também achava, no seu próprio presente eterno, que aquele medo específico era o primeiro e o pior de todos.
Ler um livro antigo é abrir uma conversa com essa gente. E toda conversa dessas devolve o que o feed tira todo dia sem avisar: a prova de que existe antes, existe depois, e o agora, por mais pesado que pareça, é só mais um trecho no meio de uma estrada muito mais comprida do que qualquer notícia consegue mostrar.
O sebo guarda um cheiro que nenhum livro novo tem,
prova de que outra mão já segurou aquele volume,
décadas antes, com um sentimento parecido com o seu.
O presente sozinho sempre parece o mais grave de todos,
porque é o único que se tem em mãos
para comparar com alguma coisa.
Um menino chinês, cinco séculos antes de Cristo,
já sabia que o antigo explica o novo
melhor do que o novo consegue se explicar sozinho.
Um historiador do deserto, no século quatorze,
catalogou a queda de impérios inteiros
antes que qualquer crise de hoje tivesse nome.
Ninguém morreu no século passado
sem deixar, em algum livro, a prova
de que aquele medo já foi sentido, e atravessado.
Abra o livro amarelado. Respire o cheiro fundo.
Não é decadência do papel.
É companhia, atravessando o tempo até aqui.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem acha que a sua angústia é a primeira do mundo.
Ainda catando livro velho em sebo, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?