Instantes · Espanto · Escrito CXLVI
Hoje Também Tem Espanto
Dezesseis instantes de um dia comum num jardim de jiboias e sinos de vento no décimo quarto andar, da luz que chega primeiro ao primeiro gole da noite, para lembrar que o espanto cabe no pequeno e conforta sem negar o que dói
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Aba I
Abertura, I a III · A luz no jardim da varanda, a flor, o pássaro e o bicho
Aba II
IV a VI · O filho, o orgulho e a admiração
Aba III
VII a X · O gesto, o sorriso, os olhos e o café
Aba IV
XI a XIII · O mar, a brisa e o céu
Aba V
XIV a XVI · A canção, o primeiro gole e o dia dobrado
A luz chegou à varanda antes das pessoas. No décimo quarto andar ela chega cedo, bem antes de alcançar a rua. Veio baixa, de lado, e pousou na borda do primeiro jarro, como quem testa um degrau. Esquentou o barro dos mais de cem jarros espalhados pelo chão, pelas prateleiras e pelo muro, acendeu a água de um bebedouro e o néctar de um comedouro, pendurados entre as folhas, e atravessou as jiboias, dezenas delas, penduradas no teto e escorrendo pelo muro e pelas prateleiras, em todos os tons de verde, do mais denso ao verde-limão. Cada folha em forma de coração acendeu por dentro, uma depois da outra, e a luz deixou na parede uma sombra comprida e trêmula, toda pontilhada de corações.
Lá dentro, alguém, com o cabelo ainda amassado do travesseiro, abriu a porta sem acender nada e saiu descalço. A caneca na mão esquerda soltava um fio de vapor que a luz, de passagem, pintou de dourado. O piso guardava um resto de fresco da madrugada e já começava a esquentar. No jardim, um dos sinos de vento arriscou duas notas e desistiu, porque o vento do oceano ainda estava acordando. Lá embaixo, a primeira moto passou, pequena como brinquedo. Um vizinho tossiu. A cidade ainda estava de pijama.
A pessoa atravessou o jardim por entre os jarros, afundou no sofá do jardim, entre as almofadas turcas de mil cores, cercado de jiboias, e fechou os olhos por um segundo. Sentiu o retângulo de sol subir devagar pelas canelas, como se alguém, sem pressa nenhuma, estivesse chegando para ficar.
I
Encanto
Sobre a flor que ninguém pediu
Ontem tinha botão. Hoje tem flor. Abriu de madrugada, sem plateia, num dos mais de cem jarros do jardim, que a gente regava mais por hábito do que por esperança. Cor de gema, miolo escuro, meia dúzia de pétalas ainda amassadas, como quem acordou antes do despertador.
A gente se agacha. A gente, que tem reunião às nove, se agacha ao lado de um jarro de barro e fica olhando. Ela não serve para nada. Não paga conta, não resolve problema, não cabe em planilha nenhuma. E é por isso mesmo que a gente não consegue sair dali. O útil a gente agradece de passagem. O que é lindo sem necessidade a gente fica olhando.
Uma abelha chega, ninguém sabe de onde, a catorze andares do chão, pesa um pouco no miolo, parte. A flor balança duas vezes, como quem diz que não foi nada.
A samambaia ao lado está ali há anos, esperando a vez, e ninguém repara nela. A flor nova rouba a cena sem esforço, e a samambaia não se ofende. A varanda aprende que há lugar para a que dura e para a que acaba de chegar.
Mas a riqueza maior do jardim são as jiboias. Tem jiboia no muro, no chão, subindo pela prateleira e pendurada no teto, às dezenas, e todas com folhas em forma de coração. A gente começa a contar, perde a conta e desiste feliz. Jiboia não cresce com pressa nem com raiva: pede água, luz e deixa. Basta cortar um galho, pôr num copo d'água e esperar as raízes, e o coração se multiplica. Um jardim cheio de corações que ninguém precisou comprar. E o jardim vazou para dentro de casa: tem jiboia na sala e, no escritório, uma parede inteira delas, que a gente olha entre uma ideia e outra, como quem consulta um amigo calado.
II
Visita
Sobre o pássaro que passou para ver
Um pássaro pousa entre os corações de uma jiboia, a catorze andares do chão. Pequeno, peito amarelo, olho de conta preta. Veio de algum lugar entre os prédios, atravessou o vento do alto e escolheu justo este verde. Vira a cabeça para um lado, depois para o outro, e olha a gente com uma curiosidade que parece mútua. A gente, do sofá, prende a respiração, porque respirar alto espanta visita.
Ele vai direto a um dos comedouros de néctar, daqueles feitos para beija-flor, pendura-se na borda, mergulha o bico fino e ergue a cabeça para engolir, como quem agradece. Veio tomar o café da manhã, e o dele é doce. De repente se vai, num risco curto, e deixa um coração de folha balançando de leve.
De manhã sempre aparece algum. A notícia de que há néctar fresco, em vários comedouros espalhados pela varanda, no décimo quarto andar, deve ter corrido pelos telhados. Dá gosto pensar nisso: alguém, um dia, encheu o primeiro comedouro sem saber quem viria, e agora eles vêm.
Na folhagem de cima, outro se junta. Os dois conversam num tom que a gente não alcança, e a gente se sente numa festa em que não foi convidado, mas ninguém pede que saia.
Fica na gente a sensação boa de ter sido visitado por alguém importante que não deixou o nome.
III
Ternura
Sobre o carinho que finge ser outra coisa
Bob, shih tzu de nove anos, só vai para o sofá do jardim quando alguém senta lá. Nem precisa chamar: chega logo, escolhe seu espaço na parte alta do encosto, entre as almofadas turcas, e fica olhando a vista da região como um síndico da paisagem. Depois desce um pouco e encosta o focinho na nossa mão fingindo que quer outra coisa. Procura a porta, a vasilha, o tapete. Mas é carinho que ele quer, e dá um jeito de conseguir sem passar recibo de dengo. Deita de lado com o ar de quem estava ali por acaso e empurra a cabeça até a gente ceder. A gente cede. Sempre cede. Há uma negociação inteira nesse gesto, e ninguém assina nada.
Quando a gente se levanta, ele vai atrás, devagar, com a dignidade dos nove anos. Não precisa de convite para ficar por perto. Há criaturas que nos escolheram sem avaliar currículo.
Já a Betty fica na sala, só observando, de olho numa bolinha verde guardada para a próxima brincadeira. Não se engane com a calma: é ferrenha segurança da casa e do corredor do prédio. Late para o som do elevador, para passos que ninguém mais ouviu, para o vento, para a própria sombra. Cada latido é um comunicado oficial de que ela está atenta e de que ninguém passa sem avisar. Os pássaros do jardim já aprenderam que o barulho vem de dentro e seguem bebendo o néctar, com a paciência de quem conhece vizinho barulhento. No fim do dia o expediente acaba, e ela vai se deitar encostada no Bob, como quem informa que a ronda terminou sem novidades.
No caminho a gente esbarra em Kobayashi Issa, poeta japonês que viveu entre 1763 e 1828. Escreveu cerca de vinte mil haicais, e perto de mil falam de criaturas pequenas: rãs, pardais, mosquitos, uma pulga. Perdeu filhos ainda crianças e a esposa, e nem por isso deixou de reparar numa pulga. O nome que usava para assinar quer dizer uma xícara de chá. Parece que ele sabia que a ternura mais fiel mora no pequeno, e que ela aparece mesmo em dia de luto.
A ternura não espera a vida ficar em ordem para existir. Ela aparece entre uma coisa difícil e outra.
IV
Alegria Miúda
Sobre o filho em casa e um chinelo no corredor
O chinelo dele está na entrada do quarto, virado para o lado errado, e a gente quase tropeça sorrindo. Casa com filho dentro tem som: porta, pé, geladeira aberta, uma música baixa vazando do quarto. Ele passa sem camisa, murmura um bom dia de quem ainda mora meio no sonho e leva o último pedaço de pão. A gente finge que reclama. É o melhor barulho da casa.
Mais tarde ele pergunta se ainda tem chá mate, como se a casa não fosse dele, como se a geladeira não fosse sempre a mesma. A gente responde que tem, e fica olhando ele buscar a jarra, encher um copo enorme de gelo e de chá, com seriedade de arquiteto.
Na porta do quarto dele, a gente cruza com Rachel Carson, a bióloga americana que escreveu Primavera Silenciosa. Em 1956 ela publicou um ensaio sobre espanto de criança, que virou livro em 1965, depois da morte dela. Passeava pelo litoral do Maine com o pequeno Roger, sobrinho-neto, e concluiu algo simples: a criança precisa de pelo menos um adulto que redescubra o mundo com ela. Dá para ler pelo avesso. O adulto também precisa de alguém que o convide a olhar de novo, e às vezes esse alguém anda sem camisa, de chinelo virado.
V
Orgulho
Sobre o filho no último ano
A luz da escrivaninha fica acesa até tarde no quarto dele, uma faixa amarela embaixo da porta. A farda passada espera na cadeira para a manhã seguinte. É o último ano, e ele estuda para entrar na USP e virar um engenheiro de computação dos bons, dos que constroem o que a gente ainda nem sabe pedir. Faz as contas que ninguém deveria precisar fazer tão cedo: quantas faltas ainda cabem num colégio militar, onde ausência pesa, quantas manhãs rendem mais em casa, com o livro aberto e todas as oportunidades que a gente conseguiu oferecer. Escolhe, ajusta, volta atrás, escolhe de novo.
A gente passa pelo corredor devagar, para não fazer barulho, e sente uma coisa que não cabe numa palavra só. Orgulho é pouco. Ele estuda tanto que a casa inteira respira diferente. Quando tenta explicar o que anda aprendendo, a gente balança a cabeça como quem entende, ele percebe e explica de novo, mais devagar, com uma paciência que ninguém ensinou. De vez em quando sai do quarto com a testa franzida, pega um copo d'água, olha o jardim por um minuto e volta. Nesse minuto, a gente aprende a ser jardim: algum verde por onde o cansaço pode passar.
O orgulho vem misturado com a vontade de proteger. A gente quer que ele passe, e quer ainda mais que ele durma. Talvez seja essa a forma mais honesta de espanto diante de um filho que cresce: ver nele um esforço de adulto e continuar enxergando a criança do chinelo na entrada do quarto.
VI
Admiração
Sobre a dentista que não vê a própria maravilha
Ela chega do consultório com os ombros cansados e a cabeça ainda lá, em algum caso difícil, numa conversa com quem passou anos escondendo a boca. É dentista, uma das melhores que existem para a terceira idade, e é a eles que dedica o ofício: gente que chega em busca de um novo sorriso. Trabalha com a precisão de quem estudou a vida inteira e com a delicadeza de quem sabe que, naquela cadeira, tem sempre alguém que aprendeu a sorrir de boca fechada.
Reflete muito sobre o ofício: se explicou direito, se poderia ter feito melhor, se aquela senhora vai conseguir comer, no domingo, o que a neta preparou. Pensa tanto que, às vezes, nem percebe o que a gente enxerga de fora. Há paciente que chega falando com a mão na frente da boca e sai rindo de boca aberta, sem lembrar de tapar. Isso mexe na vida das pessoas de um jeito que quase ninguém nota, e quase nunca se agradece à altura.
A gente tenta dizer, e ela ri, desvia, volta para a dúvida. Há maravilhas que não se enxergam por dentro. Por isso a gente fica na porta do hall, com o jeito mais simples que sabe, para ser o espelho que mostra o que ela é.
Quem cuida de muita gente costuma ser o último a receber o próprio elogio. Vale entregar antes que a semana acabe.
VII
Delicadeza
Sobre o gesto gentil que ninguém viu
Alguém segura a porta do elevador com o pé, sem olhar, só porque ouviu passos. Na rua, um desconhecido devolve a nota que caiu do nosso bolso e já vai embora antes do agradecimento. Na padaria, uma senhora cede a vez a quem está com criança no colo, e ninguém comenta.
Esses gestos duram segundos e ninguém coloca em foto. Mas reorganizam a manhã de quem recebeu. A gente lembra uma grosseria por dias e uma gentileza por minutos, o que é uma contabilidade injusta com a gentileza. Hoje ela fez o que sabe fazer: abriu uma pequena folga no peito e foi cuidar de outro assunto.
Existe também a gentileza quase invisível: o motorista que dá passagem e faz sinal de nada, o garçom que traz água antes de pedirem, o colega que põe o seu nome na lista antes de você lembrar. Ninguém ganha medalha, e provavelmente é por isso que funciona. Na caminhada com os cachorros, a versão disso é o Bob, que para para qualquer criança que estenda a mão, com a paciência dos nove anos, enquanto a Betty, que late para o mundo inteiro, se derrete por quem se agacha. Os dois fazem a gentileza que a gente às vezes esquece de fazer.
VIII
Presente
Sobre o sorriso que chegou sem motivo
No semáforo, alguém no carro ao lado sorri para a gente. Sem motivo, sem pedido, sem plano. A gente olha para trás para ver se era com outra pessoa. Era com a gente.
Devolve o sorriso atrasado, já com o carro andando, meio torto, mas devolve. Passa a manhã com a boca levemente curvada, sem saber direito por quê. Um sorriso de estranho é um recado curto e inteiro: ei, a gente existe, e você também.
Um minuto depois a gente repara que também está sorrindo para o caixa da farmácia, que não entende nada e sorri de volta. Em dez minutos já há uma pequena epidemia de boa vontade sem causa conhecida.
Quem sorri sem querer nada em troca distribui o que ninguém consegue estocar.
IX
Confiança
Sobre os olhos de quem acredita
Existe um tipo de olhar que funciona como andaime. Alguém olha para a gente e enxerga a versão que ainda não aconteceu. Uma professora que dizia você consegue com a naturalidade de quem informa o horário. Uma avó que servia mais um prato e jurava que a gente ia longe. Um amigo que repetiu manda ver, e a gente mandou.
A gente sustenta o peso porque alguém já tinha confiado no chão. E fica o aviso, que é também um convite: todo mundo, mais cedo ou mais tarde, vira o olhar de alguém. Dizer eu acredito em você a quem ainda não chegou é construir ponte a custo zero, e ela costuma aguentar o tráfego.
E nem precisa de discurso. Às vezes basta um aceno de cabeça no fundo da sala, aquele que diz continua, estou aqui. Quem recebeu isso uma vez sabe reconhecer o próprio valor na hora em que precisa.
X
Generosidade
Sobre dar o melhor de forma simples
Nem sempre dá para fazer o grande. Mas quase sempre dá para fazer o seu melhor, de forma simples, na frente de quem chegou: o café bem passado, a conversa com o telefone virado, a ajuda que não se anuncia, o néctar que a gente renova de manhã, nos comedouros da varanda, sem saber quem vai aparecer.
No caminho a gente encontra a cerimônia do café na Etiópia. A dona da casa torra os grãos na frente dos convidados, passeia a frigideira com os grãos torrados para todo mundo sentir o cheiro, moe na mão e coa numa jarra de barro. Servem-se três rodadas, feitas com os mesmos grãos: abol, tona e baraka. A última quer dizer bênção. É nela que o mais velho da roda costuma se levantar para abençoar a casa e quem está nela. O ritual dura mais de quarenta minutos e ninguém acha demais.
O que ela oferece é uma panela, carvão, paciência e a presença inteira. Abençoar, ali, é um verbo que mora no fim de um café bem feito.
Quem dá o melhor que tem, do jeito que dá, já está abençoando, mesmo sem usar a palavra.
XI
Leveza
Sobre o mar e a calma como ofício
O mar não pesa nada, e carrega tudo. Quebra na praia e a gente ouve cada onda sendo inventada. Os pés afundam um pouco na areia molhada, a espuma chega, volta, deixa uma renda que desaparece antes de a gente aprender o desenho. Ninguém consegue ficar de cara fechada olhando o mar por muito tempo.
Dorival Caymmi, o baiano de Salvador, nascido em 1914, passou a vida cantando esse vaivém. Compôs perto de cento e vinte canções em mais de seis décadas, algumas lapidadas durante anos, porque acreditava que a simplicidade custa tempo. A fama de lento virou piada entre amigos: o baiano tem três velocidades, lento, lentíssimo e Caymmi. Um estudioso da canção chamou-o de o lado zen da música brasileira. Ele devia saber que a leveza do mar é trabalho de paciência: a onda parece fácil porque o oceano inteiro empurra atrás dela.
XII
Calma
Sobre a brisa que não pede licença
A brisa chega sem aviso, trazida pelo oceano, e mexe só no que é leve: a barra da cortina, a ponta do cabelo, a página aberta no braço do sofá, os corações das jiboias, que balançam todos juntos como uma plateia que concorda. Os sinos de vento, de vários tipos, respondem um a um, os graves e os de voz fininha, cada qual no seu tempo, até formarem uma conversa que ninguém combinou. Passa a mão no pescoço da gente e leva um pouco do calor do dia. Lá em cima ela chega mais limpa, depois de atravessar o céu por cima dos telhados.
Não decide nada, não resolve nada, e mesmo assim muda o clima da casa. Quem recebe brisa aprende o ofício de ficar parado para ser tocado. É uma lição de humildade fresquinha: dá para ser bem tratado pelo mundo sem ter feito absolutamente nada para merecer.
No fim de tarde ela chega mais fria, cheirando a maresia e a terra molhada de algum quintal distante. O Bob levanta o focinho do sofá, a Betty late para a própria brisa, e os sinos de vento se agitam, celebrando mais um dia. Todo mundo reage sem combinar, porque a brisa é um assunto em comum.
XIII
Deslumbre
Sobre o espetáculo gratuito do fim de tarde
No fim da tarde, de graça, a gente sai para caminhar com os cachorros e encontra o que nenhum teatro consegue. O céu vira laranja, rosa, um roxo que ninguém sabe nomear. O Bob anda no passo dos nove anos, a Betty puxa a guia como quem vai inspecionar o pôr do sol, e a gente deixa. Numa das varandas viradas para o sol, um casal de idosos nem tira o celular: só olha, de mãos dadas, com a calma de quem já viu muita coisa e continua achando bonito.
Na rua, uma criança pergunta quem apagou o dia, e ninguém sabe responder direito. Ela não se incomoda. Fica olhando até a última faixa laranja sumir e aplaude, sozinha, de pé no degrau da calçada.
Pelo caminho, a gente vai reparando em gente que baixa a voz para apreciar. Quem conversava alto na esquina para no meio da frase, o vendedor de coco encosta o carrinho, um corredor desacelera e vira caminhante por um minuto. Ninguém combinou. Até as guias ficam frouxas.
Não tem ingresso nem bis. Amanhã haverá outro, nunca igual. A luz que começou o dia na borda do primeiro jarro agora se despede no mar, e a gente percebe que ela esteve com a gente o dia inteiro, trocando de lugar. Quando a gente voltar, os corações das jiboias ainda vão estar cor de mel, guardando um resto dela.
Um espetáculo que se repete todo dia, sem ensaio e sem cobrança, ensina mais sobre generosidade do que muitos discursos.
XIV
Saudade Boa
Sobre a música que devolve uma tarde inteira
No Spotify, sem ninguém pedir, começa Il Mare Calmo della Sera, na voz de Andrea Bocelli, e a primeira nota ainda está subindo quando o corpo já viajou. Foi com ela que ele venceu a categoria de novos talentos do Festival de Sanremo, em 1994, e de lá para cá a canção vem atravessando a vida de muita gente. A nossa também. A gente ouviu essa música em fases tão diferentes que ela virou uma casa com muitos cômodos: um quarto de juventude, uma sala de recomeços, uma estrada de viagem e, agora, o sofá do jardim, com o mar logo adiante.
Música tem esse poder de abrir gavetas sem pedir licença. A gente não lembra onde deixou os óculos, mas lembra do cheiro de bolo de uma tarde de infância e do riso de alguém que já não está por perto. Há quem chame isso de falha de memória. Parece mais um arquivo guardado em outra gaveta.
Petr Janata, neurocientista da Universidade da Califórnia em Davis, colocou voluntários numa máquina de ressonância magnética para ouvirem trechos de canções e ver o que acendia no cérebro. Quando a música estava ligada a uma lembrança forte, a atividade acompanhava a melodia com mais intensidade, como se um filme começasse a passar por dentro. O neurologista Oliver Sacks, no livro Musicophilia e no documentário Alive Inside, mostrou Henry, um idoso que passou mais de dez anos num asilo quase sem falar e que, ao ouvir as músicas da juventude, abriu os olhos e cantou.
É bom ir devagar: um caso não vira regra, e os estudos falam em memória musical parcialmente preservada e em retornos breves de presença, nunca em milagre. Mesmo assim, breve já é muito. A saudade boa não pede explicação. Pede volume, de preferência.
Música sabe o caminho de casa. A gente só precisa deixar a porta aberta e a mão no coração.
XV
Abraço
Sobre o primeiro gole, de preferência o primeiro
O copo suado, a espuma no ponto, o ombro que desce três centímetros. O primeiro gole gelado do fim do dia é um abraço dado de dentro para fora: a garganta agradece, a nuca solta, a conversa ganha um tom mais manso.
A mesa fica perto do mar, a poucos passos de uma parede de pedras que as ondas do mar de Iracema vêm acariciar. Ninguém tem pressa. Há um espetáculo a ser apreciado, e o primeiro gole vira o abraço do universo.
Há quase quatro mil anos, na Suméria, alguém escreveu um hino à Ninkasi, deusa da cerveja. Costuma-se dizer que é a receita mais antiga do mundo, mas os especialistas discutem isso, e há quem prefira lê-lo como parece ser: uma canção de louvor, com brindes de taverna. Vestígios químicos de cerveja em jarros já aparecem por volta de 3500 a.C. no atual Irã. Ou seja, o primeiro gole tem uma longa fila de gente que também o esperou.
A gente aqui chama de abraço o que eles chamavam de hino. Vale o primeiro, saboreado, com a conversa certa. O segundo já é outro assunto.
XVI
Gratidão
Sobre dobrar o dia como roupa limpa
A noite chega e dobra o dia com cuidado, como se guarda uma roupa limpa que ainda tem cheiro de sol. Na gaveta vão entrando a flor, o pássaro, os corações de jiboia, o Bob que fingiu, a Betty que avisou o mundo inteiro, o chinelo torto, a luz embaixo da porta do quarto dele, ela chegando do consultório, a porta segurada, o sorriso do semáforo, os olhos de quem acredita, a panela de café, o mar, a brisa, os sinos de vento, o céu laranja, a caminhada com os dois, a canção, o primeiro gole.
Nem todo dia cabe tudo isso. Há dias que só têm dois instantes, e dias em que a gente nem repara em nenhum. Issa perdeu muito e continuou olhando para as pulgas. Sacks mostrou um homem se reencontrando por alguns minutos, e isso já foi muito. Espanto não é negar o que dói. É deixar entrar também o que ainda vale.
No jardim, a luz da cidade, lá embaixo, desenha um retângulo pálido na parede, quase no mesmo lugar onde o sol da manhã tinha deitado. Um sino de vento diz boa-noite duas vezes e se cala. A gente apaga a lâmpada devagar. Amanhã a luz volta a chegar primeiro, e vai ser a nossa vez de ir recebê-la.
A luz passou o dia a mudar de lugar,
da borda do jarro até o mar,
deixando em cada folha de coração um recado
para quem sabe parar e olhar.
Havia flor sem pressa, pássaro sem dono,
um chinelo torto na entrada do quarto.
O mundo é imenso e o espanto mora ao lado,
cabe inteiro num café, numa canção, num sorriso.
A noite chega e dobra o dia com cuidado
como quem guarda uma roupa limpa.
Amanhã a luz volta a chegar primeiro.
Quem acordar cedo, que a veja.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem ainda para, no meio do dia, para ver a luz mudar de lugar.
Aprendendo a me espantar com o que já estava aqui, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?