Reflexão · Identidade · Escrito LI

LI

Mergulhando em um Monet

Sobre um museu, uma tempestade, e o litoral que se reconhece dentro de uma tela francesa

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I

O homem na janela

II

O litoral que eu carrego

Chove em São Paulo. Não a chuva mansa que se ignora debaixo de um guarda-chuva, mas aquela que insiste, que bate no vidro do carro e depois na avenida deserta, como se quisesse dizer alguma coisa que eu ainda não estava pronto para ouvir. Entro no museu porque ali a noite ganha um sentido diferente, porque aquele edifício suspenso sobre pilares vermelhos parece a única coisa firme numa cidade que hoje inteira escorre.

Lá dentro, a luz é baixa e as paredes são lilás. E antes de saber o nome, antes de ler a plaquinha discreta ao lado da moldura dourada, eu paro. Três barcos na areia, dispostos na diagonal, como se tivessem sido empurrados pela própria composição. Um deles é amarelo, quase infantil, quase fora de lugar ali. Os outros dois são escuros, quase pretos, encalhados como animais cansados depois de uma briga. Atrás deles, o mar não é o azul manso de cartão postal. É um mar que se debate: pinceladas grossas de branco e turquesa amontoadas umas sobre as outras, como se o pintor tivesse discutido com a tela até ela ceder um pouco de calma.

Só depois eu leio o nome. Monet.

E ao ler, imagino o homem que pintou aquilo. Não o mestre que os livros descrevem, mas um sujeito preso num quarto de hotel em Étretat, impedido de sair por causa da chuva de novembro, olhando pela janela para os mesmos barcos que eu agora olho através de um vidro protetor, num museu a milhares de quilômetros e cento e quarenta anos de distância. Ele não podia alcançar aquilo que pintava. Só podia observar, da janela, o que a tempestade permitia ver, e transformar essa distância em tinta. Há algo de justo nisso: eu, também impedido pela chuva de fazer qualquer outra coisa naquela noite, encontro um homem que fez da própria impossibilidade de sair o motivo para criar.

O que fica, depois que a plaquinha e a data e o nome do pintor perdem importância, é a pergunta que os barcos insistem em fazer. Por que eles me comovem tanto?

Talvez porque um barco nunca seja só um barco. Ele é, antes de tudo, ferramenta: madeira e breu a serviço de uma rotina que não escolhe folga, o sustento de quem não tem outro ofício além de enfrentar, todos os dias, a mesma extensão de água que ontem quase o matou. O filósofo alemão Martin Heidegger, décadas depois de Monet, diria que uma ferramenta só revela sua verdadeira natureza quando está em uso, quando deixa de ser objeto parado numa prateleira e se torna extensão do corpo de quem a maneja. O barco de Monet, encalhado na areia, é ferramenta em repouso. Mas eu sei, olhando para ele, que na manhã seguinte alguém vai empurrá-lo de volta para dentro daquilo que hoje se debate ao fundo da tela.

Parado na areia, o barco não deixa de ser ferramenta. Só espera, em repouso, a manhã em que volta a cumprir a própria função.

E ao mesmo tempo, o barco é promessa. É a linha que separa o que se conhece do que ainda não se atravessou. Quantas vezes eu já olhei para um horizonte e senti que a liberdade mora exatamente ali, na distância que ainda não percorri? O barco carrega essa promessa mesmo quando está parado. Basta existir, com o bico virado para o mar, para lembrar que a saída é possível.

Na tradição budista, um sutta antigo compara o próprio ensinamento a uma jangada usada para atravessar um rio: depois de alcançar a outra margem, ninguém carrega a jangada nas costas pelo resto da viagem, ela cumpriu sua função e pode ser deixada para trás. Os três barcos de Monet, encalhados na areia, parecem obedecer à mesma lógica sem saber que a estão citando. Cumpriram a travessia do dia. Descansam. E amanhã, cedo, alguém vai buscá-los de novo, porque a jangada só se abandona depois de atravessar, nunca antes.

Só que o mar, esse, não promete nada. O pintor japonês Katsushika Hokusai, décadas antes de Monet, gravou a imagem que talvez resuma melhor essa indiferença: *A Grande Onda de Kanagawa*, onde três barcos de pescadores, minúsculos, quase engolidos, se curvam sob uma crista de água prestes a desabar sobre eles. Hokusai não pintou o mar como pano de fundo gentil. Pintou o instante exato em que a força bruta da água lembra ao barco, e a quem está dentro dele, o tamanho real da distância entre os dois. O mar de Étretat não é rio manso, não convida a esse tipo de travessia tranquila. É a mesma força bruta que Hokusai já havia gravado meio mundo antes, indiferente ao destino de quem se aventura nele. Não guarda memória de barco nenhum que engoliu. E ainda assim os pescadores voltam, todos os dias, porque a alternativa, não voltar, significa fome.

Nas costas do Senegal e de Cabo Verde, comunidades inteiras de pescadores herdam seus barcos como quem herda um nome de família: o mar ali não é cenário, é economia, é luto, é aquilo que dá de comer e às vezes tira tudo de volta. Um provérbio africano diz que o mar não tem galhos, nada a que se agarrar quando ele decide não colaborar. E talvez seja exatamente isso o que Monet pintou sem saber que estava pintando: a ausência de qualquer coisa a que os três barcos amarelos e pretos pudessem se segurar, além da própria coragem de quem os construiu.

Talvez Monet tenha pintado, sem saber, a mesma ausência de garantia que qualquer pescador reconhece só de olhar para o próprio mar.

Eu sou do Ceará. Cresci perto de um litoral que também conhece essa negociação diária entre trabalho e violência, entre promessa e ausência de garantia. Os jangadeiros do meu estado enfrentam, há séculos, a mesma água que Monet pintou em Étretat, só que sem moldura dourada, sem sala de museu, sem plaquinha explicando data e técnica. José de Alencar escreveu sobre esse litoral tão profundamente como um francês, e Dorival Caymmi, mais tarde, cantou sobre um mar que, quando quer, é traiçoeiro. A tela que fotografei no MASP não fala de um lugar distante. Fala, sem saber, de casa.

E talvez seja por isso que os três barcos me pararam antes mesmo do nome do pintor. Eles não pediam contemplação estética. Pediam reconhecimento.

Eu não vou atravessar o mar de Étretat, nem o de Fortaleza, sozinho, sem ferramenta, sem rumo. Ninguém atravessa. O que existe, sempre, é a escolha de qual barco construir contra a própria imensidão: qual ofício, qual rotina, qual coragem repetida todos os dias apesar da ausência de garantias.

A chuva, do lado de fora do museu, continua batendo.
Saio para dentro dela sem guarda-chuva,
e pela primeira vez na noite,
isso não parece um problema a resolver.

Parece, apenas, a água fazendo o que sempre fez:
me lembrando de que também é preciso
construir o próprio barco.

Dedicatória

Este texto é dedicado aos pescadores, cavaleiros do oceano, que enfrentam todos os dias uma água sem galho nenhum a que se agarrar, e voltam mesmo assim, porque o barco em repouso é sempre promessa de sair de novo.

Ainda molhado da chuva de São Paulo, Santos Moisés.

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