Ensaio · Resiliência · Escrito LII

LII

E Quando a Balança Não é Favorável

Sobre viver o auge da construção pessoal e o fundo do próprio poço ao mesmo tempo, seja ele qual for, e por que um prato pesado não anula o outro

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I

Dois pratos, um peso

II

A fome, a plenitude

III

O alicerce, o sertão

Numa balança de mercado antiga, de dois pratos, alguém empilha, de um lado, tudo que carrega sem fazer barulho: os livros lidos até tarde, os cursos concluídos entre um turno e outro, o vocabulário que cresceu, a clareza que só chegou depois de anos confusos. É peso real. Ninguém consegue pesá-lo numa balança de verdade, mas está lá, denso, acumulado, mudando a forma como essa pessoa entende o próprio lugar no mundo.

No outro prato, o que grita, seja lá qual for a forma que assume: a conta que não fecha, o diagnóstico que chegou sem aviso, o corpo que não responde mais como antes, o luto que ainda dói de manhã. Dinheiro é um dos nomes possíveis para esse peso. Trauma é outro. Doença é outro. Perda é outro. O que todos têm em comum é que se veem primeiro, de fora, e costumam decidir, aos olhos de quem observa, quem essa pessoa parece ser.

A balança nunca fica parada no meio. Ela pende. E por um bom tempo, às vezes anos, ela pende para o lado errado, sem aviso de quando vai equilibrar.

I

Os dois relógios

Sobre chronos, kairos, e o erro de medir um pelo ritmo do outro

Os gregos antigos tinham duas palavras para definir tempo onde a maioria das línguas modernas usa apenas uma. Chronos era o tempo que se mede, a sequência numerada de dias, a régua sobre a qual se marcam prazos, vencimentos, resultados de exame, prognósticos. Kairos era outra coisa inteiramente diferente: o instante certo, carregado de significado, que não obedece a calendário nenhum e não se mede em unidade fixa.

O relógio de fora está atrasado, gritando cobrança. O relógio de dentro está exatamente no ponto certo. Julgar um pelo ritmo do outro é o erro mais comum, e mais cruel.

O drama de quem vive o auge da própria construção interna dentro do fundo do próprio poço, qualquer que seja o nome desse poço, é, em essência, o drama de dois relógios correndo ao mesmo tempo, em velocidades que não combinam. O relógio de chronos está atrasado, gritando cobrança, seja ela financeira, física ou emocional. O relógio de kairos, silencioso, está exatamente no ponto certo, produzindo a mente que essa pessoa está se tornando. O erro mais comum, e mais cruel, é julgar o relógio de dentro pelo ritmo do relógio de fora, como se a lentidão de um provasse o fracasso do outro.

II

A noite escura

Sobre João da Cruz e o crescimento que acontece dentro da escuridão

O místico espanhol João da Cruz, no século dezesseis, escreveu sobre um estado que chamou de noite escura da alma. Não era metáfora de sofrimento genérico. Era descrição precisa de um momento específico no amadurecimento espiritual, em que a pessoa sente mais abandono, mais escuridão, mais ausência de qualquer conforto sensível, exatamente no ponto em que a alma mais cresce.

João da Cruz insistia num detalhe que a maioria das leituras apressadas do conceito ignora: o crescimento não acontece apesar da escuridão. Acontece dentro dela, porque é precisamente a ausência de todo conforto habitual que obriga a pessoa a se sustentar por outro tipo de raiz, mais funda, menos dependente de circunstância favorável. A balança pendendo para o lado errado não é interrupção do crescimento. Em certos casos, é a própria condição dele.

III

A fome do corpo, a plenitude da mente

Sobre Milarepa e a caverna do Himalaia

O poeta e iogue tibetano Milarepa viveu, segundo a tradição que preserva sua história, um dos períodos de pobreza física mais extremos já registrados numa biografia espiritual. Isolado em cavernas do Himalaia, ele se alimentava quase exclusivamente de urtiga selvagem, ao ponto de, segundo o relato tradicional, sua própria pele ter ganhado tonalidade esverdeada pela dieta.

Milarepa prova que plenitude e escassez podem habitar o mesmo corpo, na mesma caverna, sem que uma espere a outra ir embora.

Foi exatamente nesse período, no fundo daquela precariedade, que Milarepa alcançou o que sua tradição descreve como o auge da própria realização. A fome do corpo e a plenitude da mente conviveram no mesmo homem, na mesma caverna, no mesmo período de tempo, sem que uma cancelasse a outra. A história de Milarepa não ensina que a fome produz iluminação, isso seria uma leitura perigosa e simplista. Ensina algo mais sutil: que a plenitude interior não espera educadamente a escassez material terminar para começar a existir.

IV

O que este ensaio não pode romantizar

Sobre o risco real de transformar fome em lição bonita

Mas este ensaio precisa, aqui, encarar o ponto mais desconfortável de tudo que foi dito até agora, porque seria irresponsável, e desonesto, deixar de fazê-lo. Existe um risco real, e sério, em qualquer texto que fale bem da escassez: o risco de romantizar precariedade que ninguém deveria ter que atravessar, de transformar fome real em lição bonita para quem nunca passou fome de verdade.

Fome não é pedagógica. Doença não é pedagógica. Trauma não é pedagógica. Perda não é pedagógica. Não ter dinheiro para o básico não é currículo espiritual disfarçado, é violência concreta, e o mesmo vale para o corpo que adoece sem escolha, para a mente que carrega um trauma que ninguém pediu, para o luto que chega antes da hora. Tratar qualquer uma dessas dores como disciplina necessária para o crescimento é, na melhor das hipóteses, ingenuidade de quem observa de longe, e na pior, desculpa moral para minimizar sofrimento que deveria, sempre que possível, ser evitado ou tratado, não celebrado. Milarepa escolheu a caverna. João da Cruz escolheu o silêncio do mosteiro. A maioria de quem vive hoje esse desequilíbrio entre os dois pratos da balança, seja ele qual for, não escolheu absolutamente nada, foi empurrada para lá por circunstância, biologia, estrutura, falta de rede de apoio. Isso muda tudo. A honestidade deste ensaio depende de nunca confundir as duas situações.

V

O sertão seco, o cárcere

Sobre Graciliano Ramos e a lucidez que veio do fundo do poço

O escritor alagoano Graciliano Ramos viveu essa distinção na própria pele, de um jeito que nenhuma teoria consegue substituir. Preso pelo regime de Getúlio Vargas em 1936, sem acusação formal jamais esclarecida, passou meses entre celas imundas e navios-presídio, período que registrou depois em Memórias do Cárcere. Foi ali, no fundo absoluto da própria vida, sem liberdade, sem clareza sobre o próprio futuro, que Graciliano afiou a lucidez política e literária que sustentaria o resto da obra.

Graciliano não escreveu sobre vencer a seca. Escreveu sobre continuar de pé mesmo quando ela nunca cede.

Poucos anos antes daquela prisão, ele já havia escrito Vidas Secas, retrato de uma família que atravessa o sertão nordestino brasileiro carregando quase nada, disputando espaço com a fome, incapaz de garantir o básico de um dia para o outro. A balança dos personagens de Graciliano nunca pendeu para o lado favorável. E ainda assim, o romance não é sobre derrota. É sobre a dignidade que continua existindo, teimosa, mesmo quando o prato da sobrevivência pesa muito mais que qualquer coisa do outro lado.

VI

O alicerce na cela

Sobre Nelson Mandela e os vinte e sete anos em Robben Island

O líder sul-africano Nelson Mandela passou vinte e sete anos preso, boa parte deles na ilha de Robben Island, em condições de privação material extrema: cela pequena, trabalho forçado numa pedreira de cal, contato limitado com a família, cardápio reduzido ao mínimo necessário para sobreviver. Foi exatamente nesse período, no fundo mais absoluto daquilo que qualquer balança material conseguiria medir, que Mandela construiu os alicerces intelectuais e políticos que sustentariam a reconciliação nacional sul-africana décadas depois.

Mandela não escolheu aquela prisão, e nada no relato dele romantiza os vinte e sete anos perdidos. Mas ele próprio descreveu, mais tarde, como o tempo na cela, apesar de todo o peso material do lado errado da balança, foi também o período em que mais amadureceu como pensador e como líder. Os dois pratos, de novo, pesando ao mesmo tempo, sem que um cancelasse o outro.

A balança nunca fica parada no meio.
Ela pende, e por um bom tempo pende para o lado errado.

Num prato, o que grita, seja qual for seu nome:
a conta que não fecha,
o diagnóstico que chegou sem aviso,
o luto que ainda dói de manhã.

No outro, silencioso, sem fazer barulho nenhum,
os livros lidos até tarde,
a clareza que só chegou depois de anos confusos.

Ninguém deveria precisar da dor para crescer.
Isso precisa ficar dito, sem meio-termo.

Mas quando a dor chega de qualquer jeito,
sem ter sido escolhida,
o crescimento não espera educadamente ela ir embora.

João da Cruz cresceu na escuridão.
Milarepa cresceu na caverna vazia.
Graciliano escreveu o sertão seco
antes de atravessar o próprio cárcere.
Mandela construiu o alicerce
na cela mais apertada que teve.

A balança pode continuar desfavorável por muito tempo.
Isso não decide, sozinho,
quem alguém está se tornando do outro lado dela.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem sofre todo dia por não se achar nada ainda que seja, sem saber que o prato silencioso da balança também está pesando, mesmo quando ninguém mais consegue ver.

Ainda pesando os dois pratos, Santos Moisés.

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