Ensaio · Identidade · Escrito XXI
A Autonomia dos Seus Passos
A ilusão do caminho construído pelos outros e o momento de se aventurar no seu
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I
O rio e as estradas prontas
II
A anatomia da travessia
III
O risco do solo firme
Imagine o primeiro dia. Você atravessa os portões da universidade ou cruza a porta de vidro espelhado daquela grande empresa. O ar cheira a café fresco e a expectativas plastificadas. Há um crachá pendurado no seu pescoço, uma grade horária rigidamente dividida em semestres ou um plano de carreira detalhado em níveis que vão do júnior ao sênior. Há linhas pintadas no chão, murais exibindo os rostos dos vencedores do ano e manuais que explicam, com a precisão de um relógio suíço, o que se espera de você em cada hora do dia.
O sentimento que se instala nesse exato instante é de um alívio imenso, embora você raramente o nomeie como tal. É o conforto anestésico de saber que o mapa já foi desenhado. Alguém, muito antes de você nascer ou de você enviar o seu currículo, pavimentou a estrada, testou a resistência das pontes e colocou sinalização nas curvas perigosas. Você sente que a vida, finalmente, está sob controle porque o itinerário foi homologado pelas maiores autoridades do mercado. Tudo o que se pede de você é colocar os seus pés nas pegadas que já estão lá.
Mas a experiência de caminhar na estrada alheia carrega uma armadilha silenciosa: a esteira rolante avança na direção que o engenheiro escolheu, não na sua. E você, distraído pela velocidade e pelo aplauso dos fiscais de linha, avança sem perceber o exílio subterrâneo em que se colocou.
O caminho construído pelos outros é extraordinariamente eficiente em te levar a lugares que você nunca desejou habitar.
A crise nunca avisa o dia da estreia. Ela chega no meio de uma tarde de terça-feira, quando você cumpre a meta estipulada, ou no final de um período de exames em que sua nota foi impecável. Você olha para o diploma na parede ou para o bônus na conta e, em vez de preenchimento, sente uma vertigem que não é metáfora. É a estrutura da sua identidade que oscila ao perceber a traição da lógica prometida: você seguiu as regras, cruzou os prazos e, ainda assim, a vida que estava esperando começar não começou.
Esse é o exato instante em que o corrimão invisível se quebra. Você acorda e percebe que está no meio de um rio imenso e barulhento (o rio da sua própria existência) e que as pontes sobre as quais você esteve andando não eram suas. Eram estruturas de aluguel. Pontes que exigiam um pedágio invisível, porém cobrado com o rigor das alfândegas mais cruéis: a sua singularidade em troca de um destino previsível.
É aqui que a voz de Friedrich Nietzsche corta a névoa cultural com a violência de um raio. Em seu ensaio de juventude, Schopenhauer como Educador (1874), ele escreve uma passagem que funciona como diagnóstico e sentença para o homem que se perdeu nos labirintos da aprovação institucional:
"Ninguém pode construir para ti a ponte sobre a qual deves passar pelo rio da vida, ninguém exceto tu mesmo. Certamente existem inúmeros caminhos e pontes e semideuses que querem te levar através do rio; mas apenas ao preço de ti mesmo: tu te empenharias e te perderias. Existe no mundo um único caminho pelo qual ninguém pode andar senão tu. Para onde ele leva? Não perguntes, segue-o."
Friedrich Nietzsche, Schopenhauer como Educador
Nietzsche não estava escrevendo para bibliotecas. Estava escrevendo no exato momento em que tentava rasgar a farda da filologia clássica acadêmica para se tornar o pensador que o mundo depois conheceria. Ele sabia que os semideuses, os professores, os chefes, as instituições e as convenções sociais, oferecem carona ao preço de sequestrar o seu eu. Quem concorda com essa transação acaba descobrindo, tarde demais, que chegar ao destino dos outros é a forma mais irremediável de se perder no caminho.
Por que a estrada dos outros é tão irresistível? Não é por estupidez pessoal ou por falta de caráter: é pela arquitetura do sistema que nos cerca. Karl Marx compreendeu, antes de qualquer manual moderno de sociologia, a mecânica da extração: o sistema produtivo contemporâneo precisa desidratar a singularidade humana para transformá-la em força de trabalho intercambiável. O mercado e a universidade não buscam arquitetos de estradas; buscam consumidores de destinos padronizados.
Martin Heidegger, filósofo alemão, deu a esse exílio um nome técnico que ecoa em cada corredor universitário ou corporativo: das Man, o impessoal coletivo. É o império do "a gente". A gente estuda isso para passar naquele concurso. A gente aceita essa rotina destruidora porque o mercado exige. Caminhar pela ponte dos outros poupa o sujeito do trabalho mais custoso que existe: o de pensar a própria vida. O impessoal nos dissolve na massa, oferecendo a imunidade da manada. Se todos estão correndo na mesma direção, assume-se que a direção está correta.
Essa mecânica é refinada pelo que o antropólogo e crítico literário francês René Girard chamou de desejo mimético. Nós não escolhemos aquela universidade ou aquela profissão por uma inclinação pura e autônoma da alma; nós imitamos o desejo dos semideuses que vieram antes. Cruzamos pontes que detestamos apenas porque a entrada estava cheia de pessoas batendo palmas.
Desejamos a estrada alheia não porque ela nos serve, mas porque fomos treinados para imitar os passos de quem já desistiu de si mesmo.
Jean-Paul Sartre descreveu o estado de quem ignora a faísca interna como a forma mais pura de má-fé. É o estudante que age como se o seu destino estivesse inteiramente determinado pelas leis do mercado, ou o funcionário que se comporta como se a farda da empresa fosse a sua pele biológica. Ele abre mão da vertigem da sua liberdade existencial para se tornar um objeto inanimado. Ele finge que não tem escolha para não ter que carregar a responsabilidade pelas consequências da sua própria passividade.
O diagnóstico de Sartre encontra sua contrapartida em Søren Kierkegaard. Para o dinamarquês, o desespero mais devastador não é a tristeza visível; é a perda silenciosa do self disfarçada de sucesso social. É a pessoa que obteve todos os diplomas, acumulou os títulos que os semideuses consideravam valiosos, mas que, por dentro, tornou-se apenas um eco. Ela não tem uma voz própria; tem apenas uma coleção de citações e procedimentos internalizados.
Epicteto, que nasceu escravo e teve o corpo quebrado pelas circunstâncias, entendia que a autonomia dos passos começa no território inviolável da prohairesis, a faculdade diretriz da escolha. O mercado pode ditar as notas de corte, a universidade pode impor a burocracia das notas e as empresas podem mudar as regras do jogo a cada trimestre: tudo isso pertence ao domínio do que não depende de nós. Mas o juízo sobre o valor dessas coisas e a decisão de onde colocar o peso do seu pé permanecem sob sua jurisdição absoluta.
Viktor Frankl consolida essa estação com a lição que trouxe das cinzas de Auschwitz: o sentido da existência humana não é coletivo; é irredutivelmente individual e intransferível. Ninguém pode assumir as consequências das suas escolhas, e ninguém pode ser enterrado no seu lugar quando o tempo acabar. Se os semideuses não podem morrer a sua morte, eles não têm o direito de desenhar a sua vida.
Se ninguém pode morrer a sua morte, ninguém tem a estatura necessária para pavimentar a sua estrada.
Mas aqui o ensaio precisa tocar na ferida mais incômoda, no nó invisível que mantém você na estrada pavimentada mesmo depois de ter entendido que ela não te serve. A paralisia da transformação não se apresenta como covardia; ela usa o disfarce elegante da prudência e do timing. É a voz interna que sussurra: não é o momento certo de arriscar; vou primeiro terminar esta pós-graduação; vou juntar mais este volume de dinheiro, e então me aventuro no meu.
Essa fila de pré-requisitos é um truque do seu medo. Você está usando a burocracia do sistema para adiar a vertigem de caminhar sem corrimão. Esperar pelas condições ideais para assumir a autonomia dos seus passos é a ilusão infantil de que um dia a estrada construída pelos outros vai se transformar espontaneamente na sua. Não vai. A estrada dos outros sempre levará ao destino deles. O seu caminho começa exatamente no ponto onde o asfalto termina e a terra batida exige que você decida a direção do próximo centímetro.
Quando Nietzsche escreve "Para onde ele leva? Não perguntes, segue-o", ele está aplicando um golpe de misericórdia na ansiedade contemporânea por garantias. A obsessão moderna por métricas, previsões e planos de carreira de dez anos é uma tentativa neurótica de eliminar o imprevisto da vida. Mas o caminho autêntico não admite previsibilidade: ele é uma hipótese em construção. Você não planeja a sua autonomia para saber onde vai chegar; você assume a autonomia para poder habitar o presente do passo.
Conclusão
O Primeiro Gesto Autônomo
Feche o manual. Desligue por cinco minutos as notificações dos semideuses que insistem em te dizer qual deve ser a próxima meta, o próximo curso ou o próximo indicador de sucesso na sua planilha de desempenho. Sente-se na quietude do seu quarto e escute o ritmo da única coisa que é verdadeiramente sua nesta galáxia barulhenta: a sua presença consciente.
A autonomia dos seus passos não exige um rompimento heróico com o mundo amanhã de manhã; exige que hoje, agora, você mude a régua com que mede o valor da sua existência. Pare de se avaliar pela velocidade com que corre na esteira alheia e comece a se avaliar pela honestidade com que habita a sua própria trajetória.
A universidade ou a empresa podem te dar o vocabulário técnico e o crachá de identificação, mas a frase que a sua vida vai escrever no mundo precisa ser redigida com a tinta da sua própria responsabilidade existencial. Caminhar sem garantias assusta, mas é o único estado em que o ser humano deixa de ser um passageiro da história dos outros para se tornar o arquiteto da sua própria travessia.
A estrada pavimentada tem iluminação, sinalização e corrimão,
mas não leva para a sua casa.
O seu caminho é escuro, incerto e sem asfalto,
mas é o único lugar do universo
onde os seus passos pisam de verdade.
A ponte alheia poupa o esforço.
Mas só o passo autônomo devolve o sujeito.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a um arquiteto de pontes invisíveis da própria história, Oto de Sá Cavalcante.
Escolhendo o próprio caminho, mais uma vez, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?