Ensaio · Existência · Escrito XXII

XXII

A Vida Não é um Projeto

Sobre as decisões que não controlamos e as que nos controlam

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Abertura · I–II

A lista e o problema · O casamento e a carreira

III–IV

O dinheiro e o corpo · Os amigos e o acaso

V · Fechamento

O que a lista deixa fora · A vida honestamente habitada

Há um tipo de sabedoria que circula com a aparência de profundidade e a estrutura de lista. Cinco decisões que determinam a vida inteira. Dez hábitos dos que acordam cedo. Três escolhas que separam os bem-sucedidos dos demais. Você já viu. Talvez já tenha salvo alguma. Talvez já tenha relido numa manhã difícil procurando o atalho que a lista prometia.

Uma lista circula como referência entre muitos: a de que um punhado de decisões determina a vida inteira, e geralmente são com quem você casa, que carreira você segue, seus hábitos de poupança e consumo, como você cuida do corpo e se exercita, e com quem você anda. Cinco itens. Numerados. Limpos. Com a tranquilidade de quem acredita que a vida obedece a quem planeja bem.

Vamos mergulhar em cada um deles para refletir que esse tipo de lista, quando tomada como mapa, nos prepara mal para o que a vida de fato é. E porque há pensadores que passaram a vida inteira descrevendo exatamente o que a lista apaga, e eles merecem entrar nessa conversa.

A lista pressupõe que você controla o que decide

O problema maior que atravessa os cinco itens

Antes de chegar aos cinco itens, é preciso nomear o problema maior que os atravessa todos: a lista trata a existência como arquitetura. Escolha os pilares certos e o edifício se sustenta. Há uma lógica de engenharia aqui que funciona para pontes e não funciona para vidas.

Albert Camus passou anos tentando nomear a distância entre o que o ser humano deseja e o que o mundo oferece. Ele chamou isso de absurdo: a colisão entre o nosso desejo de clareza, de estrutura, de decisões que produzam resultados proporcionais ao esforço, e o silêncio irracional de um mundo que simplesmente não funciona assim. Queremos que as escolhas certas gerem as consequências certas. E o mundo concorda com isso às vezes, o suficiente para nos enganar, mas não sempre, não de forma que possamos planejar com segurança suficiente para chamar de determinação.

Nassim Taleb levou essa intuição para o campo da probabilidade e cunhou o conceito do Cisne Negro: o evento raro, imprevisível e de impacto desproporcional que reorganiza tudo. O problema, ele observou, não é que esses eventos existam. É que os nossos modelos de tomada de decisão foram construídos como se eles não existissem. Construímos planos de vida dentro de uma distribuição normal de possibilidades e ignoramos sistematicamente as caudas, onde vivem os divórcios que ninguém esperava, as doenças que ninguém planejou, as crises econômicas que eliminaram carreiras inteiras em dezoito meses. A lista de cinco decisões é, na linguagem de Taleb, um modelo que funciona num mundo sem cisnes negros. E o mundo está cheio deles.

I

Com quem você casa

Você escolhe com quem casa. Mas não escolhe com quem essa pessoa se torna.

Kierkegaard dedicou grande parte de sua obra à impossibilidade de entender o outro de fora, à opacidade fundamental que separa duas subjetividades mesmo quando elas dormem no mesmo quarto há décadas. Ele descreveu o relacionamento como um salto, não como uma equação. Você não calcula o casamento. Você se lança nele com a informação disponível no momento, que é sempre parcial, sempre incompleta, sempre uma aposta sobre quem essa pessoa será num futuro que nenhum dos dois controla.

Martin Buber, filósofo austríaco que construiu uma filosofia inteira em torno do encontro genuíno entre dois seres humanos, sabia que a relação real não é um estado que se mantém por decisão. É um acontecimento que se renova ou não se renova, que depende de algo que está além do planejamento inicial. Se o casamento durou e ainda alimenta, foi porque duas pessoas continuaram escolhendo se encontrar de verdade, e porque o acaso foi generoso o suficiente para não colocar entre elas algo intransponível. Decisão e sorte, inseparáveis, e a lista só menciona uma delas.

II

Que carreira você segue

A carreira escolhe você de volta, e nem sempre do jeito que você esperava.

Hannah Arendt, filósofa política alemã-americana, distinguiu três dimensões da vida ativa humana: o trabalho, a obra e a ação. A carreira pertence às três dimensões ao mesmo tempo, e é exatamente por isso que não pode ser planejada como se pertencesse a apenas uma. Você inicia, outros respondem, o mercado responde, a tecnologia responde, a economia responde, e o que resulta desse conjunto de respostas raramente é o que o plano inicial desenhava.

A pandemia reestruturou setores inteiros em dezoito meses. A inteligência artificial está eliminando hoje profissões que existiam há décadas. As pessoas que planejaram melhor a carreira não foram necessariamente as que saíram melhores: foram as que souberam se mover quando o plano parou de funcionar. E essa capacidade de se mover dentro do imprevisto não é ensinada por nenhuma lista de decisões. É desenvolvida por quem aprendeu a habitar a incerteza sem paralisar.

III

Seus hábitos de poupança e consumo

Este é o item onde a lista revela mais claramente para quem foi escrita.

Os hábitos de poupança dependem de quanto você ganha. Quanto você ganha depende de onde você nasceu, em que família, com que acesso, em que momento da economia, em que país, em que cidade dentro desse país. John Rawls, filósofo político americano que dedicou décadas a pensar sobre justiça, construiu um experimento mental para revelar exatamente isso: imagine que você precisa desenhar as regras de uma sociedade justa sem saber, de antemão, qual será o seu lugar dentro dela. Sem saber se vai nascer rico ou pobre, em que corpo, em que território.

A lista não foi escrita de trás do véu. Foi escrita de um lugar que já sabe onde nasceu, e por isso trata o hábito financeiro como questão de disciplina individual num vácuo, apagando silenciosamente o contexto estrutural que determina de onde cada um parte. Duas pessoas com exatamente os mesmos hábitos de poupança, nascidas em pontos diferentes do mapa socioeconômico, chegam a lugares completamente diferentes. Isso não é falha de planejamento. É o peso do ponto de partida, que a lista não menciona porque reconhecê-lo complicaria demais a simplicidade dos cinco itens.

IV

Como você cuida do corpo e se exercita

Você cuida, você exercita, você dorme bem e come com atenção. E ainda assim o corpo adoece.

Os estoicos, de Marco Aurélio a Epicteto, passaram séculos desenvolvendo uma filosofia do que está e do que não está sob nosso controle. A distinção central do estoicismo não é entre o que é bom e o que é mau. É entre o que depende de nós e o que não depende. E o corpo, para os estoicos, pertence majoritariamente à segunda categoria: você pode cuidar dele, pode fazer o que está ao seu alcance para mantê-lo em condições, mas não pode determinar o que ele vai desenvolver, o que vai falhar, quando e de que forma.

Cuidar do corpo é sábio. É a decisão correta entre as disponíveis. Mas é uma aposta com boas probabilidades, o que é completamente diferente de uma decisão que determina.

V

Com quem você anda

O ambiente humano que você habita te forma. Isso é verdade. Mas os amigos que ficam por décadas raramente foram uma escolha deliberada no sentido que a lista sugere.

Aristóteles, que escreveu sobre a amizade com uma profundidade que ninguém superou nos dois mil anos seguintes, distinguiu três tipos: a amizade por utilidade, a amizade por prazer, e a amizade por virtude, que é a única que dura porque é a única fundada no reconhecimento genuíno de quem o outro é. Mas Aristóteles também sabia que esse tipo de amizade não se escolhe como se escolhe um produto. Ela emerge de tempo compartilhado, de crises atravessadas juntos, de conversas que foram longe o suficiente para que algo real aparecesse. Não é recrutada. É encontrada.

A amizade real raramente é produto de uma decisão de andar com as pessoas certas. É produto de encontros que ninguém planejou, de contextos compartilhados que poderiam não ter acontecido, de um acaso que colocou duas pessoas no mesmo lugar ao mesmo tempo e permitiu que algo crescesse.

O que a lista deixa fora

As três ausências que valem mais que os cinco itens

Há três ausências na lista que valem mais do que os cinco itens presentes.

A primeira é o acaso. Nassim Taleb mostrou que as maiores viradas de vida são, na maioria das vezes, produto do imprevisível. A conversa que mudou tudo aconteceu por acaso. A perda que abriu algo que estava fechado não foi escolhida. O encontro que redefiniu quem você é não estava no roteiro. Uma sabedoria que não tem espaço para o acidente é uma sabedoria que não está descrevendo a vida real. Está descrevendo uma vida de laboratório, limpa, controlada, que não existe.

A segunda ausência é o sentido. Viktor Frankl sobreviveu a Auschwitz e passou o resto da vida descrevendo o que observou dentro dos campos: a diferença entre quem sobrevivia e quem desmoronava não estava em nenhum dos cinco itens. Estava na capacidade de encontrar sentido dentro da situação, qualquer que fosse ela. Sentido não é planejado. É descoberto, muitas vezes dentro do que você não escolheu e não queria. Frankl viu pessoas com vidas tecnicamente perfeitas nas cinco dimensões chegarem ao campo e não terem nada para se segurar.

A terceira ausência é o imprevisto que transforma. Heidegger chamou de ser-lançado a condição de encontrar-se já dentro de uma situação que não escolhemos, num mundo que já estava em andamento quando chegamos, com um corpo que não pedimos, numa família que não selecionamos, num tempo histórico que nos atravessa independentemente das nossas preferências. Ser humano não começa com uma lista de decisões. Começa com o encontro com o que já estava dado.

A vida bem vivida não é a vida mais bem planejada.
É a vida mais honestamente habitada
dentro do que foi planejado e do que não foi.

Uma lista pode te dar cinco âncoras.
Não pode te ensinar a nadar quando a maré vira.

E a maré, como qualquer um que viveu o suficiente pode confirmar,
sempre vira.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a um farol em meio à maré virada, Marcus Muniz, amigo que nos ensina que é possível viver uma vida que inspira.

Vivendo, sem planilha nenhuma, Santos Moisés.

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