Ode · Manhã · Escrito CXXXI

CXXXI

O Dom Que Não Se Agenda

Uma ode ao canto dos pássaros que nos visitam de manhã, e ao raro que vale mais justamente por não vir todo dia

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Aba I

Abertura e I · Pavarotti, o bem-te-vi, e o canário-da-terra

Aba II

II e III · O hatsune japonês, e Olivier Messiaen sobre os maiores músicos

Aba III

IV, V e VI · Gonçalves Dias, Wangari Maathai, e o fechamento

A cafeteira ainda borbulhava quando a luz começou a mudar de cor lá fora, aquele cinza que hesita antes de decidir se vira azul ou laranja. No décimo quarto andar, o jardim de vasos ocupava pouco mais de dois metros de sacada, mas bastava: um bebedouro cheio de água limpa desde a noite anterior, um punhado de alpiste espalhado sobre o pratinho de barro, três vasos de flores que insistiam em florir fora de época. A pessoa que ali tomava café não precisava olhar para saber a hora exata em que os primeiros sons começavam a chegar de baixo, do arvoredo que ainda resistia entre os prédios.

Na maioria das manhãs, o que se ouvia era o de sempre: um assobio de duas notas repetidas, quase uma pergunta e uma resposta, vindo de algum galho perto da janela do quarto, ali desde antes de qualquer um se lembrar. Companhia garantida, gratuita, sem falha. Mas de vez em quando, sem aviso nem calendário, um som diferente cortava o resto: mais alto, mais elaborado, cheio de variações que pareciam ensaiadas num camarim antes do espetáculo. Quando isso acontecia, a pessoa largava a xícara e ia até a grade da sacada tentar avistar o dono daquela voz antes que ele decidisse ir embora, o que geralmente acontecia rápido demais.

I

Pavarotti Não Vem Todo Dia

Sobre o canário-da-terra, o bem-te-vi, e a diferença entre companhia garantida e visita rara

O dono da voz é um pássaro pequeno, do tamanho de uma mão fechada, de plumagem amarela intensa na cabeça e no peito, com listras escuras nas costas. Chama-se canário-da-terra, Sicalis flaveola para a ciência, e é considerado por observadores de aves um dos cantores mais admirados do Brasil justamente pela força e pela variedade de seu repertório, capaz de encadear sequências rápidas de notas agudas que se destacam mesmo em meio ao barulho de uma cidade grande. Na varanda do décimo quarto andar, ele ganhou um nome de guerra: Pavarotti, batizado assim depois de uma manhã em que cantou por quase dez minutos seguidos sem repetir a mesma frase duas vezes.

A diferença entre Pavarotti e o dono do assobio de duas notas, esse sim ouvido todos os dias direto do quarto, está exatamente na frequência. O segundo é o bem-te-vi, ave que carrega no próprio nome onomatopaico o hábito de cantar do amanhecer ao entardecer, morador fixo de qualquer esquina brasileira com uma árvore disponível. Sua presença é tão certa quanto o nascer do sol. Já o canário-da-terra escolhe. Vem quando quer, fica o tempo que quer, e depois some por dias, às vezes semanas, sem deixar aviso. É precisamente essa escolha, essa ausência de garantia, que transforma a visita dele em acontecimento, e a do bem-te-vi em pano de fundo.

O canário-da-terra também não é exatamente tímido quanto ao próprio território. Pesquisadores que estudam a espécie descrevem um comportamento de defesa bastante enérgico: mesmo pesando pouco mais de vinte gramas, ele enfrenta pássaros maiores que se aproximam demais de uma fonte de comida que considera sua, cantando alto e voando em cima do intruso até afugentá-lo. É um pássaro pequeno com reputação de encrenqueiro, o que talvez explique por que raramente divide o pires de alpiste com qualquer outro visitante.

Vale registrar também o lado mais sombrio dessa beleza: o canário-da-terra está, segundo dados de órgãos ambientais brasileiros, entre as espécies mais apreendidas do tráfico de animais silvestres do país, capturado ilegalmente por causa do mesmo canto que encanta quem o ouve livre. A mesma voz que faz alguém largar o café na sacada é o que põe milhares desses pássaros em gaiolas todos os anos, presos justamente pelo talento que, solto, é de graça.

O que se apreende com uma rede não é a voz. É o corpo que a carrega. A voz em si continua sendo, sempre, de quem a solta livre.

II

O Primeiro Som do Ano

Sobre o uguisu, o hatsune japonês, e mil anos de poesia esperando um canto atrasado

Do outro lado do planeta, séculos antes de existir a palavra Pavarotti, o Japão já tinha construído toda uma linguagem poética em torno da mesma ideia: a de que um canto raro vale mais que um canto constante. O uguisu, pequeno pássaro pardo-oliva que raramente se deixa ver mas cuja voz é inconfundível, ganhou na tradição japonesa o título de harutsuge-dori, o pássaro que anuncia a primavera. Seu primeiro canto do ano recebeu um nome próprio, hatsune, literalmente o primeiro som, e esse nome virou palavra de estação nos haicais, usada há mais de mil anos para situar um poema no início exato da primavera.

O detalhe curioso é que o hatsune raramente coincide com a florada das ameixeiras, evento com o qual o uguisu é tradicionalmente associado nas pinturas e nos cartões de baralho hanafuda. O pássaro costuma atrasar, cantando de verdade só depois que as flores já caíram. Poetas japoneses passaram séculos registrando essa espera, esse hiato entre a imagem esperada e o som que chega fora de hora, sem nunca reclamar do atraso. A espera fazia parte do valor da coisa esperada.

Há um poema clássico do poeta Yosa Buson, do século dezoito, que descreve o uguisu cantando o dia inteiro num jardim antigo, do amanhecer ao anoitecer, sem parar. Estudiosos da literatura japonesa notam algo curioso nesse texto: ele celebra justamente a exceção, um dia em que o pássaro raro decidiu se comportar como se fosse comum, cantando sem economia, como quem sabe que está sendo ouvido com atenção redobrada por causa disso mesmo.

Não é diferente do que acontece numa sacada de apartamento em pleno século vinte e um: ninguém espera educadamente pelo bem-te-vi, porque ele sempre vem. Mas há quem realmente pare o que está fazendo, silencie a respiração, quando reconhece de longe os primeiros compassos de um canto que talvez não se repita amanhã.

III

Os Maiores Músicos do Planeta

Sobre Olivier Messiaen, o compositor que passou a vida transcrevendo pássaros em partitura

Enquanto o Japão nomeava a espera, na França do século vinte um compositor chamado Olivier Messiaen levava a admiração pelo canto das aves a um extremo pouco visto antes dele. Messiaen se considerava tanto ornitólogo quanto músico, e passou a vida inteira anotando cantos de pássaros ao redor do mundo em partitura tradicional, convencido de que, nas palavras que repetia em entrevistas, os pássaros eram os maiores músicos do planeta.

A obsessão começou cedo e nunca afrouxou. Em 1941, prisioneiro de guerra num campo alemão, Messiaen compôs o Quatuor pour la fin du temps para os únicos quatro instrumentos disponíveis ali dentro, piano, violino, violoncelo e clarinete, incluindo pela primeira vez um canto de pássaro identificável como parte do material musical da peça. Anos depois, ele passaria a compor obras inteiras a partir dessas transcrições, como o Catalogue d'oiseaux, sete volumes de piano dedicados inteiramente aos pássaros da França, cada peça batizada com o nome da espécie retratada.

O próprio Messiaen contava que essa vocação nasceu de um conselho recebido ainda estudante, do compositor Paul Dukas, que lhe disse simplesmente: escute os pássaros, eles são grandes mestres. Décadas de transcrição depois, Messiaen nunca conseguiu discordar do professor. Uma orquestra inteira, ele dizia, jamais reproduziria com exatidão a complexidade harmônica que um único pássaro solta sem esforço algum ao amanhecer.

Messiaen enxergava cores quando ouvia música, condição hoje chamada de sinestesia, e insistia que cada acorde carregava uma tonalidade visual específica, tão real para ele quanto qualquer nota escrita na pauta. Ao transcrever um canto de pássaro, portanto, ele não estava apenas registrando altura e ritmo: estava tentando capturar em papel uma experiência sensorial completa, som e cor fundidos, que a maioria das pessoas nem percebe estar perdendo quando ouve um pássaro cantar distraidamente enquanto lava a louça.

Transcrever um canto na pauta é tentar guardar num vidro fechado algo que só existe mesmo enquanto está voando pelo ar.

IV

O Sabiá Que Não Voltou a Tempo

Sobre Gonçalves Dias, a Canção do Exílio, e a saudade que simplifica o que está perto

No Brasil, a associação entre canto de pássaro e algo que se ama e se teme perder já estava consolidada quase um século antes de Messiaen nascer. Em julho de 1843, um estudante de Direito de vinte anos, longe de casa, sentado numa pensão em Coimbra, escreveu os versos que se tornariam o poema mais repetido da literatura brasileira, mais tarde incorporado até ao Hino Nacional. O poema descrevia palmeiras e um pássaro cujo canto, garantia o autor, não se ouvia da mesma forma em nenhum outro lugar do mundo.

Gonçalves Dias, filho de comerciante português com mulher de ascendência indígena e africana, escrevia sobre saudade de um jeito que soaria familiar a qualquer pessoa hoje olhando para uma sacada vazia esperando um pássaro que não vem. O sabiá do poema virou, ao longo dos anos seguintes, símbolo nacional, citado em música, em política, em livro escolar, sempre carregando a mesma promessa: lá longe, nessa terra específica, o canto é melhor que em qualquer outro lugar.

A ironia mais dura da história é que Gonçalves Dias escreveu sobre o desejo de ouvir de novo o sabiá antes de morrer e não conseguiu cumprir a própria promessa: voltando de uma viagem à Europa já doente, morreu em 1864 no naufrágio do navio Ville de Boulogne, bem perto da costa do Maranhão, sua terra natal, sem chegar a pisar em solo brasileiro outra vez. O poema sobre a certeza de reencontrar o canto terminou sendo, também, um poema sobre a possibilidade real de nunca mais ouvi-lo.

O próprio poema, aliás, esconde uma complicação que os livros escolares costumam deixar de fora. Poucos anos depois de escrevê-lo, já de volta ao Brasil e observando de perto o sistema escravocrata que sustentava aquele país das palmeiras e do sabiá, Gonçalves Dias mudaria de tom por completo, escrevendo sobre homens com as mãos presas em correntes de ferro que passavam de pai para filho. O paraíso cantado em Coimbra e o país real que ele reencontrou eram, em boa parte, coisas diferentes. Isso não anula o valor do poema, mas lembra que toda saudade de longe tende a simplificar o que está perto.

V

Onde é Que Os Pássaros Foram Parar

Sobre Wangari Maathai, o silêncio que encontrou em casa, e o gesto do beija-flor

Há ainda uma camada mais séria por trás de toda essa admiração, e ela tem nome e história reais. A bióloga queniana Wangari Maathai cresceu ouvindo pássaros nas florestas ao redor do Monte Quênia, onde sua família ia colher lenha. Quando terminou os estudos nos Estados Unidos e voltou para casa, anos depois, encontrou uma paisagem irreconhecível: as árvores da infância tinham sido derrubadas para dar lugar a construções, e com elas os pássaros também tinham desaparecido. Maathai contaria depois, em entrevistas e discursos, ter se perguntado, olhando para aquele silêncio, onde é que os pássaros tinham ido parar.

A resposta que ela deu ao próprio silêncio foi fundar, em 1977, o Green Belt Movement, movimento que já plantou dezenas de milhões de árvores no Quênia e inspirou campanhas semelhantes em outros países africanos, trabalho que lhe renderia, em 2004, o Prêmio Nobel da Paz. Maathai costumava resumir sua filosofia com a fábula do beija-flor que, sozinho, carrega gota de água após gota de água para apagar um incêndio florestal enquanto os animais maiores apenas assistem paralisados: pequeno demais para resolver o problema todo, mas grande o suficiente para fazer a sua parte.

Essa é a peça que faltava para entender por completo o valor de um bebedouro cheio e um punhado de alpiste numa sacada de décimo quarto andar. Não é sentimentalismo de quem tem tempo livre. É, em escala minúscula, o mesmo gesto de Maathai: garantir que ainda exista água, comida e abrigo suficientes para que um pássaro decida, de vez em quando, fazer uma escala ali antes de seguir viagem. O silêncio que Maathai encontrou ao voltar para casa é o que está em jogo, em miniatura, toda vez que alguém decide manter ou não um vaso de flores, um pires de água, um punhado de sementes à disposição de quem passa voando.

VI

O Dom Que Não Se Agenda

Fechamento

A cafeteira já tinha esfriado havia tempo quando o canto voltou a cortar o ar, numa dessas manhãs raras em que Pavarotti decidia aparecer. A pessoa na sacada não sabia, e talvez nunca soubesse, quantas outras sacadas aquele mesmo pássaro visitava, nem quanto tempo ainda teria disponível antes que a cidade engolisse mais uma árvore, mais um quintal, mais um pedaço do caminho que ele usava para ir e vir. Sabia apenas que, naquele instante específico, o dom tinha chegado de novo sem avisar, e que a única resposta possível era parar tudo e escutar até o fim, porque um dom que não se agenda também não se recupera depois, se alguém deixar passar.

Nenhum canto avisa antes de chegar, por isso ninguém tem o direito de perdê-lo distraído.
O sabiá de Coimbra, o uguisu do Japão e o canário da sacada cantam a mesma coisa em línguas diferentes.
Manter água e semente à disposição é a única forma humana de dizer obrigado de volta.
Quando o dom aparecer de novo, solte o que estiver nas mãos e escute até o fim.

Dedicatória

A quem já largou o café na mesa só para não perder um canto que não avisa quando volta.

Ainda na sacada, escutando, Santos Moisés.

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I · Pavarotti Não Vem Todo Dia
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