Polis · Fortaleza · Escrito CLV

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Vamos Para a PI?

Um abraço à Praia de Iracema, entre o mar, a ponte e a mesa de quem fica

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Aba I

Abertura e I · A mesa e o nome que chegou depois

Aba II

II · A ruptura: porto, mar e ponte

Aba III

III · Quem usa o chão, de Milton Santos à torre de Leonilson

Aba IV

IV · Quem olha pela rua, com Jane Jacobs

Aba V

V e VI · A infraestrutura de cuidado e o abraço

A brisa mexe no pelo de dois cachorros sentados nas cadeiras vizinhas, e a mão chega ao tablet antes do pensamento. Na mesa de plástico, um copo suado deixa um círculo molhado, e o círculo cresce devagar, como se o fim da tarde também precisasse de espaço para existir.

Duas árvores grandes cobrem a mesa. No começo da noite, os pássaros chegam todos ao mesmo tempo, e as copas viram uma sinfonia sem maestro, cada voz entrando quando quer, até o conjunto parecer combinado. Os cachorros levantam as orelhas e depois se acomodam. Estão ali pela brisa e pelo movimento, e parecem entender melhor que muita gente por que se vem a este lugar.

Quem escreve ali não escolheu a mesa por causa da vista. Chegou, sentou, e o corpo reconheceu o lugar antes de qualquer explicação. Talvez tenha sido o cheiro de sal misturado com fritura, o barulho de uma cadeira arrastada, ou a maneira como o mar aparece entre uma construção e outra, como se a cidade, por alguns metros, desistisse de esconder o horizonte.

Passa um menino com a prancha debaixo do braço. Passa um casal sem pressa. Passa um homem que vende água gelada e conhece o nome de quem nunca lhe disse o próprio. Numa mesa vizinha, alguém ri alto. Uma música começa num bar e atravessa a rua sem pedir licença.

Há bairros que a gente visita. Há bairros que a gente atravessa. E há bairros que, depois de algum tempo, começam a atravessar a gente.

A mesa de plástico continua ali, leve e sem pretensão, e o círculo do copo seca aos poucos. Diante dela, o mar faz o que sempre fez: não explica nada e não vai embora.

I

O Nome Que Chegou Depois

Sobre o nome da praia, a mesa e a diferença entre lugar e espaço, com Yi-Fu Tuan

A mesa fica na Praia de Iracema, e o nome, que hoje parece ter estado ali desde sempre, chegou tarde.

Antes dele, a faixa de areia teve outros. Praia dos Amores, Praia Formosa, e o que durou mais: Praia do Peixe. Esse dizia o essencial. Ali viviam pescadores em casas de taipa, as jangadas descansavam na areia como bichos cansados, e o mar era ofício antes de ser paisagem.

Fortaleza inventou Iracema; o bairro a fez vizinha.

Na década de 1920, um comerciante pernambucano chamado José Magalhães Porto fez uma aposta que os colegas achavam errada. Construiu uma casa de frente para o mar, num trecho sem vizinhança, com a primeira piscina do tipo na cidade. Chamou a casa de Vila Morena. Fortaleza olhava o litoral como quem olha o quintal dos fundos, e ele o olhou como quem olha uma varanda.

Em 1925, um concurso da revista Ceará Ilustrado, por iniciativa da jornalista Adília de Albuquerque, trocou o nome do lugar, e Magalhães Porto também se empenhou na troca. Escolheu-se Iracema, a personagem de José de Alencar, a mulher indígena que o romance de 1865 inventou para contar uma origem do Ceará feita de amor, violência e colonização.

Há uma ironia delicada nessa história. O litoral já existia, com seus pescadores, antes de a literatura lhe oferecer uma forma. O nome novo veio de um livro, de um homem, de um século que não era o deles. Uma jornalista propôs o concurso, uma personagem ganhou o bairro, e os pescadores ficaram com o trabalho de continuar pescando.

Mas a personagem fez uma coisa que talvez Alencar não previsse. Saiu do livro. Passou a andar pela cidade, em estátuas, em nomes de rua, em fotografias, em lembranças de infância, na boca de quem pergunta "vamos para a PI?", o apelido carinhoso que mora em lembranças de infância. Quem diz isso não está pedindo um endereço, está oferecendo um jeito de estar. Toda cidade inventa personagens para explicar a si mesma. Fortaleza inventou Iracema, e o bairro precisou transformá-la em vizinha.

O bairro tem 37 hectares, o terceiro menor de Fortaleza. Cabe numa caminhada de uma hora e não cabe numa vida inteira.

O geógrafo Yi-Fu Tuan nasceu em 1930 em Tianjin, cidade portuária do norte da China, e passou a vida perguntando como um pedaço de mundo vira casa. Filho de um diplomata, mudou tanto de endereço que mais tarde se descreveu como cosmopolita, e talvez venha dessa vida sem chão fixo a precisão com que escreveu sobre o chão. Em Topophilia, de 1974, olhou para os laços afetivos entre as pessoas e os lugares. Em Space and Place, de 1977, chegou a uma ideia simples e dura: o lugar é segurança, o espaço é liberdade, e a gente se prende a um enquanto sente falta do outro.

Sentado diante daquela mesa, dá para entender a frase com o corpo. A mesa é o lugar: o plástico leve, o copo, o tablet, os cachorros nas cadeiras, o garçom que sabe o que você vai pedir. O mar é o espaço: aberto, sem dono, sem resposta. A Praia de Iracema funciona porque deixa os dois se tocarem. Quem vem do mar precisa de uma mesa. Quem está na mesa precisa de um mar. O resto do bairro, de certo modo, é a conversa entre os dois.

II

A Maré Que Não Pediu Licença

Sobre o porto que saiu, o mar que cobrou e o que tombar quer dizer

Nenhum lugar fica bonito sem ter sido ameaçado.

A ponte que muitos fortalezenses chamam de Ponte dos Ingleses, de Ponte Metálica ou de Ponte Velha começou a ser construída em 1920 e foi pensada para avançar cerca de 800 metros sobre o mar. Seria o porto moderno que a cidade queria ser. Nunca funcionou como porto. O porto foi para o Mucuripe, e a ponte ficou comprida e inútil para o comércio, e foi se tornando útil para todo o resto: pesca, espera, fotografia, beijo, pôr do sol, o lugar de olhar o mar sem precisar explicar o que se procurava. Virou uma varanda comprida para a cidade.

Só que o porto no Mucuripe cobrou o preço de quem ficou para trás. O espigão construído lá acumulou areia do outro lado, e a Praia de Iracema, sem a areia que o mar costumava trazer, passou a ser corroída. Nas décadas seguintes, o mar levou construções, uma depois da outra. O bairro que nascera como lugar de veraneio viu o chão diminuir.

Tombar protege o que está de pé e confessa o medo da queda.

Veio a decadência, que durou até os anos 1980. A Vila Morena, que abrigou tropas americanas na Segunda Guerra, virou em 1948 o restaurante Estoril, casa de shows e reduto de músicos e intelectuais. Parte dela desabou depois de uma chuva forte e foi reconstruída em 1994. Uma lei municipal a tombou em 1986, e a ponte foi tombada em 1989. Tombar é um verbo bonito e ambíguo: protege o que está de pé e anuncia que alguém teve medo de vê-lo cair.

Nos anos 1990, a boemia voltou com bares, arte de rua e movimentos culturais, e o bairro reaprendeu a receber gente. Em janeiro de 2018, a ponte foi interditada. Em março, uma ressaca destruiu o que restava dela e arrancou dos pilares uma escultura que a cidade já tratava como sua. Em 2024, um prédio que muita gente tomava por marca da paisagem, o antigo Iracema Plaza Hotel, o Edifício São Pedro, começou a ser demolido, e Fortaleza discutiu o que se perde quando uma paisagem cai.

A ruptura da Praia de Iracema não é um acontecimento. É um hábito. O mar tira, a obra tira, o tempo tira, e algumas vezes alguém devolve. O lugar aprendeu, antes da maioria dos seus moradores, que existir à beira da água é aceitar a possibilidade de ser levado.

Isso muda o jeito de sentar à mesa. Quem conhece essa história sabe que o chão onde a mesa se apoia é um acordo provisório com o mar, e que acordos provisórios pedem cuidado.

III

Quem Usa o Chão

Sobre território usado, nomes inventados e as obras que a praia guarda, com Milton Santos

Milton Santos nasceu em 1926 em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, filho de professores primários. Foi preso depois do golpe de 1964, passou anos no exterior e só voltou ao Brasil em 1976. Em 1994, tornou-se o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud, que costumam chamar de Nobel da Geografia. Entre as ideias que deixou, uma serve de lanterna para esta praia: a de território usado. Para ele, o território não é a linha que alguém traçou no mapa, de longe. É o chão que existe porque alguém o usa, com trabalho, memória, conflito e festa. Um território que ninguém usa é só desenho.

A Praia de Iracema é território usado até o osso.

Na Praia dos Crushs, uma geração olhou para um trecho de areia e decidiu que dali em diante aquele lugar também seria conhecido pelo jeito como a gente se encontra. Durante séculos, as cidades foram batizadas por autoridades, santos, proprietários e escrivães. Uma juventude resolveu nomear por conta própria, e o nome pegou. Parece leve, mas guarda uma pequena declaração política: nós também sabemos dar nome ao lugar. Ali cabem os que namoram, os que observam, os que só vão porque os amigos estão lá, e os que não têm crush nenhum e gostam do barulho dos outros.

No ponto que chamam de Havaiano, ou Havaizinho, nome que pertence mais à boca de quem frequenta do que a qualquer mapa, os surfistas esperam a onda. O surf ensina uma humildade específica: você não ordena que o mar entregue a onda. Observa, espera, posiciona o corpo, aceita que a melhor onda pode passar sem você e tenta de novo. É uma inteligência que dispensa explicar seus métodos. Na areia, cada tribo cria seus sinais: um gesto de mão, uma prancha apoiada no chão, um horário de maré, um banco onde alguém sempre senta.

O nome de um lugar também se conquista.

E houve quem usasse o chão com as mãos.

Sérvulo Esmeraldo, nascido no Crato em 1929, concebeu em 1994 a La Femme Bateau, escultura cinética de fibra de vidro e aço inox: uma mulher que parece embarcação e uma embarcação que parece mulher. Ele a imaginava como alguém que nos conduz com segurança, fantasia, coragem e esperança. Ficou nos pilares da ponte por quase três décadas, até a ressaca de março de 2018 arrancá-la. Voltou em 24 de junho de 2024, depois de mais de seis anos, restaurada. Perto de completar um ano de volta, teve o movimento comprometido por vandalismo, segundo o instituto que cuida da obra. A cidade soube de novo que permanecer não significa estar a salvo. Toda cidade portuária conhece gente que é porto e gente que é partida, e há corpos capazes de ser as duas coisas. Às vezes, permanecer é voltar diferente.

Perto da orla há uma torre que muita gente conhece como Caixa d'Água dos Peixinhos, a Torre da Praia. A obra é de Leonilson, nascido em Fortaleza em 1957 e levado para São Paulo aos quatro anos. Numa estadia breve na terra natal, em 1984, ele revestiu a caixa d'água com pedras portuguesas. É a única obra pública que deixou na cidade. Para o resto do mundo deixou muito mais: cerca de 3.400 trabalhos, catalogados em três volumes em 2017, e obras no MoMA, na Tate Modern e no Centro Pompidou. Fez da carência e do afeto a matéria da obra e morreu aos 36 anos. A torre guarda água e recebe o mosaico sem abandonar a utilidade para virar arte e sem recusar a arte por continuar sendo caixa d'água. Leonilson entendia que a vida interior não precisa de uma sala separada da vida comum. Uma torre pode guardar água, e uma torre também pode guardar uma cidade, que passa diante dela por anos sem enxergar.

No Aterro, está a Iracema Guardiã. Zenon Barreto, nascido em Sobral em 1918, projetou a escultura nos anos 1960, para o centenário do romance de Alencar. Ela só foi inaugurada em 1996, como Iracema, quando o bairro completava 25 anos pelas contas da prefeitura. Em 2002, depois da morte do artista, foi reinaugurada como Iracema Guardiã. Já perdeu o arco e as mãos em atos de vandalismo, já saiu do lugar para restauro, e em 3 de maio de 2022 tombou do pedestal. Voltou em 11 de julho, depois de dois meses de reparos acompanhados pela família do artista. Chamam-na guardiã, mas ela não guarda o bairro sozinha. Guardam também os pescadores que ainda lembram a Praia do Peixe, quem varre a calçada, quem abre os bares, quem sabe a hora em que o vento vira. A estátua é o símbolo. A guarda é de gente.

Diante do Aterro, em frente a uma farmácia, o artesão Edismar Arruda inaugurou em 2024 um São Francisco de Assis feito de sucata automotiva e metais reaproveitados, com lobo, carneiro e pomba por perto. Um metal que carregou velocidade passa a carregar um santo. A peça fica entre carros e entregadores, sem o silêncio de um museu, e quem passa não pergunta o que ela significa. Desacelera. Às vezes uma experiência estética começa assim, com um passo que deixa de ser automático. A cidade que aprendeu a dar corpo ao que sobrou do descarte talvez possa aprender a não descartar as suas pessoas.

IV

Quem Olha Pela Rua

Sobre escala, olhos na rua e a pergunta de para quem se constrói, com Jane Jacobs

Em 1961, Jane Jacobs, moradora de Greenwich Village, em Nova York, publicou um livro que irritou muita gente com diploma. Escrevia da janela de casa, na Hudson Street, e tinha reparado numa coisa que os planejadores da época preferiam não ver: uma rua é viva e segura quando há gente que olha por ela. Lojistas, moradores, quem passa, quem fica na porta, quem observa da janela. Chamou isso de olhos da rua, e descreveu a calçada como um balé sem coreógrafo, feito de pequenos gestos repetidos por pessoas que não se conhecem. Mais tarde, ao lado dos vizinhos, enfrentou projetos de grandes vias expressas que, em nome do progresso, cortariam bairros ao meio.

O livro se chama The Death and Life of Great American Cities, e a pergunta que deixa é simples: quem olha pela rua quando o espetáculo vai embora?

A Praia de Iracema vive dessa pergunta. O Aterro recebe multidões: o palco, os cabos atravessando a paisagem, os vendedores ocupando suas posições antes de todo mundo, a cidade reunida diante do mar para assistir a algo maior que ela mesma. Shows, festivais, Réveillon. A praia que de dia é horizonte vira plateia. O Aterrinho, menor e mais perto do corpo, tem outra escala. O Aterro mostra a capacidade de Fortaleza de se reunir. O Aterrinho lembra que reunir não é amontoar. Há uma política do tamanho: momentos em que a cidade precisa de milhares cantando a mesma música, momentos em que precisa de uma roda pequena, de uma feira, de uma conversa que não sobreviveria ao barulho. O bairro abriga a multidão e a mesa, e a dificuldade está em não deixar uma engolir a outra.

Beleza que depende de invisíveis ainda é dívida.

Jacobs diria que a boa escala é a que mantém olhos na rua depois que a última luz se apaga. Quem monta o palco, quem limpa depois, quem vende água, quem orienta o trânsito, quem fica de olho numa criança perdida, quem volta para casa quando tudo acaba. Nenhuma cidade é feita só de quem aparece no palco.

O bairro também se observa. Do alto dos espigões, no sentido que a gíria dá à palavra, os prédios, vê-se o que a praia esconde de quem está dentro dela: o litoral não é uma linha natural intocada. Foi feito, e continua sendo feito, por decisões humanas. O espigão do porto que mudou o fluxo da areia, as obras que tentam proteger a orla, as torres que sobem em concreto e vidro. Cada obra que avança sobre o mar carrega uma promessa: mais proteção, mais turismo, mais mobilidade, mais beleza. E cada promessa precisa ser perguntada. Para quem? Por quanto tempo? Com o custo de quê?

Colado a essa praia que se reinventa fica o Poço da Draga, comunidade ligada à história do litoral, da pesca e do trabalho, o tipo de permanência que o planejamento urbano costuma chamar de problema quando não sabe chamar de memória. Seria fácil falar do bairro só como cenário boêmio e cultural. Não dá. A beleza de uma paisagem não absolve a desigualdade que existe dentro dela. O mesmo mar que oferece pôr do sol oferece trabalho precário. O mesmo calçadão que recebe a festa passa ao lado de casas ameaçadas e de histórias que o folheto não conta. Um evento gratuito pode ser generoso e ainda assim criar uma economia que não alcança todos. A cultura pode abrir portas e, se não cuidar, ajudar a construir novas exclusões.

Uma Polis não é guia turístico. É a tentativa de escutar as forças que fazem um lugar ser o que é. A Praia de Iracema é festa e disputa, patrimônio e abandono, investimento e deslocamento, encontro e vigilância, memória e esquecimento. O bairro é bonito e não é inocente. Amar uma cidade talvez seja querer que a sua beleza não dependa da invisibilidade de ninguém.

V

A Infraestrutura Que Não Está no Cardápio

Sobre a infraestrutura feita de gente e a hospitalidade, com AbdouMaliq Simone

AbdouMaliq Simone, sociólogo que estudou cidades africanas de Douala a Cartum, publicou em 2004 um ensaio cujo título virou ideia: pessoas como infraestrutura. O centro de Joanesburgo, tomado por muita gente como lugar de ruínas e de urbanização fracassada, escondia, segundo ele, outra coisa. Uma infraestrutura feita de gente. Colaborações às vezes precárias, às vezes improvisadas, que sustentavam a vida de uma cidade onde o cimento e os cabos já não davam conta. Para Simone, infraestrutura não é só tubo, estrada e fio. É também o que as pessoas fazem juntas para que a vida aconteça.

Na mesa do começo, o entardecer chega com essa infraestrutura. O copo que vem na hora certa, a mesa guardada, a pergunta simples, o cumprimento de quem reconhece quem volta.

Hospitalidade é a infraestrutura que ninguém vê.

O Mincharia fica ali, diante do mar, e leva o apelido do seu fundador, que já não está entre nós. O bar segue chamando por ele todos os dias, em cada pedido anotado e em cada mesa posta. Foi nas suas mesas que muitos destes escritos acharam a primeira frase. Foram digitados no tablet, de frente para a água, com Bob e Betty sentados nas outras cadeiras, dividindo a brisa e o movimento. Antes de virarem texto, foram conversa, perguntas deixadas sobre a mesa, olhares para quem passava, silêncios em que o mar trabalhava dentro da gente. João e Helinho são garçons, mas a palavra é pequena para o que fazem. Conhecem rostos, horários, pedidos repetidos e a diferença entre quem apenas senta e quem encontrou ali um lugar para ficar. Fazem parte da arquitetura invisível de cuidados que existe por trás de toda obra e que os livros costumam esquecer de registrar. Os livros dizem o autor, o título, a data, a editora. Não dizem quem trouxe o primeiro café, quem respeitou um silêncio, quem percebeu que aquela pessoa ainda não queria ir embora.

Simone talvez chamasse isso de infraestrutura. Eu chamo de hospitalidade, e acho que as duas palavras dizem a mesma coisa. Uma cidade se mantém de pé porque há gente que sustenta o que ninguém vê. Quem monta o palco, quem vende água, quem limpa a areia na manhã seguinte, quem abre o bar, quem fica. Quando a cidade esquece essas pessoas, ainda tem calçada, mas perde a infraestrutura.

Há histórias da Praia de Iracema que nunca entraram em arquivo, porque não pareciam importantes quando aconteceram. O primeiro beijo atrás de uma coluna da ponte. O pescador que conhecia a maré pelo cheiro. A criança que achava que a Iracema de fibra de vidro protegia o bairro durante a noite. O artista que viu um animal dentro de um pedaço de ferro jogado fora. O surfista que caiu tantas vezes que passou a chamar o mar de professor. O vendedor que conheceu três gerações de frequentadores pelo nome. O casal que foi ao Aterro ver um show e voltou com uma decisão para a vida inteira. A pessoa que sentou sozinha no calçadão e, sem falar com ninguém, deixou de se sentir completamente só.

Nenhuma precisa ser monumental para ser verdadeira. O que não é registrado não deixa de ter existido. A memória do bairro está nos decretos de tombamento, claro, mas também no dedo que aponta um canto e diz: foi ali.

Duas palavras podem conter uma vida inteira.

VI

Um Abraço Com Areia

Sobre o abraço, a dívida e o que se faz com um lugar que nos acolheu

Praia de Iracema, eu queria te abraçar sem te apertar.

Queria lembrar José de Alencar sem esquecer os pescadores que vieram antes do nome. Queria olhar a Iracema de fibra de vidro sem esquecer as mulheres reais que a literatura apagou para inventar uma origem. Queria admirar Zenon Barreto, Sérvulo Esmeraldo, Leonilson e Edismar Arruda sem transformar suas obras em pontos de selfie que se esquecem na saída.

Queria que a mulher-barco de Sérvulo enfrentasse o mar sem que a cidade tomasse a resistência dela por licença para o descuido. Queria que o Estoril continuasse casa de muitas épocas sem virar casa onde só alguns entram. Queria que a Rua dos Tabajaras continuasse boêmia e também habitável, que a Praia dos Crushs continuasse jovem sem expulsar quem envelheceu nela, que o Aterro recebesse milhares sem esquecer os poucos, que o Aterrinho guardasse a intimidade de uma cidade que sabe celebrar sem transformar tudo em espetáculo.

Queria que o Poço da Draga não fosse lembrado só quando a programação cultural precisasse de uma história pitoresca. Queria que os moradores fossem reconhecidos como parte da paisagem antes que alguém os chamasse de obstáculo. Queria que João e Helinho soubessem que a hospitalidade deles entrou nestes escritos como presença real, e não como personagem inventado.

Porque um bairro não está vivo só quando recebe visitantes. Está vivo quando consegue manter quem mora nele.

Amar um lugar é pagar o que se deve a ele.

No fim da tarde, quando o mar escurece devagar, a mesa continua ali. O círculo molhado do copo secou há muito tempo, e a mesa de plástico segue ali, pronta para a próxima conversa. Só quem sentou conhece o que ela já ouviu. O que você faz com um lugar que lhe ensinou a sentir pertencimento? Fotografa e guarda para si? Consome até que perca a forma? Defende só quando ele vira símbolo? Ama como paisagem, ou como responsabilidade?

Tuan dizia que o lugar é segurança e o espaço é liberdade. A Praia de Iracema devolve as duas e cobra uma coisa em troca: quem recebe segurança de um lugar fica devendo a ele o cuidado.

Este texto é um abraço. Não o de quem chega para explicar. O de quem reconhece em ti uma parte da própria vida. Um abraço com areia, vento, memória e dívida. Porque há lugares que nos oferecem tanto que a única maneira honesta de amá-los é perguntar como ajudá-los a continuar sendo de todos.

Nota. Havaiano e Praia dos Crushs são nomes da memória de quem frequenta o lugar, sem registro oficial único. Os fatos e as datas vêm de reportagens e de documentos públicos.

Deixa a mesa onde está.
O mar já conhece o caminho,
e quem fica aprende a ser lugar
enquanto quem parte aprende a ser vento.

Se a maré levar o que a gente ergueu,
que leve a vaidade e devolva a pedra.
E se voltar a mulher de aço,
que encontre a calçada varrida,
a mesa posta, o copo na hora
e alguém dizendo "foi ali",
com o dedo apontando para o que ficou.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a João e Helinho, que seguram a mesa, e a quem ainda mora na Praia de Iracema.

Ainda à mesa diante do mar, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura e I · A mesa e o nome que chegou depois
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