Escólio · Poesia · Escrito CXXXVII
Quem Aplaude Primeiro
Um escólio sobre um poema curto de Paulo Leminski, e as duas vozes internas que nunca concordam sobre o valor do que se acabou de fazer
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Aba I
Abertura e I · O poema, e quem foi Paulo Leminski
Aba II
II e III · Obra e importância, e o samurai malandro
Aba III
IV e V · O efeito Dunning-Kruger, e o fechamento
O traço final ainda estava fresco no papel quando as duas vozes começaram a discutir dentro da mesma cabeça. Uma delas, ríspida, mal deixou a tinta secar para apontar cada linha torta, cada palavra fácil demais, cada verso que merecia ter sido riscado antes de nascer. A outra, quase ao mesmo tempo, já batia palmas: pronto, acabou, é isso, ninguém vai fazer melhor, guarda numa moldura.
A pessoa que segurava a folha não conseguia decidir em qual das duas vozes confiar, e talvez essa fosse exatamente a questão errada a se fazer. Nenhuma pausa longa separava o desprezo do aplauso. Elas chegavam juntas, quase coladas, como se fossem, no fundo, uma coisa só fingindo ser duas. Nem sequer era a primeira vez que aquilo acontecia. Toda vez que alguma coisa ficava pronta, ali estavam as duas, pontuais, como se tivessem hora marcada.
I
O Polaco Mulato de Curitiba
Sobre o poema Poesia:1970, e os primeiros anos de Paulo Leminski
Esse pequeno tribunal interno, instalado dentro de qualquer pessoa no instante exato em que termina alguma coisa, é o assunto de um poema curto e afiado escrito por Paulo Leminski Filho, publicado sob o título Poesia:1970. Em poucos versos, o poema descreve exatamente essa cena: alguém termina um rascunho qualquer, e uma parte de si mesmo, parte que a pessoa reconhece não gostar muito, mas que segue presente mesmo assim, declara aquilo imediatamente perfeito, definitivo, incapaz de melhora, um clássico antes mesmo de esfriar.
Leminski nasceu em Curitiba, no Paraná, em 24 de agosto de 1944, filho de um militar de origem polonesa e de uma mãe de ascendência portuguesa, negra e indígena. Ele próprio gostava de resumir essa mistura com apelidos que inventava para si mesmo, como polaco mulato de Curitiba ou polaco loco. Aos doze anos, foi morar no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde estudou latim, teologia, filosofia e literatura clássica ao lado dos monges beneditinos. Deixou o mosteiro em 1963, e, no mesmo ano, participou da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda em Belo Horizonte, onde conheceu Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, os três criadores da poesia concreta brasileira, movimento que marcaria profundamente sua formação como escritor.
Em 1964, ainda com vinte anos, publicou seus primeiros poemas na revista Invenção, porta-voz oficial do movimento concretista paulista. Chegou a iniciar cursos de Letras e de Direito, mas nunca terminou nenhum dos dois formalmente, o que não o impediria, poucos anos depois, de se tornar um dos escritores mais eruditos e ao mesmo tempo mais populares de sua geração, um contraste que ele parecia cultivar de propósito, como quem recusa escolher entre a biblioteca e a rua.
II
Dezenove Livros de Poesia
Sobre a obra e a importância de Leminski na literatura brasileira
A obra que Leminski deixaria, ao longo de pouco mais de duas décadas de produção, é difícil de resumir em qualquer rótulo único. Começou dialogando de perto com os concretistas, atravessou depois a efervescência tropicalista, e acabou sendo reclamado, décadas mais tarde, pela crítica que passou a chamá-lo de poeta da poesia marginal, embora ele próprio nunca tenha se prendido totalmente a nenhuma dessas etiquetas. Escreveu letras de música em parceria com Caetano Veloso, Itamar Assumpção e o grupo A Cor do Som, e trabalhou como tradutor direto do inglês, francês e japonês, assinando versões brasileiras de James Joyce, Samuel Beckett, Yukio Mishima, Alfred Jarry e do clássico latino Satíricon, de Petrônio.
Sua estreia em livro veio com Catatau, publicado por conta própria em 1976, prosa experimental tão radical no uso da linguagem que boa parte da crítica da época simplesmente não soube como classificá-la, rendendo ao autor a fama de escritor maldito antes mesmo de completar trinta e dois anos. Foi só com Caprichos e Relaxos, de 1983, que Leminski alcançaria maior alcance de público, reunindo boa parte da poesia dispersa escrita até ali em pequenas edições artesanais, muitas delas financiadas e distribuídas pelo próprio autor, o que ajuda a explicar por que tanta coisa que ele escreveu circulou, durante anos, quase exclusivamente entre leitores dispostos a procurar.
Além da poesia, assinou biografias de figuras tão distintas quanto o poeta simbolista Cruz e Souza, o revolucionário russo Trotsky, o poeta japonês Bashô e até uma biografia não convencional de Jesus Cristo. Ao todo, produziu dezenove livros de poesia, cinco de prosa, onze biografias, além de traduções, textos jornalísticos e composições musicais, escrevendo fluentemente, segundo relatos de biógrafos, em oito idiomas além do português: latim, grego, francês, inglês, espanhol, japonês, italiano e hebraico. Trabalhou também, por período considerável, como diretor de criação em agências de publicidade, experiência que ele mesmo reconhecia ter lhe ensinado lições de síntese e economia de linguagem que depois aplicaria, deliberadamente, à própria poesia.
Morreu em Curitiba, na mesma cidade onde nasceu, em 7 de junho de 1989, aos quarenta e quatro anos, vítima de uma cirrose hepática que o acompanhava havia anos. A obra, longe de esmaecer com sua morte precoce, só cresceu depois dela: o volume Toda Poesia, publicado postumamente pela Companhia das Letras em 2013, reunindo toda sua produção poética, já vendeu mais de duzentos mil exemplares, número extraordinário para um livro de poesia no Brasil, e hoje existem mais de cento e trinta trabalhos acadêmicos catalogados pela Capes dedicados a estudar sua obra, entre dissertações e teses.
O reconhecimento também se espalhou fora dos limites do livro e da universidade. Versos de Leminski aparecem hoje pichados em muros de diversas cidades brasileiras, especialmente em Curitiba, onde ruas, escolas e praças já receberam seu nome. Frases suas circulam soltas em redes sociais, muitas vezes sem crédito nenhum, o que talvez seja, ironicamente, a maior prova possível de que um verso realmente virou, na prática, o clássico instantâneo que o próprio poema deste escólio satiriza com tanta pontaria.
Um poeta que produziu tanto, em tantas frentes diferentes, dificilmente teria conseguido isso se tivesse parado, a cada rascunho, para ouvir só a voz que despreza.
III
O Samurai Malandro
Sobre o zen-budismo, Bashô, e a ironia escondida no apelido de Leminski
Parte considerável dessa formação incomum vinha de uma fascinação antiga e sincera por tudo que fosse japonês. Leminski estudou zen-budismo, escreveu haicais ao longo de toda a vida e chegou a assinar uma biografia inteira dedicada a Matsuo Bashô, o maior poeta de haicai da história japonesa, morto em 1694 depois de passar boa parte da vida adulta viajando a pé pelas províncias mais remotas do Japão em busca do instante poético exato. Leminski praticou judô com seriedade suficiente para alcançar faixa-preta, e essa combinação entre precisão oriental e irreverência tropical rendeu-lhe, da crítica literária Leyla Perrone-Moisés, o apelido que ficaria colado ao seu nome: samurai malandro.
A tradição do haikai que Bashô consolidou, e que Leminski estudou de perto o suficiente para escrever um livro inteiro sobre ela, tinha como um de seus princípios centrais a busca incansável pelo que os japoneses chamavam de instante poético, uma economia de linguagem tão extrema que cada palavra precisava justificar sua própria existência no verso. Essa disciplina não nasce de um único rascunho aplaudido de imediato. Nasce, ao contrário, de uma vida inteira de revisão, de comparação entre versões, de aceitar que a maioria das primeiras tentativas simplesmente não está pronta ainda.
Há uma ironia interessante escondida nesse detalhe biográfico, quando posta ao lado do poema que abre este escólio. A tradição zen que Leminski tanto estudou despreza justamente o tipo de julgamento apressado que o poema satiriza: nenhum mestre de caligrafia japonesa declara um único traço definitivo e insuperável assim que a tinta seca. O caminho zen valoriza a repetição, o retorno ao mesmo gesto milhares de vezes, sem nunca declarar vitória cedo demais. O próprio samurai malandro, então, parecia carregar dentro de si as duas vozes que o poema descreve: a disciplina oriental que pede paciência infinita, e a voz interna apressada, tropical, ansiosa por já bater palmas para o rascunho ainda quente.
IV
A Ignorância Que Não Se Percebe
Sobre o efeito Dunning-Kruger, e a ciência que explica o poema de fora
Do outro lado do mundo, décadas depois de Leminski escrever esses versos, dois psicólogos americanos, David Dunning e Justin Kruger, publicariam em 1999 um estudo que, sem nenhuma intenção literária, explicaria com surpreendente precisão científica o mecanismo que o poema já tinha flagrado em poucas linhas. O que ficou conhecido como efeito Dunning-Kruger mostra que pessoas com menos competência real numa determinada tarefa tendem, de forma sistemática, a superestimar a própria qualidade naquela mesma tarefa, precisamente porque a habilidade necessária para produzir algo bom é a mesma habilidade necessária para reconhecer o que é ruim.
A pesquisa original, conduzida na Universidade Cornell, testou participantes em tarefas de raciocínio lógico, gramática e senso de humor, e comparou a nota real de cada um com a nota que cada um estimava ter tirado. O padrão se repetiu em todos os testes: quem ficava nos percentis mais baixos de desempenho real era, consistentemente, quem mais superestimava a própria posição, muitas vezes se colocando acima da média quando, na realidade, estava bem abaixo dela. Dunning resumiria o achado de um jeito que poderia funcionar como legenda direta para o poema de Leminski: a mesma ignorância que produz respostas erradas também impede a pessoa de perceber que errou.
Aplicado ao poema, o achado de Dunning e Kruger ilumina de fora exatamente aquilo que o eu lírico descreve de dentro, com humor e amargor ao mesmo tempo: a voz interna que se apressa em declarar um rascunho perfeito não é, necessariamente, a parte mais sábia de quem escreve. Pode ser, ao contrário, exatamente a parte menos equipada para perceber onde o texto ainda falha, aplaudindo cedo demais só porque não enxerga longe o suficiente para notar o que falta.
Aplaudir cedo demais não é orgulho. É, muitas vezes, apenas não enxergar o suficiente para duvidar de si mesmo.
V
Quem Aplaude Primeiro
Fechamento
Nenhuma das duas vozes descritas no poema, então, merece confiança automática. A que despreza tudo sem exceção corre o risco de paralisar qualquer trabalho antes mesmo de ele nascer direito. A que aplaude cada rascunho como obra-prima corre o risco, documentado décadas depois em laboratório, de simplesmente não ter competência suficiente para perceber a diferença entre o que está pronto e o que ainda precisa de mais uma volta. Leminski parece ter passado a vida inteira, entre o mosteiro beneditino e o tatame de judô, entre o concretismo e a canção popular, negociando exatamente esse espaço incômodo entre as duas vozes, sem nunca deixar que uma delas vencesse a outra de vez.
Vale notar que essa negociação constante tinha um custo real, não apenas um valor poético abstrato. Produzir em tantas frentes ao mesmo tempo, sustentando também uma vida boêmia intensa que os biógrafos raramente escondem, cobrou um preço físico que a cirrose que o matou aos quarenta e quatro anos deixa bastante claro. A mesma energia que permitiu tanta obra também consumiu, mais depressa do que deveria, o corpo que a produzia.
Talvez a lição mais honesta que o poema deixa não seja escolher entre desprezar ou aplaudir o que se acabou de fazer, mas aprender a desconfiar igualmente dos dois impulsos, e voltar, sempre que possível, ao próprio texto, mais uma vez, com olhos que ainda não decidiram nada.
Nenhuma das duas vozes internas é juíza confiável do que se acabou de fazer.
Quem desprezou demais também pode estar errado, não só quem aplaudiu cedo.
A habilidade de fazer bem e a habilidade de reconhecer o bem nascem juntas, ou não nascem.
Antes de guardar o rascunho numa moldura, volte a ele mais uma vez, com outros olhos.
Dedicatória
A quem já aplaudiu o próprio rascunho cedo demais, e a quem nunca se permitiu aplaudir nenhum.
Ainda desconfiando das duas vozes, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?