Ensaio · Encontro · Escrito CXXXIX

CXXXIX

O Segundo Sol

Sobre um dia de sol raro em Curitiba, dois encontros inesperados, e o calor humano que funciona como uma segunda fonte de luz

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Aba I

Abertura e I · Curitiba, Dona Regina, e o motorista

Aba II

II e III · Norman Rosenthal sobre o transtorno afetivo sazonal, e o omotenashi japonês

Aba III

IV, V e VI · A teranga senegalesa, o homem cordial, e o fechamento

A previsão do dia anterior não deixava dúvida: céu encoberto, chance alta de garoa fina, temperatura mal saindo dos treze graus. Por isso a claridade que invadiu a rua logo cedo pegou todo mundo de surpresa, inclusive quem só estava de passagem ali havia poucas horas. O sol batia direto na pele com uma força quase estranha, como se tivesse escolhido justamente aquele dia, entre tantos outros nublados, para lembrar que ainda existia.

Quem caminhava pela cidade naquela manhã percebeu algo curioso acontecendo ao redor, difícil de separar do próprio clima: as pessoas pareciam mais soltas do que o esperado, puxando conversa sem necessidade nenhuma, sorrindo antes mesmo de qualquer motivo aparente para sorrir. Era como se o mesmo calor que esquentava o ar estivesse esquentando, também, alguma coisa por dentro de cada uma delas.

I

A Capital Mais Fria do Brasil

Sobre Curitiba, Dona Regina no Mercado Municipal, e o motorista a caminho do aeroporto

A cidade era Curitiba, oficialmente a capital mais fria do Brasil, situada a novecentos e trinta e quatro metros de altitude no Primeiro Planalto Paranaense, onde o clima subtropical de altitude rende à região fama nacional de reunir quatro estações do ano dentro de um único dia. Dias completamente ensolarados, sem qualquer ameaça de chuva fina ou neblina matinal, não são a regra por ali. São, antes, uma espécie de bônus inesperado que os próprios moradores aprendem a comemorar quando aparece.

Foi nesse dia de bônus que a conversa aconteceu com Dona Regina, dona de uma pequena loja de souvenirs dentro do Mercado Municipal de Curitiba. Ela recebeu quem entrava na loja com uma energia contagiante, puxando assunto sem cerimônia, o tipo de abertura espontânea que quem já tinha passado alguns dias na cidade sabia não ser exatamente comum por ali, onde a fama de reserva no trato pessoal acompanha a fama do frio. Falando de cada produto da lojinha com o cuidado de quem realmente acredita no que vende, Dona Regina demonstrava, no gesto miúdo de indicar um item ou sugerir outro, uma combinação rara de prontidão, propósito e empatia, como se cada visitante que entrava ali merecesse aquela atenção inteira, não apenas uma venda rápida.

A segunda cena aconteceu poucas horas depois, dentro de um carro de aplicativo a caminho do aeroporto. O motorista, que por lógica de estatística deveria ser apenas mais um rosto anônimo numa corrida qualquer, quebrou toda expectativa de silêncio educado que costuma preencher esse tipo de trajeto: quis saber de onde vinha o passageiro, comentou o sol raro daquele dia, perguntou sobre o calor do Ceará com curiosidade genuína, não protocolar. Num dia comum, talvez essas duas cenas passassem despercebidas, pequenas gentilezas que se esquecem no fim da tarde. Naquele dia específico, de sol raro numa cidade acostumada a céu fechado, as duas ficaram marcadas como parte do mesmo fenômeno.

A fama de reserva do curitibano não é invenção de quem visita a cidade só de passagem. Pesquisadores de comportamento regional costumam associar esse traço à forte presença de imigração europeia, sobretudo alemã, polonesa e italiana, que moldou hábitos sociais mais formais do que os observados em capitais do litoral ou do interior nordestino. A própria cidade carrega o apelido irônico de mais europeia das capitais brasileiras, e o clima frio parece reforçar, ano após ano, uma sociabilidade mais contida, de conversa medida e distância respeitosa entre desconhecidos. Justamente por isso, encontrar duas pessoas dispostas a atravessar essa distância no mesmo dia, sem combinar nada entre si, pareceu menos coincidência e mais sintoma de alguma coisa maior acontecendo no ar daquela manhã específica.

Um sol raro não muda só o termômetro. Muda, por algumas horas, o jeito como as pessoas escolhem se olhar.

II

O Sol Que Regula o Humor

Sobre Norman Rosenthal, e a descoberta do transtorno afetivo sazonal

Existe uma razão científica sólida para o sol, sozinho, já ser capaz de mudar o humor de tanta gente ao mesmo tempo, e o psiquiatra Norman Rosenthal ajudou a descrevê-la. Nascido na África do Sul, Rosenthal se mudou ainda jovem para Nova York, e notou algo estranho na própria disposição: durante os invernos curtos e escuros da cidade americana, sentia um cansaço e uma lentidão que não reconhecia em si mesmo nos verões, nem na infância ensolarada que tivera no hemisfério sul.

Trabalhando no Instituto Nacional de Saúde Mental americano, Rosenthal reuniu, ao longo dos anos oitenta, um grupo de pessoas que relatavam a mesma oscilação sazonal de humor, e publicou em 1984 o artigo que batizaria essa condição de Transtorno Afetivo Sazonal. A explicação biológica por trás do fenômeno envolve luz solar regulando diretamente o relógio interno do corpo: a exposição à luz, especialmente pela manhã, sinaliza ao cérebro para interromper a produção do hormônio do sono e liberar serotonina, neurotransmissor diretamente associado à sensação de bem-estar. Na ausência prolongada dessa luz, comum em dias nublados e no inverno, os níveis de serotonina despencam, e junto com eles a disposição, o apetite regulado, a vontade de conversa fácil que Curitiba tanto guarda para os dias raros de sol aberto.

O próprio Rosenthal resumiria a descoberta de um jeito simples: aquilo que muita gente até então tratava como simples melancolia de inverno, algo que todo mundo sentiria e deveria apenas aguentar em silêncio, era na verdade uma resposta biológica mensurável, tratável, e reversível assim que a luz voltasse a aparecer em quantidade suficiente.

Estudos posteriores ajudaram a mapear a extensão do fenômeno: estima-se que até três por cento da população em geral sofra algum grau de transtorno afetivo sazonal, número que sobe para próximo de dez por cento em regiões de latitude mais alta, onde o inverno reduz drasticamente as horas de luz solar disponíveis por dia. A fototerapia, tratamento à base de exposição controlada a luz branca intensa, tornou-se desde então uma das intervenções mais estudadas e mais eficazes para esses casos, replicando artificialmente o mesmo estímulo que um simples dia de sol aberto oferece de graça, sem consultório nem equipamento nenhum, a qualquer pessoa disposta a sair de casa.

III

Sem Frente Nem Verso

Sobre o omotenashi japonês, e a hospitalidade sem cálculo

No banco de trás daquele carro rumo ao aeroporto, a conversa espontânea do motorista ecoava, sem que ele soubesse, uma tradição japonesa com séculos de refinamento por trás: omotenashi, palavra que combina o verbo hospedar com a expressão sem frente nem verso, indicando hospitalidade oferecida sem cálculo, sem fachada, sem segunda intenção escondida atrás do gesto gentil.

A raiz do conceito remonta à cerimônia do chá japonesa, praticada desde o século doze, onde o anfitrião prepara cada detalhe diante do convidado, sem esconder nada do processo, numa demonstração deliberada de que não existe nada por trás daquela hospitalidade além da própria hospitalidade. O conceito ganhou projeção mundial em 2013, quando a jornalista Christel Takigawa encantou o Comitê Olímpico Internacional descrevendo omotenashi durante a candidatura de Tóquio para sediar os Jogos de 2020, apresentando a palavra como resumo de um traço cultural inteiro: antecipar a necessidade do outro antes mesmo que ele precise pedir, e fazer isso sem esperar nada de volta, nem gratidão especial, nem reconhecimento.

O motorista curitibano, evidentemente, nunca tinha ouvido essa palavra japonesa específica. Mas o gesto de puxar assunto sobre o sol e o calor de outra terra, só por genuíno interesse em quem estava sentado atrás, sem qualquer ganho previsível naquilo além da própria conversa, seguia exatamente o mesmo princípio, em outro idioma, do outro lado do mundo.

Hospitalidade sem cálculo não precisa de nome bonito para existir. Precisa só de alguém disposto a oferecê-la sem cobrar volta.

IV

Os Leões da Teranga

Sobre a hospitalidade senegalesa, e generosidade com desconhecidos

No Senegal, do outro lado do Atlântico, existe uma palavra que talvez explique melhor do que qualquer outra por que certas pessoas parecem geneticamente programadas para receber bem quem acaba de chegar. Teranga, termo da língua wolof, é descrita por antropólogos como o verdadeiro pilar da sociabilidade senegalesa, tão central que a seleção nacional de futebol carrega o apelido de Leões da Teranga, e tão presente no cotidiano que aparece pintada em muros de restaurantes e traseiras de ônibus por todo o país.

Teranga vai além de simples cortesia com visitantes. Envolve generosidade de espírito estendida até a completos desconhecidos, o hábito de compartilhar comida, tempo e atenção com quem está de passagem, criando a sensação de que a outra pessoa está ali, junto, no mesmo lugar, no mesmo instante, mesmo que só por aquela refeição ou aquela conversa breve. Viajantes que passam pelo Senegal costumam relatar a mesma experiência: ser puxado para dentro de uma casa na hora da refeição, ser servido com insistência mesmo depois de já estar satisfeito, sentir que recusar a gentilidade seria quase um desrespeito maior do que aceitá-la.

O paralelo com o Mercado Municipal de Curitiba não exige esforço nenhum para enxergar. Dona Regina não vendia souvenirs como quem cumpre expediente. Vendia como quem recebe visita em casa, oferecendo atenção que ultrapassava, de longe, qualquer cálculo comercial razoável para uma lojinha pequena num mercado movimentado.

V

O Homem Cordial

Sobre Sérgio Buarque de Holanda, e a diferença entre cordialidade e bondade

No Brasil, o historiador Sérgio Buarque de Holanda tentou, em 1936, dar nome sociológico a esse mesmo traço, num livro que se tornaria um dos mais discutidos da história intelectual do país: Raízes do Brasil. O capítulo mais comentado da obra, chamado O Homem Cordial, descreve uma tendência brasileira de recusar formalidade e buscar intimidade rápida nas relações sociais, preferindo o calor pessoal ao distanciamento educado que caracterizaria outras culturas.

Vale registrar uma ressalva importante que o próprio Sérgio Buarque fazia questão de esclarecer, e que boa parte das citações populares do livro costuma esquecer: cordial, na raiz latina da palavra, significa simplesmente relativo ao coração, cordis. Não é sinônimo automático de gentileza ou boa educação. Uma pessoa cordial pode manifestar tanto amizade quanto hostilidade, porque as duas nascem do mesmo lugar emocional, não calculado, não protocolar. A cordialidade brasileira, no sentido original do conceito, não garante bondade. Garante apenas que o sentimento, seja ele qual for, vai aparecer sem disfarce.

O que Dona Regina e o motorista ofereceram naquele dia específico, então, foi a cordialidade na sua versão mais generosa, a que sai do coração e escolhe, deliberadamente, se manifestar como acolhida em vez de indiferença. Ninguém os obrigava a puxar aquela conversa. Fizeram por escolha, no mesmo dia em que o sol também escolheu, por uma vez, aparecer sem aviso prévio.

VI

O Segundo Sol

Fechamento

Quem atravessou aquela manhã ensolarada em Curitiba não sabia, no momento exato de cada encontro, que estava testemunhando duas fontes de calor ao mesmo tempo, uma vinda literalmente do céu, outra vinda de dentro de duas pessoas que decidiram, sem obrigação nenhuma, tornar aquele dia um pouco mais quente do que precisava ser. A ciência de Rosenthal explica por que o sol de cima muda o humor de uma cidade inteira. Nenhuma ciência exatamente equivalente ainda explica por que algumas pessoas resolvem funcionar, elas mesmas, como um segundo sol, mesmo em meio à garoa mais renitente.

Talvez a resposta não precise de laboratório nenhum. Talvez baste reconhecer, no relato de qualquer viajante que atravessou uma cidade fria e saiu de lá aquecido, que o calor humano nunca dependeu do calor do tempo para existir. Só fica mais visível, mais grato, mais lembrado, quando aparece justamente no dia em que menos se esperava encontrá-lo.

O sol que aquece a pele e o sol que aquece por dentro raramente chegam no mesmo dia.
Quando os dois chegam juntos, o dia inteiro muda de temperatura, não só o termômetro.
Cordialidade não é o mesmo que bondade, mas pode escolher ser bondade, todo dia de novo.
Antes de reclamar do céu fechado, repare em quem decidiu ser o sol que faltava.

Dedicatória

A Dona Regina e ao motorista sem nome que, sem saber, ensinaram o mesmo princípio em línguas diferentes.

Ainda de pele quente, Santos Moisés.

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I · A Capital Mais Fria do Brasil
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