Diário · África do Sul · Escrito CXVI
Hoerikwaggo
Sobre a Table Mountain, a grandeza que testemunha tudo sem opinar, e a filosofia da montanha que nos observa
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Aba I
Abertura, mais velha que os Alpes, e Hoerikwaggo
Aba II
Um reino só seu, e a filosofia da montanha
Aba III
A testemunha que não opina, e o fechamento em dedicatória
No sábado de manhã clara em que subimos, a fila para o teleférico já serpenteava cedo, cheia de vozes em japonês, alemão, espanhol, português, mandarim, todas competindo pelo mesmo pedaço de vista. Table Mountain não pede silêncio a quem a visita. Recebe o barulho do mundo inteiro sem se abalar, e talvez seja exatamente essa capacidade de receber tudo sem mudar de expressão que a torna, mais do que uma atração turística, uma presença.
Do topo, a cidade inteira se organiza como um mapa vivo: Robben Island recortada no meio do Atlântico frio, os bairros que a história dividiu por décadas de segregação, o oceano se estendendo até onde a vista alcança. O vento cortava forte, e as nuvens, quando decidiam descer, cobriam o platô inteiro numa manta branca que os moradores locais chamam de toalha de mesa, um fenômeno tão constante que ganhou nome próprio.
Este texto nasce da pergunta que a subida deixou pairando: o que significa, para uma cidade inteira, crescer sob a sombra permanente de uma montanha tão antiga que reduz qualquer história humana, mesmo a mais violenta, a um capítulo recente demais para deixar marca na própria rocha? A resposta passa pela geologia, pela língua original do lugar, pela biodiversidade escondida nas encostas, e por uma filosofia da imensidão que ajuda a entender por que ficar parado diante de algo tão grande produz um silêncio que nada mais consegue produzir.
A montanha recebe multidões inteiras de turistas todos os dias e continua exatamente do mesmo jeito que estava antes deles chegarem.
I
Mais Velha que os Alpes
Sobre a idade geológica real do arenito que forma o topo
O arenito que cobre o topo de Table Mountain começou a se formar entre quinhentos e dez e quinhentos e quarenta milhões de anos atrás, num período em que a vida na Terra ainda não havia saído dos oceanos para colonizar terra firme. Sedimentos depositados no fundo de mares antigos, comprimidos ao longo de eras geológicas inteiras, deram origem a uma camada de rocha excepcionalmente dura e resistente à erosão.
Essa dureza é, precisamente, o que explica a forma plana que dá nome à montanha. Enquanto as rochas mais moles ao redor foram erodidas ao longo de centenas de milhões de anos por vento, água e gelo, o arenito do topo resistiu, preservando uma superfície quase horizontal que hoje se estende por cerca de três quilômetros. Table Mountain está, hoje, entre as formações de terra expostas mais antigas do planeta, mais velha que o Himalaia e mais velha que os Alpes, que têm apenas algumas dezenas de milhões de anos de existência, uma criança geológica perto da montanha sul-africana.
Estar de pé sobre aquele platô é estar de pé sobre uma rocha que já existia centenas de milhões de anos antes de qualquer dinossauro caminhar pelo planeta, antes de qualquer continente atual ocupar a posição que ocupa hoje. A escala de tempo geológico que a montanha representa reduz qualquer biografia humana, por mais longa, a uma fração quase inexistente do próprio relógio da rocha.
II
Hoerikwaggo
Sobre o nome original khoikhoi e a chegada de Saldanha em 1503
Muito antes de qualquer nome europeu ser gravado em mapa, os povos khoikhoi e san já chamavam a montanha de Hoerikwaggo, montanha no mar, um nome que descreve com precisão poética a silhueta que se vê de longe, emergindo do oceano como se tivesse nascido dele. Para essas comunidades, o local não era apenas um marco geográfico. Era espaço sagrado, habitado, segundo a tradição, pela divindade conhecida como Tsui ou Goab.
O primeiro europeu a registrar uma escalada até o topo foi o navegador português Antônio de Saldanha, em 1503, que rebatizou o lugar de Taboa da Cabo, mesa do cabo, o nome que sobreviveria, traduzido, até os dias de hoje. A substituição de um nome sagrado por um nome descritivo, funcional, quase administrativo, resume em poucas palavras boa parte do padrão que a colonização europeia repetiria pelo continente inteiro nos séculos seguintes.
Existe também, na cultura local mais recente, uma lenda que explica o fenômeno da toalha de nuvens que cobre o platô em dias de vento forte: contam que um velho pirata aposentado chamado Van Hunks fumava cachimbo sozinho na montanha quando foi desafiado para uma disputa de fumaça por um estranho encapuzado que, ao final, revelou ser o próprio diabo. A disputa nunca termina, segundo a lenda, e a nuvem espessa que cobre o topo nos dias de vento é a fumaça que ainda sobe dos dois cachimbos competindo até hoje. É folclore, não história, mas revela algo verdadeiro sobre o impulso humano de explicar o inexplicável através de narrativa, mesmo quando a ciência já oferece a resposta real.
III
Um Reino Só Seu
Sobre a Região Florística do Cabo e a densidade extrema de biodiversidade
A vegetação que cobre as encostas de Table Mountain pertence a um bioma chamado fynbos, palavra afrikaans que significa, aproximadamente, vegetação fina, uma referência às folhas estreitas e rígidas típicas das plantas da região. Esse bioma faz parte da Região Florística do Cabo, reconhecida pela ciência botânica como um dos seis reinos florísticos do planeta, ao lado de territórios continentais inteiros como o reino Holártico, que cobre praticamente toda a Europa, Ásia e América do Norte.
O que torna essa classificação surpreendente é a escala. Enquanto os outros cinco reinos florísticos cobrem extensões continentais, a Região Florística do Cabo ocupa uma faixa relativamente estreita no extremo sul da África, e ainda assim abriga mais de duas mil e duzentas espécies de plantas, muitas delas encontradas em nenhum outro lugar do mundo. Só a área da montanha concentra mais diversidade vegetal por metro quadrado do que praticamente qualquer floresta tropical do planeta.
Essa concentração de vida não é acidente. A combinação específica de solo pobre, incêndios naturais periódicos e o clima mediterrâneo da região criou condições que favoreceram, ao longo de milhões de anos, uma explosão de especiação vegetal sem paralelo em escala tão pequena. A montanha que parece, à distância, uma rocha nua e imponente, esconde, nas próprias dobras, um dos ecossistemas mais ricos e mais frágeis do planeta inteiro.
Essa riqueza vegetal sustenta uma fauna própria, adaptada às mesmas condições únicas. O dassie, um pequeno mamífero parecido com uma cobaia grande, mas cujo parente vivo mais próximo, surpreendentemente, é o elefante, passa os dias aquecendo-se ao sol nas rochas expostas do platô, aparentemente indiferente às centenas de turistas que param para fotografá-lo. Aves como o sugarbird-do-cabo, também exclusivo da região, dependem diretamente das flores do fynbos para se alimentar, formando uma cadeia de dependência tão específica que a extinção de uma única espécie vegetal endêmica pode derrubar, junto com ela, toda uma teia de vida que levou milhões de anos para se equilibrar.
De longe, parece só pedra. De perto, é um dos ecossistemas mais densos do planeta, escondido nas próprias dobras da encosta.
IV
A Filosofia da Montanha
Sobre Gaston Bachelard e a imensidão íntima
O filósofo francês Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, publicado em 1958, dedicou um capítulo inteiro a um fenômeno que qualquer pessoa que já ficou parada diante de uma montanha, um oceano ou um céu estrelado reconhece, mas raramente nomeia: a imensidão íntima. Segundo Bachelard, contemplar algo vasto e imóvel não produz apenas uma reação de pequenez ou insignificância. Produz, paradoxalmente, uma expansão interior, como se a imensidão externa contagiasse a própria capacidade de sentir do observador.
Não é a montanha que cresce diante dos olhos de quem a contempla. É o observador que se sente, por um instante, maior do que o corpo físico que carrega, tomado por uma sensação de vastidão que não tem origem em nenhum estímulo externo mensurável, apenas na disposição contemplativa de quem parou tempo suficiente para deixar a imensidão entrar.
Table Mountain oferece essa experiência com uma generosidade rara: o platô plano no topo, sem picos que distraiam o olhar, funciona quase como uma tela em branco onde a imensidão pode se instalar sem obstáculos. Talvez seja por isso que tantos visitantes, mesmo cercados de multidões falando línguas diferentes, relatam a mesma sensação de silêncio interior ao chegar ao topo, um silêncio que não vem da ausência de ruído ao redor, mas da presença de algo grande demais para caber inteiramente na atenção comum do dia a dia.
V
A Testemunha Que Não Opina
Sobre a montanha como referencial fixo através de todas as eras da cidade
Table Mountain observou, do alto do seu platô imutável, a chegada dos primeiros navegadores europeus, a fundação da colônia holandesa, séculos de escravidão e colonização, a formalização legal do apartheid, a prisão de Nelson Mandela em Robben Island, visível a olho nu desde o topo em dias claros, e a eventual transição para a democracia. Nenhum desses eventos alterou uma única linha da sua silhueta.
Essa indiferença geológica não é frieza moral. É apenas a escala de tempo em que a montanha opera, tão distante da escala humana que qualquer tentativa de atribuir posicionamento político ou ético à rocha seria, no mínimo, uma projeção poética. Mas a montanha funciona, ainda assim, como um espelho silencioso: ela não julga a história que se desenrola aos seus pés, mas a sua permanência absoluta torna ainda mais visível o quanto a história humana, em contraste, é feita de mudança constante, de rupturas, de reconstruções.
Ser referencial fixo da cidade, o ponto que aparece em toda foto, todo mapa mental, toda orientação de quem se perde nas ruas de Cape Town, dá à montanha um papel que nenhum monumento erguido por mãos humanas conseguiria replicar. Os monumentos humanos precisam ser protegidos, restaurados, às vezes derrubados quando a história muda de interpretação. Hoerikwaggo simplesmente continua ali, indiferente a qualquer necessidade de reafirmação.
VI
O Silêncio no Topo do Mundo
Fechamento
Voltamos ao topo, naquele sábado de manhã clara, cercados de turistas falando línguas que não reconhecíamos todas, a natureza se impondo sobre qualquer tentativa de conversa banal. Agora, sabendo o peso geológico daquele arenito, o nome original que os khoikhoi deram ao lugar, a densidade de vida escondida nas encostas e a filosofia que explica por que aquele silêncio específico se instala em quem para diante do vasto, a experiência ganha uma camada que a primeira visita raramente entrega de imediato.
Hoerikwaggo, montanha no mar, continua sendo o nome mais honesto que já lhe deram, muito antes de qualquer navegador europeu decidir que ela precisava de um nome mais funcional. A montanha não pediu para ser rebatizada, assim como não pede, hoje, para ser fotografada por milhares de turistas todos os dias. Simplesmente permanece, com a mesma indiferença paciente que já demonstrou a impérios inteiros que vieram e se foram diante dela.
Descer daquele platô é voltar para a escala normal do tempo humano, onde os dias importam, os prazos apertam e a memória é curta. Mas alguma coisa da imensidão fica. Um lembrete físico, gravado na própria experiência do corpo, de que existe, acima de qualquer cidade, qualquer história e qualquer pressa, uma presença antiga demais para se importar com qualquer coisa que os homens ainda vão inventar.
Hoerikwaggo, montanha no mar,
mais velha que o Himalaia, mais velha que os Alpes,
mais velha que qualquer nome que lhe deram depois.
O vento traz a toalha de nuvens e a leva embora.
Turistas sobem falando línguas diferentes
e descem, todos, com o mesmo silêncio novo por dentro.
A montanha não guarda rancor de ninguém que passou.
Não celebra quem chegou, não lamenta quem partiu.
Apenas continua, imóvel, enquanto tudo o resto se move.
Talvez seja essa a lição mais simples de todas:
existir sem precisar da aprovação de quem observa.
Dedicatória
Este texto é dedicado a quem já ficou em silêncio, sem saber explicar por quê, diante de algo grande demais para caber na pressa do dia.
Ainda carregando o silêncio do topo, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?