Polis · África do Sul · Escrito LXXXIV
Seis Cores, Nenhum Centro
Um país que aprendeu a convergir sem se fundir
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I
A bandeira sem centro, e as camadas de um país antes dela
II
A ruptura, a prisão de Mandela e a travessia até a bandeira
III
Christiaan Barnard e Hamilton Naki, duas mãos e um só coração
IV
Ingrid Jonker, e os dois Nobel de Literatura: Gordimer e Coetzee
V
Miriam Makeba no exílio, e os padrões de Esther Mahlangu
VI
A Comissão da Verdade, Marikana, e o fechamento
Na manhã de 27 de abril de 1994, dias antes da posse de Nelson Mandela, uma bandeira nova subiu um mastro pela primeira vez. Ao contrário de quase toda bandeira nacional que existe, ela não tem um centro. Um Y verde nasce junto ao mastro e se abre em duas faixas que correm até a borda oposta, sem nunca voltarem a se encontrar num único ponto. Seis cores dividem o pano, vermelho, azul, preto, branco, verde, amarelo, mais cores do que qualquer bandeira nacional havia ousado usar até então, e nenhuma delas domina as outras. O desenhista, um herói de estado chamado Fred Brownell, teve uma semana para resolver o que séculos de história não haviam resolvido: como representar, num único pano, um país que nunca foi uma coisa só.
O texto oficial descreve o desenho como a convergência de elementos diversos, tomando o caminho adiante em unidade. Nenhuma cor carrega peso maior que outra, porque atribuir hierarquia às cores teria sido, mais uma vez, decidir por decreto quem vem primeiro. É a imagem que atravessa este ensaio inteiro, o primeiro da classe Polis, dedicada não a uma pessoa, mas a um país: convergir sem se fundir, unir sem apagar.
I
O País
Camadas antes da bandeira
Muito antes de qualquer bandeira, a terra que se tornaria África do Sul já era habitada por povos khoisan, caçadores coletores que deixaram pinturas rupestres em cavernas com milhares de anos. A partir de cerca de dois mil anos atrás, ondas sucessivas de migração bantu trouxeram agricultura, metalurgia e novas línguas, formando os povos zulu, xhosa e sotho, entre outros, que hoje respondem pela maioria da população. Em 1652, a Companhia Holandesa das Índias Orientais instalou um posto de reabastecimento no Cabo, embrião da colonização branca. Britânicos disputaram o território contra os colonos holandeses, os bôeres, ao longo do século dezenove, um conflito que culminaria nas duas Guerras Anglo-Bôeres.
A descoberta de diamantes em 1867 e de ouro em 1886 transformou a economia do território e atraiu ainda mais colonos, ao mesmo tempo em que intensificou a exploração da mão de obra negra nas minas. Em 1948, o Partido Nacional venceu as eleições prometendo formalizar, em lei, uma separação racial que já existia de fato havia décadas. Nascia o apartheid, sistema que classificava cada sul-africano por raça, restringia onde podia morar, trabalhar, estudar e se casar, e exigia que a população negra carregasse um documento de identificação interno, o dompas, só para circular no próprio país.
Um país que precisa de um documento só para permitir que seus próprios cidadãos caminhem pelas próprias ruas já revelou, antes de qualquer lei escrita, quem ele acredita que pertence a ele de verdade.
II
O Que Aconteceu Ali
A ruptura e a travessia
Em 21 de março de 1960, a polícia abriu fogo contra uma manifestação pacífica contra as leis de passe em Sharpeville, matando sessenta e nove pessoas, a maioria baleada pelas costas enquanto fugia. Dezesseis anos depois, em 16 de junho de 1976, estudantes de Soweto saíram às ruas para protestar contra uma lei que exigia parte do ensino em africâner, língua que associavam ao próprio opressor, e a repressão policial matou centenas de jovens, muitos deles crianças. As duas datas se tornaram, no calendário sul-africano, sinônimos do preço que o apartheid cobrava de quem ousava discordar dele em público.
Nelson Mandela foi preso em 1962 e condenado à prisão perpétua no julgamento de Rivonia, em 1964, por sabotagem contra o regime. Passou vinte e sete anos preso, dezoito deles na ilha-prisão de Robben Island, a poucos quilômetros da Cidade do Cabo, quebrando pedra numa pedreira de calcário sob um sol que lhe deixaria sequelas permanentes na visão. Saiu livre em 11 de fevereiro de 1990, aos setenta e um anos, e liderou, ao lado do então presidente Frederik de Klerk, a negociação que desmontaria o apartheid peça por peça até a primeira eleição com sufrágio universal, em abril de 1994, a mesma eleição que a bandeira do início deste ensaio foi hasteada para saudar.
III
Ciência
Duas mãos, um só coração
Ainda sob apartheid, em 3 de dezembro de 1967, o cirurgião Christiaan Barnard realizou, no Hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo, o primeiro transplante de coração humano do mundo. O paciente, um comerciante chamado Louis Washkansky, sobreviveu dezoito dias, mas o procedimento abriu uma fronteira inteiramente nova na medicina, e Barnard se tornou, da noite para o dia, um dos cientistas mais famosos do planeta.
Nos bastidores da mesma equipe trabalhava Hamilton Naki, homem negro que havia chegado à Cidade do Cabo aos catorze anos, contratado como jardineiro da universidade. Um professor notou sua habilidade ao cuidar dos animais de laboratório e passou a lhe ensinar técnicas cirúrgicas, e Naki se tornou, sem nenhuma formação médica formal, hábil o suficiente para treinar milhares de futuros cirurgiões ao longo da carreira. O apartheid, no entanto, jamais permitiu que ele fosse reconhecido oficialmente como cirurgião. Só em 2002 e 2003, décadas depois, o país lhe concedeu a Ordem de Mapungubwe e um título honorário da Universidade da Cidade do Cabo, reconhecimento que sua própria época jamais lhe permitiu carregar em vida.
Naki treinou os cirurgiões que o país permitia chamar de cirurgião. A lei que o impedia de usar esse título nunca conseguiu impedi-lo de ensinar quem o usaria.
IV
As Letras
Uma poeta e dois Nobel
Também em 1960, o mesmo ano de Sharpeville, a poeta Ingrid Jonker escreveu um dos textos mais lembrados da literatura sul-africana depois que soldados mataram, a tiros, uma criança no bairro negro de Nyanga, na Cidade do Cabo. Escrevendo em africâner, a mesma língua que os estudantes de Soweto associariam à opressão dezesseis anos depois, Jonker construiu um poema em que a criança morta se recusa a desaparecer, permanecendo presente em cada gesto de resistência posterior. Ela mesma morreria afogada em 1965, aos trinta e um anos, sem nunca saber o alcance que aquele poema teria.
Trinta anos depois de escrito, na abertura do primeiro parlamento eleito democraticamente, em 24 de maio de 1994, Nelson Mandela leu o poema inteiro em voz alta, chamando Jonker de mulher que atravessou uma experiência particular para se tornar sul-africana, africana e cidadã do mundo. A poesia de Jonker abriu caminho, mas foram dois romancistas que trariam ao país seus únicos dois Prêmios Nobel de Literatura.
Nadine Gordimer nasceu em 1923, filha de imigrantes judeus, e passou a vida inteira escrevendo sobre a distorção que o apartheid impunha às relações humanas mais comuns. Três de seus romances, entre eles Filha de Burger, de 1979, foram banidos pelo próprio governo sul-africano assim que publicados, e ela se tornou amiga próxima dos advogados de defesa de Nelson Mandela durante seus julgamentos. Gordimer diria, décadas depois, que o dia de que mais se orgulhava não foi o da entrega do Nobel de Literatura, em 1991, mas o dia em que testemunhou no julgamento de Delmas, em 1986, ajudando a salvar da forca vinte e dois membros do Congresso Nacional Africano acusados de traição. Quando Mandela finalmente saiu da prisão, em 1990, ela foi uma das primeiras pessoas que ele quis rever.
Gordimer ganhou o Nobel por como escrevia. Ela preferia ser lembrada pelo dia em que sua palavra, dita em voz alta diante de um tribunal, ajudou a manter vinte e duas pessoas vivas.
John Maxwell Coetzee nasceu em 1940, na Cidade do Cabo, e escolheu um caminho quase oposto ao de Gordimer, preferindo o silêncio público à militância explícita, embora seus romances atacassem o apartheid com igual precisão. Tornou-se o primeiro escritor da história a vencer o prêmio Booker duas vezes, em 1983 por Vida e Época de Michael K e em 1999 por Desonra, romance sobre um professor que perde tudo depois de recusar se desculpar por um caso com uma aluna. Recebeu o Nobel de Literatura em 2003, quando a Academia Sueca o descreveu como um cético implacável diante do racionalismo cruel e da moral cosmética da civilização ocidental. No ano seguinte à publicação de Desonra, porém, Coetzee deixou definitivamente a África do Sul, emigrando para a Austrália, onde se naturalizaria cidadão em 2006.
Gordimer ficou e testemunhou. Coetzee escreveu sobre o país e depois foi embora dele. Nenhuma das duas escolhas é mais sul-africana que a outra, e é exatamente esse o ponto: a convergência que a bandeira promete nunca exigiu que todo mundo ficasse no mesmo lugar, apenas que o que cada um escreveu, de onde quer que escrevesse, continuasse pertencendo à mesma história.
V
Música e Arte Popular
O que continuou soando, e sendo pintado
Miriam Makeba cantava havia anos em Joanesburgo quando um documentário crítico ao apartheid a levou, em 1959, aos Estados Unidos, onde sua carreira internacional decolou. Um ano depois, ao tentar voltar para o próprio país para enterrar a mãe, descobriu que o governo sul-africano havia revogado sua cidadania. Passou os trinta anos seguintes exilada, proibida de pisar em solo sul-africano, enquanto canções como Pata Pata a transformavam numa das vozes africanas mais conhecidas do mundo. Só voltou para casa em 1990, o mesmo ano em que Mandela saiu da prisão, a convite dele mesmo.
O governo que baniu a voz de Miriam Makeba dentro do país só conseguiu, na prática, garantir que ela cantasse em todos os outros.
Enquanto Makeba cantava longe de casa, Esther Mahlangu seguia, dentro dela, uma tradição bem mais antiga que qualquer bandeira ou qualquer lei. Desde criança, aprendeu com a mãe e a avó a pintar as paredes externas das casas com padrões geométricos coloridos, prática do povo ndebele que remonta ao século dezoito, quando as mulheres passaram a decorar as habitações de barro tanto para embelezar a aldeia quanto para comunicar mensagens que só quem pertencia àquela linguagem visual sabia ler. Mahlangu se tornaria a primeira pessoa a transferir esse desenho tradicional da parede para a tela, e em 1991 pintou um BMW inteiro com seus padrões, tornando-se a primeira mulher e a primeira artista não ocidental a participar do projeto internacional de carros de arte da montadora.
Os retângulos, triângulos e diamantes que Mahlangu pinta, lado a lado, em cores vivas, sem nunca deixar uma forma dominar as outras, guardam uma semelhança que ela provavelmente nunca planejou com o próprio desenho da bandeira nacional: muitas peças distintas, nenhuma delas maior que as demais, formando, juntas, uma coisa só.
VI
O Que Ficou
Reconciliação e o que ela não alcançou
Em 1995, já como presidente, Mandela criou a Comissão da Verdade e Reconciliação e escolheu o arcebispo Desmond Tutu para presidi-la. Entre 1996 e 1998, a comissão ouviu mais de vinte e duas mil declarações de vítimas do apartheid, oferecendo anistia a quem confessasse publicamente os próprios crimes políticos em troca de não ser processado. Na primeira audiência, em abril de 1996, Tutu chorou ao ouvir um ex-prisioneiro político descrever a própria tortura, o único momento em que choraria em público durante todo o processo, e depois lamentaria que a imprensa tivesse focado nele, e não na vítima que deveria ser o centro daquela sala.
A comissão poupou o país de um banho de sangue, mas deixou lacunas que o próprio Tutu reconheceria depois como assuntos inacabados: muitos responsáveis por crimes escolheram o silêncio a arriscar confissão, apostando, corretamente, na impunidade que a falta de vontade política em processá-los lhes garantiria décadas depois.
Perdoar em público é mais fácil do que dividir, em público, a riqueza que a injustiça acumulou. A África do Sul aprendeu a primeira lição bem antes da segunda.
A prova mais dura dessa lacuna chegou em 16 de agosto de 2012, quase duas décadas depois da bandeira nova e da comissão de Tutu, quando a polícia sul-africana abriu fogo contra mineiros em greve na mina de platina de Marikana, matando trinta e quatro pessoas que reivindicavam apenas um salário mais digno. A cena, filmada e distribuída pelo mundo inteiro, lembrou que a convergência política celebrada em 1994 ainda não havia alcançado a convergência econômica que a maioria negra do país continuava esperando.
VII
Ecos no Cotidiano
Fechamento
Toda comunidade organizada em torno de uma única pessoa, de uma única ideia ou de um único jeito certo de fazer as coisas está, mais cedo ou mais tarde, condenada a rachar no primeiro desacordo sério. A bandeira sul-africana propõe outra lógica, difícil de sustentar na prática, mas simples de entender no desenho: convergir não significa concordar em tudo, significa aceitar caminhar na mesma direção mesmo carregando cores diferentes. Isso vale para um país de sessenta milhões de pessoas, e vale, na escala menor de qualquer equipe, qualquer família, qualquer amizade que já discordou feio e ainda assim decidiu continuar junta.
Talvez seja por isso que os padrões de Esther Mahlangu, pintados numa parede de barro no interior de Mpumalanga, digam tanto quanto qualquer discurso sobre reconciliação. Nenhuma forma domina, nenhuma cor apaga a vizinha, e ainda assim o conjunto é reconhecível de longe como uma coisa inteira. É a mesma aposta que a bandeira fez em 1994 e que o país inteiro segue tentando cumprir todos os dias: unidade que não exige que ninguém deixe de ser quem é.
Nenhuma cor pediu licença à outra
para ocupar seu lugar no pano.
Convergir não é desaparecer,
é caminhar junto, cada qual com sua cor,
até que a distância entre elas
se torne, enfim, apenas caminho.
Dedicatória
Este texto é dedicado a Nelson Mandela, pela capacidade rara de conciliar sem apagar diferenças e de pacificar sem exigir silêncio.
Ainda aprendendo a convergir sem apagar cor nenhuma, Santos Moisés.
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