Manifesto · Jiboia · Escrito LXXXV
A Planta Que Não Tem Dia Ruim
Manifesto sobre a jiboia, a planta que existe em cada um de nós
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I–II
O que não exige · A floresta de onde ela vem
III–IV
O que ocupa sem hierarquia · O que nunca se repete
V–VI
O que ficou · O convite
I
O Que Não Exige
Existe uma planta que nunca teve um dia ruim. Não porque a vida dela seja fácil, mas porque ela decidiu, lá na origem de tudo que é vegetal nela, que vai crescer de qualquer jeito que o dia oferecer. Pouca água já basta para que ela te envolva com o próprio vigor. Pouca luz já basta para que ela te envolva com as próprias cores. Ela não pede o ideal. Ela trabalha com o que chega.
Repare no gesto mais simples que existe entre uma pessoa e uma jiboia: você enche um copo, despeja um pouco na terra, quase sem pensar, e alguns dias depois ali está ela, brilhando como se aquele gesto pequeno tivesse sido um banquete. Não existe outra planta que devolva tanto por tão pouco. É quase um constrangimento, o tamanho da resposta dela ao tamanho mínimo do seu cuidado.
A jiboia não é resiliente porque resiste. É resiliente porque nunca aprendeu a exigir condição perfeita para existir.
II
A Floresta de Onde Ela Vem
Antes de virar planta de apartamento, a jiboia foi planta de floresta. Nasceu nas ilhas do Pacífico, entre a Polinésia Francesa e as ilhas Salomão, onde a luz do sol não chega ao chão, barrada pelas copas altas das árvores tropicais. Para sobreviver ali, ela aprendeu a escalar. O caule fino que você conhece dentro de casa, na natureza, se agarra ao tronco de árvores gigantescas com raízes aéreas, subindo metro após metro atrás de luz.
E é subindo que ela se transforma. As folhas pequenas, inteiras, em forma de coração, que nascem quando a planta ainda está perto do chão, dão lugar, lá no alto, a folhas enormes, rasgadas, quase irreconhecíveis das primeiras. A ciência chama isso de heterofilia: a mesma planta, capaz de produzir formas completamente diferentes de folha, dependendo só da altura que alcançou e da luz que encontrou pelo caminho. A jiboia do seu apartamento carrega, adormecida, essa mesma capacidade. Basta dar a ela uma base para subir.
Toda jiboia pequena já contém, em segredo, a jiboia gigante que poderia ser. Só precisa de algo em que se apoiar.
III
O Que Ocupa Sem Hierarquia
Coloque uma jiboia na sombra, ela cresce. Coloque na luz direta, ela cresce diferente, mas cresce. Deixe que suba por um suporte, ela sobe, se firmando nó por nó, como quem sabe exatamente aonde quer chegar. Deixe que desça de um vaso alto, ela desce, criando cortinas verdes que parecem ter sido desenhadas por alguém, mas não foram, foram apenas deixadas livres. Ela cresce para cima, para baixo, na horizontal, encontrando o vão entre a estante e a parede, contornando a moldura de um quadro, se enroscando no varal esquecido.
Não existe canto errado para uma jiboia. Existe apenas o canto que ela ainda não alcançou.
Isso é convergir sem pedir licença: ocupar o espaço que existe, na direção que existir, sem gastar energia decidindo qual caminho é mais digno de ser seguido.
IV
O Que Nunca se Repete
Nenhuma folha de jiboia é igual à anterior. Existem as verde densas, as verde limão, as manchadas de branco e de amarelo, como se tivessem sido pintadas à mão, uma a uma, por alguém sem pressa nenhuma. Existem as espaçadas, generosas no vão entre uma folha e outra, deixando o caule respirar, e as multiplamente densas, quase competindo por lugar, uma cobrindo a base da outra.
Trinta destas plantas podem morar no mesmo apartamento, banhadas pela mesma luz, regadas pela mesma mão, e ainda assim nenhuma repete a outra. Uma cresce em cascata, outra sobe reta como se tivesse pressa, outra se enrosca devagar, testando o caminho antes de seguir. Cada jiboia encontra o próprio jeito de ser jiboia, mesmo dividindo o mesmo nome, a mesma espécie, a mesma origem nas florestas do Pacífico.
Existe uma jiboia para cada um. Não porque a espécie se adapta à pessoa, mas porque, dentro da mesma espécie, cabe uma variação tão grande quanto a variação entre as pessoas que a cultivam.
V
O Que Ficou
Foi também uma das plantas preferidas de minha mãe, que a deixava escorrer pelas paredes. Não sei dizer se ela escolheu a jiboia ou se a jiboia, com essa generosidade mínima que pede tão pouco e devolve tanto, foi quem a escolheu primeiro. O que sei é que toda vez que uma folha nova se abre, verde e brilhante, ainda enrolada como quem hesita antes de se mostrar por inteiro, alguma coisa dela continua acontecendo aqui dentro de casa.
Algumas heranças não vêm em forma de objeto. Vêm em forma do que continuamos regando.
VI
O Convite
Comece com uma muda. Um pedaço pequeno, quase nada, um talo com duas folhas dentro de um copo de água, esperando raiz. Não escolha o vaso perfeito. Não escolha o canto mais iluminado do apartamento. Escolha começar, porque essa planta, mais que qualquer outra, perdoa o começo errado.
Dê pouca água. Dê pouca luz. Veja o que ela devolve com isso.
Se quiser entender por que alguém teria trinta destas plantas em casa, e por que cada uma delas seria, ainda assim, insubstituível, você vai ter que plantar a sua.
Entre trinta jiboias, no décimo quarto andar, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?