Eco · Paulo Freire · Escrito LXXXVI
A Mão Que Assina, a Mão Que Vota
Uma mensagem de inspiração para todo educador
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I
Angicos 1963, e a vida de Paulo Freire
II
O pensamento central, e os quatro livros principais
III
Quem foi inspirado por ele, e o legado nas melhores escolas de hoje
IV
Fechamento, mensagem aos educadores
Angicos, Rio Grande do Norte, janeiro de 1963. Uma equipe de professores, coordenada por um pernambucano de quarenta e um anos, chega a um município onde três em cada quatro adultos não sabem ler. Em quarenta horas de aula, distribuídas ao longo de quarenta e cinco dias, trezentos cortadores de cana e trabalhadores da construção civil aprendem a escrever o próprio nome pela primeira vez na vida. No Brasil daquele momento, quem não sabia ler não podia votar. A mesma mão que aprende a formar as primeiras letras é, semanas depois, a mão que deposita uma cédula na urna. Alfabetizar, para aquele professor, nunca foi ensinar a decorar sílabas. Era devolver a alguém o direito de ter voz na própria história.
Esse professor se chamava Paulo Freire, e o feito de Angicos, construído ao lado de uma equipe inteira de educadores e pesquisadores que acreditaram no método com ele, correria o mundo como prova viva de que ensinar a ler pode ser, ao mesmo tempo, um ato de justiça.
I
Vida
De Recife ao exílio, e a volta
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, no Recife, filho de Joaquim Temístocles Freire e Edeltrudes Neves Freire. A família vivia com conforto até a crise de 1929 empurrar os Freire para a periferia da cidade. Foi ali, ainda menino, que Paulo conheceu a fome de perto, não como conceito abstrato de livro, mas como experiência concreta e diária. Décadas mais tarde, ele diria que aquela fome infantil comprometeu sua capacidade de aprender na escola tradicional, e é exatamente dessa ferida pessoal que nasceria, mais tarde, um dos pensadores mais lidos do mundo sobre o que significa aprender de verdade.
Formou-se em Direito em 1947 pela Faculdade de Direito do Recife, mas nunca chegou a exercer a advocacia. A vocação real já se anunciava: passou a trabalhar no SESI, o Serviço Social da Indústria, alfabetizando jovens e adultos trabalhadores. Antes disso, ainda jovem, havia lecionado Língua Portuguesa no Colégio Oswaldo Cruz e Filosofia na Escola de Belas Artes da própria universidade onde se formaria, sinal precoce de que a sala de aula, e não o tribunal, seria o verdadeiro destino de sua vida. Tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade de Recife, cargo que o levaria, em 1961, a montar a equipe que desembarcaria em Angicos dois anos depois. O sucesso do experimento chamou a atenção do então presidente João Goulart, que convidou Freire para coordenar um Plano Nacional de Alfabetização, com a meta de alfabetizar cinco milhões de brasileiros.
O golpe militar de 1964 interrompeu tudo. Freire foi preso, acusado de subversão, e passou cerca de setenta dias detido antes de conseguir deixar o país. Começava ali um exílio que duraria dezesseis anos: primeiro a Bolívia, depois cinco anos no Chile, trabalhando em programas de alfabetização de adultos junto ao governo chileno. Seguiu para os Estados Unidos, onde foi professor visitante em Harvard, depois para a Suíça, contratado pelo Conselho Mundial de Igrejas em Genebra, de onde prestou apoio pedagógico aos programas de alfabetização em nações africanas recém-independentes, como Guiné-Bissau e Moçambique. Cada país que o exilou virou, sem que ninguém planejasse, um novo território conquistado pelas próprias ideias que a ditadura tentara calar.
Freire voltou ao Brasil em 1979, amparado pela Lei da Anistia, e reencontrou o país que o expulsara. Em 1989, tornou-se Secretário Municipal de Educação de São Paulo, na gestão da prefeita Luiza Erundina, período em que criou o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, o MOVA. Em 1991, fundou o Instituto Paulo Freire, dedicado a manter viva a educação humanizadora em que acreditava. Morreu em 2 de maio de 1997, em São Paulo, vítima de um infarto, deixando uma obra que continuaria crescendo em influência muito depois de sua morte.
II
Pensamento Central
Da educação bancária à conscientização
O núcleo da obra de Freire nasce de uma crítica precisa ao modelo de ensino que ele batizou de educação bancária: o professor deposita conteúdo numa plateia passiva de estudantes, como quem deposita dinheiro num cofre, esperando que ele simplesmente acumule sem questionar. Nesse modelo, o aluno é objeto, não sujeito, e o conhecimento vira mercadoria entregue de cima para baixo.
Em oposição a isso, Freire propôs a educação dialógica: aprender e ensinar como processos que acontecem juntos, entre iguais, mediados pelo mundo real que professor e aluno compartilham. Ninguém educa sozinho, e ninguém se educa isoladamente. As pessoas se educam em comunhão, através do diálogo genuíno sobre o mundo que as cerca. Ler a palavra, insistia Freire, é inseparável de ler o mundo. Alfabetizar alguém sem ajudá-lo a compreender e transformar a própria realidade não é educação, é apenas treinamento técnico.
Ensinar não é entregar conteúdo pronto. É abrir espaço para que o outro construa o próprio conhecimento, com as próprias mãos e a própria voz.
Central a esse pensamento está o conceito de conscientização: o processo pelo qual uma pessoa passa a enxergar, com clareza crítica, as estruturas sociais, econômicas e políticas que moldam sua própria condição, deixando de aceitá-las como destino natural e passando a agir sobre elas. Para Freire, educação que não desperta essa consciência crítica não liberta ninguém, apenas adapta o oprimido, com mais eficiência, à própria opressão.
III
Textos Principais
Os quatro livros que sustentam a obra
Educação como Prática da Liberdade, publicado em 1967, já no início do exílio, foi o primeiro grande livro de Freire, escrito logo depois da experiência de Angicos. Nele, Freire defende algo que soava radical para a época: educação nunca é neutra. Ou ela serve para adaptar o indivíduo à realidade como está, ou serve para prepará-lo a transformá-la. Não existe meio-termo possível.
Pedagogia do Oprimido, escrito entre 1967 e 1968 durante os anos chilenos e publicado pela primeira vez em espanhol, tornou-se a obra mais lida de Freire e um dos livros mais citados da história das ciências humanas em todo o mundo. É nesse livro que a crítica à educação bancária ganha forma completa, junto com uma ferramenta prática que mudaria salas de aula ao redor do planeta: os temas geradores e as palavras geradoras. Antes de começar qualquer processo de alfabetização, a equipe de Freire ouvia a comunidade, mapeava seu vocabulário cotidiano, seus problemas reais, suas palavras carregadas de significado afetivo e histórico. A partir dali, e só dali, construía-se o material de ensino. Nenhuma cartilha genérica, escolhida por alguém que nunca pisou naquela comunidade, decidia o que seria ensinado. A própria realidade do aluno era o ponto de partida.
Antes de ensinar, Freire ensinava a si mesmo a escutar. É essa escuta, mais do que qualquer técnica, que continua faltando na maior parte das salas de aula do mundo.
Pedagogia da Esperança, publicado em 1992, é um gesto raro de humildade intelectual: o próprio Freire, mais de duas décadas depois de escrever seu livro mais famoso, decide revisitá-lo, reconhecer acertos, aceitar críticas justas e recusar outras que considerava equivocadas. Poucos pensadores, já canonizados mundialmente, têm a coragem de voltar à própria obra máxima para colocá-la outra vez em movimento, em vez de deixá-la endurecer em dogma.
Pedagogia da Autonomia, de 1996, foi o último livro publicado em vida por Freire, um ano antes de morrer. Nele, condensa décadas de reflexão numa ética prática do ato de ensinar: respeitar a curiosidade do aluno, seu gosto estético, sua linguagem própria, sem jamais minimizá-los. Ensinar, escreveu Freire, não é transferir conhecimento pronto, mas criar as condições para que o outro produza o próprio saber. Um professor que abdica dessa tarefa, argumentava, está abdicando da própria função de educar.
IV
Quem Foi Inspirado Por Ele
Um pensador brasileiro, uma influência mundial
Poucos pensadores brasileiros atravessaram tantas fronteiras quanto Paulo Freire. Nos Estados Unidos, o educador Ira Shor tornou-se amigo pessoal de Freire e, em 1987, os dois assinaram juntos o livro A Pedagogy for Liberation, um diálogo direto entre o pensamento freireano e a realidade das salas de aula americanas. Shor é considerado o primeiro intelectual a levar a obra de Freire para dentro do debate educacional dos Estados Unidos.
Henry Giroux, um dos maiores nomes vivos da pedagogia crítica, dedicou parte substancial da própria obra a expandir e atualizar as bases lançadas por Freire, defendendo que professores devem se assumir como intelectuais públicos, não meros técnicos transmissores de conteúdo. Peter McLaren seguiu caminho parecido, situando Freire como referência maior de tudo que hoje se chama de pedagogia crítica.
E talvez o encontro mais bonito de todos tenha sido com a intelectual americana bell hooks, autora de Ensinando a Transgredir, publicado em 1994. hooks manteve diálogo direto e afetuoso com Freire, reconhecendo nele um dos pilares fundamentais da própria formação como educadora e pensadora, mesmo vindo de contextos raciais, nacionais e de gênero completamente diferentes do dele. O que os uniu foi a mesma convicção: educação, quando genuína, é sempre prática de liberdade.
Um homem preso pelo próprio país por ser considerado perigoso demais para lecionar tornou-se, décadas depois, leitura obrigatória em Harvard, Cambridge e Oxford. A ideia que assustou uma ditadura é a mesma que hoje forma professores no mundo inteiro.
V
O Legado nas Melhores Escolas de Hoje
De Angicos à aprendizagem baseada em projetos
Quem visita hoje uma das escolas mais inovadoras do Brasil, seja em bairro nobre ou em comunidade periférica, provavelmente vai encontrar salas organizadas em roda, projetos construídos a partir de problemas reais da comunidade dos próprios alunos, avaliações que valorizam autoria em vez de decoreba. O nome disso, na linguagem pedagógica contemporânea, costuma ser aprendizagem baseada em projetos, metodologias ativas, ensino contextualizado, protagonismo do aluno. Poucas vezes o nome de Freire aparece explicitamente no material promocional dessas escolas. Mas o princípio fundador é exatamente o mesmo que ele já praticava em Angicos, décadas antes dessas expressões existirem: partir da realidade concreta de quem aprende, não de um currículo abstrato imposto de fora.
Os temas geradores e as palavras geradoras que Freire mapeava junto às comunidades de cortadores de cana são, em essência, o mesmo gesto pedagógico que hoje se chama de aprendizagem baseada em projetos: primeiro entender o mundo real do aluno, depois construir o conhecimento a partir dali, nunca ao contrário. Educadores que hoje se orgulham de práticas inovadoras estão, na maior parte das vezes, sem saber, caminhando sobre um chão que Paulo Freire pavimentou há mais de sessenta anos.
A Base Nacional Comum Curricular brasileira, documento que hoje orienta oficialmente o que se ensina em cada escola do país, incorporou expressões como protagonismo do estudante e contextualização do ensino, sem precisar inventar conceito novo algum: bastava reconhecer, formalmente, o que Freire já defendia desde os anos sessenta. A sala de aula invertida, a aprendizagem baseada em problemas, o ensino híbrido, cada uma dessas metodologias ativas tão celebradas hoje em congressos de educação carrega, na própria estrutura, a mesma aposta original de Freire: o aluno não é recipiente vazio esperando ser preenchido, é sujeito ativo capaz de construir, junto com o professor, o próprio caminho de conhecimento.
VI
Fechamento
Uma mensagem para quem ensina
Se você é educador e chegou até aqui, este texto é, antes de tudo, para você. Freire não deixou um método fechado, com passo a passo replicável em qualquer contexto, e é exatamente por isso que sua obra continua viva, decidida a cada nova sala de aula, a cada novo professor disposto a escutar antes de falar. O maior gesto revolucionário de Freire não foi um livro, nem um prêmio, nem um dos quarenta e um títulos de doutor honoris causa que recebeu de universidades como Harvard, Cambridge e Oxford. Foi ter ensinado o mundo inteiro que educar começa sempre pelo mesmo lugar: reconhecer que quem está à sua frente já sabe alguma coisa, já viveu alguma coisa, e merece ser ouvido antes de ser ensinado.
A mão que aprendeu a assinar o próprio nome em Angicos, em 1963, continua se multiplicando, silenciosa, em toda sala de aula onde um professor decide, antes de abrir o livro didático, perguntar de verdade quem são as pessoas sentadas à sua frente.
Quem ensina de verdade
não enche um cofre vazio,
acende um fogo que já estava lá,
esperando apenas
alguém disposto a escutar antes de falar.
Dedicatória
Este texto é dedicado a todo educador que já escutou antes de ensinar, e que segue acreditando, mesmo nos dias mais difíceis, que educação ainda é o caminho mais curto para a liberdade.
Ainda aprendendo a escutar antes de falar, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?