Ensaio · Conhecimento · Escrito LXXXII

LXXXII

A Cátedra Que Decidiu O Que Era Saber

Quem teve permissão de sentar na cadeira elevada

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I

A cátedra medieval e a prensa de Gutenberg, e Foucault sobre saber e poder

II

Said e as cátedras orientalistas, e Fanon sobre a colonização da mente

III

Freire e o direito de nomear o mundo, e o que se perdeu nos códices queimados

IV

A cátedra que ainda falta construir

Uma cátedra é, literalmente, uma cadeira elevada. Na universidade medieval, o professor sentava-se acima dos alunos, numa plataforma discretamente mais alta que o resto da sala, e falava de cima para baixo, no sentido físico exato da expressão. O gesto arquitetônico não era decoração. Era declaração: dali, e só dali, saía o conhecimento autorizado a ser chamado de conhecimento.

Em 1088, a Universidade de Bolonha nasceu como a primeira instituição do tipo no mundo ocidental, seguida logo depois por Paris e Oxford, organizando o saber em faculdades que se tornariam o molde de toda universidade que viria a existir depois: Artes como base preparatória, e acima dela, Direito, Medicina e Teologia como as cátedras superiores, os saberes considerados dignos do topo da hierarquia. Foi ali que se decidiu, silenciosamente e para sempre, o que contaria como direito, o que contaria como medicina, o que contaria como conhecimento válido sobre o mundo e sobre o sagrado.

Poucas décadas depois de Bolonha completar seu quarto século de existência, Johannes Gutenberg construiu, por volta de 1450, a prensa de tipos móveis que multiplicaria essas cátedras infinitamente além dos muros de suas próprias cidades. O que antes exigia a presença física diante de uma cadeira elevada podia agora viajar impresso, em milhares de cópias, atravessando oceanos inteiros. E foi exatamente isso que aconteceu, nos séculos seguintes, quando a Europa partiu para explorar outros continentes: a cátedra e a prensa viajaram juntas, uma autorizando o conteúdo, a outra multiplicando seu alcance, e as duas, juntas, decidindo quais sistemas de direito, de cura, de ciência e de fé mereciam ser chamados de conhecimento, e quais seriam rebaixados a superstição, folclore ou atraso.

I

Foucault e o Saber Que Nasce do Poder

Sobre saber, poder e regimes de verdade

O filósofo francês Michel Foucault dedicou boa parte da obra a demonstrar algo que soa óbvio depois de dito, mas que raramente é reconhecido enquanto está acontecendo: conhecimento e poder nunca estiveram realmente separados. Instituições como a universidade, a clínica e o tribunal não apenas descobrem verdades preexistentes, elas produzem o que Foucault chamou de regime de verdade, o conjunto de regras que determina, em cada época, quais afirmações podem circular como verdadeiras e quais são automaticamente descartadas como não científicas, não jurídicas, não médicas.

A cátedra medieval, nesse sentido, nunca foi um espaço neutro de transmissão do saber. Foi, desde a origem, um espaço de autorização: quem sentava ali tinha o poder de declarar o que contava como direito legítimo, como cura legítima, como ciência legítima. E quem não tinha acesso a essa cadeira, por qualquer razão, incluindo a de viver do outro lado de um oceano ainda não cruzado pelos navios europeus, simplesmente não entrava na conversa sobre o que seria considerado conhecimento.

Uma cátedra nunca apenas ensina. Ela decide, ao mesmo tempo, quem tem autoridade para saber e quem só tem autoridade para ser estudado.

Foucault escreveu de dentro da própria tradição que criou as cátedras, e é justamente por isso que sua crítica importa aqui: mostra que a denúncia dessa mecânica de poder não veio apenas de fora do sistema, veio também de dentro dele, de alguém que reconheceu, na própria arquitetura das instituições que o formaram, o mecanismo silencioso de exclusão que elas sempre carregaram.

II

Said e as Cátedras Que Estudavam Sem Escutar

Sobre Orientalismo

O crítico literário Edward Said, nascido em Jerusalém e formado nos Estados Unidos, publicou em 1978 um livro chamado Orientalismo, no qual demonstrou como universidades europeias criaram, ao longo de séculos, cátedras dedicadas inteiramente ao estudo do que chamavam de Oriente, o mundo árabe, persa, otomano e indiano. Existiam, literalmente, cadeiras de Estudos Orientais em Oxford, em Cambridge, em Paris, ocupadas por especialistas que dominavam árabe, persa e sânscrito, que liam e traduziam textos antigos com rigor filológico genuíno.

O problema que Said identificou não era a falta de erudição desses especialistas. Era o fato de que a autoridade para interpretar aquelas culturas permanecia quase inteiramente do lado europeu, mesmo quando o assunto era a própria história, a própria religião, o próprio direito dos povos estudados. O Oriente virou objeto de pesquisa produzido para consumo europeu, quase nunca sujeito com voz própria dentro da própria academia que o descrevia. Said chamou esse mecanismo de orientalismo: um sistema de representação que falava sobre um povo inteiro sem, na maior parte do tempo, deixar que esse povo falasse por si mesmo dentro dos mesmos espaços de autoridade.

Estudar um povo com rigor não é o mesmo que dar voz a ele. É possível dominar um idioma inteiro e, ainda assim, nunca ceder o microfone.

Há uma ironia adicional nesse processo, raramente contada nos manuais de história da ciência: boa parte do conhecimento médico ensinado nas próprias universidades europeias, durante séculos, vinha de um único autor, o médico persa Ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena, cujo Cânone da Medicina, escrito no início do século onze, permaneceu como texto obrigatório em faculdades europeias de medicina até o século dezessete. A cátedra ocidental ensinou Avicena durante seiscentos anos seguidos e, ainda assim, a historiografia posterior preferiu contar a história da medicina como uma linha reta dos gregos direto para o Renascimento europeu, apagando o intermediário que sustentou o conhecimento durante toda a Idade Média.

III

Fanon e a Colonização Que Entra na Cabeça

Sobre a subjugação psicológica

O psiquiatra Frantz Fanon, nascido na Martinica e formado na França, trabalhou como médico na Argélia durante a guerra de independência contra o domínio colonial francês, e escreveu, a partir dessa experiência dupla, dois livros que se tornariam referência fundamental para entender a colonização por dentro: Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra.

A contribuição central de Fanon está numa observação clínica precisa: a colonização nunca se limita a ocupar território e extrair recursos. Ela invade também a psique de quem é colonizado, ensinando-o, através de escolas, igrejas, tribunais e universidades construídos pelo próprio colonizador, a enxergar a própria cultura, a própria língua, o próprio corpo como inferiores, atrasados, menos civilizados que os do colonizador. O colonizado aprende a se ver pelos olhos de quem o subjugou, e essa segunda camada de subjugação, a psicológica, muitas vezes sobrevive muito além do fim político da colonização formal.

Tomar a terra de um povo é a primeira violência. Convencer esse povo de que sua própria sabedoria nunca existiu é a segunda, e é a que demora gerações inteiras para cicatrizar.

IV

Freire e o Direito de Nomear o Próprio Mundo

Sobre a pedagogia do oprimido

O educador brasileiro Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, publicado em 1968, chamou de educação bancária o modelo tradicional de ensino no qual o professor deposita conteúdo numa plateia passiva, exatamente a lógica original da cátedra elevada, alguém fala de cima, o resto escuta em silêncio. Freire propôs, no lugar disso, uma pedagogia dialógica, na qual o processo de aprender e o de ensinar acontecem juntos, entre iguais, e na qual o oprimido reconquista algo que Freire considerava fundamental: o direito de nomear o próprio mundo com as próprias palavras, em vez de aceitar, passivamente, os nomes que outros já escolheram por ele.

Freire descreveu ainda o que chamou de cultura do silêncio, o estado imposto a populações inteiras, historicamente colonizadas ou marginalizadas, que aprenderam, ao longo de gerações, que suas próprias vozes não tinham peso suficiente para entrar na conversa sobre o próprio destino. Não por falta de conhecimento real sobre a própria vida e a própria terra, mas porque nenhuma instituição jamais lhes ofereceu uma cátedra própria a partir da qual pudessem falar com a mesma autoridade que sempre foi concedida automaticamente a quem chegava do outro lado do oceano.

Silêncio imposto por gerações não é ausência de conhecimento. É ausência de cátedra.

V

O Que Se Perdeu Quando Essas Vozes Foram Silenciadas

Códices, manuscritos e memória apagada

Em 1562, o frade espanhol Diego de Landa ordenou a queima de dezenas de códices maias na cidade de Maní, no atual México, destruindo, num único auto de fé, séculos de registro astronômico, calendárico e histórico de uma civilização inteira, sob a justificativa de que aqueles textos continham superstição e obra do demônio. Restaram, até hoje, apenas quatro códices maias conhecidos no mundo inteiro.

Na outra ponta do continente africano, a cidade de Timbuktu, no atual Mali, abrigou durante séculos uma das maiores concentrações de manuscritos do mundo islâmico, produzidos em torno da mesquita e universidade de Sankoré, tratando de astronomia, direito, medicina e matemática. Por séculos, a historiografia ocidental preferiu ignorar essa tradição inteira, tratando a África subsaariana como espaço sem escrita própria, sem cátedra própria, sem ciência própria, apesar da evidência acumulada bem debaixo do nariz de quem sempre teve interesse em não olhar para ela.

VI

A Cátedra Que Ainda Falta Construir

Fechamento

Nenhuma das quatro vozes reunidas aqui, Foucault, Said, Fanon e Freire, propõe simplesmente destruir a cátedra e substituí-la pelo caos. Todos, cada um a seu modo, propõem algo mais exigente: reconhecer que a cadeira elevada nunca foi neutra, que decidir o que conta como conhecimento sempre foi também decidir quem tem permissão para falar, e que a reparação verdadeira dessa dupla subjugação exige mais do que pedir desculpas pelo território tomado. Exige devolver, a quem teve a própria intelectualidade apagada, o direito de ocupar a cátedra com a mesma autoridade automática que sempre foi concedida a quem chegou depois, de navio, com prensa e cruz nas mãos.

A pergunta que fica não é apenas quem tem razão sobre o que é verdadeiro. É quem, historicamente, teve permissão de sentar na cadeira elevada para dizer isso em voz alta, e quem passou séculos inteiros escutando de pé, lá embaixo, sendo estudado sem nunca ser convidado a subir. Reconhecer essa história não resolve, sozinho, o desequilíbrio acumulado ao longo de tantos séculos, mas é o primeiro passo indispensável para qualquer reparação que pretenda ser mais que gesto simbólico.

Quem construiu a prensa e a cátedra
esqueceu de perguntar
que sabedoria já existia
antes do navio chegar,
e chamou de silêncio
o que era, na verdade, uma língua
que ninguém se deu ao trabalho de aprender a ouvir.

Dedicatória

Este texto é dedicado a todo conhecimento que existiu sem cátedra, sem prensa e sem nome registrado, e que ainda assim sustentou povos inteiros por gerações antes de qualquer um vir chamá-lo de atraso.

Ainda aprendendo quem teve voz e quem foi só estudado, Santos Moisés.

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I · A cátedra medieval
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