Ensaio · Testemunho · Escrito LXXXI

LXXXI

A Lente Que Escolhe Onde Olhar

Injustiças sofridas, esquecidas e percebidas sem serem vistas

Ouvir este escrito · narrado

0:00--:--
1×

I

A lente da câmera, e a injustiça sofrida na Palestina com Mahmoud Darwish

II

Sarajevo e "Miss Sarajevo" do U2, e a injustiça esquecida com Chinua Achebe

III

A diarista e Carolina Maria de Jesus, e a quem compete olhar

IV

Fechamento soprando no vento

Uma câmera fotográfica ensina uma lição que raramente se aplica fora da fotografia: quanto mais perto o zoom, mais nítido o detalhe, mas menor o enquadramento; quanto mais longe, maior o alcance, mas tudo vira mancha desfocada. Ninguém consegue as duas coisas ao mesmo tempo. É preciso escolher entre ver de perto uma coisa só, ou ver de longe muitas, borradas.

A injustiça funciona pela mesma lógica óptica, e é aí que mora o problema deste texto. A que está a um metro de distância, a diarista que limpa a casa toda semana, o entregador que sobe seis lances de escada, a gente não vê direito porque está perto demais e virou paisagem, parte do cenário fixo do próprio cotidiano. A que está a milhares de quilômetros, uma cidade sitiada, um povo sob ocupação, um continente inteiro redesenhado por mãos estrangeiras, a gente também não vê direito, mas por razão oposta: virou número, virou manchete de trinta segundos, virou estatística grande demais para caber em rosto.

Existe ainda uma terceira distância, mais traiçoeira que as outras duas: a injustiça que já foi vista, já foi manchete, já comoveu o mundo inteiro por um tempo, e depois desapareceu do campo de visão sem que ninguém tenha decidido conscientemente parar de olhar. Não é esquecimento por acidente. É esquecimento por cansaço da atenção, o mesmo mecanismo que faz uma dor crônica parar de doer conscientemente depois de tempo suficiente, mesmo que o corpo continue ferido.

I

A Injustiça Sofrida

Sobre Mahmoud Darwish

O poeta palestino Mahmoud Darwish passou a vida inteira escrevendo sobre uma experiência que a maioria de seus leitores jamais vai viver em primeira pessoa: a de ter a própria existência questionada, geração após geração, por um conflito que começou antes de qualquer um dos envolvidos ter nascido. Nascido na Galileia em 1941, viu a própria aldeia natal ser destruída ainda criança, tornou-se refugiado dentro da terra onde nasceu, e passaria décadas escrevendo sobre exílio, identidade e a dor específica de precisar provar, repetidamente, o próprio direito de existir num lugar.

Este texto não pretende, e não deveria pretender, tomar posição sobre o conflito político que ainda hoje define a região. O que a poesia de Darwish oferece é outra coisa, mais fundamental e menos disputável: o testemunho poético do que significa viver a vida inteira sob a sombra de uma pergunta que ninguém deveria ter que responder, a de justificar a própria presença. Ler Darwish não é escolher um lado de um mapa. É reconhecer que, por trás de qualquer disputa territorial, existem vidas humanas específicas atravessando um tipo de sofrimento que estatística nenhuma consegue transmitir sozinha.

Nenhuma estatística chora. Nenhum número tem infância interrompida. É para isso que existe a poesia: para devolver rosto a quem o noticiário reduziu a dado.

A injustiça sofrida, na acepção mais estrita da palavra, é aquela vivida em primeira pessoa, no próprio corpo, na própria história, sem possibilidade de distância confortável entre quem sofre e quem observa. Ela não pede que o leitor resolva um conflito geopolítico. Pede, apenas, que reconheça que existe alguém do outro lado da manchete, e que esse alguém tem nome.

II

A Injustiça Testemunhada e Depois Esquecida

Sobre "Miss Sarajevo", do U2

Em 1995, a banda irlandesa U2, sob o nome de projeto Passengers, lançou uma canção chamada "Miss Sarajevo", em parceria com o compositor Brian Eno e a voz do tenor Luciano Pavarotti. A canção nasceu de um episódio real ocorrido dois anos antes, em plena guerra da Bósnia: em 1993, em meio ao cerco mais longo de uma capital na história militar moderna, um grupo de jovens organizou um concurso de beleza dentro da própria Sarajevo sitiada, como ato deliberado de resistência contra a normalização do horror. As concorrentes desfilaram segurando uma faixa com uma frase que se tornaria símbolo daquele momento: não deixem que nos matem.

A canção pergunta, em determinado momento, se existe um tempo certo para manter distância, um tempo certo para desviar o olhar. A pergunta não é retórica. É acusação sutil dirigida a um mundo que, durante os quase quatro anos de cerco a Sarajevo, assistiu em tempo real pela televisão a uma cidade europeia sendo destruída, e mesmo assim demorou para agir.

O que torna Sarajevo um caso à parte, distinto tanto da injustiça sofrida em primeira pessoa quanto da injustiça nunca vista, é justamente esse trajeto duplo: primeiro foi manchete diária, capa de revista, assunto de conversa em qualquer mesa de bar do mundo ocidental durante anos seguidos. Depois, com o fim da guerra em 1995, foi progressivamente desaparecendo do campo de visão coletivo, até virar, para a maioria das pessoas nascidas depois daquela década, apenas um nome vago associado a uma guerra distante que ninguém se lembra bem dos detalhes.

Sarajevo prova que ser visto não é garantia contra o esquecimento. É só um adiamento dele.

A pergunta sobre o tempo certo de desviar o olhar continua tão atual quanto em 1995, só que agora aplicada ao próprio destino da canção: em algum momento, o mundo desviou o olhar de Sarajevo também, não porque decidiu isso conscientemente, mas porque a atenção coletiva tem prazo de validade, e raramente alguém percebe o instante exato em que esse prazo vence.

III

A Injustiça Esquecida

Sobre Chinua Achebe

O escritor nigeriano Chinua Achebe publicou, em 1958, um romance chamado O Mundo se Despedaça, que narra por dentro, a partir da perspectiva de uma sociedade igbo tradicional, o processo de desmonte causado pela chegada dos colonizadores europeus. O livro não é um tratado histórico sobre colonialismo. É ficção que reconstrói, com precisão etnográfica e dor humana, um mundo inteiro sendo desfeito, suas instituições, sua religião, sua estrutura familiar, substituídas à força por outra ordem que se autodeclarava superior.

O que Achebe força o leitor a perceber é uma pergunta incômoda sobre a própria origem do conhecimento histórico: quem escreveu a história que a maioria das pessoas aprendeu sobre a colonização da África? Quase sempre, os próprios colonizadores, os vencedores do processo, os que tiveram acesso à escrita, à imprensa, às universidades. As vítimas do processo raramente tiveram a mesma oportunidade de registrar a própria versão, e o resultado é uma injustiça histórica que se tornou, adicionalmente, uma injustiça de memória: não apenas sofrida uma vez, mas apagada repetidamente, geração após geração, dos livros que deveriam contá-la.

Uma injustiça que ninguém registra desaparece duas vezes: primeiro na vida de quem a sofreu, depois na memória de quem deveria ter aprendido sobre ela.

IV

A Injustiça Percebida Sem Ser Vista

Sobre Carolina Maria de Jesus

A escritora brasileira Carolina Maria de Jesus viveu, nos anos 1950, numa favela de São Paulo, sustentando os próprios filhos catando papel e ferro-velho pelas ruas da cidade. Nas horas vagas, escrevia num caderno o que via e vivia: a fome real, cotidiana, física, e a indiferença de uma cidade inteira que crescia ao redor daquela miséria sem realmente enxergá-la. O diário, publicado em 1960 sob o título Quarto de Despejo, tornou-se um dos retratos mais diretos já escritos sobre a pobreza brasileira, precisamente porque não veio de fora olhando para dentro, veio de dentro contando para fora.

Existe uma diferença importante entre essa injustiça e as duas anteriores. Palestina e Sarajevo, ao menos num primeiro momento, foram invisíveis por distância geográfica, longe demais para o zoom alcançar com nitidez. A pobreza que Carolina Maria de Jesus registrou, e que continua presente em praticamente toda cidade brasileira até hoje, não sofre desse problema. Ela está perto. Está na esquina, na fila do ônibus, na porta de serviço da própria casa. E é justamente essa proximidade que produz o tipo mais peculiar de invisibilidade: não a de quem nunca foi visto, mas a de quem é visto todo santo dia e, por isso mesmo, parou de ser realmente enxergado.

A diarista que trabalha na casa de alguém, o entregador que sobe a escada todo dia, o morador de rua na mesma calçada há meses, todos entram na categoria de injustiças percebidas sem serem vistas: presentes, conhecidas, cumprimentadas até, mas raramente consideradas como sujeitos de uma história tão complexa e tão digna de atenção quanto a de quem está do outro lado da relação.

A injustiça que se vê todo dia corre o risco específico de nunca mais ser vista de verdade.

V

A Quem Compete Olhar

Virada

Nenhum dos três casos apresentados aqui pede um culpado específico, e este texto se recusa deliberadamente a apontar um. Culpar é fácil, e sobretudo, é uma forma confortável de encerrar a conversa sem mudar o próprio comportamento.

A pergunta mais honesta, e mais difícil de responder, não é de quem é a culpa. É a quem compete olhar, e com que tipo de lente cada um está disposto a usar. Ninguém consegue enxergar tudo com nitidez ao mesmo tempo. Mas cada pessoa escolhe, consciente ou inconscientemente, para onde aponta o próprio zoom, e por quanto tempo mantém o foco antes de desviar o olhar para outra coisa mais confortável.

VI

Soprando no Vento

Fechamento

Bob Dylan perguntou, décadas atrás, quantas vezes um homem pode virar a cabeça e fingir que simplesmente não viu. Nunca deu resposta fechada, disse apenas que ela estava soprando no vento, sempre presente, raramente ouvida. A banda U2 perguntou se existe um tempo certo para manter distância, um tempo certo para desviar o olhar de uma cidade sitiada. Também não respondeu. Darwish escreveu a vida inteira sobre precisar provar o próprio direito de existir. Achebe registrou um mundo inteiro se despedaçando para que a versão dos vencidos não desaparecesse por completo. Carolina Maria de Jesus escreveu num caderno comprado com dinheiro de papel catado, para que a fome da própria favela não fosse apenas ruído de fundo na cidade ao redor.

Nenhum deles resolveu a injustiça sobre a qual escreveu. Todos, cada um à sua maneira, se recusaram a desviar o olhar dela por tempo suficiente para que outra pessoa, em outro lugar, décadas depois, também não conseguisse mais fingir que não tinha visto.

Quem pergunta demais incomoda,
mas quem nunca pergunta
já escolheu, sem perceber,
para que lado vai apontar a lente,
e para que lado vai fingir que o vento não sopra.

Dedicatória

Este texto é dedicado às crianças esquecidas na Palestina, cujos nomes o mundo nunca chegou a aprender antes de virarem número.

Ainda aprendendo a manter o foco, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · A lente da câmera
Biblioteca