Eco · Bob Dylan · Escrito LXXVII

LXXVII

A Letra Que Escapou

Sobre Bob Dylan, o show elétrico de Newport, e o Nobel de Literatura que ele quase não aceitou

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I

O menino que inventou o próprio nome, e o show elétrico de Newport

II

As canções, e o Nobel de Literatura

III

O que ainda ressoa

Estocolmo, 10 de dezembro de 2016. A cantora Patti Smith sobe ao palco da cerimônia do Nobel para cantar, em nome de um homem que se recusou a comparecer, a canção que talvez melhor resuma a obra dele inteira: A Hard Rain's A-Gonna Fall. Dois minutos dentro da apresentação, diante de mil e quinhentas pessoas entre acadêmicos, políticos e a realeza sueca, Patti para. Esquece a letra. Pede desculpas, diz que está nervosa demais, e a plateia inteira responde com aplausos, não de constrangimento, de reconhecimento. Ela recomeça, e termina.

Ninguém mais no mundo tinha tanto direito de esquecer aquela letra quanto alguém cantando em nome do próprio autor. E talvez ninguém tenha prestado uma homenagem mais precisa a Bob Dylan do que esse instante de esquecimento em público, porque a obra inteira dele é sobre isso: a coragem de errar diante de todos em vez de repetir, seguro e morto por dentro, a versão que todo mundo já esperava ouvir.

I

O menino que inventou o próprio nome

Sobre Minnesota, Woody Guthrie e o acidente de 1966

Robert Allen Zimmerman nasceu em 1941 em Duluth, Minnesota, e cresceu em Hibbing, cidade de mineração no meio do inverno mais duro dos Estados Unidos, numa das poucas famílias judias do lugar. Aprendeu piano e violão sozinho, formou bandas de colégio, e aos dezenove anos trocou de nome, adotando Dylan, provavelmente em homenagem ao poeta galês Dylan Thomas. O nome novo veio acompanhado de uma biografia inteiramente inventada: contava a quem perguntasse que tinha nascido num circo itinerante, que era órfão, que já tinha morado em meia dúzia de estados diferentes tocando piano desde os catorze anos. Nada daquilo era verdade. Era, sim, o primeiro rascunho de uma prática que ele manteria a vida inteira: a de nunca deixar que uma única versão de si mesmo se fixasse por tempo demais.

Chegou a Nova York em 1961 para conhecer o próprio ídolo, o cantor folk Woody Guthrie, então internado num hospital, definhando com a doença de Huntington. Visitou-o repetidas vezes, tocou para ele, absorveu tudo que pôde antes de perder de vez essa referência. Menos de um ano depois, já tinha contrato com a Columbia Records e um álbum de estreia nas lojas.

Um nome novo, uma biografia inventada, um ídolo visitado à beira da morte: antes mesmo do primeiro álbum, Dylan já tinha decidido que identidade era matéria a ser construída, não herdada.

Em 1966, no auge da fama, sofreu um grave acidente de motocicleta perto de casa. Os detalhes exatos nunca ficaram claros, o próprio Dylan contribuiu para a névoa em torno do episódio, mas o resultado foi visível: desapareceu da vida pública por quase um ano e meio, recusando turnês, entrevistas, quase todo contato com a fama que tinha construído. Quando voltou, voltou diferente, como sempre voltava.

II

O homem que ninguém consegue prender numa única versão

Sobre Newport 1965 e o grito de Judas em Manchester

Em 25 de julho de 1965, no Newport Folk Festival, Dylan subiu ao palco com uma banda de rock e uma guitarra elétrica, abandonando o violão acústico que tinha feito dele o rei incontestável do movimento folk americano. Parte da plateia vaiou. Quase um ano depois, em Manchester, durante a turnê seguinte, um fã gritou uma única palavra em meio ao silêncio antes da última música do show: Judas. Dylan não hesitou. Respondeu que não acreditava naquele homem, que ele era um mentiroso, e virou-se para a própria banda com uma ordem: toquem alto.

Não era provocação gratuita. Era a recusa deliberada de continuar sendo o porta-voz acústico e consensual de um movimento que já tinha decidido, sem consultá-lo, quem ele deveria ser para sempre. Dylan preferiu decepcionar quem o amava por uma versão específica dele mesmo a fingir, por lealdade a uma plateia, que ainda era aquele artista.

Ser vaiado por mudar é, com frequência, o preço mais alto que se paga por continuar vivo artisticamente. A alternativa, repetir para sempre a versão já aprovada, é uma forma mais lenta de já ter morrido.

Essa recusa em pertencer a uma única versão de si mesmo não era só gesto de palco. Era método de composição. Dylan raramente explicava o que uma canção sua queria dizer, e chegou a afirmar, em entrevista, que se uma canção comove alguém, isso já é tudo que importa, que ele mesmo não precisa saber o que ela significa. Escrever, para ele, nunca foi fixar um sentido definitivo. Foi abrir um espaço amplo demais para caber numa única interpretação, inclusive a do próprio autor.

III

As canções que carregam o método

Sobre Blowin' in the Wind e Like a Rolling Stone

Duas canções bastam para ilustrar as duas faces dessa recusa. Blowin' in the Wind, de 1962, feita de perguntas em sequência, nenhuma respondida diretamente, virou hino do movimento pelos direitos civis sem nunca nomear uma causa específica, exatamente porque deixava espaço aberto demais para ser apropriada por qualquer luta que precisasse dela. Like a Rolling Stone, de 1965, a canção que ele tocou pela primeira vez ao vivo justamente naquela tarde controversa em Newport, é o oposto: elétrica, agressiva, dirigida a alguém que perdeu status e precisa aprender a viver sem as certezas de antes, o próprio Dylan cantando, sem dizer, sobre o que estava prestes a fazer com a própria carreira.

IV

O prêmio que ninguém sabia se deveria existir

Sobre o Nobel de Literatura 2016

Em outubro de 2016, a Academia Sueca anunciou que o Prêmio Nobel de Literatura daquele ano iria para Bob Dylan, por ter criado novas formas de expressão poética dentro da grande tradição da canção americana. Era a primeira vez que um compositor de canções recebia o prêmio, e a decisão dividiu o mundo literário na hora: letra de música é literatura, ou é outra coisa, parecida mas diferente, que não deveria disputar o mesmo espaço que romances e poemas impressos?

Dylan levou duas semanas para sequer confirmar que tinha recebido a notícia. O silêncio foi longo o bastante para que um dos próprios membros da Academia Sueca o chamasse, publicamente, de grosseiro e arrogante, palavras que a instituição depois tentou distanciar de sua posição oficial. Quando finalmente respondeu, disse que tinha levado mais que alguns minutos para conseguir processar a notícia direito. Recusou-se a comparecer à cerimônia em Estocolmo, alegando compromissos anteriores, mandou Patti Smith cantar em seu lugar, e só entregou a palestra obrigatória do Nobel, condição para receber o valor do prêmio, sete meses depois do prazo original.

Nessa palestra, finalmente escrita, Dylan escolheu falar sobre três livros que o marcaram quando ainda era estudante: Moby Dick, Nada de Novo no Front Ocidental, e a Odisseia de Homero. Reconheceu nunca ter parado, antes daquele prêmio, para se perguntar se as próprias canções eram literatura, e ofereceu uma defesa que parecia dirigida tanto à Academia quanto a si mesmo: Shakespeare escreveu suas peças para serem encenadas, não lidas silenciosamente, e talvez uma canção mereça o mesmo tipo de licença.

Levou duas semanas de silêncio, uma acusação pública de arrogância e sete meses de atraso para que o maior prêmio literário do mundo recebesse a resposta de alguém que nunca pediu para ser chamado de escritor.

Leonard Cohen, amigo e contemporâneo de Dylan, resumiu a ironia toda numa frase: dar o Nobel a Dylan era como pendurar uma medalha no cume do Everest, um gesto bonito, mas desnecessário, para alguém que já era, havia décadas, a montanha mais alta à vista. Escritores como Salman Rushdie e Stephen King saudaram a escolha como reconhecimento tardio de uma tradição de bardos que a crítica literária insistia em tratar como categoria menor. Outros nunca aceitaram a decisão, e o debate sobre onde termina a canção e começa a literatura continua, uma década depois, sem veredito final, o que talvez seja exatamente o tipo de final em aberto que o próprio Dylan sempre preferiu para as próprias canções.

V

O que ainda ressoa

Fechamento

Você já teve que escolher entre continuar sendo a versão de si mesmo que os outros preferem, ou arriscar a decepção alheia para se tornar quem realmente precisa ser? A plateia de Newport queria o Dylan acústico de sempre. A Academia Sueca não sabia, ao anunciar o prêmio, se o próprio agraciado ia sequer atender o telefone. Em ambos os casos, ele escolheu continuar em movimento, mesmo sabendo o preço de decepcionar quem esperava uma resposta mais fácil de aceitar.

O eco que sobra, quase sessenta anos depois de Newport, é menos sobre música e mais sobre a coragem específica de errar em público, de esquecer a própria letra no meio da apresentação mais importante da vida, e confiar que a plateia certa vai aplaudir de qualquer jeito, não pela perfeição, mas pelo reconhecimento de que só quem está realmente vivo tropeça às vezes na própria voz.

A letra que Patti Smith esqueceu naquela noite em Estocolmo nunca foi encontrada de novo do mesmo jeito. Ela recomeçou diferente, um pouco mais frágil, um pouco mais verdadeira do que teria sido se tivesse saído perfeita da primeira vez.

A voz que muda de forma
não trai quem a seguiu de longe,
só se recusa a virar estátua
enquanto ainda há sangue
capaz de errar e recomeçar.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem já decepcionou alguém por continuar se tornando quem precisava ser.

Ainda aprendendo a tocar alto mesmo quando vaiado, Santos Moisés.

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I · O menino que inventou o próprio nome
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