Ensaio · Testemunho · Escrito XXXIII

XXXIII

A Calçada Deserta

Estigma, invisibilidade e o custo do olhar alheio

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I

O tribunal do gesto

II

O corpo sob coação

III

A sociedade que consome

IV

O testemunho

Antes de começar, um esclarecimento necessário: este ensaio nasce da provocação de uma canção conhecida, que tornou popular, na cultura brasileira recente, a expressão "mudar de calçada" como gesto de exclusão. Prefiro não reproduzir os versos originais nem seguir sua narrativa linha a linha, por respeito à obra e a quem a escreveu. O que farei é usar o fenômeno que ela nomeou, o desvio físico e moral diante de mulheres em situação de prostituição de rua, como porta de entrada para uma reflexão mais ampla sobre estigma, coação e a forma como sociedades inteiras aprendem a não ver quem mais precisaria ser visto.

Este é, também, um dos temas mais delicados que esta coleção já enfrentou, e peço ao leitor a mesma seriedade que tentei trazer para escrevê-lo: nada aqui pretende romantizar exploração, nem tratar violência como metáfora confortável. O que se segue é, antes de tudo, um exercício de olhar de frente para algo que a maioria de nós, por hábito ou por conveniência moral, prefere atravessar a rua para não encarar.

Abertura

O Ruído dos Passos e o Olhar que Condena

Há um gesto tão comum que quase ninguém o percebe como gesto: alguém caminha por uma calçada, avista à distância uma mulher parada na esquina, e muda de lado da rua. Não há confronto, não há palavra trocada, não há sequer contato visual sustentado. Há apenas um pequeno desvio de trajetória, decidido em frações de segundo, quase automático. E é exatamente por ser automático que esse gesto merece exame filosófico cuidadoso: ele revela, com mais honestidade do que qualquer declaração consciente, o que uma sociedade decidiu, sem votar nisso em lugar nenhum, sobre quem merece ser encarado e quem deve ser evitado como se fosse obstáculo físico na paisagem urbana.

O desvio da calçada não é apenas locomoção. É um ato de fronteira. Ele traça, em tempo real, uma linha entre quem pertence à cena da rua como pessoa e quem passa a ser tratado como risco a ser contornado, mancha visual a ser evitada, lembrete incômodo do que a cidade prefere manter fora do campo de visão de quem tem o privilégio de nunca precisar estar ali.

I

O Tribunal Invisível do Gesto

Sobre reconhecimento negado

Georg Wilhelm Friedrich Hegel argumentou que a identidade humana não se constitui isoladamente, mas através do reconhecimento mútuo: eu só me torno plenamente alguém quando outro sujeito me devolve o olhar e valida, ainda que silenciosamente, minha existência como sujeito e não como objeto de cenário. Esse reconhecimento não é favor nem gentileza opcional. Para Hegel, é condição estrutural da própria formação da consciência de si.

Mudar de calçada é a negação mais econômica possível desse reconhecimento. Não exige confronto, não exige palavra ofensiva, não deixa registro de agressão nenhuma que possa ser nomeada ou processada judicialmente. E é justamente por não deixar marca que esse gesto se torna tão eficiente em produzir exclusão: ele não ataca a pessoa, apenas a apaga do campo de atenção moral de quem caminha, tratando-a não como o Tu descrito pelo filósofo austríaco Martin Buber, presença que exige encontro genuíno, mas como Isso, objeto a ser processado visualmente e descartado da rota sem qualquer custo emocional para quem desvia.

A hipocrisia não está apenas em julgar. Está em julgar seletivamente, poupando sempre quem sustenta a demanda e punindo sempre quem, na ponta mais vulnerável da cadeia, aparece de corpo exposto na luz do dia.

Há, por trás desse gesto individual repetido milhares de vezes por dia em qualquer cidade, algo que funciona como um puritanismo de conveniência social: uma hipocrisia coletiva bem organizada, que absolve de julgamento quem sustenta financeiramente a existência daquela mulher na esquina, o cliente que a procura à noite sob a proteção do anonimato e da escuridão, e reserva todo o peso do julgamento moral para ela, visível de dia, sozinha, sem nenhuma das proteções sociais que protegem quem consome o que ela oferece.

II

O Corpo Sob Coação

Sobre alienação extrema e a diferença entre falta de opção e ausência real de escolha

Karl Marx descreveu a alienação como o processo pelo qual o trabalhador se torna estranho ao próprio trabalho e, através dele, estranho a si mesmo, vendendo força de trabalho que deixa de lhe pertencer no momento em que entra na engrenagem produtiva de outro. Na fábrica que Marx observou, o corpo produz objetos que se afastam de quem os fez. Na prostituição de rua, a alienação atinge um grau ainda mais extremo e mais íntimo: não é apenas a força física que se vende, é a interface mais pessoal do próprio ser que se torna recurso a ser extraído, otimizado para sobrevivência econômica imediata, num mercado que precifica literalmente o corpo de quem nele está inserida.

Mas seria uma simplificação grave, e por isso este ensaio recusa fazê-la, tratar essa realidade apenas como uma forma extrema de trabalho alienado entre tantas outras, como se estivesse na mesma categoria moral de um emprego mal remunerado em qualquer outro setor. É preciso nomear com clareza o que estudos e organizações que atuam diretamente com essa população repetidamente documentam: uma parcela significativa das mulheres em situação de prostituição de rua não está ali por uma cadeia de decisões livres, ainda que limitadas por escassez econômica no sentido abstrato do termo. Está ali por coação direta, por dívidas impostas e cobradas com violência, por dependência química administrada deliberadamente por terceiros interessados em manter essa dependência, por redes de tráfico de pessoas que recrutam, transportam e exploram vítimas, muitas vezes menores de idade em algum momento de suas trajetórias, sob ameaça e vigilância constante.

Em muitos casos, o que existe não é escassez de alternativas. É ausência literal de liberdade, sustentada por violência real, exercida por agentes concretos que lucram diretamente com a manutenção dessa exploração.

Chamar essa realidade apenas de falta de escolha, no sentido econômico brando que normalmente usamos para descrever alguém que aceita um trabalho ruim por não ter opção melhor, é já uma forma sutil de eufemismo. Um ensaio sobre estigma que não nomeia isso com a mesma clareza com que nomeia o julgamento social estaria fazendo uma crítica bonita e incompleta, generosa com o incômodo estético do preconceito alheio, mas silenciosa diante da violência estrutural que sustenta o próprio fenômeno.

III

A Sociedade que Consome e Cospe

Sobre quem sustenta a demanda

Byung-Chul Han descreveu, em sua crítica à sociedade contemporânea, como o capitalismo avançado transforma vínculos humanos em mercadorias descartáveis, esvaziando o Eros de sua dimensão de encontro genuíno e reduzindo-o a consumo de experiência, adquirida e descartada com a mesma lógica de qualquer outro produto disponível numa vitrine. A prostituição de rua é, sob essa luz, sintoma extremo de uma sociedade que já aprendeu, de modo geral, a tratar o outro como fornecedor de serviço a ser consumido, e que apenas revela com mais crueza, nesse caso específico, uma lógica que opera, de forma mais disfarçada, em muitos outros vínculos contemporâneos.

Há uma assimetria que precisa ser dita sem rodeios: a mulher na calçada exerce, na estrutura dessa troca, aquilo que se poderia chamar de poiesis, a produção de alívio ou prazer para o outro, enquanto sua própria praxis, o viver para si, para os próprios projetos, para a própria dignidade cotidiana, permanece suspensa, pausada pela exaustão de sustentar, corpo e presença, a demanda alheia. Quem consome esse serviço, por sua vez, raramente carrega qualquer peso simbólico equivalente. Volta para casa, para a vida diurna, para a reputação social intacta, protegido pelo mesmo puritanismo de conveniência que reserva todo o julgamento visível para quem, na rua, não tem como se esconder.

Um sistema que lucra com a existência da prostituição ainda assim reserva toda a condenação moral disponível para a pessoa mais vulnerável de toda a cadeia, aquela que menos poder tem sobre as próprias circunstâncias.

Isso não é acidente cultural. É arquitetura social deliberadamente desigual, seja através de quem a explora diretamente através de coação e tráfico, seja através de quem a consome sem nunca precisar responder por isso publicamente. Falar sobre estigma sem nomear essa assimetria de responsabilidade seria permanecer, mais uma vez, apenas na superfície confortável do problema.

IV

O Testemunho sob o Silêncio

Sobre atenção ao desamparo e os limites do consolo filosófico

Simone Weil escreveu que existe um tipo específico de sofrimento, ao qual deu o nome de malheur, aflição extrema, que difere da dor comum precisamente por retirar da pessoa que a sofre a própria capacidade de narrar o que sente. A aflição, para Weil, não apenas machuca. Ela cala. Rouba da vítima o vocabulário e a energia necessários para reivindicar, diante dos outros, o próprio sofrimento como digno de atenção. É por isso que Weil considerava a atenção genuína ao desamparo alheio, não a pena, não a caridade performática, mas a atenção plena e silenciosa, a forma mais rara e mais exigente de generosidade humana.

Sob essa luz, uma canção popular que nomeia o gesto de mudar de calçada cumpre uma função que vai além do entretenimento: funciona como testemunho parcial de quem, na vida real, raramente tem palco, plateia ou vocabulário disponível para narrar a própria fratura. Não substitui a voz de quem vive essa realidade. Mas aponta, à distância segura de quem escuta a canção com conforto, para uma existência que a maioria prefere não escutar de perto.

É preciso, aqui, tratar com muito cuidado uma tentação filosófica específica, e talvez seja este o ponto mais delicado de todo o ensaio. Epicteto ensinava que existe, mesmo nas circunstâncias mais adversas, um núcleo interior, a prohairesis, a faculdade da vontade moral, que nenhuma força externa pode confiscar por completo. Seria tentador encerrar esta reflexão dizendo que, sob a maquiagem, no silêncio da própria consciência, permanece intacta uma dignidade irredutível que a violência do mundo não consegue destruir. Mas esse consolo, oferecido por quem observa de fora, corre o risco real de se tornar evasão disfarçada de sabedoria: é fácil demais dizer a alguém que sua dignidade interior permanece intacta quando quem diz isso nunca precisará provar, na prática, se essa dignidade sobrevive a anos de coação real.

O sofrimento não elimina a humanidade de ninguém. Mas dizer isso não é, nunca, o mesmo que dizer que o sofrimento não precisa ser combatido, denunciado e interrompido.

A filosofia estoica pode, talvez, ser algo que a própria pessoa em sofrimento escolha buscar, como recurso interno de sobrevivência psicológica. Mas não pode, sem se tornar cruel, ser oferecida por quem está de fora como resposta suficiente à violência que segue, todos os dias, inteiramente real e inteiramente externa.

Fechamento

O Retorno à Mesma Calçada

Quem muda de calçada raramente pensa estar fazendo filosofia. Pensa, quando pensa alguma coisa, estar apenas evitando desconforto, talvez perigo, talvez constrangimento. Mas o gesto carrega, dentro de si, uma escolha maior do que parece: a escolha de não ser espelho. Porque talvez seja isso, mais do que qualquer moralismo consciente, o que o desvio realmente evita. Encarar aquela mulher de frente obrigaria a admitir que sua presença ali não é acidente isolado, é sintoma visível de uma cadeia inteira de decisões sociais, econômicas e criminais que a colocaram naquele lugar específico, numa cidade que prefere culpar quem está exposta a nomear quem lucra, consome ou se cala.

Essa mesma lógica de desvio se repete, com pequenas variações, diante de tantas outras pessoas que a sociedade aprendeu a tratar como categoria a ser evitada em vez de indivíduo a ser encontrado: moradores de rua, pessoas em sofrimento psíquico visível, minorias historicamente empurradas para as margens de qualquer cidade. Em todos esses casos, o mecanismo é irmão do mesmo gesto: mudar de calçada, silenciosamente, para não ter que responder, nem para si mesmo, pela pergunta que o encontro genuíno sempre exige. Como isso foi permitido acontecer, e o que eu, especificamente, tenho a ver com isso.

A compaixão, ao final de tudo, não é sentimento distante de pena, praticado com segurança da própria calçada oposta. É a coragem de permanecer no mesmo lado da rua, e de perguntar, sem se esconder atrás de conforto filosófico fácil, o que exatamente sustenta, financia e protege a existência daquilo que se prefere não ver.

Há sempre uma calçada de frente para outra.
De um lado, quem julga sem olhar.
Do outro, quem carrega,
sozinha, o peso de ser vista.

Ninguém escolhe a esquina em que nasce.
Poucos escolhem a esquina em que ficam.

A canção acaba.
A calçada continua lá,
esperando que alguém,
pela primeira vez,
não mude de lado.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a Marília Mendonça, que emprestou sua voz a quem a vida nunca deu palco, e nos lembrou que toda calçada tem um lado que preferimos não atravessar.

Atravessando a rua, não a calçada, Santos Moisés.

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I · O tribunal do gesto
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