Tratado · Escolha · Escrito CLXXII

CLXXII

Tudo Certo, Vida Errada?

Por que quem faz tudo direito tem sempre um álibi contra a dúvida, e o que se pode corrigir sem demolir a vida

Ouvir este escrito · narrado

0:00--:--
1×

Aba I

Abertura e I e II · A vida que parece certa e o roteiro herdado

Aba II

III e IV · A eficiência e o certo como escudo

Aba III

V a VII · A pausa, o dever próprio e o medo de escolher

Aba IV

VIII a X · A objeção, a correção e a pergunta que fica

Ela acordou antes do despertador, que estava desligado, e levou alguns segundos para entender por quê. Era domingo. Pela primeira vez em muitos meses, a semana tinha fechado na sexta sem deixar nada pendente: o relatório entregue, o contrato assinado, a casa em ordem, a consulta marcada, o aniversário do sobrinho resolvido com um presente que ela mesma achou bom.

Fez o café devagar, porque podia. Ficou de pé na cozinha com a xícara, ouvindo o vizinho de cima arrastar uma cadeira e uma criança rir em algum apartamento do prédio. O sol já tinha chegado à borda da pia. Abriu a geladeira e a fechou sem pegar nada. Pegou o celular, olhou a caixa de entrada, que estava vazia, e o guardou no bolso do roupão como quem esconde uma prova.

Tinha o domingo inteiro livre e não sabia o que fazer com as mãos.

Não era tristeza, nem cansaço. Era mais quieto e mais estranho. Tentou pensar no que faria se ninguém esperasse nada dela até a manhã de segunda, e a resposta não veio. Vieram a lista do mercado, a roupa para passar, um e-mail que poderia adiantar. Tudo o que lhe ocorria era o que alguém já tinha pedido.

A xícara esfriou na mão. Lá fora, a criança riu de novo.

I

A Vida Que Parece Certa

Sobre Liev Tolstói e o juiz cuja vida foi tão correta que ninguém desconfiou

A vida de Ivan Ilitch, escreve Tolstói no segundo capítulo da novela, foi das mais simples, das mais comuns e por isso das mais terríveis. Liev Tolstói, escritor russo, publicou A Morte de Ivan Ilitch em 1886, e este ensaio nasceu de uma pergunta que ele pôs na cabeça do personagem quando já não havia tempo para responder: e se a vida inteira tiver sido errada?

Ivan Ilitch é um magistrado. Estudou direito, subiu na carreira, casou-se porque lhe pareceu a coisa certa a fazer, comprou casa, montou o apartamento com cuidado, cumpriu os rituais da posição que ocupava. Nada nele escandaliza. Os colegas o achavam agradável e correto, e é com esse adjetivo que ele atravessa a vida. Quando morre, na primeira página, os conhecidos pensam, antes de qualquer luto, em quem vai ocupar a vaga.

O que torna a novela incômoda é que ninguém ali faz nada errado. Não há crime, vício, escândalo. Há uma vida que funciona, e uma doença que a interrompe e obriga o personagem, já preso à cama, a fazer a única conta que nunca tinha feito.

A vida correta tem sempre um álibi pronto contra a dúvida.

A mulher da abertura não está doente, e a vida dela não se parece com a de um magistrado do século XIX. Mas o domingo vazio faz com ela, em miniatura, o que a cama fez com ele: tira o movimento e deixa a forma da vida à vista.

A hipótese que vou defender é esta. Quando uma vida é toda certa, o próprio certo vira escudo. Quem faz tudo direito tem sempre à mão a resposta pronta contra a dúvida, mas eu fiz tudo como se deve, e essa resposta, que é verdadeira, impede a pergunta de terminar. Vou mostrar como o mecanismo funciona, de onde vem o roteiro que cumprimos, o que a psicologia mediu sobre ele e o que três tradições, uma indiana, uma senegalesa e uma brasileira, sabem do assunto. No fim, quero chegar a algo menos dramático do que uma demolição.

II

O Roteiro Que Chegou Antes de Nós

Sobre Machado de Assis, James Marcia e a herança que vem com amor

Ninguém escolhe o primeiro roteiro, e quase ninguém desconfia de que ele existe. Estudamos porque era isso que pessoas responsáveis faziam. Escolhemos uma profissão perto do que a família conhecia. Procuramos estabilidade, reconhecimento e conforto porque aprendemos cedo que essa era a sequência. Nenhuma dessas escolhas foi imposta com violência. Foram entregues com afeto, e é por isso que é tão difícil enxergá-las.

Machado de Assis escreveu, em 1881, um conto que mostra essa entrega com humor e crueldade. Em “Teoria do Medalhão”, publicado na Gazeta de Notícias e depois no livro Papéis Avulsos, um pai chama o filho Janjão, que acaba de fazer vinte e um anos, e depois do jantar de aniversário lhe oferece uma conversa séria. O que ele quer é ver o filho “grande e ilustre, ou pelo menos notável”. Para isso entrega uma receita: usar lugares-comuns, parecer em vez de ser e, quanto às ideias, o melhor é “não as ter absolutamente”.

O pai do conto não é um vilão. É zeloso, está convencido de que ensina o melhor caminho e fala com a ternura de quem não quer que o filho passe pela obscuridade comum. Esse é o ponto. A herança mais difícil de recusar é a que chega como cuidado, porque recusá-la parece ingratidão.

A herança mais difícil de recusar vem embrulhada em cuidado.

A psicologia tem um nome para isso. Em 1966, o psicólogo James Marcia propôs distinguir quatro maneiras de lidar com a pergunta sobre quem somos e o que faremos da vida. O que as separa são dois movimentos: explorar alternativas e assumir compromissos. Quem explorou e se comprometeu alcançou uma identidade. Quem explora sem se comprometer fica em moratória. Quem nem explora nem se compromete anda à deriva. E quem assume compromissos sem ter explorado, adotando os que lhe chegaram prontos, está em foreclosure, que se pode traduzir por fechamento precoce.

O dado mais útil para este ensaio é que o fechamento precoce costuma vir com boa autoestima. Os estudos o associam também a rigidez e a pouca abertura a ideias diferentes, mas por dentro ele se sente bem, porque nada ali está em dúvida. A vida herdada não dói. Ela funciona. Por isso a pergunta do título é tão difícil de fazer: o alarme não toca.

Uma ressalva de justiça. Fechar cedo não é erro moral nem destino. Muita gente herda um roteiro e, ao examiná-lo, o reconhece como seu. A diferença não está no conteúdo da vida, que pode ser idêntico por fora. Está em ter passado, ou não, pela pergunta.

III

Subindo Enquanto a Vida Escorre

Sobre Kasser e Ryan e a eficiência que não examina o destino

Há um jeito de viver que consiste em ficar cada vez melhor em alcançar o que nunca foi examinado. A pessoa acorda cedo, organiza a agenda, responde às mensagens, cuida da saúde, controla o dinheiro e produz mais a cada ano. A vida funciona, e funciona bem. A eficiência responde a uma pergunta, como chegar mais rápido, e não tem como responder à outra, para onde estamos indo. Quem pergunta como não precisa perguntar para onde, e é por isso que a eficiência é um ótimo esconderijo.

Tolstói dá a imagem exata quando Ivan Ilitch começa a enxergar. Ele pensa que foi descendo uma ladeira enquanto imaginava que subia. Subia na opinião pública, diz, e na mesma medida a vida escorria. E há a cortina. Ao montar o apartamento novo, Ivan sobe numa escada para mostrar ao tapeceiro como quer o drapeado, escorrega e bate o flanco. É dessa pancada que a doença começa. Perto do fim, ele pensa que perdeu a vida por causa daquela cortina, como se tivesse morrido tomando um forte. A cena é quase cômica e é terrível: a energia de uma vida inteira gasta em coisas que só importavam por serem as coisas certas.

Em 1993, os psicólogos Tim Kasser e Richard Ryan publicaram um estudo que ficou conhecido por uma expressão, o lado sombrio do sonho americano. Pessoas que davam muita importância ao sucesso financeiro, em comparação com o crescimento pessoal, as relações próximas e a vida em comunidade, relatavam pior saúde psicológica. A ideia foi testada de muitas formas desde então. Uma meta-análise de 2022, com mais de setenta mil participantes, concluiu que perseguir metas de fora, como riqueza, fama e imagem, anda junto com menos bem-estar, em contextos muito diferentes. Estudos de acompanhamento sugerem ainda que alcançar essas metas traz pouco benefício.

Eficiência responde como. Só a pessoa pergunta para onde.

Convém ler isso com cuidado. São correlações, e não provam que a ambição de dinheiro produz tristeza. Também não dizem que tudo o que vem de fora é ruim: uma carreira bem-sucedida pode conviver com sentido. E o que Kasser e Ryan mediram foi riqueza, fama e imagem, não o dever, o cuidado com outros e a palavra cumprida, que é o que pesa na vida da mulher da cozinha. Ainda assim, o achado serve para mostrar uma assimetria: o que alcançamos por motivos de fora tende a nos alimentar menos do que esperávamos, e quem só mede o desempenho demora a notar.

A mulher da abertura não perseguia fama nem fortuna. Perseguia o certo, o que cabia numa semana bem fechada. O mecanismo é o mesmo. Uma vida que se mede por entregas aprende a ler o vazio como erro de agenda. O domingo sem compromisso vira problema a resolver, e ela já está pensando em qual.

IV

O Certo Como Escudo

Sobre Ivan Ilitch e a dúvida que ele mesmo descarta

A cena mais importante da novela é aquela em que Ivan Ilitch faz a pergunta certa e a descarta logo em seguida. No capítulo IX, depois de semanas de dor, ele pensa: talvez eu não tenha vivido como devia. É a pergunta inteira. Em seguida responde a si mesmo: mas como, se fiz tudo como se deve? E Tolstói acrescenta que, sempre que a ideia voltava, ele se lembrava da legalidade, da correção e do decoro de toda a sua vida e afastava aquela hipótese estranha.

Releia a defesa dele. Fiz tudo como se deve. A frase é verdadeira. Ele cumpriu a lei, a carreira, o casamento, as aparências. A mentira não está na frase. Está no uso que ele faz dela. O tudo certo é verdadeiro e é um escudo, e o escudo funciona justamente porque é verdadeiro. Quem faz tudo errado se vê obrigado a perguntar. Quem faz tudo certo tem sempre à mão um motivo honesto para não perguntar.

É esse o ponto central deste ensaio, e o que mais me importa defender. A vida correta é o esconderijo mais seguro contra a dúvida, justamente por ser respeitável. Ninguém questiona quem cumpre, nem a própria pessoa, que se defende com a lista do que fez. Quando a dúvida bate, a conversa interna vira uma auditoria: casa paga, filhos bem, trabalho reconhecido, contas em dia. Cada item é verdadeiro. E a pergunta, que não era sobre os itens, fica sem resposta.

Todos os itens conferem, e a pergunta ficou de fora.

O que quebra a defesa não é um argumento. É Gerasim. Gerasim é o jovem servo camponês que cuida de Ivan Ilitch na doença, que o carrega, que segura as pernas dele para aliviar a dor, e que não finge que a morte não existe. Numa noite, olhando o rosto sonolento e bondoso de Gerasim, Ivan Ilitch pergunta, pela primeira vez sem esquivar: e se toda a minha vida tiver sido errada? Ao lado dele, Gerasim não tem teoria nenhuma. Tem um jeito de estar presente que a vida correta de Ivan nunca precisou.

O título de um livro que escrevi, As Prisões que Você Admira, já apontava para algo que a novela mostra por dentro: há prisões que ninguém precisa trancar, porque quem está dentro aprendeu a admirá-las e as exibe, com razão, como conquista. A grade do tudo certo é feita de coisas boas.

V

Uma Carta no Meio do Luto

Sobre Mariama Bâ e a pausa que obriga a olhar

Durante quarenta dias, Ramatoulaye não pode sair de casa, e é por isso que escreve. Mariama Bâ, escritora senegalesa, publicou em 1979 Une si longue lettre, algo como uma carta tão longa, que lhe valeu o prêmio Noma de 1980. A narradora, Ramatoulaye, é professora. O marido, Modou, acaba de morrer, e a tradição manda que a viúva fique reclusa por quarenta dias. Nesse tempo parado, que ela não escolheu, escreve a uma amiga de juventude, Aïssatou, e a carta é o livro inteiro.

Ramatoulaye fez o que se esperava dela. Casou, teve doze filhos, trabalhou, manteve a dignidade e a fé. Quando Modou a abandonou, sem aviso, para casar com uma moça muito mais jovem, ela ficou. Aïssatou, diante de uma segunda esposa no próprio casamento, foi embora e reconstruiu a vida longe. As duas escolhas atravessam o livro: a de quem permanece por dever, por dignidade e por fé, e a de quem parte.

Bâ não faz de nenhuma das duas a heroína. A carta examina a vida que Ramatoulaye cumpriu como quem examina um tecido contra a luz, para ver o que se sustentou e o que se rasgou. Ela não renega a fé nem a tradição. Pede que a tradição seja reformada por dentro, que respeite a fé sem sacrificar a justiça. E, depois da viuvez, recusa um novo casamento.

A pausa que ninguém escolheu pode ser o primeiro espaço para olhar.

O que a carta tem a ver com a mulher da cozinha? A pausa. A cultura de Ramatoulaye impôs a ela quarenta dias de quietude, e a quietude, que seria o pior momento, tornou-se o primeiro espaço em que pôde olhar. A nossa cultura quase não tem pausas assim. Tem o domingo livre, que a mulher da abertura enfrenta com o celular no bolso. E Ramatoulaye escreve a alguém que conhece a sua história inteira, o que importa: esse balanço não se faz sozinho diante do espelho, mas com alguém que saiba de onde se veio.

O livro não serve de modelo, e não romantiza o sofrimento. O que dele interessa aqui é uma pergunta que Bâ faz com delicadeza: o que, no dever que cumprimos, ainda é fidelidade, e o que já é costume que ninguém ousa perguntar?

VI

O Dever Que É Seu

Sobre a Bhagavad Gita e o dever imperfeito que vale mais que o alheio perfeito

Há um verso da Bhagavad Gita que parece escrito para quem faz tudo certo. No capítulo 3, verso 35, Krishna diz a Arjuna que é melhor cumprir o próprio dever, ainda que imperfeitamente, do que o dever alheio bem cumprido. Acrescenta que é melhor morrer no próprio dever, porque o do outro é cheio de perigo e de medo. O contexto é o de Arjuna, o guerreiro que hesita diante da guerra, e o verso faz parte da resposta de Krishna sobre o que significa agir de acordo com a própria natureza.

Em sânscrito, os dois deveres têm nome: svadharma, o dever próprio, e paradharma, o dever de outro. O que o verso afirma é uma assimetria que a nossa conta de eficiência não registra. O dever alheio, mesmo bem executado, vem com medo: medo de errar, de ser descoberto, de que a máscara escorregue. O dever próprio, mesmo desajeitado, não precisa de plateia.

Isso muda o critério. A pergunta deixa de ser se estou cumprindo bem e passa a ser se este dever é meu. A diferença aparece no corpo. Quem cumpre um dever alheio costuma trabalhar em vigilância constante, conferindo se está à altura. Quem cumpre o próprio pode errar sem se desfazer.

O que é seu começa torto, e por isso é seu.

Seria desonesto usar esse verso sem dizer o que ele carregou. Durante séculos, svadharma foi lido como o dever da casta em que alguém nasceu, e o verso serviu para prender pessoas ao lugar de nascimento, como se a desigualdade fosse natureza. Há quem discuta se a palavra designa a posição social ou a disposição própria de cada pessoa, e eu uso aqui o segundo sentido, o de natureza, por ser o único que não condena ninguém por ter nascido. Quem ler no verso uma defesa da ordem herdada estará lendo o contrário do que este ensaio procura.

Dito isso, o verso devolve uma coisa que a vida correta tende a esconder: o direito de fazer mal o que é seu. Quem só faz o que sabe fazer com excelência passa a vida no território dos outros, onde a perfeição é possível porque o critério já está dado. O que é próprio não tem critério pronto. Começa torto.

VII

O Medo de Escolher

Sobre a moratória de Marcia e a liberdade que começa como desorientação

Perceber que a vida não é nossa não ensina qual vida queremos. É aqui que muita gente recua. A suspeita de que a vida foi herdada vem rápido, às vezes numa noite. A resposta, não. Quem se faz a pergunta sem outra à mão descobre que sabia muito bem listar obrigações e quase nada sobre o próprio desejo. Quando alguém pergunta o que ela quer, a resposta demora, e a demora assusta mais do que a dúvida.

A pesquisa de Marcia dá a esse período o nome de moratória: exploração sem compromisso. Ela é desconfortável, e os estudos a associam mais a ansiedade e a menor bem-estar do que o fechamento precoce ou a identidade já construída. A ironia é completa. O estado em que se começa a escolher é, durante um tempo, pior de viver do que o de quem nunca escolheu. A liberdade começa como desorientação, e a vida herdada tem a seu favor o conforto da certeza.

Isso explica por que tantas pessoas, ao sentirem a primeira dúvida, correm de volta ao roteiro e dobram a aposta. Aceitam a promoção, assumem outro projeto, remarcam a agenda. No dia seguinte o roteiro parece de novo uma casa. O que pareceu clareza era só a ausência temporária de desconforto.

A liberdade chega como desorientação, e o roteiro oferece alívio.

A moratória, porém, não é um lugar para morar, e sim uma passagem. Marcia a descreveu como um caminho possível até a identidade construída: explorar e, depois, assumir compromissos que a pessoa possa chamar de seus. Não precisa durar anos, e não precisa de renúncia dramática. Pode ser pequena: uma tarde sem tarefa, uma conversa em que se diz “não sei”, uma obrigação posta à prova.

VIII

Nem Todo Certo É Prisão

Sobre dever, vínculo e o que este ensaio não pede

Seria injusto transformar tudo isso em convite para demolir. Há quem cumpra o que deve porque escolheu cumprir. Quem cuida de um filho, de um pai doente, de uma equipe, de uma promessa, não está em prisão alguma só porque o cuidado tem horário e exige renúncia. Dever é também vínculo, e vínculo é a forma mais comum de amor. Uma vida em que nada obriga a ninguém seria apenas leve, e a leveza que ninguém carrega raramente sustenta alguém.

Há também quem herdou o roteiro e, ao examiná-lo, o reconheceu inteiro. Para essas pessoas, a pergunta do título tem resposta curta, e a resposta é não. Marcia diria que elas passaram do fechamento precoce à identidade construída, e por fora a vida é a mesma. Este ensaio não defende que se troque de vida. Defende que se passe pela pergunta.

Dever escolhido pesa de outro jeito.

Há ainda uma distinção que importa por cuidado. Sentir que a vida não é nossa não é diagnóstico de nada, e o peso de certos períodos tem outras causas, como o luto, o esgotamento e a depressão, que muitas vezes se disfarçam de erro de rota. Quem está nessa situação não deveria tomar sozinho decisões grandes e irreversíveis. Antes de demolir uma vida, vale conversar com alguém que saiba ouvir e, se o peso for grande, com um profissional de saúde.

Por fim, o certo também é um bem. Um mundo onde ninguém cumprisse nada não seria mais livre, seria mais frágil, e quase tudo o que sustentamos juntos depende de gente que faz o que prometeu. Tolstói não condena a correção de Ivan Ilitch. Condena o uso que ele fez dela, como álibi contra o resto.

IX

O Que Pode Ser Corrigido

Sobre manter, renegociar e devolver

No fim da novela, Ivan Ilitch tem a revelação de que a vida dele não foi como devia, e de que, mesmo assim, ainda dá para corrigir alguma coisa. A correção que ele consegue é mínima e tardia, e tem a ver com a dor de quem vai ficar, não com a carreira. Nós temos mais tempo do que ele, e por isso a pergunta prática é menos trágica: o que corrigir e como.

Corrigir não é demolir. A distinção que proponho, e que me parece mais útil do que qualquer fórmula de coragem, é entre três movimentos que se podem fazer com cada obrigação. Manter, quando, escolhida de novo hoje, sabendo o que se sabe, ela continuaria sendo aceita. Renegociar, quando o compromisso merece existir, mas num tamanho, num horário ou num modo que já não cabem. E devolver, quando a obrigação pertencia a uma versão antiga de nós, ou a outra pessoa, e quem a carrega só continua a carregá-la por hábito.

O teste do manter é simples e desconfortável: se esta obrigação não existisse, e eu pudesse escolhê-la hoje, eu a escolheria? Muitas respostas serão sim, e isso também é descoberta, porque o que era peso vira escolha. As outras vão pedir conversa, com a família, com o chefe, com um amigo, e é na conversa que a obrigação passa de herança a acordo. Devolver é o mais raro e o mais difícil, e quase nunca se faz de uma vez. Costuma começar por uma pequena recusa dita em voz alta.

Corrigir é escolher de novo, uma obrigação por vez.

É aqui que o verso da Gita volta a ser útil. Corrigir é permitir-se fazer mal o que é próprio. A primeira tentativa de ocupar uma tarde sem tarefa será desajeitada, e a vida correta ensinou tanto a evitar o desajeito que ele parece sinal de erro. Não é. Desajeito é o que acontece quando o critério ainda não está dado.

O título de As Prisões que Você Admira já fazia essa pergunta olhando de fora. Este ensaio a faz de dentro, na primeira pessoa de quem mora na casa.

X

Onde Estou Presente

Sobre a pergunta que permanece e o domingo que volta

Não existe uma vida certa esperando para ser descoberta, e é bom saber disso antes de procurá-la. O que existe é uma pergunta que se pode fazer várias vezes ao longo da vida, e cuja resposta muda. Hoje a vida é minha neste ponto e não naquele. Esta obrigação merece o que lhe dou, aquela já não. Quem espera uma resposta definitiva de uma vez só, para depois viver em paz, continua pedindo ao roteiro que pense por ele.

Volte à mulher da cozinha, ao fim de alguns domingos. Ela não demoliu nada. Continua cumprindo quase tudo o que cumpria. Mas descobriu que, naquela manhã, a pergunta sem resposta era o único lugar em que estava realmente presente. Num domingo, saiu sem destino e voltou sem ter feito nada que se pudesse contar. Noutro, tentou cozinhar uma coisa que não sabia, e saiu ruim. Num terceiro, disse a alguém de quem gostava que não podia assumir um compromisso que já tinha, e o mundo não acabou. São correções de tamanho doméstico, dessas que não entram em currículo.

Ivan Ilitch fez a pergunta sem domingos pela frente.

A vida correta não é inimiga da vida própria, mas pode servir de álibi contra ela. Talvez viver bem não consista em cumprir com excelência tudo o que esperam de nós, e sim em descobrir quais obrigações merecem a nossa vida e quais apenas aprenderam a ocupá-la. A diferença se mede numa pergunta que cabe numa frase e que só nós podemos responder: se esta vida é minha, onde exatamente estou presente nela?

Ivan Ilitch fez a pergunta tarde demais para ter domingos. Nós ainda temos.

Nota. Este texto fala de um mal-estar comum e não faz diagnóstico de nada. Se o peso for grande ou durar muito, vale conversar com um profissional de saúde. O CVV atende a qualquer hora pelo telefone 188.

Tudo estava certo.
A lista conferia.

Faltava a pergunta
que a lista não faz.

O domingo chegou sem pedir nada
e ficou esperando na cozinha.

O que é meu começa torto.
Que comece.

Se esta vida é minha,
onde estou eu nela?

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem cumpriu tudo e ainda se pergunta se a vida era essa.

Ainda aprendendo a escolher de novo, Santos Moisés.

Este escrito faz parte de

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura e I e II · A vida que parece certa e o roteiro herdado
Biblioteca