Ensaio · Leitura · Escrito CLXXI
O Livro Acima da Sua Cabeça
Por que só se compreende mais lendo o que ainda não se compreende, e como subir num livro maior do que nós, um nó de cada vez
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Aba I
Abertura e I e II · Informar, esclarecer e o livro acima de nós
Aba II
III a V · Os nós, a demora e as mãos de quem subiu
Aba III
VI e VII · A objeção e a travessia
O livro estava na mesa da cozinha fazia um ano e meio. Naquela noite ele o abriu na página quarenta e dois, onde o marcador de cetim já tinha deixado um vinco, e leu o parágrafo pela terceira vez.
Entendia cada palavra e não entendia o que o parágrafo dizia. As palavras eram comuns, nenhuma pedia dicionário. Mas a frase se dobrava sobre si mesma, voltava a um termo definido três páginas antes, e quando ele chegava ao ponto final já tinha perdido o começo.
Passou o lápis de uma mão para a outra. Pensou em fechar o livro e dizer a si mesmo o que dizia sempre: que aquele autor não era para ele, que havia outros mais claros, que depois de um dia inteiro de trabalho a vida não estava para isso. A frase de desistência já estava pronta, e era uma frase razoável.
Foi então que se lembrou, sem motivo aparente, da corda de nós que pendia do teto do ginásio da escola. Não da subida em si, mas da voz da professora, que repetia a mesma coisa aos meninos que olhavam para o chão: não olhe para baixo, olhe para o próximo nó.
O lápis ficou no ar, sem saber onde pousar.
I
Informar ou Esclarecer
Sobre Mortimer Adler e a diferença entre saber que algo é assim e saber por quê
Ler muito e compreender pouco é perfeitamente possível, e acontece o tempo todo. A pessoa passa os olhos por dezenas de textos por dia, acumula fatos, repete opiniões e chega à noite com a sensação de ter se alimentado. O estoque aumentou. A capacidade de entender, não necessariamente.
Mortimer Adler, filósofo e educador americano, dedicou boa parte da vida a essa diferença. Em How to Read a Book, de 1940, revisto em 1972 com Charles Van Doren, ele separa três finalidades de ler: divertir-se, informar-se e compreender. Ser informado, diz ele, é saber que alguma coisa é o caso. Ser esclarecido é alcançar o resto da história, a razão de ser assim, as ligações com outros fatos, o que é parecido e o que é diferente. A primeira leitura entrega algo ao leitor. A segunda muda a capacidade com que ele receberá o livro seguinte.
É aqui que entra o nome que dei a este texto, leitura de iluminação, e vale dizer o que ele é. Adler não criou um quinto nível de leitura com esse rótulo. O que ele descreve é a leitura feita para compreender, e a iluminação é o efeito dela quando funciona: o leitor sai do livro capaz de entender mais do que entendia ao entrar. O jesuíta Antônio Vieira, nascido em Lisboa e morto na Bahia, já tinha o verbo certo no Sermão da Sexagésima, pregado em 1655. Para uma alma se converter, dizia ele, é preciso que concorram o pregador com a doutrina, o ouvinte com o entendimento e a graça com o alumiar. A graça é matéria dele, e eu a deixo de lado. Fico com o meio da frase: quem ouve, ou quem lê, entra com o entendimento. Essa parte cabe a ele.
O estoque cresce. A capacidade de entender fica onde estava.
A tese deste ensaio é simples e um pouco incômoda: só se compreende mais lendo o que ainda não se compreende. O livro que entendemos por inteiro, de ponta a ponta e sem esforço, nos diverte ou nos informa, mas não nos esclarece, porque o nosso entendimento já estava à altura dele antes de começarmos. Quem quer subir precisa de um livro que esteja um pouco acima. E o desconforto de não entender, que quase todos tomamos por sinal de que erramos de livro, é nesse caso o sinal de que a corda está ao alcance.
Adler organiza o ofício em quatro níveis. A leitura elementar é a de quem aprendeu a ler. A de inspeção examina o livro por fora, o título, o índice, o prefácio, para saber o que ele é e se merece mais tempo. A analítica o trabalha por dentro, até que se consiga dizer o que ele quer dizer. A sintópica põe vários autores diante de um mesmo problema e constrói uma compreensão que não pertence por inteiro a nenhum deles. Esses níveis não são medalhas dadas a leitores especiais. São modos de ler que a mesma pessoa pode usar numa notícia, num romance ou num tratado, conforme o que pretende. Este ensaio, aliás, é um exercício do último nível: reúne vozes de lugares distantes em torno de um problema só.
II
O Livro Que Cabe em Você
Sobre o cansaço que ensina, o conforto que ilude e o que a psicologia mede
Existe um tipo de livro que cabe inteiro em quem o lê, e justamente por isso não aumenta a compreensão de ninguém. Pode ser bom, bonito, necessário. Nada disso o transforma em degrau. O que se entende sem esforço já estava ao nosso alcance antes de abrir a capa, e a leitura serviu para confirmar, não para elevar. Por isso Adler afirma que os bons livros estão acima da nossa cabeça, e que não nos fariam bem se não estivessem.
Francis Bacon, filósofo e estadista inglês, escreveu na edição de 1625 dos seus Ensaios que alguns livros são para provar, outros para engolir e poucos para mastigar e digerir. A frase é um aviso contra o excesso de zelo, porque nem todo livro merece a subida. Mas é também um critério. Os poucos que merecem são aqueles em que a mastigação demora, porque há algo ali que ainda não se deixa engolir.
O próprio Adler compara o que se pede ao leitor a puxar-se pelas botas: passar de entender menos a entender mais, por esforço próprio, tem algo disso. É a imagem de quem sobe sem ter onde segurar, e eu prefiro outra. A corda que pendia no ginásio da abertura tinha o que as botas não têm, um ponto fixo lá no alto. O livro maior do que nós é esse ponto. Alguém chegou lá em cima e deixou preso o que pensou. Você se puxa, sim, mas se puxa em direção a algo que não depende de você para estar onde está.
Dois cansaços se parecem por fora e se separam por dentro.
Há uma distinção que muda a leitura, e Adler a faz com precisão. Os livros acima de nós cansam, diz ele, mas o que cansa não é o esticar-se. É esticar-se sem ter a habilidade para fazê-lo bem. São dois cansaços. Um é o de quem pensa com esforço e, aos poucos, domina uma estrutura que antes parecia fechada. O outro é o de quem esbarra no mesmo muro sem saber como contorná-lo, e termina em exaustão e abandono. Por fora, os dois se parecem: a testa franzida, o parágrafo relido. Por dentro, um prepara a subida e o outro a impede. A pergunta que a cena da abertura pede, portanto, não é se aquele homem é inteligente o bastante para o livro. É se ele tem um modo de trabalhá-lo. A inteligência de ler se forma no encontro com aquilo que ainda não entendemos, e não antes de abrir o livro.
A psicologia conhece essa região há quase um século. Lev Vygotsky, psicólogo soviético que morreu em 1934, chamou de zona de desenvolvimento proximal a distância entre o que uma criança resolve sozinha e o que resolve com a ajuda de alguém mais capaz. O que está muito abaixo dessa zona não ensina, e o que está muito acima não se alcança. Ele falava de crianças, e estender a ideia a um adulto diante de um tratado é uma inferência minha, não uma conclusão dele. Mas a imagem ajuda: o livro certo é o que fica um pouco além do alcance, dentro da distância que um apoio consegue cobrir.
Existe ainda uma armadilha de conforto, e ela foi medida. Em 2006, Henry Roediger e Jeffrey Karpicke, psicólogos da Universidade Washington, em St. Louis, compararam estudantes que releram um texto várias vezes com estudantes que, depois de lê-lo, se testaram sobre ele. Os que releram sentiam-se mais seguros. Uma semana depois, lembravam menos. Reler produz a sensação de que entendemos, porque o texto fica familiar, e a familiaridade se parece com compreensão. O estudo mediu a memória de um texto, não o esclarecimento, e eu não o estico além disso. Mas ele dá nome a um engano que quase todo leitor conhece: terminar um livro com intimidade e ser incapaz de explicar a ideia central sem repetir as frases dele.
III
Os Nós da Corda
Sobre as perguntas que dão apoio à mão: o todo e as palavras
Uma corda lisa é só uma queda adiada. A corda de nós dá à mão um lugar onde parar, e foi para isso que Adler formulou as suas perguntas. Ele resume a leitura ativa em quatro, que um leitor exigente faz a qualquer livro: sobre o que ele trata como um todo, o que diz em detalhe e o que o autor quer dizer com isso, se é verdadeiro no todo ou em parte, e que diferença faz. Cada pergunta é um nó. Você não precisa subir a corda inteira de uma vez, só alcançar o próximo.
O primeiro nó pergunta pelo todo e pela maneira como as partes se ligam a ele. Listar capítulos não basta. Um livro não é uma coleção de frases marcantes, e uma frase pode ser verdadeira sem representar o que o conjunto tenta fazer. O Sermão da Sexagésima oferece uma lição de ofício vista do outro lado da página. Vieira exige do pregador uma só matéria, que ele a defina para que se conheça e a divida para que se distinga. O que o pregador deve fazer ao compor é o que Adler pede ao leitor que descubra ao ler: a unidade e a divisão. Se você não consegue dizer em uma frase de que trata o livro, ainda anda por ele sem ter encontrado a arquitetura.
Esse primeiro nó tem uma particularidade que a corda explica bem. A compreensão do todo depende dos detalhes, e a dos detalhes depende do todo, de modo que uma mão não sobe sem a outra. Por isso a leitura nunca avança em linha reta. Uma passagem que parecia clara deixa de bastar depois que se entende o argumento inteiro. Um termo abstrato ganha forma quando aparece o exemplo que o autor guardava para mais adiante. Voltar não é fracasso. É o movimento normal de quem sobe.
Uma frase que intriga é um nó ainda por alcançar.
O segundo nó é o da precisão: o que o livro diz em detalhe, e o que o autor quer dizer quando diz. Uma palavra comum pode ter, numa obra, um sentido só dela, e o leitor precisa descobri-lo antes de julgar. Adler tem uma observação dura sobre isso. Quem só reconhece as palavras sabe o que o autor escreveu, mas não o que o autor pensou. O teste que ele propõe é simples e humilhante, e funciona. Diga a passagem com as suas palavras. Depois, dê um exemplo concreto. Se você não consegue nenhuma das duas coisas, o que tem em mãos é familiaridade, e familiaridade é aquilo de que o estudo de Roediger e Karpicke ensina a desconfiar.
Adler faz ainda uma observação sobre o lugar onde o leitor costuma parar. Quase todos desaceleram nas frases que lhes agradam e passam depressa pelas que os intrigam, e é o inverso do que a subida pede. A frase que intriga é o nó que ainda não foi alcançado. Quem nunca se pergunta o que uma passagem quer dizer não pode esperar do livro nenhuma visão que já não tenha.
IV
A Mão Que Demora
Sobre Zhu Xi e a pressa que estraga a leitura
Perguntar depressa também é uma forma de não ler. Há quem transforme as quatro perguntas de Adler em formulário, preencha as lacunas em meia hora e feche o livro com a sensação do dever cumprido. A pergunta que não espera pela resposta é só mais um jeito de passar por cima.
Zhu Xi, filósofo chinês da dinastia Song, que viveu de 1130 a 1200, passou a vida ensinando o contrário. A tradição guardou o que ele dizia sobre leitura em seis regras, entre as quais avançar na ordem, ler até ficar íntimo do texto, pensar com cuidado e manter o espírito aberto. Numa passagem das Conversas Classificadas do Mestre Zhu, na tradução de Daniel Gardner, ele descreve a sequência. Primeiro, é preciso ficar tão familiarizado com o texto que as palavras pareçam sair da nossa boca. Depois, pensar até que as ideias pareçam nascer da nossa mente. Só então há compreensão. E mesmo ela não encerra o trabalho: continua-se a duvidar, porque quem deixa de questionar deixa de avançar.
Diante de uma confusão de teorias, Zhu Xi aconselhava ler uma de cada vez, de espírito aberto, e relê-las até que o certo e o errado aparecessem por si. Pedia também que o leitor lavasse as opiniões antigas para que as novas pudessem entrar. A pressa, para ele, vinha do apego: o leitor que já sabe o que quer encontrar só vê o que confirma.
Quem chega com a resposta pronta só lê o que já sabia.
Adler chega a uma regra parecida por outro caminho. Para o livro difícil, diz ele, a primeira passagem deve ser feita de uma vez, sem parar para consultar nem para ruminar o que não se entendeu logo. Mesmo que se entenda metade, ou menos, o que fica dessa travessia ajuda quando se volta, depois, aos lugares que ficaram para trás. A pressa de resolver tudo no primeiro parágrafo é a mesma pressa que Zhu Xi condena, vista de outro ângulo.
Os dois mestres, de séculos e continentes distantes, descrevem duas mãos de uma mesma subida. A de Adler é a mão que pergunta: ela pega o nó, testa a corda, exige precisão. A de Zhu Xi é a mão que demora: ela fica tempo suficiente no apoio para que o corpo se acostume ao novo lugar. Sem a primeira, a leitura vira contemplação vaga. Sem a segunda, vira interrogatório. Ambos concordam também na ordem, e é a ordem que mais se desrespeita: compreender primeiro, julgar depois.
V
As Mãos de Quem Subiu Antes
Sobre Timbuktu, os Great Books e a leitura como conversa
Os estudantes de Timbuktu não liam livros. Liam livros já lidos. A cidade, no atual Mali, era pelo menos desde o século XIV um centro de escrita no mundo islâmico, e ali os grandes textos eram estudados à exaustão. Os alunos precisavam ter intimidade com eles, e os mestres compunham comentários para ensiná-los. Quem hoje abre um desses manuscritos encontra, nas margens e entre as linhas, glosas em árabe e em línguas locais: notas de quem estudou antes, explicando um termo, corrigindo uma cópia, objetando, acrescentando um exemplo.
Cada glosa é um nó atado por uma mão anterior. O estudante que sobe encontra a corda já com apoios e deixa o seu. O ensino se dava sem uma universidade centralizada, em casas de mestres, com alunos que copiavam textos para se sustentar. Muitos copistas terminavam o trabalho com uma nota que ainda se lê: copiei isto para mim e para quem vier depois. O erudito Ahmad Baba, que viveu de 1564 a 1627, disse que a sua biblioteca, de cerca de mil e seiscentos volumes, era a menor da sua família. A grandeza da cidade estava menos na quantidade de livros do que no cuidado com que eram lidos e passados adiante.
É nessa tradição de margem que se resolve o terceiro nó de Adler, o que pergunta se o livro é verdadeiro. Ele vem depois dos dois primeiros por uma razão que Timbuktu entendia: não se corrige o que não se compreendeu. Adler pede que, antes de dizer que um livro é genial ou absurdo, o leitor seja capaz de apresentar a posição do autor com tanta fidelidade que o próprio autor a aprovaria. Só então começa o juízo: o argumento se sustenta? As provas bastam? A conclusão ultrapassa as premissas? O autor fala de um caso como se valesse para todos? O que continua verdadeiro mesmo que parte do raciocínio falhe? A iluminação, nesse sentido, não é submissão ao livro. É o aumento da capacidade de julgá-lo.
Antes de discordar, vale saber explicar o que se recusa.
Adler e o educador Robert Hutchins levaram essa ideia à prática coletiva com a Great Books Foundation, criada para promover a educação ao longo da vida pela leitura e pela discussão de obras importantes, entendida como conversa continuada entre autores e leitores. O livro, afinal, é uma conversa interrompida no tempo. Em sala, o aluno pode levantar a mão e dizer que não entendeu. O livro permanece imóvel, e por isso o leitor precisa fazer a si mesmo as perguntas que faria ao mestre e, de preferência, as faria também a outros leitores. A corda tem tantos nós porque muitas mãos a atam, e quem sobe, ainda que sozinho, sobe em companhia.
VI
Quando a Corda Não É para Você
Sobre elitismo, ajuda e os livros que não valem a subida
A objeção mais séria a este ensaio é a de que ele fala como quem já está em cima da corda. Adler foi acusado disso em vida. Os críticos viam no seu programa dos Grandes Livros um cânone estreito, de predominância europeia e masculina, e na ideia de que os bons livros estão acima de nós uma hierarquia entre quem sabe e quem aprende. Há verdade nisso. Todo cânone é uma escolha, e toda escolha deixa gente de fora. A ideia de que o livro importante é o difícil também pode virar vaidade, a do leitor que compra o tijolo para exibir a lombada.
Convém separar as coisas. O argumento deste ensaio dispensa um cânone e exige um critério, que muda de leitor para leitor: um livro que esteja acima dele e dentro da distância que um apoio consegue cobrir. Para uns será um tratado de filosofia, para outros um manual técnico, um poema, um romance que pede paciência. Timbuktu e Zhu Xi mostram que a tradição de subir é bem mais larga do que a europeia, e que cada lugar teve a sua corda.
Saber largar um livro também faz parte do ofício.
A segunda objeção é que nem toda dificuldade é virtude. Há livro mal escrito, impreciso, inflado de termos para parecer fundo, e esse não merece a subida. Adler fala em ler cada livro segundo o seu mérito, e Bacon lembrava que muitos são para provar. A leitura de inspeção, a que examina o livro por fora, existe para isso: para decidir, em minutos, se vale a pena gastar horas. Largar um livro depois de examiná-lo é uma habilidade.
A terceira é a da solidão. Adler diz que a passagem de entender menos a entender mais se faz por esforço próprio. Vygotsky mostra que a aprendizagem acontece com apoio, e que o que hoje se faz com ajuda amanhã se faz sozinho. Os dois só parecem discordar. O esforço é seu, e ninguém entende por você. Mas o apoio existe e pode ser pedido: o comentário de quem já leu, o grupo de leitura, o amigo que leu o mesmo livro e discorda, o professor. Quem lê só, e por meses empaca no mesmo ponto, não fracassou. Ainda não encontrou a mão que alcança o nó seguinte.
Resta a objeção do tempo, e ela não tem resposta elegante. A subida custa horas, e há vidas em que elas não existem. Adler não promete que todo livro difícil ilumina, e é por isso que o que promete é crível: se um livro bom está acima de nós, talvez seja preciso aprender a alcançá-lo. Um livro subido, a meu ver, vale mais do que vinte folheados, e quem só tem tempo para um por ano ainda pode escolher o livro certo para esse ano.
VII
Atravessar o Livro
Sobre o "E daí?" e a marca do primeiro dia
Terminar um livro é chegar à última página. Atravessá-lo é sair em outro lugar. O primeiro se mede em páginas. O segundo aparece na qualidade das perguntas que o leitor passa a fazer, na precisão das distinções que consegue estabelecer e na capacidade de reconhecer o que antes não conseguia sequer formular.
O quarto nó de Adler é o que cuida disso, e algumas sínteses o deixam de lado. É a pergunta que vem depois que se entende e se julga: e daí? Se o livro informou ou esclareceu, que diferença isso faz? Por que o autor acha que essas ideias precisam ser conhecidas? O que muda na minha maneira de pensar, e o que se segue, se o argumento for verdadeiro? Dá para entender um livro sobre atenção e continuar disperso, ou entender um sobre justiça sem rever o modo como se trata quem nos serve. O conhecimento não precisa virar ação na hora. Precisa, porém, alterar o campo das perguntas. Uma leitura que ilumina não entrega só conteúdo. Muda o que o leitor consegue enxergar como problema.
Na prática, a regra cabe em poucas linhas. Antes de começar, observe o título, o prefácio, o índice, para fazer um mapa provisório. Na primeira passagem, siga em frente sem parar demais, marcando onde voltar. Ao terminar um capítulo difícil, feche o livro e tente dizer qual era o problema, qual foi a resposta proposta, que razões a sustentam, que exemplo a torna concreta e o que ainda ficou escuro. O ponto onde a explicação se desfaz não é um veredicto sobre você. É o lugar onde a próxima mão precisa alcançar. E na hora de escolher, em vez de perguntar se o livro combina com você, pergunte se ele pode torná-lo capaz de entender mais do que entende hoje.
O ponto onde a explicação falha mostra onde subir.
Imagine agora aquele homem da mesa da cozinha algumas semanas depois. Ele voltou ao parágrafo da página quarenta e dois, e o parágrafo cede. Não por mágica. No intervalo, leu o capítulo seguinte, descobriu o termo que o autor definia, escreveu à margem o que achava que ele queria dizer, discordou de um trecho e voltou atrás. Ao lado do parágrafo, vê agora as marcas do primeiro dia, um ponto de interrogação e uma palavra, como?, e elas parecem de outra pessoa, alguém que ele já não é. É assim que se sabe que se subiu: não pela altura, que de dentro não se vê, mas pelas marcas que ficaram lá embaixo.
O livro só fica ao alcance de quem sobe até ele, e só sobe até ele quem ainda não o alcança. Esse é o paradoxo, e não há como contorná-lo. A página não mudou. A mão, sim. E o lápis, que há semanas ficava no ar, pousou.
O parágrafo não mudou.
Quem mudou foi a mão.
Cada nó foi uma pergunta.
Cada pergunta, um lugar onde parar.
Alguém prendeu a corda lá em cima
antes que eu soubesse subir.
As marcas do primeiro dia
ficaram embaixo, pequenas.
O lápis, que ficou no ar,
agora pousa.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem já fechou um livro dizendo que não era para si, e abriu de novo.
Ainda aprendendo a subir devagar, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?