Ensaio · Sabedoria · Escrito CLXII

CLXII

Antes e Depois de Saber

Conhecimento amplia o que você tem, sabedoria muda quem tem: a autoanálise do que fomos e quatro caminhos de mudança, o ver, o querer, o fazer e o suportar

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Aba I

Abertura e I a III · A porta, a frase e o saber que fecha

Aba II

IV a VI · A autoanálise

Aba III

VII a X · Os quatro caminhos

Aba IV

XI a XIII · A mudança pequena, a mudança falsa e as marcas

O pintor chegou cedo, com duas latas de tinta branca, uma escada de alumínio e o jeito de quem já viu muita cozinha. Começou pelo teto. Quando chegou à porta que dá para o quintal, parou com o rolo no ar e perguntou, sem cerimônia, se era para pintar o batente também.

Ela foi até lá. A madeira tinha tantas demãos que as marcas quase sumiam, mas ainda se viam. Eram riscos de lápis, um acima do outro, cada um com um número ao lado e uma letra inclinada que era a da mãe. O mais baixo ficava na altura da sua cintura de hoje. Os outros subiam devagar, com pausas, até um que dizia um metro e cinquenta e nove, com a palavra aniversário ao lado. Depois dele, nada.

Lembrou de quando parou de deixar. Foi na adolescência, com a vergonha própria da idade, e ninguém insistiu. A porta ficou com aquela marca como um caderno aberto na última página que alguém quis preencher.

Pediu um minuto ao pintor. Encostou as costas no batente, os calcanhares colados na madeira, e apoiou sobre a cabeça o lápis que ele tinha deixado na tampa da lata. Fez o risco. Ficou poucos centímetros acima da última marca, o pouco que o corpo ainda acrescentou antes de parar de vez.

Olhou as duas marcas, a da menina e a da mulher, tão perto uma da outra que cabiam na largura de um dedo. Pelo que a porta registrava, nada de importante tinha acontecido.

Ela sabia o que não estava ali. Sabia que, entre uma marca e outra, tinha mudado de ideia sobre dinheiro e sobre o que chamava de sucesso, aprendido a dizer não sem pedir desculpa três vezes, perdido gente que amava, deixado de querer coisas que um dia foram a vida inteira e começado a aguentar certos silêncios que antes a faziam sair da sala. Nenhum lápis registraria isso. O batente media o que cresce para cima, e o que mais tinha importado crescera para dentro.

Disse ao pintor que podia pintar. Ele molhou o rolo e esperou que ela se afastasse da porta.

I

O Que a Porta Mede

Sobre o que se mede com lápis e o que fica sem marca

Uma porta de cozinha é um instrumento honesto. Não tem opinião, não elogia, não arredonda para cima. A cabeça encosta, o lápis risca, e o número fica ali, ao lado da letra de quem segurava. Ninguém discute com uma marca de altura.

O saber, a partir da escola, aprendeu a ser medido do mesmo jeito: notas, certificados, anos de estudo, livros lidos, horas de curso concluídas. Cada número desses é um risco de lápis no batente. Tem data, tem testemunha, cabe num currículo.

A sabedoria não deixa risco. Não sobe nem desce de um aniversário para o outro, não tem unidade, e quem a tem costuma ser o último a perceber. Como só medimos o que deixa marca, acabamos tratando o saber mensurável como se fosse a coisa inteira. Dá para subir quinze centímetros de conhecimento em cinco anos e voltar à mesma porta sendo, por dentro, a pessoa que saiu dela.

A porta registra o que cresce para cima. O resto só aparece quando alguém se dispõe a comparar.

Este escrito parte de uma frase simples e tenta levá-la a sério. Se conhecimento amplia o que você tem e sabedoria muda quem tem, a pergunta que importa deixa de ser quanto você sabe. Passa a ser o que mudou em você por saber. A porta não responde a isso, e por isso precisamos de outro instrumento.

II

O Que Cabe Numa Frase

Sobre a diferença entre ter e ser

O conhecimento amplia o que você tem. A sabedoria muda quem tem.

A primeira metade não é uma crítica. Conhecer mais é acrescentar fatos, conceitos, maneiras de organizar o que acontece, como quem enche uma casa de móveis. O pensamento fica maior, a conversa fica mais rica, o erro fica mais fácil de reconhecer. Quem acha que o conhecimento não serve para nada nunca precisou de um médico que soubesse o que estava fazendo.

O problema aparece quando a casa enche e o morador continua o mesmo. Um homem que estudou o perdão por anos pode guardar numa gaveta um rancor de vinte anos intacto. O saber está lá, em pé, com todas as referências. O rancor também. Um não incomoda o outro, porque moram em cômodos diferentes.

A segunda metade descreve outra coisa. Sabedoria não é um andar a mais na casa, é o morador que passou a andar de outro jeito dentro dela. E às vezes isso se parece mais com perda do que com ganho. Um velho texto chinês, atribuído a Lao Zi, diz que quem persegue o estudo acrescenta algo a cada dia, e quem persegue o caminho tira algo a cada dia. Soa estranho para quem cresceu ouvindo que aprender é somar. O texto sugere que existe um aprendizado que subtrai: um julgamento, uma defesa, a imagem que se fazia de si.

Mais andares não mudam o morador. Quem muda o morador é outra coisa.

Isso não dispensa o conhecimento. Quem quer mudar sem saber nada de si nem do mundo muda no escuro, e quase sempre cai para um lado que já estava de graça. O conhecimento entrega o mapa. A sabedoria é a pessoa que, por causa dele, passou a caminhar de outro modo.

III

Quando o Saber Fecha

Sobre a ilusão de entender e o muito saber que não ensina

Em 2002, dois psicólogos de Yale, Leonid Rozenblit e Frank Keil, fizeram um experimento de simplicidade desconcertante. Pediram a estudantes que dessem uma nota, de um a sete, ao quanto entendiam o funcionamento de objetos comuns: um zíper, a descarga de um vaso sanitário, uma fechadura de cilindro. As notas vieram altas. Depois pediram que cada um explicasse, passo a passo, como o objeto funcionava. E então pediram a nota de novo.

Em média, a nota caía. No meio da explicação, muita gente descobria que não sabia onde o dente do zíper encontra o outro. Os pesquisadores chamaram o fenômeno de ilusão de profundidade explicativa, e notaram que ele pesava mais sobre o saber que explica como as coisas funcionam do que sobre o de fatos soltos.

A ilusão nasce de uma troca discreta: tomamos a familiaridade pela compreensão. Como o zíper está na calça todos os dias, a sensação de que o conhecemos vem de graça. Com temas mais pesados acontece o mesmo. Quem leu muito sobre um assunto tem a sensação confortável de que entende, e quanto mais fluente fica a explicação, menos ela é testada por perguntas que ainda não foram feitas.

Familiaridade parece compreensão até o dia em que alguém pede a explicação.

Heráclito disse isso há mais de dois mil e quinhentos anos, de um jeito que ainda arranha. Num dos fragmentos que sobraram dele, escreveu que muito saber não ensina a ter entendimento, e deu como prova alguns dos homens mais sabidos do seu tempo. Ele observava que a quantidade de coisas sabidas e a qualidade do entendimento são grandezas diferentes, e que a primeira pode crescer sem arrastar a segunda.

O saber que fecha tem um sinal discreto: só serve para confirmar. Cada novo livro entra na estante já com a prateleira escolhida, e cada fato novo chega para reforçar o que se pensava. Quando isso acontece, aprender vira um modo elegante de continuar o mesmo.

IV

Quem Media a Altura

Sobre a necessidade de marcas que a gente faz por dentro

Na infância, alguém segurava o lápis. Depois de certa idade, ninguém mais. O corpo parou de crescer e a porta perdeu o motivo, mas a vida continuou pedindo a mesma coisa em outro lugar: alguém para medir o que mudou. Como ninguém faz isso por nós, a tarefa passa a ser nossa.

Outra passagem atribuída a Lao Zi traz uma distinção que cabe aqui. Conhecer os outros, diz ele, é inteligência, e conhecer a si mesmo é clareza. Somos peritos num e amadores no outro. Temos opinião firme sobre o colega, o vizinho, o político, o parente, e uma imagem apressada de nós mesmos, montada com o que sobrou da última vez que alguém nos descreveu.

A dificuldade é estrutural. Quando se mede uma porta, o instrumento e o objeto são coisas diferentes. Na autoanálise, quem observa e quem é observado são a mesma pessoa, e o instrumento está dentro do que se mede. Por isso o olhar para dentro erra de maneira previsível, quase sempre a nosso favor.

Na autoanálise, o instrumento mora dentro do que ele mede.

Uma pesquisa mostra esse erro por um ângulo curioso. Em 2013, Jordi Quoidbach, Daniel Gilbert e Timothy Wilson reuniram mais de dezenove mil pessoas, de dezoito a sessenta e oito anos. Pediram que umas contassem quanto tinham mudado na última década e que outras previssem quanto mudariam na próxima. Gente de todas as idades achava ter mudado muito no passado e esperava mudar pouco no futuro, como se o presente fosse o ponto em que finalmente nos tornamos a pessoa definitiva. O estudo recebeu críticas de método, e convém ler o resultado com cautela, mas ele conversa com uma experiência comum: é fácil enxergar o quanto mudamos olhando para trás, e difícil acreditar que isso continua acontecendo agora.

A mudança só aparece por comparação. É preciso uma marca de antes, uma de agora, e a honestidade de olhar as duas sem mexer em nenhuma.

V

Perguntar-se ao Fim do Dia

Sobre o exame de si e a pergunta que não se esquiva

O primeiro livro dos Analectos guarda a rotina de um discípulo de Confúcio chamado Zengzi. Ele dizia examinar-se todos os dias em três pontos. Ao planejar pelos outros, fui leal? No trato com os amigos, fui confiável? E a terceira, que interessa aqui: pratiquei o que me foi transmitido?

Os tradutores divergem sobre essa última. Algumas edições leem como a pergunta de quem repassou a outro um ensinamento que ele mesmo não pôs em prática. Outras, como a de quem não exercitou o que recebeu do mestre. As duas apontam para o mesmo buraco, o espaço entre o que se sabe e o que se faz, formulado em poucas palavras por alguém que viveu há mais de dois mil e quatrocentos anos.

O que chama atenção é a modéstia do método. Não há retiro, nem diário de capa dura, nem grandes revelações. São três perguntas, repetidas no fim do dia, sobre assuntos tão pequenos que cabem numa conversa de cozinha. A regularidade faz o trabalho que a intensidade não faria. Quem se pergunta uma vez por ano o que mudou em si tem uma resposta emocionante e imprecisa. Quem se pergunta todo dia sobre um ponto só acaba notando um padrão que nenhum balanço anual mostraria.

Cada um pode escrever as suas perguntas, com as palavras de agora. Vale uma regra: que falem de conduta, e não de sentimentos. Perguntar-se o que sei hoje e ainda não pratiquei já tem o formato de Zengzi. A resposta pode ser incômoda ou boba, e vale anotar as duas.

VI

O Antes e o Agora

Sobre comparar duas pessoas que são a mesma

Imagine uma folha dividida em duas colunas. A da esquerda leva o nome de um tempo que passou: um ano atrás, cinco, dez. A da direita leva a palavra agora. Escolhe-se um tempo de que ainda sobra rastro, como mensagens, anotações, uma lista de coisas que se queria, uma decisão tomada e lembrada.

A comparação tem quatro linhas, que serão o assunto dos próximos capítulos: o que eu via, o que eu queria, o que eu fazia e o que eu aguentava. Escreve-se primeiro a coluna do passado, com as provas que existirem. Só depois, a do presente. Na ordem contrária, o exercício estraga, porque o presente sempre empresta suas cores ao passado.

Há duas tentações. Uma é transformar a pessoa de antes num tolo, para que a de agora pareça sábia. A outra é sentir saudade de uma coerência que nunca existiu. A boa pergunta fica entre as duas: o que daquela pessoa ainda está em mim, e o que ficou na porta?

Guimarães Rosa pôs na boca de Riobaldo uma frase que serve de lembrete: as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas. Ela avisa contra a ideia de que somos um produto acabado. Convém acrescentar, por conta própria, que mudar não é o mesmo que melhorar. Quem faz a comparação sem pressa descobre que mudou em umas coisas, ficou igual em outras, e que algumas mudanças foram feitas à força, por circunstâncias que não escolheu.

O exercício não pretende dar nota. Serve para trocar a sensação vaga de que algo mudou por quatro ou cinco frases concretas, que podem ser relidas daqui a um ano e corrigidas.

VII

O Que Você Vê

Sobre a mãe que mudou de olhar sem mudar de gesto

A filósofa Iris Murdoch criou um exemplo que ficou famoso. Uma mulher, a quem chama de M, sente hostilidade pela nora, a quem chama de D. A nora é boa pessoa, mas M a acha pouco refinada, meio juvenil, sem a dignidade que esperava para o filho. M é bem-educada demais para demonstrar, e por isso todo o conflito se passa por dentro.

Para isolar o que interessa, Murdoch faz D ir embora, para outro país, ou morrer. Ninguém mais está ali para ser tratado de outro modo. Mesmo assim, M começa a olhar de novo. Esforça-se por enxergar D com justiça, e aos poucos o que chamava de vulgar passa a parecer simplicidade, o que chamava de barulho vira alegria, o que chamava de infantil vira juventude. A conduta de M não muda em nada. Era polida antes, é polida depois. E, ainda assim, ela mudou, e mudou naquilo que Murdoch considerava o centro da vida moral.

Murdoch chamou esse trabalho de atenção, palavra que tomou emprestada de Simone Weil, e a descreveu como um olhar justo e amoroso dirigido a uma realidade individual. Não é um estado, é uma tarefa que se repete e custa. Cada vez que M quer ver D como o seu preconceito a vê, precisa escolher de novo entre a imagem fácil e a pessoa real.

É o primeiro dos quatro caminhos, e o mais silencioso. Muda o que se vê, e nada do que se faz precisa mudar para que isso aconteça. Ninguém percebe, nem a própria pessoa, por algum tempo. Talvez por isso muita gente leve esse caminho pouco a sério: sem prova de fora, parece que não houve nada.

A mudança de olhar não deixa prova. Quem a faz às vezes nem conta a ninguém.

O teste é pequeno. Pense em alguém que você descreve com uma palavra só, a mesma há anos. Procure uma segunda palavra, mais precisa, que também seja verdadeira. Se achar, algo no olhar já se moveu.

VIII

O Que Você Quer

Sobre o paladar que muda e o que se deixa de querer

Saber e sabor nasceram da mesma palavra. Em latim, sapere queria dizer ter gosto e ter juízo ao mesmo tempo, e dela vêm o saber do português, o sapore do italiano, o savoir e a saveur do francês. A língua guardou, sem querer, uma tese: a sabedoria tem a ver com paladar.

Rubem Alves levou a ideia a sério numa crônica em que compara o sábio ao cientista. O sábio, escreve, conhece com a boca, e o cientista, com a cabeça. O que o sábio conhece tem sabor, é comida, conhecimento do corpo, e a palavra latina quer dizer eu degusto. A imagem serve de ponte entre o saber e o querer, porque o paladar é aquilo que se educa e que, uma vez educado, não volta atrás.

Pode-se saber, com todas as razões, que olhar o telefone antes de dormir não faz bem, e continuar olhando. O querer não obedece ao saber, obedece ao gosto. Quando o gosto de uma coisa muda, o querer muda sozinho, sem esforço, como acontece com quem comeu demais de um prato e já não o deseja. Esse é o segundo caminho: o que você deseja é um dos lugares onde a sabedoria deixa sinal.

Quando o gosto muda, o querer vai junto, sem pedir esforço.

A mesma crônica traz, perto do fim, uma frase entre aspas que ecoa o velho texto chinês do segundo capítulo: na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada. Ela sugere um critério honesto. A sabedoria não se mede pelo que se aprendeu, e sim pelo que se deixou de querer sem sofrimento. Quem um dia precisou de aplauso e agora precisa menos, quem exigia ser compreendido por todos e hoje aceita ser entendido por alguns, quem acumulava para se sentir seguro e achou outro lugar para a segurança, tem uma marca que nenhuma porta registra.

A comparação do capítulo anterior cabe aqui com precisão. O que você queria há cinco anos com uma urgência que hoje parece estranha? E como a coisa se foi: por esforço, ou por enjoo? A diferença conta, porque o esforço adia e o enjoo é o gosto que mudou.

IX

O Que Você Faz

Sobre o hábito que chega onde o argumento não chega

Aristóteles abre o segundo livro da Ética a Nicômaco com uma observação que parece óbvia e raramente é levada às últimas consequências. Tornamo-nos construtores construindo e tocadores de lira tocando lira. Do mesmo modo, tornamo-nos justos praticando atos justos. A virtude vem do hábito, e é por isso que a palavra grega para caráter se parece com a palavra para costume.

Há quem tenha lido nisso um elogio da repetição cega, e o próprio Aristóteles tratou de evitar a leitura. Mais adiante, exige que o ato justo seja feito sabendo o que se faz, escolhido por si mesmo, a partir de um caráter firme. O hábito, então, não substitui o saber. É a via pela qual o saber alcança o seu dono. O que se faz de novo, com atenção, reescreve quem faz.

Isso muda o lugar da pergunta. Quase sempre nos perguntamos o que precisamos entender para mudar, como se a ordem fosse primeiro entender, depois agir. Aristóteles inverte a ordem, ou ao menos a torna circular. Quem faz uma coisa pequena e difícil, com atenção, entende algo que nenhum argumento teria entregado.

O hábito é o caminho pelo qual o saber chega ao seu dono.

O filósofo queniano Henry Odera Oruka trabalhou com essa ideia por outro lado. A partir dos anos 1970, na Universidade de Nairóbi, ouviu pessoas que as comunidades rurais do Quênia apontavam como sábias, muitas delas com pouca ou nenhuma escola. Distinguiu dois tipos. Havia os que sabiam bem os provérbios e as máximas da comunidade, e havia os que examinavam essas máximas, discordavam de algumas e pensavam por conta própria. Os primeiros guardavam o conhecimento herdado. Os segundos praticavam o que ele chamou de sagacidade filosófica.

O ponto de partida do trabalho dele interessa aqui. Oruka não perguntou quem era instruído, perguntou quem era tido por sábio. Dá para ler nisso que, naquelas comunidades, a sabedoria era uma reputação construída no modo de viver, antes de ser uma doutrina.

O terceiro caminho é o mais visível dos quatro, e justamente por isso o mais fácil de falsear. O que você faz hoje que antes não fazia? E é algo que lhe custa, ou algo que rende aplauso?

X

O Que Você Suporta

Sobre não saber e não ter razão

Em dezembro de 1817, o poeta John Keats escreveu uma carta aos irmãos depois de uma conversa com um amigo, e nela anotou, quase de passagem, uma ideia que ficou. O que forma um homem de realização, sobretudo na literatura, é uma qualidade que Shakespeare tinha em abundância. Keats a chamou de capacidade negativa: a de permanecer em incertezas, mistérios e dúvidas, sem aquela busca irritada por fatos e razões.

Usou Coleridge como contraexemplo. Coleridge, dizia, deixava passar uma verossimilhança bonita, colhida do fundo de um mistério, por não conseguir ficar contente com um meio saber. O que faltava ali não era conhecimento, era a capacidade de suportar a lacuna. A pressa de fechar a pergunta custava a descoberta.

Keats falava de poetas, mas a ideia atravessa bem a mesa de jantar. Toda conversa difícil em família tem alguém que precisa ter razão antes que ela termine. Toda espera por um resultado, um exame, uma resposta, tem aquela hora em que a incerteza fica insuportável e a pessoa decide qualquer coisa só para parar de esperar. O alívio de ter razão e o alívio de saber de uma vez são o mesmo alívio: o de não ficar no meio.

Ter razão e saber logo dão o mesmo alívio: não ficar no meio da dúvida.

Esse é o quarto caminho, e talvez o menos visível. Quem suporta melhor não saber não faz nada diferente por fora. Parece apenas mais calmo, ou mais lento para opinar, ou mais disposto a dizer que ainda não sabe. De fora, a mudança tem a aparência de um silêncio.

Também aqui o conhecimento pode atrapalhar, porque quem sabe muito tem mais material para tapar buracos depressa. A sabedoria, por contraste, às vezes é a decisão de deixar o buraco aberto mais um dia, porque certas respostas só servem se chegarem no tempo delas.

XI

Quando a Mudança é Pequena

Sobre o que vale uma marca que ninguém vê

Os quatro caminhos trazem uma má notícia para quem gosta de transformações: tudo o que se move neles se move pouco. Uma palavra a mais para descrever alguém, um desejo que perdeu a força, um gesto que passou a custar, um silêncio que passou a caber. Nada disso rende fotografia de antes e depois.

A porta explica por quê. A criança ganha dois, três centímetros por ano, e em nenhum ano parece diferente. Só quem para diante da madeira e lê as marcas, uma por uma, vê a menina virar outra pessoa. A mudança que importa costuma ser feita de passos que, isolados, não merecem registro, e que juntos viram outra altura.

A mudança que importa costuma caber num dedo de altura.

Convém desconfiar do contrário. A cultura da transformação radical, com sua pessoa que acordou numa manhã e virou outra, tem um defeito prático: faz parecer que mudar pouco não conta. Quem espera o grande dia deixa de notar as marcas pequenas que já aconteceram, e pode até abandonar as pequenas por achá-las insuficientes. Quem passou a esperar um segundo antes de responder a uma mensagem agressiva mudou algo real, mesmo que nunca escreva sobre isso.

Mudar o jeito de olhar, nem que seja só isso, já é mudar quem olha. O olhar é a porta de entrada dos outros caminhos: o que se vê reorganiza o que se quer, o que se quer empurra o que se faz, o que se faz amplia o que se suporta. Uma alteração pequena na primeira linha costuma se espalhar pelas outras, devagar, sem pedir licença.

XII

E Se a Mudança For para Pior?

Sobre a mudança que endurece e a fantasia de quem mudou

Nem toda mudança é sabedoria. Há quem mude de ideia e fique mais duro, quem perca alguém e passe a desconfiar de todo mundo, quem leia sobre crescimento pessoal e saia convencido de que os outros é que precisam crescer. A palavra mudança não traz garantia de direção, e quem a usa como sinônimo de melhoria já saiu do caminho sem perceber.

Iris Murdoch, a mesma do capítulo VII, tinha uma desconfiança que serve aqui. Para ela, o principal inimigo da excelência moral é a fantasia pessoal, aquele tecido de desejos consoladores e autoengrandecedores que nos impede de ver o que está fora de nós. A autoanálise, o crescimento, a mudança, tudo isso pode ser aproveitado por essa fantasia. Uma pessoa pode virar, em silêncio, a que despertou, a que se livrou do que pesava, a que finalmente entendeu. É uma imagem nova de si, e consola como as antigas.

Os quatro caminhos dão um teste prático: basta fazer cada pergunta ao contrário. Depois da mudança, você vê mais gente ou menos gente? Quer com mais urgência ou com menos? Faz mais coisas que lhe custam, ou só as que rendem aplauso? Aguenta melhor não saber, ou trocou uma certeza por outra mais barulhenta?

Uma mudança que reduz o número de pessoas que você consegue enxergar, que aumenta a pressa do desejo, que só pede esforço onde há plateia e que exige ter razão sempre pode ser muito real e, ainda assim, não ser sabedoria. Pode ser endurecimento, que também é uma forma de mudar.

Há ainda mudanças que ninguém escolhe. A dor muda a pessoa, e a perda também. Isso não faz da dor um professor automático. A sabedoria, quando aparece, é o que a pessoa faz depois com aquilo que mudou nela.

XIII

As Marcas

Sobre o que se risca na porta quando ninguém está medindo

A semana seguinte foi de tinta e cheiro. Quando a última demão secou, o batente estava branco e liso, sem sombra de lápis. Ela ficou olhando para ele da mesa da cozinha, com uma xícara fria na mão, tentando decidir o que fazer com o que tinha pensado.

Pegou um caderno e escreveu quatro linhas, uma embaixo da outra. Na primeira, o que via de outro jeito. Na segunda, o que tinha deixado de querer sem sofrer por isso. Na terceira, algo que fazia agora e que lhe custava. Na quarta, o que aguentava hoje e antes não aguentava. Cada linha era uma frase só, pequena, com o tamanho exato da mudança.

O conhecimento amplia o que você tem. A sabedoria muda quem tem. Se a frase for verdade, o conhecimento cabe numa estante, e a sabedoria só cabe na vida de quem a tem. Ninguém a entrega a outra pessoa, e cada um precisa fazer as suas marcas, do seu jeito, na sua porta.

As quatro linhas não pretendem ser método nem doutrina. São uma maneira de dar lugar ao que normalmente não tem lugar nenhum. Lidas daqui a um ano, mostram o que se moveu e o que ficou parado, e dão a medida do possível sem prometer mais. Quando o exercício é honesto, a lista tem linhas pequenas, repetidas, algumas riscadas, outras reescritas. É assim mesmo.

Antes de guardar o caderno, ela se levantou e foi até a porta. Encostou as costas na madeira branca, os calcanhares colados, e chamou quem estava na sala para segurar um lápis. Não era para medir a altura. Pediu apenas um risco no lugar onde a cabeça encostava, com a data ao lado e sem número nenhum, porque aquilo que ele marcava não tinha unidade.

O risco ficou fino e torto, quase invisível sobre a tinta nova. Ela olhou, achou suficiente, e deixou a cozinha em silêncio.

A porta mede o que cresce.
O resto cresce para dentro,
sem lápis e sem testemunha.

Saber é ter mais.
Ser sábio é ser outro, um pouco,
de um jeito que dá para viver.

Quatro riscos pequenos:
o que vejo, o que quero,
o que faço, o que aguento.

Hoje encosto as costas na madeira.
Alguém segura o lápis.
Eu me deixo medir.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem sabe muito e está procurando o que isso precisa mudar na própria vida.

Ainda aprendendo a deixar que o que sei me mude, Santos Moisés.

Este escrito faz parte de

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