Fábula · Natureza · Escrito CLXXIV

CLXXIV

O Rio que Foi Endireitado

As Conversas do Terreiro, VII: uma fábula sobre natureza, progresso e responsabilidade

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Aba I

Abertura e I a III · A linha reta, a velocidade e o primeiro ganho

Aba II

IV a VI · A chuva, a conta e o que o rio era

Aba III

VII e VIII · O conselho e a nova enchente

Aba IV

IX a XII · Quatro vozes para a conversa

O rio da Fazenda das Quatro Vozes nunca seguiu uma linha reta.

Fazia uma curva larga em volta do pomar, passava por baixo da ponte de madeira, contornava o milharal e sumia entre os juncos antes de reaparecer perto do moinho. Em alguns trechos corria depressa. Em outros, diminuía o passo. Havia margens rasas onde os filhotes bebiam, poços fundos onde os peixes se escondiam e lamaçais onde os sapos cantavam depois da chuva.

Alguns animais achavam o rio bonito. Outros achavam que ele perdia tempo.

“Se o rio fosse reto”, dizia Estouro, “a água chegaria mais depressa.”

“Mais depressa para onde?”, perguntava Rumina.

“Para onde ela precisa chegar.”

“E onde é isso?”

O galo apontava com a crista para o moinho.

“No progresso.”

O rio não respondia. Seguia fazendo curvas.

Baltazar conhecia cada uma. Sabia que a água amansava perto das raízes das árvores e que o chão da margem esquerda bebia mais do que o da direita. Sabia que, nas chuvas fortes, a curva junto ao milharal servia para o rio respirar sem entrar na plantação. Farofa conhecia o rio de cima: uma fita escura estendida sobre a terra, como se a fazenda tivesse uma linha viva atravessando o corpo.

Mas o novo administrador não gostava de curvas.

I

O Projeto da Linha Reta

Sobre quem decide o que é desnecessário

Numa manhã de ventania, chegou à fazenda uma tropa de mulas vinda de uma propriedade distante. Traziam mapas enrolados, cordas, pás e uma placa tão grande que foram precisas duas para carregá-la. Estava escrito: PROJETO RIO DIRETO: MAIS VELOCIDADE, MAIS PRODUÇÃO, MAIS FUTURO.

Estouro foi chamado para anunciar a novidade. Subiu na ponte, estufou o peito e gritou:

“ATENÇÃO! O RIO SERÁ CORRIGIDO!”

Rumina levantou a cabeça do capim.

“Corrigido?”

“Ele está cheio de curvas desnecessárias.”

“Quem decidiu que são desnecessárias?”

“Os especialistas.”

Baltazar chegou perto dos mapas abertos no chão e os examinou devagar, com o focinho quase tocando o papel.

“O que o projeto vai fazer?”

“Retificar o rio”, explicou a mula-chefe. “Abriremos um canal reto, mais fundo e mais rápido. A água chegará ao moinho em menos tempo, as carroças poderão acompanhar o curso e teremos mais terra para plantar nas margens.”

Farofa voou sobre o mapa e voltou.

“E o leito antigo?”

“Será aterrado.”

“E os juncos?”

“Serão retirados.”

“E os peixes?”

“Serão transferidos.”

“Para onde?”, perguntou Rumina.

A mula apontou um retângulo desenhado no papel.

“Para um reservatório.”

“E se não sobreviverem à mudança?”

“Faremos o possível.”

Estouro bateu as asas.

“Não vamos barrar o progresso por causa de alguns peixes!”

Baltazar ergueu os olhos do mapa e olhou para a água, que passava embaixo da ponte sem pressa.

“Nem todo ‘espere’ é contra o progresso. Às vezes é só um jeito de descobrir se a obra melhora a vida de quem mora aqui.”

O administrador abriu uma planilha e leu os números em voz alta: com o canal novo, a produção subiria trinta por cento.

“E o que vai diminuir?”, perguntou Rumina.

“Não sabemos.”

“Então como sabemos que será progresso?”

“Porque a produção vai aumentar.”

Baltazar olhou para o administrador sem pressa nenhuma.

“Produzir mais é sempre viver melhor?”

Estouro respondeu antes que o administrador abrisse a boca.

“É melhor do que produzir menos.”

Nenhum dos quatro riu. O rio, embaixo da ponte, fez uma curva diante deles.

Quem decide o que é desnecessário raramente mora ali.

II

A Velocidade da Água

Sobre o que se mede no dia da inauguração

As obras começaram no início do verão. Os animais abriram o canal novo com pás e carroças, cortaram as margens, derrubaram as árvores mais próximas e arrancaram os juncos, que ficaram secando em pilhas ao sol. O leito reto parecia impressionante, como uma estrada feita de água.

No dia da inauguração, o administrador reuniu todos na ponte nova.

“Observem! A água já chega mais depressa ao moinho!”

Estouro tocou o sino dourado com tanta força que dois pintinhos caíram da cerca.

“É o futuro!”

A água correu pelo canal estreito, levando folhas, galhos e um coelho que se distraiu na margem. Farofa subiu e olhou o novo curso de cima.

“De cima, parece uma cicatriz.”

“Parece eficiência”, respondeu Estouro.

Rumina caminhou até a beira do canal e ficou parada.

“A água não para em lugar nenhum.”

“Esse é o objetivo”, disse a mula-chefe.

“Mas onde ela entra na terra?”

“Veremos depois.”

Baltazar tinha se agachado junto à margem nova. Havia raízes expostas no barranco, penduradas como dedos finos, e um fio de terra escorria entre elas com a água.

“Quando corre depressa, a água leva o chão junto. As curvas faziam o rio diminuir o passo e deixavam a terra beber uma parte dele.”

“Calculamos que o canal seja suficiente”, disse a mula.

“Calcularam a água de hoje”, disse Baltazar. “E a chuva do mês que vem?”

A mula abriu um mapa e passou o casco sobre ele.

“Os modelos indicam segurança.”

“E se o modelo estiver incompleto?”, perguntou Rumina.

A mula olhou para o canal e, pela primeira vez, não respondeu.

A inauguração mede só o dia da inauguração.

III

O Primeiro Ganho

Sobre a notícia que não quer ser examinada

Durante algumas semanas, tudo pareceu funcionar. O moinho recebia água mais cedo, as carroças seguiam um trecho do canal, o campo foi ampliado até a antiga margem e a produção subiu. O administrador mandou pintar numa tábua: RIO DIRETO: PROGRESSO COMPROVADO.

Estouro passou o dia repetindo a frase.

“Eu sabia! As curvas eram o problema!”

Farofa levou a notícia às propriedades vizinhas. Na fazenda do norte, os animais elogiaram a obra. Do outro lado da colina, começaram a estudar um projeto parecido.

Rumina não estava convencida e passou boa parte desses dias perto da água, sem dizer nada.

“Por que você não comemora?”, perguntou Estouro.

“Estou esperando ver o que acontece quando a chuva chegar.”

“Você nunca consegue aproveitar uma boa notícia.”

“Uma boa notícia não precisa ter medo de ser examinada.”

Baltazar tinha ido, sozinho, ao leito antigo. A água havia diminuído ali. O chão estava duro e esbranquiçado, os sapos tinham sumido e as margens, que antes ficavam úmidas até o meio-dia, estavam cobertas de poeira. Ele se ajoelhou e encostou a mão na terra, como quem procura a febre de um filhote.

Numa poça pequena que restava, um peixe velho, que tinha sobrevivido à mudança, mexeu a cauda.

“Para onde foi o rio?”, perguntou.

Baltazar abriu a boca e não encontrou resposta.

Uma notícia boa aguenta ser examinada.

IV

A Chuva Que Veio de Uma Vez

Sobre o que a obra não tinha previsto

A chuva chegou numa noite de vento forte. Não foi uma chuva delicada: desceu sobre a fazenda com barulho de telhado quebrado, e o céu fechou de uma vez. Em poucas horas, o campo recebeu mais água do que em um mês.

No começo, houve festa.

“Finalmente o canal vai encher!”, gritou Estouro, de dentro do galinheiro.

Mas o canal encheu depressa demais. A água não encontrou curva para desacelerar, nem junco para segurar a margem, nem várzea para receber o excesso, nem raiz que a prendesse. O canal transbordou, e a correnteza entrou no campo novo.

A terra recém-plantada foi levada. A água atravessou o caminho das carroças, derrubou um pedaço da ponte e entrou no depósito de sementes. Farofa enfrentou o vento para ver a extensão da enchente e voltou com as penas encharcadas.

“De cima, o rio voltou a fazer curvas.”

“Como?”, perguntou Estouro.

“A água achou o caminho dela sozinha.”

Baltazar já corria para a margem.

“Precisamos abrir passagem para o campo antigo! Se a água ficar presa aqui, derruba o muro!”

Rumina chamou todos, com a voz que usava poucas vezes.

“Todos podem ajudar! Mas ninguém entra na correnteza sem proteção!”

Estouro começou a gritar ordens para todos os lados.

“Cavem ali! Levem as pedras! Corram! CORRAM!”

Baltazar o segurou pelo ombro.

“Organize sem pôr ninguém em perigo.”

O galo respirou fundo, com a crista pingando.

“Certo. Os animais grandes tiram as pedras. Os pequenos levam as ferramentas. Farofa vigia lá de cima. Rumina anota onde precisam de ajuda.”

Trabalharam a noite inteira. Os grandes empurraram pedras com o peito, os pequenos passaram cordas de boca em boca, e Rumina, de pé na lama, riscou numa tábua os lugares onde a água ainda subia. Quando a chuva parou, a fazenda estava encharcada. O canal novo continuava de pé, mas o campo, o depósito, a ponte e o leito antigo estavam arruinados.

V

A Conta do Progresso

Sobre o que entra e o que fica de fora de uma conta

Na manhã seguinte, o administrador apresentou os números, com a planilha ainda úmida.

“A produção aumentou trinta por cento antes da chuva.”

“E quanto perdemos depois dela?”, perguntou Rumina.

“Não se podem misturar os resultados.”

“Por quê?”

“Porque a enchente foi um evento excepcional.”

Baltazar olhou para o canal vazio.

“Chuva forte faz parte da natureza. Uma obra responsável conta também os dias em que as condições mudam.”

Estouro voltou-se para a mula-chefe.

“Vocês não previram a enchente?”

“Previmos riscos.”

“Mas não impediram.”

“Os riscos foram subestimados.”

“Quem decide quando um risco é aceitável?”

A mula apontou para o administrador.

“O responsável pelo projeto.”

“E quem paga quando o risco atinge todo mundo?”, perguntou Rumina.

O administrador olhou para o chão.

Farofa chegou das fazendas vizinhas e pousou sem fôlego. Contou que o canal do norte também tinha transbordado, que na fazenda da colina os peixes morreram depois que o leito antigo secou e que, no vale, um grupo de árvores ficou sem água.

Estouro desceu do poleiro, sem cantar.

“Então o progresso funcionou por algumas semanas e depois falhou.”

“Talvez tenha funcionado para uma medida, durante um tempo”, disse Baltazar. “Isso não é o mesmo que ter melhorado a fazenda inteira.”

Rumina arranhou o chão com o casco, devagar, e escreveu uma palavra na terra mole: progresso.

“Vamos perguntar o que ela quer dizer.”

“Avançar”, disse Estouro.

“Avançar para onde?”

“Para a frente.”

“O rio também avançava quando fazia curva.”

“Mas mais devagar.”

“Velocidade é a mesma coisa que avanço?”

“Nem sempre”, admitiu o galo.

Rumina escreveu embaixo: para quem? Baltazar pegou um graveto e acrescentou: por quanto tempo? Farofa, do telhado, ditou: e o que se perde no caminho? Estouro resistiu um instante e depois falou, de má vontade, o que faltava: quem decide?

Rumina riscou, por último, uma frase inteira: Uma mudança pode ser eficiente e ainda assim ser ruim.

“Mas se não mudarmos nada, tudo continua igual”, protestou Estouro.

“Nem toda mudança é progresso”, disse Baltazar. “E guardar o que sustenta a vida também é decisão. Às vezes a novidade está em fazer de outro jeito sem destruir a base.”

A mula-chefe apontou o canal.

“Precisávamos aumentar a produção.”

“Por quê?”, perguntou Rumina.

“Havia demanda.”

“Quem criou a demanda?”

“Os compradores.”

“E quem decidiu que a água deveria atender esse desejo?”

Ninguém respondeu.

Uma conta incompleta produz uma confiança completa.

VI

O Que o Rio Era

Sobre a diferença entre recurso e relação

Durante a obra, os animais tinham tratado o rio como uma coisa. Uma linha azul no mapa, uma quantidade de água, uma distância a ser encurtada. Depois da enchente, começaram a vê-lo como uma teia.

O rio levava água às árvores. As árvores seguravam o chão. O chão filtrava a água. Os juncos davam abrigo aos peixes, os peixes alimentavam as aves, as aves espalhavam sementes, e as sementes faziam margem nova. Nada estava sozinho.

Farofa voou sobre o leito antigo e contou, uma por uma, as espécies que tinham deixado de aparecer.

“Eu achava que o rio passava pela fazenda”, disse ao pousar. “Agora vejo que a fazenda também passava pelo rio.”

Rumina ficou olhando para os juncos secos, que quebravam ao toque.

“Talvez a gente chame de recurso aquilo que não quer reconhecer como relação.”

Baltazar concordou, devagar.

“Quando dizemos ‘água disponível’, esquecemos os bichos, os lugares e os ciclos que fazem a água existir.”

“Então a natureza tem direitos?”, perguntou Estouro.

“Essa pergunta cada comunidade responde de um jeito”, disse Baltazar. “Mas mesmo quem não usa a palavra ‘direitos’ precisa admitir que destruir os sistemas naturais pode destruir as condições da própria vida.”

“Cuidar da natureza não é só proteger uma paisagem bonita”, disse Rumina. “É proteger as relações de que a gente depende.”

O administrador queria uma segunda obra para consertar a primeira.

“Faremos um canal ainda mais fundo!”

“MAIS PROGRESSO!”, gritou Estouro, por reflexo, e se calou em seguida, constrangido.

Rumina fechou o caderno.

“Antes de outra obra, precisamos entender o que aconteceu.”

“Não podemos parar por causa de um erro”, disse o administrador, irritado.

“Justamente porque houve um erro”, respondeu Baltazar, “precisamos parar o bastante para aprender.”

Farofa trouxe os registros da enchente. Estenderam tudo sobre uma mesa grande: dados de água, solo, produção, peixes, árvores, trabalho, gastos e danos. Rumina percebeu que os números usados para justificar o canal vinham de uma só estação.

“Vocês compararam só a velocidade da água e a produção do momento. Não contaram a terra perdida, a ponte quebrada, os peixes mortos nem a manutenção.”

“Esses custos não estavam no modelo”, disse a mula.

“Então o modelo não descrevia o sistema inteiro.”

Baltazar encostou o casco na borda da mesa.

“Uma medida incompleta pode dar uma confiança completa.”

Estouro olhou para o canal.

“E agora?”

“Agora”, disse Rumina, “precisamos de uma solução que não repita a mesma lógica.”

Recurso é o nome de uma relação esquecida.

VII

O Conselho do Rio

Sobre a obra que não parecia obra

Os animais criaram um Conselho do Rio. Sentaram-se nele os que trabalhavam no campo, os que dependiam da água, os que conheciam os peixes, os que cuidavam das árvores, os que levavam mercadorias nas carroças e os que olhavam o céu para prever o tempo. Farofa acompanhava as mudanças de cima. Baltazar estudava o chão e o curso da água. Rumina juntava as perguntas e comparava as propostas. Estouro anunciava as reuniões, mas não decidia sozinho.

Chegaram a sete combinados, e não foram escritos numa tábua dourada. O primeiro foi aceitar que o rio não precisava ser reto para ser útil. O segundo, recuperar partes do leito antigo para que a água pudesse diminuir o passo e alimentar a terra. O terceiro, plantar árvores e juncos nas margens. O quarto, cavar áreas de transbordamento onde a água se espalhasse sem destruir o campo. O quinto, pedir menos produção nos períodos de seca e de chuva extrema. O sexto, rever o projeto a cada estação, com observação e não só com previsão. O sétimo, não deixar nenhuma decisão sobre a água nas mãos só de quem lucrava com a produção.

O administrador franziu a testa.

“Isso não vai deixar tudo mais lento?”

“Talvez”, disse Rumina. “Mas o objetivo não é só fazer a água chegar depressa. É fazer a água continuar existindo.”

Baltazar completou, sem pressa:

“Velocidade é um jeito de o processo andar. Sustentabilidade é a condição para o processo continuar.”

Durante meses, os animais trabalharam para devolver complexidade ao rio. Reabriram curvas antigas, plantaram árvores, tiraram as pedras que fechavam as passagens naturais, ergueram pequenas barreiras para diminuir a correnteza e fizeram remansos onde os peixes pudessem desovar.

A obra não parecia grandiosa. Não havia canal novo, placa brilhante, nem inauguração com música. Era feita de gestos pequenos e demorados.

Estouro andava inquieto.

“Não há nada para anunciar.”

Farofa voou sobre o rio e voltou.

“Há um rio voltando a respirar.”

“Isso não cabe numa frase de impacto.”

“Talvez algumas coisas importantes não precisem de impacto.”

Rumina parou diante de uma árvore jovem, junto à margem, amarrada a uma estaca.

“Um projeto pode dar certo porque impede o problema antes de ele aparecer. Mas esse sucesso quase nunca recebe aplauso.”

“Cuidar é, muitas vezes, trabalhar para que algo não aconteça”, disse Baltazar. “A ausência do desastre pode ser o resultado de um grande esforço.”

A ausência do desastre também é obra.

VIII

A Nova Enchente

Sobre o progresso que aprende

No ano seguinte, veio outra chuva forte, e os animais ficaram acordados à beira da água.

O rio subiu. Mas encontrou as áreas de transbordamento, as raízes seguraram o chão, os juncos diminuíram a correnteza e parte da água ocupou o leito antigo, que tinha sido recuperado. O rio cresceu sem destruir o campo. A ponte balançou e continuou de pé. O canal reto ainda existia, mas já não recebia, sozinho, toda a força da água.

Quando a chuva parou, a fazenda estava molhada e cansada, mas inteira. Estouro subiu na ponte.

“ATENÇÃO! O RIO NÃO DESTRUIU A FAZENDA!”

Rumina olhou para ele.

“É uma boa notícia.”

“E também um anúncio de progresso.”

Baltazar sorriu.

“Desta vez, pode dizer.”

Farofa voou sobre a água. Viu peixes voltando aos trechos recuperados, sapos entre os juncos e árvores pequenas segurando a margem. Viu a água fazer curvas sem pedir desculpas. O rio não estava igual ao de antes. Também não era o canal que tinham imaginado. Era uma terceira coisa: uma convivência feita depois que os animais perceberam que não eram donos de todas as consequências.

No fim da estação, o administrador apresentou os novos resultados. A produção não tinha subido tanto quanto no primeiro ano do canal. Mas as perdas eram menores, a água continuava disponível, o solo estava mais protegido, os peixes tinham voltado, a manutenção custava menos, e os animais trabalhavam com menos urgência e mais planejamento.

“Isso é progresso?”, perguntou Estouro.

“Depende do que estamos tentando melhorar”, disse Baltazar.

“Se progresso é só produzir mais depressa, talvez não”, disse Rumina. “Se é ampliar as possibilidades de uma vida comum sem destruir as bases dela, então sim.”

Farofa pousou na margem.

“De cima, o desenho está mais complicado.”

“E melhor?”, perguntou o galo.

Farofa olhou o rio por um longo momento.

“Mais vivo.”

Rumina escreveu no caderno: A natureza não é um obstáculo no caminho do progresso. É parte das condições que tornam qualquer futuro possível.

O rio continuou correndo. Não como antes, nem como os mapas tinham previsto. Mas agora os animais olhavam para as curvas dele sem enxergar desperdício. Enxergavam memória de que uma vida saudável raramente segue uma linha perfeitamente reta.

Depois do erro nasce uma terceira coisa.

IX

Baltazar e o Rio Que Se Divide

Sobre Dujiangyan, Li Bing e o rio que se guia sem se barrar

Por volta de 256 a.C., na China, o governador de Shu, Li Bing, enfrentou um rio que ora inundava a planície de Chengdu, ora a deixava seca. Em vez de barrar o Min com uma represa, construiu no meio dele, numa curva, uma ilha artificial em forma de boca de peixe, que divide a água em dois braços: um largo e raso, que segue o curso antigo, e outro fundo e estreito, aberto para irrigar a planície. Um vertedouro lateral devolve ao rio o excesso e a areia.

O sistema ajusta a si mesmo. Na seca, o braço mais fundo recebe a maior parte da água, e é quando os campos precisam dela. Na cheia, a proporção se inverte, e o rio principal leva o que sobra. Mantê-lo funcionando exigiu o que a obra das mulas dispensou: dragagem regular e uma marca no leito, cavalos de pedra enterrados, para lembrar a profundidade certa. Dujiangyan continua em uso, é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2000 e irriga cerca de 667 mil hectares.

Baltazar conhecia cada curva do rio, e é isso que as mulas não tinham. Li Bing mexeu no Min, e muito. A diferença é que mexeu com a água, a partir do que ela já fazia, e quem veio depois voltou a ela com a pá. A lição não é deixar o rio como está. É não trocar um sistema que se corrige sozinho por uma linha que só funciona no dia da inauguração.

X

Rumina e as Várzeas do Tietê

Sobre Saturnino de Brito e a retificação que venceu

Nos anos 1920, o Tietê e o Pinheiros, em São Paulo, ainda serpenteavam por uma várzea larga, onde a água escorria nas cheias, e havia clubes de regata nas margens. Em 1920, o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino de Brito levou ao prefeito a ideia de um cinturão de parques para proteger o leito dos rios. Em 1926, propôs conciliar os usos dos rios, entre eles o transporte, o lazer e o controle de enchentes, com reservatórios naturais feitos das matas e das várzeas que restavam.

Venceu outra ideia. A retificação avançou ao lado da canalização e da expansão da empresa de energia Light, que, em troca das obras, recebeu o direito de desapropriar terras alagáveis e vendê-las depois de melhoradas. O Plano de Avenidas, de Prestes Maia, usou as várzeas retificadas para abrir avenidas. As enchentes continuaram, e a saída foi alargar a calha. A Marginal do Tietê foi ampliada de novo em 2009, por cerca de dois bilhões de reais. Hoje o Parque Linear Várzeas do Tietê, com 25 quilômetros, ajuda a proteger o rio e a regular as cheias.

As perguntas de Rumina, quem decide quando um risco é aceitável e quem paga quando o risco atinge todos, aqui tiveram resposta concreta: quem pagou, em enchentes e em reformas, foi a cidade. O caso também não é uma fábula de bem e mal. Era uma cidade crescendo depressa, com pressa de saneamento e de transporte. O que o Tietê mostra é o preço de uma conta feita com pouca coisa dentro.

Conta com pouca coisa dentro engana muito.

XI

Farofa e o Sahel Visto de Cima

Sobre Reij, Tappan e os agricultores do Níger

No Sahel, a faixa seca ao sul do Saara, as secas dos anos 1970 e 1980 pareciam condenar a terra. Em 1981, o agrônomo australiano Tony Rinaudo chegou ao Níger e passou a plantar mudas com os aldeões. Quase todas morriam. Reparou, então, que os arbustos que brotavam nas lavouras eram tocos vivos de árvores cortadas, e que bastava proteger os brotos. Aos poucos, agricultores que tinham ouvido dos técnicos que árvore atrapalha a lavoura passaram a cuidar delas. Em Burkina Faso, o agricultor Yacouba Sawadogo aperfeiçoou os zaï, buracos de plantio que seguram a água.

Quem viu o tamanho do resultado foi um olhar de cima. Com fotos aéreas, imagens de satélite e trabalho de campo, os pesquisadores Chris Reij, Gray Tappan e Melinda Smale estimaram, em 2009, que cerca de 5 milhões de hectares do sul do Níger tinham sido regenerados. O número de 200 milhões de árvores veio de uma média de quarenta por hectare, não de uma contagem. As chuvas melhoraram um pouco, mas o manejo dos agricultores pesou mais.

Farofa sabe o que é ver de cima o que, de baixo, ninguém notava. O Sahel acrescenta que o progresso costuma ter inauguração, e a regeneração não teve: foi feita de brotos protegidos, um a um, por quem morava ali. E que a virada começou quando alguém desfez o conselho de arrancar as árvores.

XII

Estouro e o Espaço Devolvido

Sobre Room for the River e o anúncio que mudou de lado

Em 1993 e em 1995, os rios Reno e Meuse subiram a níveis que a Holanda nunca tinha visto. Em 1995, cerca de 250 mil pessoas e um milhão de animais foram retirados de suas casas. Nenhum dique chegou a romper, mas o país, que sempre confiou em diques mais altos, concluiu que reforçá-los já não bastava. Aprovou, em 2006, o programa Room for the River, Espaço para o Rio, executado de 2007 a 2015: 34 projetos, que afastaram diques, rebaixaram várzeas e abriram canais secundários, ao custo de cerca de 2,3 bilhões de euros.

O programa não toma terra da água. Devolve terra a ela, e sacrifica uma parte para poupar outra. No Overdiepse Polder, os produtores de leite que seriam afetados formaram uma associação e participaram do planejamento da obra.

Estouro precisou aprender a anunciar de outro jeito: em vez de uma grande linha reta e uma placa, um rio que sobe sem derrubar a fazenda. Os holandeses tiveram de dizer ao país que a segurança, a partir dali, passava por ceder terra ao rio, e não por erguer um dique mais alto. Esta fábula guarda dessas quatro histórias uma pergunta só, que cabe numa frase: progresso para quem, por quanto tempo, decidido por quem, com que risco e à custa de que parte do rio. Quem responde com honestidade a essa pergunta já está construindo outra coisa.

O rio não pediu desculpas
por fazer curvas.

Quem o endireitou
chegou mais cedo ao moinho
e mais tarde à conta.

A terra segurou o que pôde.
A chuva cobrou o resto.

Cuidar é trabalhar
para que algo não aconteça,
e ninguém aplaude o que não houve.

De cima, o desenho ficou mais complicado.
Mais vivo.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem cuida do que não aparece, para que o desastre não aconteça.

Ainda aprendendo a olhar as curvas, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

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