Tratado · Natureza · Escrito CLXVII
O Corpo É um Abraço da Natureza
Do mangue de uma trilha ao interior do corpo: água, bactérias, minhocas, sono e lua para mostrar que a natureza não é um objeto de consumo, e sim o meio em que nos constituímos
Ouvir este escrito · narrado
Aba I
Abertura e I e II · O que passa por nós
Aba II
III e IV · Cada ser, seu ofício
Aba III
V e VI · Os ciclos que moram em nós
Aba IV
VII e VIII · As rodas e a floresta
Aba V
IX e X · Nem objeto, nem altar
Aba VI
XI e XII · Administrar
Fomos eu e meu filho caminhar pela trilha do parque. Logo no começo deu para perceber que não andávamos sozinhos. No alto, de galho em galho, dezenas de saguis nos acompanhavam, sem pressa e sem medo, como quem escolta uma visita.
O caminho se abriu numa lagoa cheia de pássaros. Do outro lado ficava o mangue, e ao longo de toda a trilha as árvores se entrelaçavam por cima da gente, galhos emendados nos galhos da vizinha, raízes que não deixavam ver onde terminava uma e começava a seguinte. Parei no meio da trilha. Lá em cima, os saguis continuaram.
I
A Água Que Já Foi Folha
Sobre o que passa por dentro de nós sem pedir licença
Foi no Parque Estadual do Cocó, em Fortaleza. O parque guarda quatro ecossistemas numa faixa que a cidade apertou por todos os lados: manguezal, dunas, restinga e mata de tabuleiro. A área total é de pouco mais de mil e quinhentos hectares, a maior unidade de conservação de Fortaleza. Passam por ali mais de cento e trinta espécies de aves, além dos saguis que nos acompanharam. Sei o nome de poucos dos seres que vi naquele dia, e mesmo assim senti o que só consigo chamar de sublime.
Os filósofos do século XVIII, Edmund Burke e Immanuel Kant à frente, deram o nome de sublime ao encontro com uma natureza maior que a nossa medida: algo que nos excede e, mesmo assim, não nos esmaga. Acho a palavra exata, com uma correção. Naquela trilha, o que excedia a minha medida não estava diante de mim, como um espetáculo. Estava em volta, e dentro.
Este tratado nasceu desse momento e de uma pergunta que ele deixou: onde, exatamente, termina o parque e começo eu? A resposta que encontrei é incômoda para quem acha que o corpo é uma fronteira. O corpo é uma passagem.
Comecemos pelo que há de mais comum. Até sessenta por cento do corpo de um adulto é água. O cérebro e o coração têm cerca de setenta e três por cento, e o pulmão, oitenta e três. Até o osso, que parece pedra, tem uns trinta e um. Os bebês têm proporção ainda maior, e as mulheres, em média, uma proporção um pouco menor que a dos homens. Somos, sobretudo, líquido em circulação.
Uma molécula de água não tem DNA, não tem nome e não guarda memória. Ela entra por um rio, passa por uma raiz, sobe até uma folha, sai para o ar, volta como chuva, entra em mim. Ninguém consegue seguir uma molécula individual nessa viagem, e eu não vou fingir que consigo. Mas o ciclo da água garante o essencial: a que me atravessa hoje já foi nuvem, já foi mar e, muito provavelmente, já fez parte de outros seres vivos. A água que me atravessa já foi folha.
Com os átomos é igual. O carbono do meu corpo veio do alimento, e o carbono do alimento estava, em última instância, no ar, como gás carbônico, até que uma folha ou uma alga o prendeu. Nenhum átomo meu foi inventado em mim. Fui montado com peças de segunda mão, por uma natureza que reaproveita tudo.
A tese deste texto cabe numa imagem, a do título: o corpo é um abraço. Não é enfeite. Um abraço é um gesto em que partes de fora ficam, por um tempo, do lado de dentro, e depois se soltam. É o que a matéria faz comigo, e o que a vida faz em mim.
Vou andar por esse abraço em doze passos, do que passa por nós ao que fazemos com isso. Onde a ciência confirmou, digo. Onde não confirmou, digo também.
Ninguém inventou um átomo dentro de mim. Fui montado com peças que já circulavam.
II
Um Abraço de Muitas Partes
Sobre o que mora em nós sem ser nós
Em 2016, três pesquisadores do Instituto Weizmann, Ron Sender, Shai Fuchs e Ron Milo, refizeram a conta de quantas bactérias carregamos. Chegaram a cerca de trinta e oito trilhões de bactérias para trinta trilhões de células humanas num homem adulto de referência, de setenta quilos. A razão é de uns 1,3 para 1.
Em vez de uma invasão, o que existe é um quase empate: para cada célula minha, mais ou menos uma bactéria que me habita, sobretudo no intestino. Os próprios autores notam que cada ida ao banheiro, que elimina cerca de um terço do conteúdo bacteriano do cólon, pode inverter a razão a favor das células humanas por algumas horas. E a conta tem uma ressalva honesta: bactérias são minúsculas, e todas juntas pesam cerca de duzentos gramas. Em número, somos quase meio a meio entre gente e micróbio. Em massa, quase só gente.
Uma curiosidade da mesma conta: entre as células humanas, cerca de noventa por cento vêm da linhagem do sangue, e os glóbulos vermelhos maduros nem núcleo mantêm. Músculo e gordura pesam muito no corpo e contam pouco em número. Quando se pergunta o que é uma pessoa, a resposta depende de a gente contar por peso, por células ou por companhia.
Dentro de cada célula minha há ainda outra camada de vizinhança. Em 1967, a bióloga americana Lynn Margulis publicou um artigo propondo que as mitocôndrias, as usinas de energia da célula, foram um dia bactérias de vida livre, engolidas por células maiores e nunca digeridas. A ideia encontrou um campo relutante. A análise do DNA dessas estruturas, nos anos 1980, confirmou a origem bacteriana, e hoje a origem das mitocôndrias é conhecimento de livro didático. Uma parte da proposta dela, a do flagelo, não resistiu aos dados, e isso também precisa ser dito.
E há o osso. Ele parece a parte mais mineral de mim, e é: cristais minúsculos de hidroxiapatita, um fosfato de cálcio, respondem por cerca de dois terços do peso do osso, embutidos numa trama de colágeno. É um compósito de pedra e proteína, e o corpo o constrói e o desmonta a vida inteira, com as mesmas peças.
Somando: água que circula, trilhões de vizinhos bacterianos, descendentes de bactérias dentro de cada célula, cristais de mineral numa trama de proteína. Chamar isso de indivíduo é útil na hora de assinar um contrato. Para entender o que o corpo é, a palavra mais honesta talvez seja outra: um arranjo. Um abraço de muitas partes que se combinaram e continuam se combinando.
Não estou dizendo que o corpo seja uma ilusão, nem que a natureza me ame. Abraço, aqui, é descrição de arquitetura, não de sentimento. A natureza não sente nada por mim. Mas ela me monta, me mantém e me desmonta com peças que não são minhas, e isso já basta para a pergunta que interessa: o que devo a quem me compõe?
Os bens ficam com o cartório; o corpo, esse, nunca foi inteiramente nosso.
III
A Minhoca Que Ninguém Convida
Sobre o trabalho que ninguém vê e sem o qual nada cresce
Charles Darwin escreveu o último livro científico da vida sobre minhocas. Saiu em 1881, poucos meses antes da morte dele, e o assunto o ocupava havia mais de quarenta anos. Quem esperava outra grande síntese, como A Origem das Espécies, encontrou um estudo paciente de quintal: ele e os filhos saíam cedo para olhar o que as minhocas tinham feito durante a noite na terra úmida do jardim da casa, em Kent.
Os experimentos têm uma graça involuntária. Para saber se as minhocas ouviam, ele pôs vasos de terra com minhocas em cima do piano e tocou notas; algumas as faziam recuar para os buracos. Para saber como reagiam, soprou sobre elas o hálito de quem mastiga fumo. O que a graça escondia era uma tese séria: a camada de terra fértil da superfície, o húmus onde crescem as plantas, tinha passado muitas vezes pelo corpo das minhocas.
A curiosidade vinha de longe. Em 1837, aos vinte e oito anos, ele já havia lido na Sociedade Geológica de Londres um trabalho sobre o papel das minhocas na formação do solo. O que o intrigou foi a observação de seu tio e futuro sogro, Josiah Wedgwood II, de que materiais espalhados nos campos dele anos antes estavam agora enterrados sob vários centímetros de terra. O livro de 1881 é o fecho de uma pergunta de mais de quatro décadas.
Ele calculou que um acre, pouco mais de quatro mil metros quadrados, abrigava cerca de cinquenta e três mil minhocas. Pelas contas dele, resumidas no verbete do Dicionário de Biografia Científica, elas traziam à superfície cerca de dezoito toneladas de solo por ano nessa mesma área. Num capítulo à parte, ele mostrou como os pisos de mosaico de ruínas romanas ficaram guardados sob a terra que as minhocas foram depositando, camada fina sobre camada fina.
O livro vendeu, em seu tempo, mais cópias que A Origem das Espécies. Talvez isso diga algo sobre o interesse das pessoas pelo que está debaixo dos pés.
Trazendo para o meu corpo: a minhoca não oxigena o solo para agradar as plantas, nem as plantas respiram para me manter vivo. Cada ser faz o que faz para viver, e o conjunto resulta numa troca de que dependemos. Não há convite, não há plateia. O trabalho da minhoca é do tipo que só se nota quando falta. Sem solo vivo, não há planta, e sem planta ninguém come.
Há uma lição de método escondida no episódio. Darwin não precisou de aparelhos caros nem de lugares distantes. Precisou de tempo, de um jardim e de teimosia para olhar o que todo mundo achava que não valia olhar. A atenção, mais do que a tecnologia, é o que faz o invisível aparecer. Uma trilha de parque serve ao mesmo exercício.
Insignificante é adjetivo nosso. Darwin admitia que o assunto podia parecer pequeno, e passou quatro décadas mostrando que o tamanho do ser não mede o tamanho do papel. Na trilha, a gente caminha em cima desse trabalho sem ver nada dele, e o chão sustenta o peso mesmo assim.
Quem decide que um ser é insignificante raramente olhou o que o chão perderia sem ele.
IV
O Ar Que Alguém Fez
Sobre cada respiração ter um autor
Respirar parece o gesto mais privado que existe. Ninguém respira por mim, e ninguém me vê fazer isso. Mas o ar que entra tem uma história de fabricação, e quase nunca é a de uma árvore à vista.
A fotossíntese é o processo em que plantas, algas e algumas bactérias usam luz do sol e gás carbônico para fazer alimento, e liberam oxigênio como resíduo. A agência oceânica americana estima que cerca de metade da produção de oxigênio do planeta vem do oceano, principalmente de plâncton: plantas e algas que flutuam, e bactérias que fazem fotossíntese. Isso supera, em produção, todas as florestas tropicais juntas. E há um detalhe: aproximadamente a mesma quantidade é consumida pela vida marinha, que também respira.
O ar que respiramos tem idade. Por volta de quatrocentos milhões de anos atrás, segundo os cientistas, já havia oxigênio acumulado na atmosfera para que animais respiradores de ar evoluíssem em terra firme, e a camada de ozônio protegia da radiação ultravioleta quem saísse da água. Cada fôlego é herdeiro dessa fabricação lenta.
As florestas importam por muitas razões, e a Amazônia é uma delas. Mas o fôlego do planeta tem uma parcela enorme feita de coisas que não vemos, longe da costa, numa fina camada de água iluminada.
O gás carbônico que eu expiro entra no mesmo circuito, no sentido contrário: plantas, algas e bactérias que fazem fotossíntese o usam para produzir alimento. Meu hálito, nesse sentido, é matéria-prima de quem me alimenta.
No manguezal do parque, esse circuito tem uma peculiaridade. Troncos, raízes e folhas guardam carbono tirado do ar, e o solo alagado, pobre em oxigênio, decompõe a matéria orgânica devagar, o que mantém o carbono preso. Esse estoque se chama carbono azul. O manguezal faz outras coisas de que a cidade depende: segura a costa contra a erosão e contra ressacas, e serve de berçário para a vida marinha. A professora Yara Schaeffer Novelli, do Instituto Oceanográfico da USP, lembra que, quando o grande tsunami de 2004 atingiu a Indonésia, as populações sofreram menos onde havia manguezal. Uma pesquisadora do projeto Cazul estima que cerca de oitenta por cento das espécies de peixes, crustáceos e moluscos dependem dele em alguma fase da vida.
Esse mesmo manguezal foi, a partir dos anos setenta, território de salinas, e voltou. Um estudo da UFC sobre o parque o chama de caso emblemático: mostra a capacidade de regeneração do manguezal quando protegido. A regeneração não depende da nossa vontade. Depende de a gente tirar o pé.
Cada respiração minha tem um autor distante: alguém pequeno, na superfície do mar.
V
O Sono É uma Maré
Sobre o relógio que já dormia antes de nós
Todo dia, mais ou menos na mesma hora, uma coisa dentro de mim começa a baixar. Os olhos pesam, o corpo pede horizontal, e eu chamo isso de cansaço. É mais antigo e mais interessante do que isso: é uma maré, e ela obedece a um relógio que a ciência só conseguiu abrir a partir de 1984.
Em 2017, o Nobel de Fisiologia ou Medicina foi para Jeffrey Hall, Michael Rosbash e Michael Young, pelas descobertas dos mecanismos moleculares que controlam o ritmo circadiano. Trabalhando com moscas-das-frutas, eles isolaram um gene que chamaram de period. A proteína que ele produz, a PER, se acumula durante a noite e é degradada durante o dia, e freia o próprio gene que a fabrica: um circuito que se liga e se desliga sozinho, num ciclo de cerca de vinte e quatro horas. Young descobriu depois um segundo gene, o timeless, necessário para que o ritmo seja normal.
O que a descoberta tem de mais bonito para este texto é o alcance. O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos resumiu assim: ela explica como plantas, animais e humanos ajustam seu ritmo biológico para ficar em sintonia com o giro da Terra. Uma mosca, uma folha e eu temos o mesmo problema de fundo, o de viver num planeta que gira, e cada um resolveu com um relógio próprio.
Nesse arranjo, dormir deixa de parecer um intervalo na vida e passa a parecer parte do ciclo em que a vida acontece. Não sou eu quem decide a hora em que a maré baixa. Posso, no máximo, ajudar ou atrapalhar o relógio. A luz do dia e o escuro da noite são o que ele usa para se ajustar ao dia de fora. Nesse sentido, o sono é a maneira mais cotidiana de eu estar em contato com o movimento do planeta.
Nas moscas, a proteína do relógio é construída durante a noite e desmanchada durante o dia, todos os dias, dentro de células que não sabem de nada disso. O então diretor do NIH, Francis Collins, disse que o trabalho dos três ajuda a entender e a tratar distúrbios do sono, obesidade e transtornos de saúde mental. Um mecanismo descoberto numa mosca acabou virando assunto de consultório.
Convém não exagerar. O Nobel descreve um mecanismo, e a vida do sono tem muitos outros capítulos que a ciência ainda está lendo. O que ele me dá é uma prova de que o ritmo dentro de mim não é invenção minha nem da cultura. É uma herança que me liga a bichos e plantas, escrita em genes.
Dormir é a forma mais comum de eu acompanhar o giro do planeta.
VI
A Lua, o Corpo e o Que a Ciência Sabe
Sobre ciclos que parecem coincidências e talvez não sejam
A ideia de que o ciclo menstrual segue a lua é tão antiga quanto popular, e por isso mesmo merece desconfiança. Os dois ciclos têm duração parecida, cerca de vinte e nove dias e meio, e a semelhança sempre pareceu um convite à explicação. Estudos antigos viram relação, e estudos posteriores não a confirmaram. Falo aqui como quem lê, não como quem tem esse ciclo, e por isso tento ser exato sobre o que se sabe.
Em 2021, uma equipe liderada pela cronobióloga Charlotte Helfrich-Förster, da Universidade de Würzburg, na Alemanha, publicou na Science Advances um estudo diferente. Em vez de olhar populações, olhou mulheres individuais: vinte e duas delas, que anotaram o início da menstruação durante períodos de cinco a trinta e dois anos. A própria pesquisadora contou que começou cética.
A equipe testou três ciclos da lua: o das fases, de cerca de vinte e nove dias e meio; o do mês tropical, de cerca de vinte e sete dias; e o do ponto em que a lua fica mais perto e mais longe da Terra. O resultado, em síntese: ciclos com duração maior que vinte e sete dias ficaram, de forma intermitente, sincronizados com os ciclos de luminosidade e de gravidade da lua. Intermitente quer dizer que a sincronia aparecia e sumia: entre as mulheres de até trinta e cinco anos, aparecia em cerca de um quarto do tempo. Com a idade e com a exposição à luz artificial à noite, os ciclos encurtavam e a sincronia se perdia.
Convém pesar o que isso é e o que não é. É um estudo pequeno, com vinte e duas mulheres. A própria autora diz que é inteiramente incerto como um relógio lunar poderia se acertar com variações tão pequenas da gravidade, e o texto do artigo reconhece que a influência da lua sobre o comportamento reprodutivo humano continua controversa. A hipótese dela é que, em tempos antigos, o comportamento reprodutivo humano acompanhava a lua, e que a vida moderna, com luz acesa a noite inteira, mudou isso. É uma hipótese, não uma conclusão.
Um aviso de respeito: quem tem o ciclo é quem melhor conhece o próprio ritmo. Nenhum estudo, este incluído, está acima da experiência de quem vive isso todo mês.
No mesmo periódico, na mesma época, saiu outro estudo, de outro grupo, que achou que as pessoas dormem menos perto da lua cheia e mais perto da lua nova. Dois estudos pequenos em direções parecidas não fazem uma lei, mas fazem uma pergunta séria.
Por que eu insisto em ciclos que ainda não estão fechados? Porque a pergunta que eles fazem é a mesma do capítulo anterior, em escala maior: os ritmos do corpo foram afinados por milhões de anos num planeta com dia, noite, lua e estações. Se hoje a luz do celular e da cidade desmancha até uma sincronia sutil com a lua, o que mais ela desmancha? A ciência está apenas começando a perguntar.
Um ciclo que aparece e some ainda é um ciclo, e merece ser estudado antes de ser negado.
VII
Os Que Vieram Antes de Nós
Sobre o que um povo registrou a respeito de quem chega por último
Entre os povos nativos da América do Norte aparece a chamada roda de medicina, um desenho de círculo dividido em quatro pontos, com variações grandes de um povo para outro. O próprio nome foi dado por brancos no fim do século XIX. Os quatro pontos costumam representar estações, necessidades humanas e, em algumas leituras, os quatro reinos: animal, mineral, vegetal e humano. Como a roda muda de povo para povo, não vou atribuí-la inteira aos cherokees.
O que está documentado entre os cherokees é outra coisa, e serve ao argumento. No registro de James Mooney, publicado em 1902, os humanos aparecem depois dos animais e das plantas: chegam por último. A terra, nessa narrativa, é uma ilha presa ao céu por quatro cordas, e os animais e as plantas recebem a tarefa de vigiar sete noites seguidas. Poucos conseguem, e é por isso, segundo a história, que cedros, pinheiros, abetos e loureiros ficam verdes o ano todo.
Antes disso, na mesma tradição, o mundo era só água, e foi um besouro-d'água, Dayuni'si, que mergulhou até o fundo e trouxe um pouco de lama mole. A lama cresceu para todos os lados até virar a ilha a que chamamos de terra. Uma criação que começa na lama, e não na luz, combina bem com um parque de mangue.
Em A Origem da Medicina, outra narrativa cherokee, os animais se revoltam contra os abusos humanos. Ursos, veados, peixes e répteis, aves, insetos e bichos pequenos fazem cada um o seu conselho de guerra e chegam à mesma conclusão: os humanos se tornaram intoleráveis e devem acabar. As plantas intervêm: para cada doença que os animais mandarem, elas oferecerão uma cura. A história explica de onde vem o remédio, e ensina que a relação com o mundo vivo exige respeito.
Os estudiosos da religião cherokee costumam resumir o fundo dessas narrativas em uma ideia: o humano não domina a terra, nem as plantas, nem os animais. Convive com a criação inteira e faz o papel de mediar entre os mundos, para manter o equilíbrio. A mesma lógica aparece na regra, contada na criação, de que cada mulher teria um filho por ano, para que a população humana não tomasse o lugar dos outros seres.
Aqui entra algo que a ciência confirma sem precisar de narrativa nenhuma: a matéria que me compõe já foi de outros e será de outros. Passamos, no sentido mais literal, por muitas formas. O que hoje é osso amanhã será solo, depois planta, depois alimento de outro. A crença em reencarnação é outro assunto, que eu não tenho como afirmar nem negar. A circulação dos átomos eu tenho.
Escrevo como quem lê, e não como quem herda. Um povo não é uma coleção de frases bonitas, e prefiro citar o que está registrado, com o nome de quem registrou.
Quem chegou por último tem mais a aprender do que a ensinar.
VIII
A Floresta Que Está Viva
Sobre línguas em que a água é um verbo
Robin Wall Kimmerer é botânica, professora de ecologia vegetal e integrante da Nação Potawatomi. Em Braiding Sweetgrass, de 2013, ela conta como foi aprender a língua do seu povo e descobrir que uma baía, nela, é um verbo: wiikwegamaa, ser uma baía.
Em inglês, baía é substantivo, uma coisa parada, um lugar que a gente aponta. Em potawatomi, ser baía é algo que a água e a terra fazem. Para Kimmerer, esse verbo solta a água da prisão e a deixa viver. Ela chama o resultado de gramática da animacidade e sugere que aprender essa gramática poderia frear a nossa exploração irrefletida da terra.
Ela lembra que ninguém chamaria a própria avó de coisa, e que em potawatomi uma árvore ou uma montanha também não é coisa. O português, como o inglês, nos deu um vocabulário em que quase tudo o que não é gente é objeto, e vivemos sob essa gramática sem notar.
Em outro ponto, ela fala dos humanos como os irmãos mais novos da criação, o que combina com a ordem de chegada que Mooney registrou entre os cherokees. O que Kimmerer propõe não é trocar a ciência por outra língua. Ela diz tentar ser bilíngue, entre o vocabulário da ciência e a gramática da animacidade. É o que este texto tenta: usar os números de uma e a atenção da outra.
Do mesmo livro vem uma prática que cabe em qualquer trilha: o que ela chama de colheita honrada, um conjunto de princípios para tirar só o que se precisa e dar algo em retorno.
No Brasil, a floresta tem outro porta-voz de peso: Davi Kopenawa, xamã e liderança dos yanomami, que escreveu com o antropólogo Bruce Albert A Queda do Céu, publicado aqui em 2015. A epígrafe do livro é curta: "A floresta está viva." Kopenawa chama de povo da mercadoria quem vê nela apenas o que se pode vender, e, segundo a apresentação de Albert, o livro é um apelo contra o perigo que a voracidade desse povo faz pesar sobre o futuro do mundo humano e não humano.
Convém dizer como o livro foi feito. As palavras são de Kopenawa, ditas em yanomami ao longo de mais de uma década de conversas, e Albert as traduziu e organizou em francês. Toda tradução é uma ponte, e toda ponte tem dono. Leio com essa ressalva.
São dois povos, duas línguas, duas histórias, e nenhuma delas é uma sabedoria indígena única que eu possa resumir. O que elas têm em comum, e o que a ciência da primeira metade deste tratado confirma por outro caminho, é a recusa em tratar o mundo vivo como paisagem diante de um espectador.
Fortaleza também teve a sua versão dessa recusa. O Parque do Cocó só foi regulamentado em 2017, cerca de quarenta anos depois das primeiras reivindicações, e um movimento ambientalista chamado SOS Cocó foi central para impedir que áreas de manguezal virassem projetos residenciais e comerciais. Boa parte do que ficou em pé ali é fruto de gente que falou em nome das árvores.
Trocar o substantivo por um verbo muda o que a gente se permite fazer com o que descreve.
IX
Recurso ou Meio?
Sobre uma palavra do português que guarda a tese
O português guarda, numa palavra, a tese deste texto. Meio é o que fica no centro, é o que está entre, é o ambiente em que se vive e é aquilo por meio de que se faz alguma coisa. Quando falamos de meio ambiente, dizemos sem notar que o que está ao redor também é aquilo em que estamos. Recurso é outra coisa: algo que se possui, que se tira, que se gasta.
A língua às vezes sabe mais do que quem a fala. Meio é metade, é centro, é ambiente e é instrumento. Quando uma cultura passa a tratar o ambiente só como instrumento, perde as outras três acepções de uma vez e fica com a mais pobre.
No Brasil, o manguezal é Área de Preservação Permanente por causa dos serviços que presta, como segurar a costa, estocar carbono e abrigar espécies.
A diferença não é só de vocabulário. Um recurso eu posso ter ou não ter, e se acabar eu procuro outro. Um meio eu não posso largar. Eu não tenho o ar, a água, a terra fértil nem a flora de bactérias que me habita. Estou neles, e eles estão em mim, como os capítulos anteriores mostraram em números. Tratar o meio como recurso é tratar o chão da própria casa como mercadoria que um dia se vende.
O próprio parque mostra o que acontece quando o meio vira recurso. Um levantamento do jornal O Povo, a partir do plano de manejo, lista pressões sobre o Cocó: esgoto sem tratamento lançado dentro do parque e direto no rio, churrasco dentro da área, pisoteio da vegetação e de ninhos em áreas sensíveis.
São pressões pequenas, ou parecem. Quase sempre o esgoto não é lançado por maldade, e sim porque, para quem lança, o rio é o lugar onde as coisas somem. Essa é a lógica do recurso. O rio, porém, é o meio por onde a água passa para o mangue, do mangue para a lagoa e da lagoa para o pássaro que bebe. Nada some. Tudo muda de lugar, em geral para o lugar de alguém.
Isso não quer dizer que usar a natureza seja pecado. Eu como, bebo, respiro e me abrigo com o que ela me dá, e este texto foi escrito num computador que veio de minas e de fábricas. A pergunta não é se usamos, e sim se lembramos de que estamos dentro do que usamos. Kimmerer chama de honrada a colheita que lembra disso: toma só o que precisa e devolve algo.
Há uma esperança nos dados do próprio parque. O manguezal voltou depois das salinas, quando foi deixado em paz. A regeneração mostra que o meio, quando deixado de pé, tem uma capacidade de se refazer que nenhum recurso tem.
Recurso a gente tem e gasta; meio a gente é, e o que se faz a ele se faz a nós.
X
As Objeções
Sobre o que a tese precisa aguentar
Uma tese sobre a natureza que só tem elogios para ela não é tese, é folheto. Há cinco objeções sérias.
A primeira: a natureza também mata. É verdade. O mesmo ecossistema que me compõe tem parasitas, vírus, predadores e tempestades, e quem diz que o corpo é um abraço da natureza precisa lembrar que alguns abraços apertam demais. Daí vem a distinção que este texto faz: harmonizar-se não é supor que a natureza seja boa. É prestar atenção aos termos em que ela funciona, para viver dentro deles com inteligência. Vacinas, antibióticos e saneamento são maneiras humanas, e bem-vindas, de negociar com o meio, e nenhuma contradiz a tese.
A segunda: natural não é sinônimo de bom. Existem plantas e cogumelos totalmente naturais que matam, e existem processos totalmente artificiais que salvam. A tese não se apoia na palavra natural como argumento moral. Apoia-se num fato de descrição: a matéria e os ritmos de que sou feito vêm de um sistema maior, e esse fato obriga a uma pergunta de responsabilidade, não a um elogio ao que é espontâneo.
A terceira: o que é prova e o que é crença. Falar da natureza com reverência abre a porta para afirmações sem apoio, e é fácil escorregar. Por isso este texto tentou dizer, em cada ponto, o que a ciência confirma e o que não confirma. A ligação entre o ciclo menstrual e a lua, por exemplo, tem um estudo pequeno a favor e controvérsia em volta, e foi apresentada assim. O que é crença eu chamo de crença, e uma reverência que precisa de uma mentira para ficar de pé não vale a reverência.
A quarta: isso é romantizar o passado. Uma pessoa que mora em cidade grande, que depende de energia, de hospital e de internet, lê um tratado desses com razão desconfiada. Escrevo dentro dessa cidade. O parque que descrevo fica numa capital, apertado entre avenidas, e a sua sobrevivência foi decidida por leis, decretos, planos de manejo e um movimento organizado. Voltar à floresta não é a proposta. A proposta é saber onde, na cidade, a floresta continua dentro de nós, e proteger isso com os instrumentos que a cidade tem.
A quinta vem de outro lado: a palavra administrar, que vou usar no capítulo seguinte, não coloca de novo o humano no centro, como gerente da natureza? É uma boa desconfiança. A resposta que tenho é que o humano administra primeiro o que lhe cabe, o próprio corpo e os próprios hábitos, e só depois, e com humildade, o que está em volta. É um gestor sem poder sobre o sistema, que apenas presta contas dele.
Viver em harmonia com o que nos compõe pede atenção ao funcionamento dele, e dispensa a ilusão de que ele nos queira bem.
XI
O Ecossistema Que Somos
Sobre administrar o que nos foi emprestado em forma de corpo
A palavra administrar tem má fama: soa a patrão, a planilha, a controle. Aqui ela quer dizer outra coisa, e para dizê-la preciso voltar ao que os capítulos mostraram. Se o corpo é um arranjo de água, de trilhões de bactérias, de mitocôndrias, de cristais, de ciclos de sono e de lua, então quem vive nele não é o dono. É o gestor de um território que não inventou.
Um gestor de território tem tarefas simples de enunciar. Conhecer o que habita ali. Respeitar os ritmos. Não tirar mais do que o sistema repõe. E, sobretudo, devolver. O corpo permite praticar isso todo dia, em escala pequena. A luz que deixamos acesa à noite e a luz do dia em que saímos de casa são recados para o relógio de que falamos. O sono que damos ou tiramos é a maré que respeitamos ou rompemos. A comida que escolhemos alimenta, junto com a gente, os trilhões de vizinhos que nos habitam.
Não vou receitar nada. Não sou médico, e a ciência dos micróbios do intestino e a do sono ainda estão se escrevendo. O que cabe a um texto como este é só uma postura: tratar o corpo como um ecossistema com o qual se negocia, e não como uma máquina que se conserta quando quebra.
O parque também tem gente. Comunidades tradicionais vivem do manguezal, pela pesca artesanal e pela coleta de frutos. Administrar o território inclui lembrar que ele já é morada, e que quem mora ali conhece o que a cidade esqueceu.
O mesmo vale para fora. Quem caminha num parque como o Cocó administra, durante as horas da trilha, um pedaço do ecossistema que também é o seu: ficar nos caminhos, não pisar nos ninhos, não deixar lixo, respeitar o que a regra do parque pede. Parece pouco, e é o que um gestor faz: cumprir as regras que protegem o que não se pode repor.
Penso no meu filho quando escrevo isto, porque foi com ele que fui, e porque o parque que ele vai encontrar daqui a trinta anos depende do que a gente decidir cuidar agora. A natureza não precisa de nós para existir. Nós é que precisamos dela para continuar, e o mínimo que uma geração pode fazer é entregar à seguinte um território com menos buracos.
Uma prática simples, sem promessa de saúde: de vez em quando, olhar de verdade para um ser que não é gente. Uma árvore, um sagui, um inseto na janela. Não para tirar nada dele, só para lembrar que a atenção é a primeira forma de respeito.
Administrar, então, não é mandar. É prestar contas. A quem? Não a um fiscal, e sim ao meio que me compõe e que, no fim, vai receber de volta tudo o que usei.
O corpo é território emprestado, e a conta final é devolvê-lo.
XII
Síntese: E Se o Corpo For a Primeira Terra?
Sobre o que recebemos e o que devolvemos
Juntemos o caminho. Primeiro, que a água e os átomos que me compõem passam por mim e já passaram por outros. Segundo, que o corpo é um arranjo de muitas partes, de bactérias a cristais, e que até as usinas das minhas células já foram vida independente. Terceiro, que cada ser tem um ofício e que o ofício menor, o da minhoca e o do plâncton, sustenta o maior. Quarto, que os ritmos do meu corpo, o do sono e talvez outros, foram afinados por um planeta que gira. Quinto, que o ambiente que me cerca é o meio em que estou, e não um recurso que tenho.
Os fatos dizem, sem precisar de imagem nenhuma, que o que hoje é meu amanhã será de outros, e foi de outros antes. Quem quiser levar um número de cada capítulo pode levar estes: até sessenta por cento de água no corpo adulto, quase um para um entre bactérias e células humanas, cerca de dois terços de mineral no osso, cerca de metade do oxigênio vindo do mar, um relógio de vinte e quatro horas, e vinte e duas mulheres no estudo da lua, com todos os limites que isso impõe.
Agora a pergunta do título. E se o corpo for a primeira terra que recebemos e a última que devolvemos? Recebemos um território feito de água, de minerais e de companhia microbiana, que a natureza vinha preparando muito antes de nós. Devolvemos o mesmo território, mais gasto ou mais cuidado, para ser de outros. A vida inteira cabe entre esses dois gestos, e a trilha que percorri com meu filho tem lições dos dois.
Na trilha, os saguis seguiram pelo alto enquanto eu parava. Entendo agora que não foi indiferença. Eles faziam a parte deles num sistema que não pede licença nem plateia e que me inclui sem perguntar. A pergunta que me cabe é a de sempre: qual vai ser a minha parte?
Por isso a pergunta do título não tem resposta definitiva. A conta de natureza de cada um se fecha quando o corpo, enfim, devolve o que recebeu. Até lá, o que cabe é escolher, a cada dia, entre gastar o território e cuidar dele.
Se isso for verdade, o contrário de consumir a natureza não é adorá-la. É corresponder ao abraço: saber que estamos dentro de uma coisa maior, que nos segura sem pedir nada, e fazer do nosso tempo de corpo um tempo de cuidado. É uma prática pequena e repetida, como quase tudo o que sustenta a vida.
Os saguis seguem pelo alto.
A lagoa guarda os pássaros.
Na lama do mangue, uma raiz segura a outra.
A água que me atravessa já foi folha.
O ar que respiro, alguém fez de luz.
Sou uma parte que anda
dentro de um abraço.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a meu filho, companheiro de trilha, e a quem caminha com atenção.
Ainda aprendendo a caminhar devagar, Santos Moisés.
Este escrito faz parte de
Este escrito lhe fez companhia?