Tratado · Empatia · Escrito CLXVI
E Se o Final For uma Conta de Empatia?
Do banco do jardim ao quarto dos panos pintados: se a vida fosse creditada só pelos pequenos gestos de atenção ao outro, o que sobraria na conta, e por que é disso que os outros se lembram
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Aba I
Abertura e I e II · O que passa de mão em mão
Aba II
III e IV · O que se guarda e como se aprende a guardar
Aba III
V e VI · O que não se desfaz
Aba IV
VII e VIII · A prova e a conta
O muro era alto, e o banco do jardim da frente ficava do lado de dentro dele, onde a rua não chegava. Ela já esperava com a garrafa de café. Servia primeiro. Depois queria saber como tinha sido a semana, e escutava até o fim, sem pressa de chegar ao assunto dela.
Só então se levantava e ia até o quarto ao lado do banco, separado da casa. A porta era de persianas, pesada, e arrastava no chão ao abrir. Lá dentro, toalhas dobradas, redes penduradas, panos de prato empilhados. Era a lojinha dela.
I
O Que Muda de Mãos
Sobre o inventário que a morte faz e o que ele deixa de fora
Toda vida termina em inventário. O que estava no nome de alguém passa para o nome de outros: o terreno, o carro, o saldo, os móveis, o que couber numa lista. Uma toalha pintada vai para quem a ganhou, uma rede vai para quem a comprou, um pano de prato vai para uma cozinha e fica lá até virar trapo. As coisas têm essa franqueza. Ninguém espera que durem mais do que servem.
O mesmo vale para o que parecia mais firme. Cargo passa para outra cabeça, e a cadeira esquece quem sentou nela. Prêmio vira enfeite de prateleira. Um currículo que em vida parecia o resumo de alguém, num velório cabe em uma frase dita em voz baixa, e ninguém repete essa frase na mesa do café da semana seguinte. Basta olhar quanto dura, nos negócios e nas instituições, aquilo que um dia pareceu sólido.
Este texto parte de uma hipótese simples e talvez incômoda. Se no fim fosse preciso prestar contas, a moeda aceita seria outra: os pequenos gestos em que alguém, de caso pensado, põe a atenção no outro antes de pôr no próprio assunto. Vou chamar isso de gesto de empatia. A palavra leva pancada de gente séria, e ela será examinada mais adiante. Por ora basta o exemplo com que abri estas páginas: servir o café, perguntar pela semana, escutar até o fim e só depois mostrar o que se fez.
A palavra conta, no título, guarda dois sentidos que o português mantém juntos: o que se calcula e o que se narra. Prestar contas e contar uma história vêm do mesmo verbo. A hipótese aposta que, no fim, as duas operações coincidem, e que a conta que se presta é a história que os outros contam de nós.
A hipótese precisa de argumentos, não de comoção. Vou montá-la em cinco passos. O que se perde quando tudo muda de mãos. Onde fica guardado o resto. O que a memória escolhe guardar. Por que o gesto é pequeno, e por que a repetição o torna casa. E por que, mesmo pequeno, ele não se desfaz. Depois vêm as objeções, que merecem mais do que um aceno, e só então a pergunta do título.
A moeda do fim talvez seja a atenção posta no outro antes do próprio assunto.
II
Onde o Resto Fica Guardado
Sobre a memória que mora em quem conta
Quando ela entra numa conversa em casa, entra por um caminho conhecido: o banco, a garrafa, a pergunta sobre a semana, o neto que ficava com ela quando viajávamos. Ninguém começa pelo valor de uma toalha. A lembrança dela circula pelos gestos, em voz alta, de uma boca para outra, com as pequenas discordâncias de quem estava lá.
O sociólogo francês Maurice Halbwachs passou a vida defendendo que lembrar nunca é um ato solitário. Em Os quadros sociais da memória, de 1925, ele mostra que as lembranças de cada pessoa se apoiam nos grupos em que ela vive, a família à frente, e que toda memória individual é um ponto de vista sobre a memória do grupo. Eu lembro dela de um lugar, meu filho a lembra de outro, e as duas lembranças se completam quando se encontram na mesma conversa.
A ideia tem uma consequência que pesa a favor da hipótese. Se o que resta de alguém está guardado nos outros, o que importa saber é o que os outros guardam. O inventário de bens interessa ao cartório. O que a mesa repete segue outro caminho, e é esse o caminho que este texto quer seguir.
Há mais. Para Halbwachs, lembrar é um trabalho de reconstrução, refeito cada vez que alguém conta. Isso quer dizer que a conversa de família funciona como um arquivo que se atualiza sozinho, e que o que se refaz mais vezes é o que pareceu valer a pena refazer. A pergunta, então, deixa de ser o que ela deixou e passa a ser o que a mesa decidiu continuar contando.
Pesa também contra a hipótese, e o peso volta no capítulo VI: Halbwachs sustenta que uma lembrança dura tanto quanto dura o grupo que a carrega. Por enquanto fiquemos com o mais simples. A pessoa continua onde alguém a conta.
Os bens ficam com o cartório; a mesa guarda o que decide repetir.
III
A Ordem do Encontro
Sobre ser escutado antes de ser mostrado
Primeiro o café. Depois a semana. Só no fim, o trabalho dela. A ordem parece detalhe de quem conta, mas era o argumento inteiro do encontro. A lojinha era dela, e o que havia ali dentro era o seu ofício. Tinha todas as razões para começar pelo que tinha feito. Começava por nós. A pessoa vinha antes da obra.
Um gesto vale pelo que custa. O café custava pouco, a escuta custava tempo, e o tempo, para quem trabalha com as mãos, é matéria-prima: cada minuto gasto na pergunta sobre a semana era um minuto que não estava indo para uma toalha ou uma rede. Havia uma economia pequena em jogo, e a ordem que ela escolheu decidia a favor de quem chegava.
Quem chega a uma lojinha cheia de peças prontas pode ser tratado como freguês ou como gente. Servir o café antes de qualquer peça dizia, sem palavra nenhuma, que a visita não era plateia nem freguesia. Era a razão de a tarde existir. Um gesto assim comunica o lugar que damos ao outro, e comunica antes de qualquer conversa, por isso é lembrado com tanta nitidez.
Escutar até o fim tem uma dificuldade que só percebe quem tenta. Quando ouvimos já esperando a nossa vez de falar, a pessoa sente, e conta o resto pela metade. Uma semana contada pela metade ensina a contar a seguinte do mesmo jeito. A escuta inteira ensina o contrário: o que se vive merece ser dito do começo ao fim, e há alguém disposto a ouvir.
A pesquisa mais longa que se fez sobre o valor disso é a de Harvard, que acompanha desde 1938 dois grupos de rapazes de Boston, estudantes da universidade e jovens de bairros pobres, e hoje inclui também os filhos deles. O diretor atual, Robert Waldinger, resume o achado em uma linha: boas relações nos deixam mais felizes e mais saudáveis. Os que estavam mais satisfeitos com as suas relações aos cinquenta anos eram os mais saudáveis aos oitenta.
É preciso dizer o que esse estudo não mostra. Ele mede vidas, não lembranças: diz o que as relações fazem por quem está vivo, não o que os outros guardarão de nós depois. A amostra, além disso, é de homens de uma cidade e de uma época. Para a hipótese, o estudo serve de apoio, não de prova. A prova de que dispomos é mais modesta e mais próxima: o que a minha família conta, e em que ordem conta.
Quando a conversa a traz de volta, o banco e o café aparecem sem esforço. A peça mostrada vem depois na lembrança, como vinha depois na tarde. É possível que a memória guarde, mais do que os objetos, a ordem em que fomos tratados.
Escutar custava tempo, e o tempo era o que ela tinha para vender.
IV
O Pequeno e o Repetido
Sobre o rito que não espera o humor
Há uma discussão antiga na China sobre de onde vem a bondade. No século IV a.C., Mêncio propõe um exercício: imagine alguém que vê de repente uma criança prestes a cair num poço. A pessoa sente susto e compaixão, e não é para agradar os pais da criança nem por incômodo com o choro. Dali ele tira que todos temos um broto de humanidade, e que a educação pode regá-lo.
No século seguinte, Xunzi discorda com dureza. Para ele, a natureza humana tende ao proveito próprio, e a bondade é obra de artifício, de prática deliberada. O ritual e a retidão, escreve, nascem do trabalho de quem os fez, como um oleiro molda um pote ou um entalhador faz uma ferramenta. E o ritual tem uma função precisa: dar vazão aos desejos de cada um sem atropelar os dos outros.
O café do banco não se parece com o poço. O poço é um instante, e o instante não escolhe: o susto vem ou não vem. O banco era uma tarde repetida, e a repetição não depende de ânimo. A garrafa estava ali nas tardes cansadas também. Aqui Xunzi parece ter razão contra o otimismo fácil: o gesto que sustenta uma casa é o que se decide de novo a cada vez.
Mêncio, porém, ainda tem algo a dizer. Sem o broto, ninguém regaria nada. A hipótese fica com os dois: há um primeiro movimento, que talvez seja natural, e há o rito, que o faz virar costume de casa. Nenhum dos dois falava em empatia, palavra muito mais recente. O que descrevem é o que o texto chama de gesto: atenção ao outro, primeiro como impulso, depois como prática.
Releia a ordem do encontro com o olhar de Xunzi. O desejo dela de mostrar o que tinha feito era real e legítimo, era o trabalho dela. O rito de servir primeiro ordenava esse desejo sem sufocá-lo. Ela mostrava, mas depois. A vontade de ser vista esperava a vez de quem chegava.
Falta justificar a palavra pequeno. Pequeno, aqui, não quer dizer menor. Uma vida de setenta anos tem pouco mais de três mil e seiscentos domingos, e muito poucas pessoas decidem uma guerra, um orçamento ou o destino de uma empresa. Quase todas, em compensação, decidem todos os dias como recebem quem chega. A escala em que a vida acontece é a das tardes, das mesas e dos portões. Uma hipótese sobre o que conta numa vida precisa funcionar nessa escala, a de todo mundo, e não só na dos poucos que têm palco.
O que sustenta uma casa costuma ser decidido outra vez a cada semana.
V
Ter Sido É para Sempre
Sobre o que o tempo desfaz e o que ele não alcança
O pano de prato foi feito para acabar. Ele seca a louça, leva gordura, passa pela água, perde a cor da pintura nas bordas, e um dia vira trapo de chão. Ninguém chora por isso, e tem razão: é o fim honesto de um objeto de uso. O pano acaba. Ter sido dado, não.
O filósofo francês Vladimir Jankélévitch, que escreveu longamente sobre a morte e o tempo, separa duas coisas que costumamos misturar. O irreversível é o que o tempo não deixa voltar: o café esfriou, a tarde passou, ninguém volta ao domingo anterior. O irrevogável é outra coisa. É o fato de que aquilo aconteceu, e esse fato, uma vez ocorrido, nenhuma hora seguinte consegue desmanchar.
É por aí que a hipótese escapa de uma objeção fácil, a de que tudo vira poeira. Vira, as coisas viram. Só que o gesto, uma vez feito, deixa de ser coisa e passa a ser fato. O café foi servido naquele banco, naquelas tardes, e isso ficou assentado no que já aconteceu, onde nem a morte dela chega. Os que ela recebeu foram recebidos, e nada que venha depois muda isso.
A frase de que tudo vira poeira costuma ser dita com tom de derrota, como se a poeira fosse o veredito. Convém lê-la devagar. Poeira é o destino das coisas, do granito ao pano. O que a hipótese afirma é que a conta final não se faz de coisas. Faz-se de fatos, e fato não envelhece como a matéria envelhece: não desbota, não rasga e não precisa de ninguém para continuar sendo verdade.
Jankélévitch não oferece consolo barato, e este texto também não pode. O irrevogável corta nos dois sentidos. A frase dura dita a alguém também ficou dita para sempre, e a visita que não foi recebida também não foi recebida. A conta final de que falo tem coluna de crédito e coluna de débito, e nenhuma das duas se apaga com o tempo.
Essa simetria dá peso à hipótese em vez de tirá-lo. Uma conta que só registrasse o bem seria propaganda. Uma que registra os dois lados obriga cada tarde a ser levada a sério, porque cada tarde entra, de um lado ou do outro, para sempre.
O pano se gasta, mas o ter sido dado já não depende de pano nenhum.
VI
Quando Ninguém Mais Lembra
Sobre a mão que fica no objeto e o gesto que segue sem nome
Chegamos ao ponto mais duro. Halbwachs avisa que a lembrança dura enquanto dura o grupo que a sustenta. Quando morrer o último de nós que se sentou naquele banco, a lembrança do café morre junto. Se a hipótese dependesse de ser lembrado, teria prazo de validade, e o prazo seria curto.
Há três respostas, e nenhuma é consolo. A primeira separa duas coisas: ser lembrado e ter agido. A hipótese não diz que o crédito depende da lembrança. Diz que a lembrança é o lugar onde o crédito costuma aparecer enquanto houver alguém para ver. Quando a lembrança acaba, o ter sido continua sendo, no sentido do capítulo anterior.
A segunda resposta é que o gesto deixa marca no que passa adiante. Walter Benjamin, ao escrever sobre quem conta histórias, diz que o traço do narrador permanece na narrativa "como a mão do oleiro na argila do vaso". O pano de prato pintado também carrega uma mão. Alguém, em alguma cozinha que nunca ouviu falar dela, vai secar um prato com um pano de crochê e tinta, usando o trabalho de uma pessoa sem saber de quem. É a forma mais anônima de permanecer, e talvez a mais comum.
A terceira é uma observação mais do que uma resposta. Há o que passa de uma pessoa a outra sem etiqueta. Quem foi recebido de um certo jeito aprende a receber desse jeito, e o aprendizado atravessa gerações sem levar o nome de quem ensinou. O que ela fez com a nossa chegada passou para o modo como recebemos, e esse modo vai chegar a pessoas que nunca a conheceram.
No Brasil, quem levou a sério as coisas e os gestos do dia a dia foi Câmara Cascudo, que escreveu um livro inteiro sobre a rede de dormir e outro com o título de História dos Nossos Gestos. A rede é de origem indígena e aparece já nos relatos dos primeiros viajantes que descreveram a terra. A rede estava na lojinha dela, entre as toalhas e os panos, e é o contrário do pano: foi feita para segurar um corpo, não para acabar numa cozinha. Nas duas peças vale o princípio que leio em Cascudo, o de que o que é comum tem história e merece ser contado.
Quem seca um prato com pano pintado à mão usa o trabalho de alguém sem saber de quem.
VII
As Objeções
Sobre o que a hipótese precisa aguentar
Uma hipótese que só escuta quem concorda não fundamenta nada. Há três objeções a examinar, e cada uma tem gente séria por trás.
A primeira vem do psicólogo Paul Bloom, de Yale, no livro Against Empathy, de 2016. Bloom entende por empatia o ato de sentir o que o outro sente, e diz que ela funciona como um holofote: ilumina uma pessoa por vez, favorece quem se parece conosco e não sabe contar. Ele separa isso da compaixão e da bondade, que defende. Tem razão em parte, e a parte importa aqui. Os gestos dela tinham um holofote pequeno, a família. O café do banco não alimentou a rua, e este texto não pretende que o gesto faça o trabalho da justiça.
Por isso é preciso dizer o que a palavra quer dizer aqui. Gesto de empatia, neste texto, é a ação pequena de quem põe a atenção no outro antes de pôr no próprio assunto. Não depende de sentir a dor alheia. O que Bloom chama de compaixão e de bondade cabe nessa definição, e é o que a hipótese sustenta. Resta a resposta de Xunzi: o círculo pequeno é onde se treina o olhar que um dia poderá alcançar o círculo grande. Quem nunca escutou a semana de um filho até o fim dificilmente escutará a de um estranho.
A segunda objeção é que a memória dos mortos é retocada pelo luto. Lembramos mais do que foi bom e menos do que foi áspero, e o retrato que sobra pode ser mais gentil do que a pessoa foi. É verdade, e vale para qualquer pessoa, a minha mãe incluída. Só que o retoque também é dado. Um grupo que escolhe lembrar alguém pelo banco e pelo café está dizendo o que considera digno de ficar. A hipótese continua de pé, com a humildade de quem sabe que o crédito é lido por testemunhas parciais.
A terceira é a mais delicada, e nasceu do próprio quarto. Aquele quarto era uma lojinha. O pano de prato que se vendia e o que se dava saíam das mesmas mãos, e por isso é fácil desconfiar do gesto: seria afeto ou seria negócio? A pergunta supõe que as duas coisas se excluem. Marcel Mauss, no Ensaio sobre a dádiva, publicado entre 1923 e 1925, argumentou que dar, receber e retribuir é uma obrigação básica das sociedades humanas, e que recusar um presente equivale a recusar o vínculo. Mercadoria e dádiva são, nessa leitura, duas economias vizinhas, e o mesmo objeto atravessa de uma para a outra. Do nosso lado do banco, receber o café e o pano era parte do gesto, porque a dádiva só se completa quando alguém aceita.
O sociólogo Richard Sennett, em O Artífice, descreve o ofício como o desejo de fazer bem uma tarefa por ela mesma. Se a atenção de quem faz fosse medida pelo destino da peça, haveria um pano bom para dar e outro pior para vender. Pela lógica de Sennett, a atenção do artífice está na tarefa, e o destino da peça pesa menos do que o cuidado com ela. Quanto a lojinha rendia fica fora destas páginas, de propósito: a conta aqui é outra.
Resta um risco de uso, que não chega a ser objeção: transformar a hipótese em cobrança. Quem cuida de todo mundo e não tem hora para o próprio descanso não ganha crédito extra por isso, e quem não pôde servir o café primeiro porque trabalhava duas jornadas não perde o seu. A conta de que falo não mede sacrifício. Mede atenção, e atenção cabe em um minuto.
As três objeções deixam a hipótese menor e mais firme. Ela não promete justiça, não promete retrato fiel e não separa afeto de ofício. Promete só isto: o que os outros guardam de nós vem, em boa parte, de como fomos com eles nas coisas pequenas.
Hipótese que não escuta objeção vira só opinião.
VIII
Síntese: E Se a Conta For Só Essa?
Sobre a pergunta que cabe numa tarde de domingo
Juntemos o que foi dito. Primeiro, que quase tudo o que acumulamos muda de mãos. Segundo, que o que resta de alguém vive em quem o conta. Terceiro, que os outros guardam, de um modo que a pesquisa só alcança de longe e que o testemunho mostra de perto, a ordem em que foram tratados. Quarto, que o gesto é pequeno porque a vida se passa em tardes e não em épocas, e que a repetição é o que faz dele casa. Quinto, que o que foi feito não deixa de ter sido, para o bem e para o mal.
Agora a pergunta do título. Imagine a auditoria final feita com uma única régua. Ela não perguntaria o que construímos, nem quanto, nem com que cargo. Perguntaria quem foi servido primeiro, quem foi escutado até o fim, a quem mostramos o que tínhamos feito sem exigir que olhassem. Muita coisa que parecia importante sairia da planilha. Não por ser inútil, mas porque a sua utilidade não conta nessa moeda.
A hipótese não manda abandonar as obras grandes. Quem constrói pontes, empresas e instituições continua a construí-las, e elas continuam a servir. Pede só que a conta final se faça em outra moeda, e que se admita desde já que a moeda é gasta e ganha em tardes comuns, com as pessoas que chegam sem aviso e se sentam sem nada para mostrar.
Por isso a pergunta é de agora, não do fim. Cada semana tem a sua versão do banco do jardim, e resta decidir, a cada vez, o que vem primeiro: o café ou o nosso assunto. Se o final for uma conta de empatia, ela está sendo escrita agora, uma tarde de cada vez.
O café vinha primeiro.
Depois a pergunta sobre a semana.
Só no fim, o trabalho dela.
O pano acaba, a rede se gasta.
O banco, a garrafa, o ter sido
não cabem no inventário.
Quem chega hoje a uma tarde qualquer
ainda escolhe o que vem primeiro.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem serve o café primeiro, minha mãe antes de todos, e a quem escuta antes de mostrar.
Ainda aprendendo a servir primeiro, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?