Ensaio · Espera · Escrito CLXV

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Dois cachorros dormem num escritório à espera de três palavras: o que a espera de quem não pode apressar a hora diz sobre presença, esperança e o que não sabemos do outro

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Aba I

Abertura e I a III · O plantão: Bob, Betty e a comitiva

Aba II

IV a VI · A espera: o que chega, o que a língua sabe e quem esperou anos

Aba III

VII a IX · A palavra: vamos passear

Aba IV

X a XII · O que eles sabem: os dez, a Vanusa e o leão que falasse

Aba V

XIII e XIV · A próxima notícia

Às nove e dez da manhã, o único som novo do escritório é o meu pigarro. A Betty abre um olho, avalia e fecha. O Bob nem isso: ouve de dentro do sono, classifica como ruído de dono e continua. Passam-se quarenta minutos de cadeira que range, copo posto na mesa, telefone que vibra, e eles recebem cada um desses sons com o cuidado de quem lê a manchete do dia e decide que não é a que esperava.

Escrevo este texto com os dois aos meus pés, de plantão. Sei qual é a notícia que eles aguardam, e eles sabem que eu sei. São três palavras, e só às vezes chegam: vamos passear.

I

A Cama do Bob

Sobre o cachorro que tem um país e só sai dele em companhia

O Bob tem nove anos e uma cama. A palavra certa seria território, mas a cama é pequena, e o que ele faz com ela é maior do que ocupar espaço: é a embaixada dele no escritório. Dali ele recebe o que acontece, e o que acontece fora dela chega em segunda mão, pelo ouvido e pelo nariz, com atraso suficiente para não precisar ser levado a sério.

A varanda da casa tem jardim, vento e luz, e é onde qualquer cachorro iria se pudesse escolher. O Bob só vai se alguém for junto. Não é medo, que eu saiba. É uma política: ele aceita o mundo com a condição de que o mundo venha acompanhado.

Esperar, no caso dele, é um estado quase arquitetônico. Não há inquietação nem olho na porta. Há um corpo que se organizou em torno de ficar e que, quando a notícia chega, precisa se levantar de uma só vez, como quem decide desmontar uma embaixada para ir ao jardim. Já o vi demorar meio minuto para convencer as próprias pernas. A euforia dele tem cerimônia.

II

A Que Late para Tudo

Sobre a diferença entre esperar e noticiar

A Betty tem quatro anos e uma convicção: tudo o que acontece merece um comunicado. Passos no corredor, um portão distante, uma folha que mudou de lugar na varanda, o entregador, o vento. Cada coisa vira uma nota oficial, em tom de plantão extraordinário. Se o Bob é a embaixada, ela é a assessoria de imprensa.

Convivi tempo suficiente com a rotina dela para perceber que o latido não é só ansiedade. É trabalho. Ela confere o mundo em voz alta, e o mundo, em geral, responde ficando quieto, o que ela interpreta como missão cumprida. A cada latido a casa reorganiza a sua noção de perigo e quase sempre conclui que não era nada. Ela, mesmo assim, avisa de novo. Alguém tem de avisar.

Entre os dois aparece uma diferença que me interessa. O Bob espera recebendo. A Betty espera noticiando. Um guarda a prontidão por dentro, a outra a gasta por fora, e nenhum dos dois, olhando de perto, está desocupado.

III

A Comitiva

Sobre seguir uma gata como quem segue uma boiada

Quando a gatinha está em casa, a rotina dos dois muda de assunto. Ela levanta do sofá, e eles levantam. Ela atravessa a sala, e eles atravessam. Ela vai beber água, e a comitiva toda descobre que também tem sede. Eu a chamo de Miss Coreau, e a cada deslocamento dela os dois dão uma coletiva de imprensa.

No Pantanal, comitiva é o grupo de peões que conduz uma boiada por semanas: o ponteiro que vai à frente, os que cercam os lados, os que fecham a retaguarda e recolhem os desgarrados, o cozinheiro que segue adiante preparando a comida. A palavra me veio sozinha, e a imagem se completou: uma gata de tamanho médio puxando, sem esforço e sem convite, uma boiada de duas cabeças. Não sei quem é o culatreiro. Desconfio que muda conforme o humor da gata.

A Miss Coreau não pediu a comitiva e a recebe como quem recebe o clima. Isso me ensina um pouco: há presença que não precisa de reconhecimento. Os dois não seguem a gata para serem vistos por ela. Seguem porque, na ausência da grande notícia, sempre existe uma pequena a acompanhar, e acompanhar é um modo de não ficar em branco. A espera tem substitutos, e os substitutos também são vida.

Na falta da grande notícia, há sempre uma pequena para acompanhar.

IV

O Que Chega como Notícia

Sobre classificar sons e esperar o único que importa

Meu escritório é uma agência de notícias que só publica ruídos. A cadeira que range quando mudo de posição é nota de rodapé. O telefone que vibra é um boletim que não lhes diz respeito. O copo posto na mesa, a porta de outro apartamento, o elevador que para num andar qualquer: eles recebem cada um, classificam e arquivam sem levantar a cabeça. Aprenderam a taxonomia dos meus barulhos melhor do que eu.

O que me intriga é o critério. Em algum lugar entre o ouvido e o resto do corpo há um filtro que separa o que é meu do que é notícia, e esse filtro não erra, ou erra tão pouco que eu nunca vi. Não sei dizer o que, antes de a frase vir, avisa que ela vem. Desconfio que seja a hora. Perto das cinco o plantão engrossa: um olho que se abre a mais, uma orelha que fica no ar um segundo além do necessário. Não é prova, é impressão de quem trabalha sentado ao lado deles.

O falso alarme também ensina: afina o ouvido para o som que ainda não veio.

Quem espera bem aprende a ouvir o que não é. Cada falso alarme refina a escuta, e a escuta refinada é uma forma de atenção. Os dois passam o dia inteiro treinando o ouvido para um som que ainda não aconteceu, e eu, que me julgo atento, perco o telefone na mesa quando ele vibra a vinte centímetros da minha mão.

V

Esperar, em Português

Sobre uma palavra que guarda a espera, a esperança e o corpo

O português tem um verbo que o inglês dividiria em três. Esperar é aguardar o ônibus, é ter esperança de que tudo dê certo e é, no sentido mais antigo do corpo, estar grávida: esperar um filho. As três coisas cabem na mesma palavra, e nenhum falante precisa de explicação para entender qual delas está sendo dita. A língua guardou, sem querer, uma tese.

Vem do latim sperare, que queria dizer ter esperança, e de spes, a própria esperança. Com o tempo o verbo passou a cobrir também o aguardar, como se os romanos já soubessem que não há como aguardar sem esperar um pouco. O espanhol manteve tudo junto, e as duas línguas fizeram o mesmo desvio: desesperar, em português, é deixar de esperar. Quem perde a esperança perde o tempo da espera, e o tempo da espera, por sua vez, é a esperança em ação.

A Betty esperou duas vezes, cinco filhotes de cada vez. Em casa nunca precisei de outra palavra: eu esperava os filhotes, ela esperava os filhotes, e ninguém duvidava de que havia ali uma espera com corpo, uma espera que cresce por dentro e que nenhum esforço apressa. A gestação de uma cadela dura cerca de dois meses, e nesses dois meses não há o que fazer para antecipar o dia. A ninhada vem quando vem. Quem espera, nesse caso, trabalha: gesta.

Há uma espera que cresce por dentro, e nenhum esforço a apressa.

Isso muda o jeito de olhar os dois cachorros no escritório. Nenhum deles está parado. Cada um espera na única acepção que a língua considera completa: com ouvido, com corpo e com um pouco de esperança.

VI

Os Que Esperaram Anos

Sobre Argos, Hachikō e a unidade em que se mede uma espera

A literatura e a história guardam dois cachorros famosos por esperar. O primeiro é o Argos, da Odisseia. Odisseu partiu para Troia e levou vinte anos para voltar, e o cachorro que ele criara ainda filhote e nunca chegou a levar para caçar ficou em Ítaca. Quando o herói chega disfarçado de mendigo, o único que o reconhece é o cão, deitado num monte de esterco, coberto de carrapatos. Argos baixa as orelhas, abana o rabo, não tem força para se levantar, e morre logo depois de rever o dono. O poeta o trata com uma delicadeza que sobrevive a mais de dois mil e setecentos anos.

O segundo é o Hachikō, um akita de Tóquio. Encontrava o professor Ueno na estação de Shibuya todos os fins de tarde, na hora do trem. Em maio de 1925 o professor morreu no trabalho, e o cachorro voltou à estação quase todos os dias, durante quase dez anos, no horário do trem, até morrer em 1935. Em 1934 ganhou uma estátua na própria estação, inaugurada na presença dele.

Os dois são lidos como símbolos de lealdade, e provavelmente são. Mas há duas coisas que a leitura de símbolo apaga. A primeira é que a espera de Argos acontece em abandono: ninguém cuidava do cachorro, e esperar, no caso dele, foi também sobreviver. A segunda é que o Hachikō voltava à estação na hora certa, o que mostra que o tempo de uma espera canina é um tempo que o cachorro mede, com um relógio que nenhum de nós conhece.

O Bob e a Betty esperam por horas, não por anos, dentro de uma casa onde ninguém é abandonado e onde a próxima notícia pode, sim, chegar. A unidade é outra. A estrutura é a mesma: um corpo que se coloca no lugar certo, na hora certa, sem garantia nenhuma de que a notícia venha.

Dizem que esperar é o que se faz enquanto a vida não começa. Os três cachorros dizem, cada um à sua maneira, outra coisa. Esperar não é tempo perdido. É presença sem poder agir.

VII

Vamos Passear

Sobre três palavras que mudam o corpo de quem escuta

A notícia é "vamos passear". Eu digo por volta das cinco, em alguns dias, e é preciso ver para acreditar o que acontece. Dois cachorros que a tarde inteira foram bichos de plantão viram de repente a mesma coisa: corpo, pernas, pressa, uma gritaria sem destino. Correm para um lado, voltam, passam um por baixo do outro, esbarram na parede, retomam a mesma ideia. Nenhum deles sabe o que fazer com a alegria que acabou de receber, e por isso a fazem circular por todos os cômodos.

A palavra muda tudo. O resto do passeio, a guia, a porta, o corredor, o elevador, a calçada, não existe ainda, e a alegria já é inteira. Como se a notícia fosse mais forte do que o fato. Como se o fato, quando vier, fosse só a confirmação oficial de uma festa que aconteceu antes, dentro do corpo, no instante em que as três palavras chegaram.

A festa acontece antes do passeio, no instante em que a frase chega.

Há um detalhe que me comove sem que eu saiba bem por quê: eles não têm certeza. Eu só digo a frase em alguns dias. Nos outros as cinco passam, e nada. Eles, que não conhecem a regra, esperam todos os dias como se fosse certo, e a espera de hoje não depende do que aconteceu ontem. Se tivessem memória de estatístico, teriam desistido faz tempo. Mantêm o plantão. Ninguém lhes explicou o contrato, e eles o honram.

VIII

O Que Se Sabe de uma Palavra

Sobre o vocabulário dos cachorros e o que nenhum teste mede

A ciência já mediu o vocabulário de cachorro. Em 2004 a revista Science publicou o caso do Rico, um border collie alemão que reconhecia pelo nome mais de duzentos objetos e que, diante de um objeto novo, escolhia aquele de nome desconhecido, por exclusão, como fazem as crianças aprendendo a falar. Em 2011, o psicólogo americano John Pilley e sua colega Alliston Reid relataram que a Chaser, outra border collie, conhecia 1.022 nomes de brinquedos e distinguia o nome do objeto da ação pedida. Os resultados têm críticos, e há quem discuta se aquilo se parece mesmo com o que as crianças fazem. Ainda assim, ninguém mais duvida de que um cachorro aprende palavras, e um estudo posterior mostrou que um cachorro de colo, um yorkshire, também as aprende.

O que me chamou a atenção foi o que esses estudos não perguntam. Todos medem substantivos: bola, sapo, meia. Ninguém mediu o que "passear" significa para um shih tzu às cinco da tarde. A palavra não é um objeto que se possa trazer. É um acontecimento, uma promessa, um futuro curto, e a ciência dos nomes ainda não tem instrumento para ela.

Sei apenas o que ela provoca, e isso me basta para uma suspeita: as palavras que mais importam para nós também funcionam como notícia e não como definição. "Aprovado", "amanhã", "pode entrar", "é benigno". Ninguém as entende como o Rico entende uma bola. Elas operam. Mudam o corpo de quem as ouve antes de mudarem o pensamento.

IX

Onde Está o Caminho

Sobre a euforia dos cachorros e o objetivo prosaico

Meu objetivo ao dizer "passear" é abrir uma porta. O objetivo deles, descontado o espetáculo, é outro: sair para fazer xixi lá fora. Nada de grande: uma bexiga, uma calçada, um poste. A euforia que enche a casa tem como destino uma necessidade fisiológica, e ninguém ali está disposto a fingir que é diferente.

Isso me fez lembrar de uma passagem do Zhuangzi, o livro do filósofo chinês que escrevia há mais de dois mil anos. Um homem pergunta ao mestre onde está o Dao, o caminho, e ele responde que está na formiga. O homem acha pouco e pergunta de novo, e o mestre diz que está nas ervas daninhas, depois no caco de telha e por fim, para escândalo do ouvinte, no excremento e na urina. Zhuangzi quer dizer que o sublime não mora num lugar separado do prosaico.

Os dois cachorros aplicam essa tese sem ter lido nada. A mesma alegria que um mestre buscaria numa montanha eles encontram num poste de esquina, e não há conflito. A grandeza do sentimento e a modéstia do objetivo coexistem, e a humanidade precisa de muita filosofia para tolerar isso. Nós exigimos propósitos grandes para justificar pequenas alegrias. Eles dispensam o propósito e ficam com a alegria.

Nós exigimos propósitos grandes para pequenas alegrias. Eles dispensam o propósito.

A lição escondida aí pede cuidado para não ser escrita de modo solene demais. Talvez seja só isto: a espera que termina num poste é tão legítima quanto a que termina num reencontro. O que a sustenta não é o tamanho do que vem, mas a atenção que se pôs no caminho.

X

Os Dez

Sobre duas ninhadas de cinco e as casas por onde elas se espalharam

A Betty teve dez filhotes, em duas gestações de cinco, do Bob. A casa viveu duas vezes aquele tempo em que cinco corpos minúsculos ocupam tudo, e esse tempo acabou duas vezes do jeito que acabam os tempos assim: um por um, cada filhote indo para uma casa, e a nossa voltando ao tamanho que tinha. Dos dez, a casa tem notícia regular de dois.

Digo isso com cuidado porque a história poderia virar outra coisa, uma elegia, e não é essa a que eu vi. Vi uma ninhada que se espalhou sem se romper. Duas das dez eram fêmeas, uma em cada gestação, e a última, a Frida, mora hoje na casa de amigos queridos. O mais crescido de todos, o Lion, foi morar na casa da Vanusa, que cuida da nossa há mais de dez anos. Em nenhum dos dois casos houve mudança de mundo. Houve mudança de endereço dentro de um mesmo círculo de gente.

O que o Bob e a Betty esperam hoje, além das cinco da tarde, eu não sei dizer.

XI

A Vanusa e o Lion

Sobre uma notícia que só o nariz atravessa

A Vanusa é de casa. A frase é minha e vale para o Bob e a Betty: quando ela chega, ninguém estranha, e a casa a recebe com a naturalidade com que recebe o café ou a luz. Cuida da nossa casa há mais de dez anos, o que a faz uma das passagens mais antigas daquela porta, mais antiga que o Bob e que a Betty.

O Lion mora com ela. Os pais dele nunca o reencontraram. A Vanusa, no entanto, chega com ele no corpo: na roupa, nas mãos, no que quer que um cachorro deixe em quem mora com ele. Se o Bob e a Betty leem a biografia do dia pelo nariz, existe a possibilidade de que a Vanusa traga, sem querer, uma notícia do filho, escrita num idioma que só os dois sabem ler.

Não sei se é assim. É o tipo de coisa que eu poderia observar com mais cuidado e que talvez nunca consiga: a diferença entre um cachorro que cheira uma visita e um cachorro que lê uma carta é invisível por fora. Desconfio que a pergunta seja mais minha do que deles. O que posso afirmar é pouco, e basta: eles nunca se reencontraram, e a Vanusa chega.

XII

O Leão Que Falasse

Sobre o que não se pode saber do outro e o que se sabe por estar ao lado

Ludwig Wittgenstein escreveu, nas Investigações filosóficas, uma frase que anda sozinha pelo mundo: se um leão falasse, não o entenderíamos. Ele não falava de animais. Falava de formas de vida: a de um leão é tão diferente da nossa que mesmo as palavras mais claras chegariam a nós sem o chão em que foram ditas. Pensei nela quando percebi que o filhote do Bob e da Betty se chama Lion.

É uma coincidência de nomes, e ela pesa mais do que deveria. Um Lion que não fala e que mora do outro lado da cidade. Dois pais que o conheciam e que nunca poderão me dizer o que sabem dele. Uma casa cheia de gente com opinião sobre o assunto, e nenhuma prova.

Há, porém, um texto mais antigo que responde de outro modo. Zhuangzi passeava com um amigo por uma ponte sobre o rio Hao, viu peixinhos nadando soltos e disse que aquela era a alegria dos peixes. O amigo, Huizi, perguntou como ele podia saber, já que não era peixe. Zhuangzi devolveu a pergunta: como você sabe que eu não sei, se você não é eu? E, quando o amigo insistiu, respondeu que sabia da alegria dos peixes de cima da ponte, com os pés na ponte, porque era a mesma tarde para ele e para os peixes.

Do outro eu sei o que posso saber de pé na ponte, na mesma tarde que ele.

É o que me serve. Eu não sei o que o Bob sabe do Lion. Mas sei da alegria dos dois às cinco da tarde, porque estou na ponte: estou no corredor, com a guia na mão, na mesma tarde que eles. O saber que se tem do outro por estar ao lado tem outra natureza do que o saber de laboratório, e talvez seja o único possível quando o outro é um animal, um filhote ou um amigo que mudou de cidade.

Não saber, aqui, não é frieza. É a posição de quem cuida sem exigir prova e de quem não escreve no cachorro um sentimento que só um humano saberia nomear. Se existe saudade no Bob, ela fala por canais que não são os meus. A única honestidade possível é continuar na ponte.

XIII

O Dia em que Não Há Passeio

Sobre esperar sem garantia, de manhã à noite

Há dias em que as cinco horas chegam e passam. Trabalho, o telefone toca, uma reunião se alonga, e eu me esqueço de dizer a frase. Não sei o que se passa na cabeça dos dois quando a hora vence. O que vejo é que, no dia seguinte, estão de plantão outra vez, com a mesma atenção para o mesmo ruído, como se o dia anterior não tivesse deixado nenhuma dívida.

A espera sem garantia é, quase sempre, a que nos cabe. Esperamos o resultado de um exame, a resposta de um cliente, o telefonema de um filho, o ônibus, um pedido de desculpa, o fim de uma obra. Na maior parte desses casos não há nada a fazer além de continuar. E a cultura em que vivemos aprendeu a tratar o intervalo como defeito, como tempo que precisa ser preenchido: abrimos o celular, abrimos outra aba, abrimos uma conversa qualquer. A nossa espera costuma ser uma espera ocupada, e só raramente é uma espera inteira.

Os dois cachorros esperam sem tela. Não há com que preencher o intervalo além do próprio intervalo, e eles aprenderam a morar nele. Ficam ali com o corpo inteiro, ouvido aberto, respiração lenta, sem a ilusão de estar aproveitando melhor o tempo. É o oposto do que chamamos de produtividade, e é difícil olhar para isso sem desconfiar de que eles sabem uma coisa que a gente esqueceu.

Quem já esperou num corredor de hospital uma notícia que não dependia de ninguém sabe do que falo. Não há o que fazer. Há ficar. E ficar, nessas horas, é tudo o que se pode dar. A presença sem poder agir não é ausência de ação: é a forma que a ação toma quando nenhuma outra existe.

XIV

A Notícia

Sobre a tarde em que as três palavras chegam

Às cinco, em alguns dias, eu fecho o computador. Basta isso, ou basta mais cedo, quando levanto da cadeira com certo propósito, e a casa percebe. A frase vem em seguida, e é menos uma frase do que um sinal: dois corpos que estavam de plantão viram dois corpos que correm. A Betty comunica ao prédio. O Bob, depois de meio minuto de cerimônia, aparece na porta do escritório com a dignidade de quem passou o dia se preparando para a própria saída.

A guia, a porta, o corredor, o elevador. Em algum ponto do caminho a euforia vira uma calma estranha, a de quem foi atendido. Do lado de fora, os dois cumprem o que vieram fazer, e eu, na ponta da guia, estou na mesma tarde que eles. É uma das raras horas do dia em que não preciso adivinhar nada.

Voltam para a cama, para o chão do escritório, para o sono que a caminhada produz. E, em algum momento depois do jantar, a respiração de ambos se organiza de novo no padrão do plantão. Não sei se dormem esperando ou esperam dormindo. Sei que amanhã, às nove e dez, o meu pigarro será recebido como a manchete de sempre, e que a notícia verdadeira pode vir ou não vir.

Em português, as duas coisas dão no mesmo verbo. Esperar, nesta casa, é o que se faz quando se tem esperança, e é o que se faz quando não há como apressar. Dois cachorros, uma gata, um filhote que mora em outra casa: a notícia é só a ponta visível de uma presença que nunca pediu licença para existir.

Dois cachorros dormem num escritório
à espera de três palavras.
Só às vezes elas chegam.

Esperar, em português, é também ter esperança.
É também gestar.
Não há tempo perdido em nenhuma das três.

Há um filhote que mora em outra casa
e uma pergunta que o cheiro não responde.

Às cinco, ou amanhã:
vamos passear.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem espera sem poder apressar a hora, e a quem espera ao lado.

Ainda aprendendo a esperar, Santos Moisés.

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Abertura e I a III · O plantão: Bob, Betty e a comitiva
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