Reflexão · Proximidade · Escrito CLXXVI
Alguma Novidade?
Uma pergunta feita antes do bom dia, o cansaço depois de um esforço que não bastou e a conversa que a ansiedade ocupa: o que fazer com o intervalo entre as batalhas
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Aba I
Abertura e I e II · O cansaço sem veredito e a batalha maior
Aba II
III e IV · A pergunta no lugar da conversa e o intervalo como caminho
Aba III
V a VII · A objeção honesta, o que uma etapa deixa e a conversa sem pauta
“Alguma novidade?”
A pergunta sai antes do bom dia, antes do café, antes de eu ter olhado direito para quem está do outro lado da mesa. Escuto a frase no ar da cozinha como se tivesse sido dita por outro homem, um funcionário zeloso que entrou na minha voz de madrugada e assumiu o balcão.
Meu filho levanta os olhos do pão. Há um segundo de cálculo no rosto dele, o de quem procura a resposta mais curta que ainda sirva. “Ainda não”, diz. Voltamos os dois ao que estávamos fazendo, que era mastigar.
Por trás da pergunta há uma manhã inteira de cansaço. Ontem foi dia de empurrar uma pedra grande, junto com muita gente, e a pedra se mexeu um pedaço. O corpo percebe que o esforço acabou antes de a cabeça aceitar. Acordei como quem largou uma mala pesada e continua com o braço dobrado, segurando um peso que já não está ali.
I
Cansaço Sem Veredito
Sobre o esforço que fez o que devia e não bastou
Não é o cansaço de quem chegou. Quem chega se deita, e o corpo entende o recado. Também não é o de quem perdeu, que tem ao menos a clareza do luto. É um terceiro tipo, que a língua não resolveu direito: o cansaço de quem fez o que precisava ser feito e sabe, ao mesmo tempo, que não era o bastante.
A frase tem duas metades, e o dia seguinte é a segunda. Ontem eu vivia dentro da primeira. Havia uma tarefa, um horário, gente com o mesmo propósito, o corpo todo apontado numa direção. Hoje a primeira metade acabou e sobrou a outra. O que precisava ser feito era uma etapa, e o resto do caminho continua lá, do mesmo tamanho de antes, só que sem o barulho que fazia a gente esquecer o tamanho.
Em português chamamos isso de ressaca, e a palavra é boa. O mar também tem a sua, a hora em que a onda volta puxando areia. O corpo paga o que tomou emprestado da adrenalina, e a cabeça, que passou semanas organizada em torno de um dia, não sabe mais em torno de que se organizar.
Há também a estranheza do silêncio. Durante semanas, quase toda conversa passou pelo mesmo assunto, na rua, no trabalho, à mesa. Hoje o assunto sumiu de uma vez, e a gente fica procurando o que dizer um ao outro, como depois de uma festa em que todos falaram alto e ninguém combinou o que vinha a seguir.
Cansaço de etapa é diferente de cansaço de chegada.
Vejo três tentações nessa manhã, e conheço bem uma delas.
A primeira é festejar como se tivesse acabado. Tomar a etapa pelo caminho inteiro, dizer que tudo mudou, repetir até acreditar. É a mais barata e a que dura menos.
A segunda é desanimar. Se não basta, para que tanto? A frase soa lógica e é injusta com tudo o que foi feito. Um esforço necessário continua necessário mesmo quando insuficiente, e ninguém deixa de calçar o sapato porque a estrada é longa.
A terceira é a minha: correr para a próxima batalha antes de passar pela manhã. A mão já procura o caderno, a cabeça já monta o plano seguinte, e o cansaço vira vocação, quase medalha. Para quem gosta de ser útil, a batalha seguinte é o anestésico preferido logo depois de terminar uma.
II
A Batalha Maior
Sobre a hierarquia de urgências que encolhe o resto
Dentro de casa corre outra batalha, em paralelo. Meu filho está no meio de seleções para as melhores universidades do país, o tipo de processo que reorganiza a casa sem pedir licença. Para o país, é uma notícia pequena entre muitas. Para mim, nesta semana, é a maior coisa que existe.
Percebo o que ela faz com o resto. As reuniões, os projetos, o texto que eu pretendia terminar, a conversa que devo a um amigo: tudo continua importante e passou a parecer nota de rodapé. Ninguém decidiu isso. A hierarquia das urgências se faz sozinha, por contraste, como um prédio alto que muda o jeito de olhar para as casas vizinhas.
O curioso é que a batalha de ontem, que parecia a maior, foi rebaixada em menos de um dia pela de hoje. E a de hoje, sei bem, será rebaixada por outra. Sempre haverá uma batalha maior à vista: o resultado de um exame, a doença de alguém, um contrato, uma mudança de cidade. A lista não acaba, só troca de ordem.
Uma urgência que se renova deixa de ser exceção e vira clima.
Se eu esperar que a batalha maior passe para voltar a viver, volto a uma vida que já terá outra batalha maior à vista. É o adiamento perfeito, porque sempre há um motivo suficientemente grande para justificá-lo.
Há também um engano de escala. Medimos a vida pelas batalhas porque elas têm data. A prova tem dia, a votação tem dia, o resultado tem dia. O que acontece entre uma e outra não tem data, e o que não tem data custa a entrar no calendário e, depois, na lembrança.
Nada disso torna as batalhas falsas. A seleção do meu filho é real, o esforço dele é real e o meu medo também. Só que a vida que corre por baixo delas é igualmente real, e tem um prazo menor do que parece. As conversas, os anos, a idade de um filho que ainda se senta à mesa de manhã: nada disso espera o resultado.
III
A Pergunta no Lugar da Conversa
Sobre o que a ansiedade faz com a proximidade
Volto à pergunta da cozinha. “Alguma novidade?” parece cuidado e, em boa parte, é. Mas há nela um deslocamento que só percebi ouvindo a minha própria voz.
Houve um tempo, não muito distante, em que eu perguntava coisas sem utilidade. O que ele andava ouvindo, que time tinha perdido, se havia lido algo que valesse a pena. Perguntas que não levavam a lugar nenhum e que, por isso mesmo, funcionavam como um jeito de estar perto. Agora a ansiedade ocupou o balcão. Ela fala com a minha voz, no meu horário, e pergunta pelo futuro a quem só tem o presente para oferecer.
Quem pergunta pelo resultado deixa de perguntar por quem está ali.
O que a pergunta pede é notícia, e notícia é justamente o que ele não tem. O que ele tem é uma manhã, um pão, uma semana de estudo e uma cabeça que, entre uma prova e outra, tenta descansar da própria prova. Cada “alguma novidade?” o convoca de volta ao exame no momento em que ele tentava sair por dez minutos. Eu quero ser abrigo e viro fiscal sem perceber.
Há uma diferença que só aprendi a notar tarde. O silêncio de uma mesa em que ninguém pergunta nada é um silêncio que se divide. O silêncio que vem depois de um “ainda não” é de outro tipo: cada um fica com a sua parte da falta de notícia, e ninguém sabe o que fazer com ela.
A ansiedade tem esse jeito de ocupar o lugar do outro. Não faz barulho, não grita, não derruba nada. Só toma a palavra. E uma conversa em que alguém toma a palavra para falar do que ainda não aconteceu deixa de ser conversa e vira relatório de expectativas.
Não sei medir o que isso custa. Sei que a proximidade pede uma coisa difícil: atenção sem pauta, estar ali sem querer extrair nada. A ansiedade é uma pauta, por definição, e as duas não cabem na mesma mesa.
IV
O Intervalo É Caminho
Sobre a vida que se faz entre uma etapa e outra
Há uma história de cozinheiro que gosto de lembrar. O monge japonês Dōgen (1200 a 1253), fundador da escola zen Sōtō, ainda jovem e em viagem de estudos à China, encontrou o tenzo de um mosteiro, o monge responsável pela cozinha, um homem mais velho, absorvido num trabalho que ao visitante parecia pouco digno de um praticante. Por que não deixar aquilo para alguém mais novo? Por que fazer ele mesmo, e àquela hora? O cozinheiro respondeu com outra pergunta: que hora, então, ele deveria esperar?
Em 1237, Dōgen escreveu as Instruções ao Cozinheiro (Tenzo Kyōkun), um texto que trata o trabalho da cozinha como a própria prática, e não como o intervalo entre as práticas sérias. A atenção ao arroz, ao legume e ao fogo era o assunto, nunca o preâmbulo.
No Brasil, uma mulher viveu essa lição sem ter lido o monge. Cora Coralina (1889 a 1985), poeta goiana, foi doceira por muitos anos e só publicou o primeiro livro aos 75, em 1965. Os versos dela nasceram ao pé do fogo, entre um tacho e outro. Um dos seus poemas mais conhecidos, “Aninha e suas pedras”, manda tirar as pedras do caminho, plantar roseiras, fazer doce e recomeçar. Repare na companhia: a pedra pesada e o doce estão na mesma frase. O trabalho duro e a coisa miúda e gostosa não são duas etapas separadas, uma de sofrer e outra de viver. Acontecem juntos.
O doce também é trabalho, e às vezes é o trabalho.
Nos dois casos, o tempo da tarefa não obedece ao tempo da pressa. O doce não ferve mais depressa porque o doceiro está ansioso, e o arroz não cozinha melhor porque o cozinheiro olha a panela a cada minuto. Há um ritmo que só se aprende ficando ao lado.
O intervalo, então, deixa de ser corredor. Eu o tratava como a sala de espera entre uma batalha e outra, um lugar onde se aguarda sem viver direito. A cozinha de Dōgen e a de Cora dizem o contrário: é na tarefa pequena, bem-feita, no meio do dia, que o sentido está sendo feito, e não adiado. A conversa com meu filho é o meu tacho. Ela não prepara nada.
V
A Objeção Honesta
Sobre as urgências que não esperam
Escuto a objeção, e ela é boa. Tudo isso é bonito para quem tem tempo de sentar numa mesa e conversar sem pauta. Há batalhas em que o intervalo custa caro. Quem tem uma conta por pagar, uma vaga para disputar, um direito em jogo, um prazo que vence na sexta, não dispõe de uma tarde de tacho. Para essas pessoas, um texto sobre o valor do intervalo soa como conselho de quem já comeu.
Escuto outra, mais incômoda, que vem de dentro. “Viver o intervalo” pode virar álibi. Dá para chamar de presença o que é só fuga, e de serenidade o que é falta de coragem para a próxima etapa. Uma calma que serve de desculpa deixa de ser calma.
E há uma terceira, que me toca de perto: a ansiedade também é uma forma de amor. Se eu exigir de mim serenidade, viro um pai que se cobra por sentir medo do futuro do filho, e isso é uma crueldade a mais, não um remédio. O medo é legítimo. O que posso decidir é o que fazer com ele, e se ele vai falar por mim à mesa.
Medo de pai merece um lugar à mesa, mas não a cabeceira.
A objeção também vale contra mim. É fácil elogiar o tacho numa manhã em que o pior do esforço ficou para trás e a pedra de ontem já foi empurrada por muitos. Reconheço o conforto de escrever isto daqui, e não escondo que ele pesa na balança.
Não resolvo essas objeções. Não sei onde termina a presença e começa a omissão, e a linha parece se mexer de um dia para o outro. Posso dizer algo mais modesto: quem luta uma batalha longa precisa de algum lugar onde não esteja lutando, e o único jeito de garantir esse lugar é decidir, antes de a próxima batalha chegar, que ele existe.
VI
O Que Uma Etapa Deixa
Sobre o que permanece, seja qual for o resultado
O Eclesiastes, livro bíblico de sabedoria atribuído pela tradição a Coélet, diz que há tempo para tudo debaixo do céu: tempo de plantar e de arrancar, de chorar e de rir, de abraçar e de se afastar. Sempre li o trecho como consolo. Hoje o leio como instrução de uso. Nenhuma estação tem a obrigação de ser todas as outras. A semana de prova não precisa ser também a de lazer, e a semana de ressaca não precisa ser a de planejar tudo de novo.
Pergunto, então, o que uma etapa deixa, e a resposta, tirando o resultado, é bastante concreta. Deixa gente: as pessoas com quem empurrei a pedra ontem continuam existindo, e o que construímos juntos sobrevive à contagem. Deixa hábito, o aprendizado de como se organiza um esforço coletivo. Deixa um corpo que descobriu que aguenta mais do que supunha. E deixa, no caso da seleção do meu filho, algo que nota nenhuma mede: o jeito que esta casa terá tido durante a espera.
O resultado é de quem avalia. O clima da casa é de quem mora nela.
Quando ele olhar para trás, daqui a muitos anos, a lista de aprovados terá virado um dado de currículo. O que talvez continue vivo é a lembrança de como era tomar café comigo naquelas semanas, se a pergunta que o esperava era uma cobrança ou uma companhia. Não sei qual das duas vai ficar. Sei que a escolha, a cada manhã, ainda é minha.
A etapa não é a estrada. A estrada continua, e a coragem de seguir nela depende em boa parte do que se faz entre as etapas: onde se dorme, com quem se come, que conversa sobra.
VII
A Conversa Sem Pauta
Sobre uma pergunta que não pede notícia
Amanhã de manhã vou tentar outra pergunta. Ainda não sei qual. Uma qualquer, sem utilidade, dessas que não levam a lugar nenhum: o que ele está ouvindo, se dormiu bem, se o pão está bom. Dessas que, por não pedirem nada, deixam o outro à vontade para dar.
A pergunta velha vai subir na garganta, tenho certeza. Ela tem mais prática do que eu. Quando subir, terei um segundo, talvez menos, para trocar de assunto antes de ela sair. É pouco tempo, e é tudo o que a proximidade me pede: um segundo de freio na frente da ansiedade.
Uma pergunta inútil, feita com atenção, aproxima.
Não chamo isso de plano. É o que sei fazer com o cansaço de hoje e a pedra de ontem. Amanhã vem outra pedra, e há de ser mais pesada que esta. Antes dela, o pão na mesa, alguém do outro lado e uma conversa que não precisa terminar em notícia.
E se ele responder outra vez “ainda não”? Então será isso, e está bem. Um “ainda não” é uma resposta inteira e não pede aditivo, nem um segundo “tem certeza?”, nem um olhar de lado. Basta ouvir e passar o pão.
A novidade, quando vier, sabe chegar sozinha. A conversa, não. Ela só acontece se eu estiver sentado ali, sem pressa, de ouvidos livres, antes de qualquer novidade.
Ontem, uma pedra andou um pedaço.
Hoje, o cansaço tem o tamanho exato
do que foi feito.
Entre uma pedra e outra
há um tacho no fogo,
um pão partido
e alguém sentado do outro lado da mesa.
A estrada não se resume ao dia da batalha.
O doce também é caminho.
Perguntar pelo que ainda não veio
é um jeito de chegar atrasado.
Perguntar pelo que está aqui
é um jeito de ficar.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem empurra uma pedra grande e ainda precisa conversar com quem está ao lado.
Ainda aprendendo a perguntar sem pedir notícia, Santos Moisés.
Este escrito faz parte de
Este escrito lhe fez companhia?