Ensaio · Convivência · Escrito CLXXVIII

CLXXVIII

Querência

Sobre ser uma pessoa a quem os outros querem voltar

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Aba I

Abertura, I e II · a cadeira que enche, a palavra e o que ela não é

Aba II

III e IV · interessado e seguro

Aba III

V e VI · harmonia sem conformidade e o dia comum

Aba IV

VII · o limite e a cadeira

Na sala de reuniões, às quatro da tarde, os lugares são livres. Cada pessoa que entra escolhe onde sentar com a pressa de quem não quer parecer que escolhe. Há quem vá direto para a ponta da mesa, há quem procure a cadeira mais perto da porta, e há uma cadeira, ao lado de uma colega de camisa amarrotada que nunca falou mais alto do que o necessário, que enche primeiro.

Ninguém combinou isso. A cadeira vizinha dela é igual às outras, de plástico, com o mesmo encosto torto. Mas as pessoas entram, passam os olhos pela sala e se acomodam ali, como se o corpo soubesse antes da cabeça.

Quando ela falta, a sala se reorganiza pelo mesmo critério de sempre, só que ninguém sabe mais qual é. Alguém comenta que a reunião está comprida. Está igual às outras.

Na terça seguinte, ela volta, e a cadeira ao lado enche antes de ela terminar de sentar.

I

A palavra

Sobre o que querência guarda além do lugar

Quem cresceu no Rio Grande do Sul conhece querência como o lugar onde o gado foi criado, a que se afeiçoou e para onde volta quando é levado para longe. A mesma palavra, em espanhol, tem três sentidos no dicionário Larousse. O primeiro nem fala de lugar: é a inclinação afetiva por alguém ou por algo. Só depois vêm a tendência de pessoas e animais a voltar ao lugar onde se criaram e o próprio lugar.

A raiz é querer. A palavra guarda, juntas, a vontade e o chão, e sugere que um lugar só vira querência porque alguém o quer. Hemingway, em Death in the Afternoon, de 1932, usou a palavra para falar do touro na arena: a querência é o canto que ele escolhe, onde se sente em casa e mais forte. Também registrou a outra face, que vamos reencontrar adiante: o touro defendendo o seu canto fica mais perigoso.

Este texto pega a palavra emprestada e faz uma pergunta que ela quase fez sozinha. Pode uma pessoa ser querência para outras? Não um lugar de nascença, mas uma presença à qual se volta, na segunda-feira, na copa, na obra, no carro de volta do cliente. E o que essa pessoa tem de diferente de quem apenas é simpática, brilhante ou bem posicionada?

A pergunta não nasce de curiosidade acadêmica. Quase todo mundo conhece a diferença entre a sala com uma pessoa assim e a sala sem ela, e quase ninguém sabe dizer em que consiste. Nomear o fenômeno já ajuda: querência não é um talento raro, é uma qualidade de presença que se reconhece pelo efeito, e que talvez possa ser compreendida o bastante para ser praticada sem ser fingida.

Uma só palavra para querer e para voltar.

II

O que querência não é

Sobre carisma, charme e o que se procura por necessidade

Há pessoas que atraem a atenção quando entram numa sala e deixam os outros menores depois de alguns minutos. Isso é presença, e pode ser admirável, mas não é querência. O carisma se olha de longe e rende aplauso. A querência se frequenta e rende volta.

Também não é charme, que convence e passa. Nem popularidade, que depende de quantos conhecem e pouco diz de quem fica. E não é utilidade. Aristóteles já separava, na Ética a Nicômaco, o vínculo que nasce da utilidade, que acaba quando o proveito acaba, o que nasce do prazer, que muda quando o prazer muda, e o que nasce da estima pelo outro como ele é, o único que se mantém. Grande parte das companhias que o trabalho produz é do primeiro tipo, e ninguém precisa se envergonhar disso. Só convém não confundir.

Há um teste simples. Na sala onde os lugares são livres, a cadeira ao lado de quem manda enche por obrigação, por estratégia ou por medo. A cadeira ao lado de quem tem querência enche por vontade. Por fora, as duas são idênticas. A diferença aparece quando o chefe falta: a primeira esvazia, a segunda continua cheia.

Outro teste, mais pessoal, é perguntar a quem se vai numa segunda-feira ruim, quando nada obriga ninguém a ir a lugar nenhum. A resposta costuma ser uma pessoa, e quase nunca a mais brilhante da lista.

O que essas pessoas fazem de diferente? Nada que se exiba. Por isso a pergunta é difícil, e por isso é tentador responder com técnica: ouça mais, sorria, lembre o nome, faça perguntas. Cada uma dessas coisas pode ajudar e todas, usadas como método, produzem o contrário, porque quem as pratica para ser querido está interessado em si, e as pessoas percebem.

O carisma se olha de longe. A querência se frequenta.

III

Interessante é interessado

Sobre a palavra que quer dizer estar entre

Interesse vem do latim interesse, que juntava inter, entre, e esse, ser. O verbo queria dizer estar entre, estar presente, e daí importar. Quando alguém diz que está interessado numa coisa, a palavra ainda carrega esse gesto: pôr-se entre, não ficar de fora.

A pessoa interessante, então, talvez não seja a que tem mais histórias para contar. É a que está de fato entre as pessoas, e não olhando a conversa de cima, ensaiando a próxima fala. Quem tenta ser interessante acrescenta: repertório, títulos, viagens, opinião. Quem é interessado subtrai: o ruído de si mesmo, para sobrar espaço para o outro.

Rubem Alves resumiu isso numa crônica curta que muita gente conhece sem saber de onde veio. “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.” Todo mundo quer aprender a falar, escreveu ele, e quase ninguém, a ouvir. Atribuía a dificuldade à vaidade: no fundo, queremos ser os mais bonitos, e quem quer ser o mais bonito escuta pouco, porque está ocupado em ser visto. Escutar, dizia, é complicado e sutil.

A psicologia ofereceu uma medida modesta dessa intuição. Em 1968, Norman Anderson pediu a estudantes americanos que avaliassem 555 traços de personalidade pelo quanto tornam alguém querido. No alto da lista ficaram sincero, honesto, compreensivo e leal. Nos últimos lugares, mentiroso e falso. Convém não exagerar o que isso prova: eram estudantes de uma época e de um país, avaliando palavras, e não pessoas reais. Mas o desenho é nítido. Os traços mais valorizados são os que tornam alguém seguro de ter por perto, e quase nenhum depende de brilho.

A querência parece, portanto, um efeito colateral de quem presta atenção de verdade. Não se persegue, assim como o sono não se persegue. Cria-se a situação em que ela pode acontecer: estar onde se está, perguntar o que se quer saber, aguentar a resposta inteira.

Para ser interessante, comece por estar entre.

IV

A segurança que abre lugar

Sobre quem não precisa defender o canto

Estar entre as pessoas pede uma condição que quase nunca se menciona: não se sentir ameaçado por elas. O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, ao explicar o ubuntu em No Future Without Forgiveness, de 1999, partiu do ditado de que uma pessoa é pessoa por meio de outras pessoas. E descreveu quem tem ubuntu: aberta e disponível aos outros, que afirma os outros e não se sente ameaçada pela capacidade e pela bondade alheias, porque tem a autoconfiança de quem sabe que pertence a algo maior.

A frase tem um raciocínio embutido. Quem se sente ameaçado pelo talento do colega transforma cada conversa em disputa de lugar, mede quem falou mais, quem foi elogiado, quem ficou com o mérito. Quem sabe que tem lugar pode ceder um. Pertencer, aqui, vem antes de brilhar, e a segurança que sustenta a abertura não é pose de confiança, é a calma de quem não precisa ganhar a sala para existir nela.

O touro de Hemingway mostra o avesso. Quando defende a sua querência, o animal fica perigoso, porque o canto é tudo o que ele tem. Muita gente se comporta assim no trabalho: a mesa, a ideia, a reunião, o cliente viram canto a defender. Essas pessoas costumam ser competentes, e a convivência com elas cansa de um jeito difícil de explicar, porque cada gesto parece pedir licença para o território.

A pessoa da cadeira ao lado não defende nada. Quando a ideia de alguém é elogiada na reunião, ela diz “boa” sem conferir o que perdeu. Quando alguém chega atrasado, ela empurra a cadeira. Ninguém ali se sente medido, e é por isso que os outros relaxam o bastante para ficar.

Quem é casa não precisa defender o canto.

V

Harmonizar sem conformar

Sobre a diferença entre ser querido e ser concordante

Seria fácil concluir que querência é o nome elegante da gentileza, e que a pessoa procurada é a que nunca contraria. A tradição confuciana, que pensou isso por mais de dois mil anos, discorda. Nos Analectos (13.23), Confúcio separa o homem superior, que harmoniza sem exigir que todos pensem igual, do homem pequeno, que exige que todos pensem igual e não consegue harmonizar. O primeiro cria acordo. O segundo cria uniformidade.

Quem concorda com tudo deixa de ser procurado. O “sim” sem custo vale pouco, e as pessoas notam depressa. A pessoa a quem se volta é aquela em quem se confia para dizer “não concordo”, e com quem o desacordo não vira ruptura. A cadeira ao lado dela é segura justamente porque ali se pode discordar sem perder o lugar.

Em outra passagem (4.25), curta, Confúcio diz que a virtude não fica só: quem a pratica terá vizinhos. Os comentadores divergem sobre o sentido. Uns leem que a virtude atrai os outros, outros que ela precisa ser exercida entre pessoas para existir. A leitura que me serve é a segunda, e ela não contradiz a primeira. Vizinho é quem está perto sem ter sido chamado, e vizinhança é coisa de dia comum, de portão e de calçada, não de evento. A querência não se anuncia: acontece onde alguém está sendo, devagar, a mesma pessoa em dias diferentes.

Há uma consequência prática, que não é técnica. Quem quer ser querido se torna maleável, vira o que cada um quer ver. E ninguém se apega a um eco que só devolve o que lhe dizem. As pessoas voltam a quem tem um centro, ainda que o centro às vezes as contrarie.

O sim sem custo não sustenta ninguém.

VI

No dia comum e no trabalho

Sobre a repetição que faz de alguém um lugar

Aristóteles escreveu, no livro VIII da Ética a Nicômaco, que nada é tão próprio dos amigos quanto o viver junto, e voltou ao assunto no livro IX, onde diz que os amigos passam os dias juntos naquilo que mais amam na vida: uns bebem juntos, outros caçam, outros estudam filosofia. Para o trabalho, a frase tem uma consequência desconfortável, porque aquilo em que a maioria das pessoas passa os dias é o trabalho. Querência, ali, só pode se formar no meio da tarefa, e não no happy hour.

Como é esse meio? É pequeno e quase sempre invisível. Quem avisa que vai atrasar antes de o atraso virar problema. Quem diz na reunião quem fez o trabalho, em vez de deixar o mérito flutuar. Quem pergunta, três dias depois, como terminou aquilo que você contou de passagem. Quem devolve o que pediu emprestado. Quem dá a má notícia primeiro a você, e não pelos corredores. Quem, ao ouvir um erro, pergunta o que aconteceu antes de perguntar de quem foi.

Nenhuma dessas coisas impressiona, e todas dizem a mesma frase sem palavras: estou aqui, e o que você faz me importa. É interesse no sentido antigo, estar entre. Na lista de Anderson, é a lealdade e a confiabilidade praticadas em escala doméstica.

A repetição é o ponto. Ninguém vira querência por um gesto grandioso, e é raro lembrar de um. Lembramos que a pessoa foi a mesma na terça e na quinta, no dia bom e no dia de prazo. A querência é uma constância que o corpo registra antes do pensamento: a cadeira enche porque, nas outras vezes, ficar ali foi leve.

Nada disso é técnica, e quem tentar usar como técnica vai perceber que não funciona. É o que sobra quando alguém decidiu estar de fato onde está.

Querência é repetição, não impacto.

VII

O limite e a cadeira

Sobre o que querência não pode ser nem prometer

Convém dizer onde a ideia para, antes que vire autoajuda.

Primeiro, querência não é meta. Quem a persegue vira vendedor de si, e a venda se nota. O que se pode fazer é limpar o caminho: atenção sem plateia, segurança que não precisa de aplauso, um centro que aguenta discordância. O resto vem de fora, como visita, e às vezes não vem. Há gente excelente que passa a vida sem uma cadeira ao lado disputada, e não deve nada a ninguém por isso.

Segundo, querência não é obrigação. Há trabalhos que cobram simpatia como parte do cargo, e quem a fornece a prazo, todos os dias, de graça, paga com cansaço que ninguém reconhece. Ser boa companhia por exigência é outra coisa: é um serviço sem contrato. A querência verdadeira costuma ser gratuita para quem a tem, e por isso dura.

Terceiro, querência pode virar clube. O gado volta ao seu pasto, o touro ao seu canto, e a pessoa procurada corre o risco de criar um círculo de quem já sabe como ser. Quem fica de fora vê a cadeira ocupada e entende o recado. Uma querência que só aceita iguais é só uma panelinha com boa reputação. A cadeira ao lado precisa estar vazia de verdade, pronta para quem chega sem saber onde sentar.

Talvez a pergunta honesta não seja como me tornar a pessoa a quem os outros querem voltar. Talvez seja de quem eu já sou a cadeira ao lado, sem saber, e de quem posso passar a ser, começando por prestar atenção ao que se passa na sala onde já estou.

A colega de camisa amarrotada nunca soube que a cadeira ao lado dela enche primeiro. Se soubesse, talvez ficasse tímida. Continua chegando um pouco antes da hora, pondo a bolsa no chão, perguntando a quem se senta ao lado como foi o fim de semana, e esperando a resposta inteira.

Querência que só aceita iguais vira clube.

Uma cadeira vazia ao lado de alguém
e a sala inteira sabe, sem dizer.

Não é brilho. Brilho se olha de longe.
É o lugar onde o dia fica do tamanho que tem.

O touro defende o canto onde se sente em casa.
Quem é casa não precisa defender.

Interessar foi, no começo, estar entre.
Estar entre foi, no começo, ficar.

Ninguém planejou a cadeira que enche primeiro.
Ela encheu porque alguém, um dia,
esteve ali de verdade.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem, sem saber, é a cadeira que enche primeiro, e a quem aprende a sê-lo prestando atenção.

Ainda aprendendo a estar entre, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura, I e II · a cadeira que enche, a palavra e o que ela não é
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