Contos · Travessia · Escrito CLXXIX

CLXXIX

O Sebo e os Sete Encontros

Uma professora de filosofia aposentada, uma estudante de engenharia com pressa e sete livros abertos ao longo de um ano, num sebo da rua 24 de Maio, em Fortaleza

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Aba I

Abertura, I e II · a pressa que entrou no sebo, a caverna e a lira

Aba II

III e IV · o acampamento de um imperador e o homem de roupão

Aba III

V e VI · o camelo, o leão e a criança, o garçom e a escolha

Aba IV

VII e VIII · a pedra, a encosta e o que ficou na margem

A moça entrou no sebo com o celular numa mão e a mochila pendurada num ombro só, e o joelho já em movimento, como se a rua ainda viesse atrás dela. A entrada era um corredor estreito, forrado até o teto com os livros que ninguém quer: apostilas de cursinho de décadas atrás, enciclopédias com volume faltando, romances de banca de capa solta, manuais de uma informática que já não existe. O ventilador girava sem pressa e empurrava de um canto a outro o cheiro de papel velho, de cola seca e de poeira que nunca sai inteira de lugar nenhum. Lá fora, uma moto rasgou o calor da tarde. Ali dentro o barulho chegou abafado, depois de atravessar páginas.

Na boca do corredor, numa cadeira de palhinha encostada na última estante, uma senhora de cabelo branco preso com um lápis lia com uma lupa de cabo de osso. Não levantou a cabeça. Terminou primeiro a linha, depois deixou a lupa descansar sobre o livro aberto e só então olhou.

“Pode olhar à vontade. Aqui nada morde. As traças já comeram.”

A moça não olhou à vontade. Passou os olhos pelas estantes com a pressa de quem procura uma tomada e voltou à senhora com a pergunta pronta, ensaiada na calçada.

“A senhora tem o livro que explica a vida?”

“Eu não trabalho aqui, filha. Só ocupo esta cadeira.” A senhora ajeitou a gola do vestido e a examinou com uma curiosidade sem pressa. “Mas a pergunta eu conheço. Explica toda, ou só a parte que está doendo?”

A moça riu sem querer, e o joelho parou. Fazia semanas que o joelho não parava sem que ninguém mandasse.

Estendeu o celular com uma imagem aberta: uma lista de livros que a internet chamava de indispensáveis, letras pretas sobre fundo claro, numerada de um a sete. A senhora afastou a tela até esticar o braço por inteiro e leu devagar, mexendo os lábios. Ficou um tempo calada. Depois devolveu o aparelho com cuidado, como quem devolve uma coisa emprestada.

“Lista serve para saber o nome das coisas”, disse. “O que elas são, só o livro conta. E livro não tem pressa nenhuma, minha filha. Já nasceu esperando.”

Puxou com o pé um banquinho de madeira para perto da cadeira e apontou com o queixo. Não disse mais nada. A moça ficou um instante de pé, com a mão na alça da mochila. Quando deu por si, já estava sentada, e o joelho continuava quieto.

I

A Parede e as Sombras

Sobre uma tarde de ventania e um livro que pergunta o que é justiça

Era agosto, e o vento de agosto fazia a porta de vidro bater de leve no batente a cada rajada. O sebo ficava na rua 24 de Maio, no Centro de Fortaleza, a poucas quadras da Praça José de Alencar, e tinha o cheiro de tudo o que ninguém teve coragem de jogar fora. O corredor da frente guardava os livros sem valor, e os que valiam alguma coisa ficavam mais ao fundo, perto de uma escada de rodinhas que parecia nunca ter saído do lugar, onde só chegava quem pedisse.

“Meu nome é Dulce”, disse a senhora. “Professora de Filosofia, aposentada, que é um jeito elegante de dizer que agora eu só frequento sebo. Terça e quinta, há uns vinte anos. Ninguém me contratou, mas todo mundo já se acostumou com a cadeira.” Olhou a moça por cima dos óculos. “E você?”

“Maitê.”

“Maitê tem pressa, eu vi. Quantos anos de pressa?”

“Vinte e um.”

“Então tem uns vinte de sobra.” Dulce sorriu com metade da boca. “Me diga o que você quer saber da vida.”

Maitê abriu a boca e percebeu que a resposta era comprida demais. Estava no quinto semestre de Engenharia. Escolhera o curso porque era boa em matemática e todo mundo disse que seria desperdício fazer outra coisa. Passava os dias com problemas que têm gabarito, e mesmo quando o gabarito era “o enunciado está mal posto”, alguém já tinha chegado lá antes e deixado a chave. “Na vida ninguém me entregou o gabarito”, disse. Guardava no celular uma lista com tudo o que precisava entender antes dos trinta, e a lista só crescia. Via resumos de livros em vídeos de um minuto e meio e, meia hora depois, não lembrava de nada. Falou sem respirar.

“Dei aula de Introdução à Filosofia por trinta e tantos anos”, disse Dulce, quando ela acabou. “Para calouro de tudo quanto é curso. Engenheiro era o que mais desconfiava e o que mais voltava depois.” Levantou-se, apoiada no braço da cadeira, e foi até o fundo do corredor, onde conhecia cada estante de cor. Voltou com um livro de capa mole, de cantos dobrados, e o pôs nas mãos da moça. “Esse aqui. A República, de Platão. Eu abria o semestre com ele e com uma lanterna.”

Contou primeiro quem era o homem. Platão nasceu em Atenas, de família importante, e tinha tudo para virar político. Ainda moço, ficou discípulo de um sujeito que andava descalço pela praça perguntando a todo mundo o que sabia de verdade, o Sócrates. Quando Platão tinha uns vinte e oito anos, a cidade julgou o mestre e o condenou a beber cicuta, sob a acusação de desrespeitar os deuses e corromper os jovens. Platão nunca mais olhou a política do mesmo jeito. Viajou, voltou e fundou uma escola perto de um bosque, a Academia, que durou séculos e emprestou o nome a todas as outras.

“O Sócrates não escreveu uma linha”, acrescentou. “Boa parte do que se sabe dele vem dos diálogos de Platão, onde ele aparece perguntando. Ninguém sabe ao certo onde acaba um e começa o outro.”

“Então talvez ele tenha inventado o mestre.”

“Talvez. Ou talvez o mestre tenha inventado o discípulo. Em filosofia as duas coisas são possíveis ao mesmo tempo.”

O livro, segundo ela, tinha dez partes e uma pergunta só: o que é justiça? Começava com Sócrates descendo ao porto, numa noite de conversa. Na primeira parte, um sofista chamado Trasímaco dizia que justiça era o que convinha ao mais forte. Na segunda, um jovem, o Glauco, contava a história de um pastor que achava um anel capaz de deixá-lo invisível, e perguntava se alguém continuaria justo se nunca pudesse ser visto.

“Soa atual”, disse Maitê.

“Soa porque é. Para responder, Platão faz uma coisa de engenheiro. Em vez de olhar a justiça numa pessoa só, que é pequena e difícil de ler, ele imagina uma cidade inteira, para ver a justiça em letra grande. Uma cidade tem quem governa, quem defende e quem produz. Uma alma, ele diz, tem a mesma estrutura: a razão, o ânimo e o desejo. A pessoa justa é aquela em que cada parte faz o que lhe cabe e a razão comanda.”

“Um sistema em equilíbrio.”

“Engenheira fala assim.” Dulce se levantou outra vez, com a mão no joelho. “Mas tem uma coisa na sétima parte que todo mundo guarda, e é por ela que eu lhe dou o livro. Venha cá.”

Apontou a única parede sem estante, esverdeada de umidade, e mandou a moça sentar de frente para ela, de costas para o resto do sebo. Tirou da bolsa de pano uma lanterninha de leitura, dessas de clipe, prendeu-a na beira da estante vizinha e a acendeu. Depois apanhou no corredor, entre os livros sem valor, um volume de enciclopédia sem capa e o passou entre a lanterna e a parede. “Esse aqui não presta para nada. Serve de modelo.” Surgiu uma sombra de quatro quinas, que tremia um pouco.

“O que é isso?”

“Um livro.”

“Tem certeza? Eu só vejo uma mancha escura que anda.”

“Uma projeção, na verdade.”

“E dá para saber o que é só por ela?”

Maitê pensou antes de responder. “Depende. Com uma vista só, não. Em desenho técnico a gente precisa de duas ou três para reconstruir a peça.”

“Então você já entendeu metade da caverna.” A professora deixou a sombra passear pela parede. “Imagine que você nasceu sentada aí, presa pelo pescoço, sem poder virar a cabeça. Ninguém nunca lhe mostrou o livro. Só a projeção, e só de um lado. Você ia aprender o nome de cada mancha e ficar boa em adivinhar qual vem depois. Os outros presos também. Faziam campeonato de sombra.”

Maitê riu e parou de rir.

“Platão conta assim. Um dia soltam um deles. Ele vira o pescoço, e dói. Olha para o fogo que fazia as sombras e fica cego um tempo. Dizem que o que ele via antes não era real, e ele não acredita, quer voltar para a parede, onde pelo menos tinha certeza. Aí o arrastam para fora da caverna, à força, e lá fora nem o sol ele consegue encarar. Os olhos se acostumam aos poucos: primeiro as coisas refletidas na água, depois as coisas mesmas, e por último, devagar, o próprio sol.”

“E ele fica lá?”

“Esse é o ponto. Ele volta, para contar aos outros. E os outros riem, porque agora ele enxerga mal no escuro, e concluem que sair estraga a vista. Platão escreve que, se o homem tentasse soltar alguém, os presos o matariam, caso pudessem. Pensava no mestre dele.”

Sair é difícil. Voltar para contar custa ainda mais caro.

Dulce desligou a lanterninha, e a parede voltou a ser só parede. Maitê ficou olhando para ela mais um pouco.

“Meu trabalho é cheio de sombra”, disse. “Modelo de viga, modelo de circuito. Todo modelo simplifica, e a gente aprende desde o primeiro semestre que nenhum é a coisa. Funciona e pronto.”

“Funciona até o dia em que alguém esquece que é modelo. Esse é o perigo, e o livro todo anda em volta dele.” A professora voltou à cadeira de palhinha. “Platão não fala de cavernas nem de sol. Fala do que a gente toma por real porque só viu de um lado. E fala da coragem, bem maior, de voltar e dizer o que viu a quem está de costas. Agora me diga: no resto da vida, você anda com que modelo, e quem lhe garantiu que era só modelo?”

Maitê levou a mão ao bolso, onde o celular pesava.

“Isso é o celular?”

“Eu não falei de celular. Quem falou foi você.” Dulce sorriu. “Mas se me perguntar se há coisa que a gente olha o dia inteiro, de um lado só, eu não tenho coragem de dizer que não.”

No caixa, no meio do corredor, um rapaz de fone no pescoço cobrou trinta reais, que era o preço de um livro daqueles num sebo. Dulce acompanhou-a até lá e esperou ao lado, de braços cruzados, como quem confere uma prova. Disse que o livro era para ler inteiro, não só a caverna. Disse também que, ao fim de cada encontro, faria uma pergunta, e que a moça a levaria para casa junto com o livro, sem obrigação de responder na hora.

“Se o que você chama de vida fosse só sombra na parede, você ia querer saber?”

Maitê não tinha resposta. O vento bateu a porta de vidro, e ela saiu com o livro enfiado na mochila e a pergunta pesando mais do que ele.

II

O Tocador de Lira

Sobre uma aluna que quis o gabarito e um livro que ensina a viver bem

Voltou em setembro com a resposta pronta, porque não aguentava deixar problema em aberto.

“Pensei a semana inteira naquela pergunta”, disse, ainda na entrada. “Se a vida fosse sombra, eu ia querer saber. Aí lembrei do preso que é solto e reclama, e a pergunta mudou. Já não é se eu quero saber. É se eu quero saber mesmo quando doer.”

“E quer?”

“Não sei. Esse é o problema.”

Dulce largou a lupa e a olhou por cima dos óculos. “Você melhorou a minha pergunta. Eu fiz de um jeito, você devolveu de outro, mais honesto. Em trinta anos de sala, aluno que melhora a pergunta do professor eu contava nos dedos.” Esperou que ela se sentasse. “E o resto do livro?”

“Li tudo. A cidade ideal me irritou. Parece que lá ninguém escolhe nada.”

“Muita gente pensa isso, e com razão. O livro tem lugares onde ele discorda da gente, e a gente tem de discordar de volta. Mas hoje você vai gostar do próximo, porque é de um sujeito que media as coisas.”

Foi até o fundo do corredor e voltou com um volume de capa verde, desbotado nas bordas. Na lateral da última estante havia, preso com durex, um cartão-postal de dois homens no centro de um salão enorme: um de barba branca, apontando o dedo para o alto, e outro, mais novo, com a palma da mão aberta na altura do chão.

“Platão e o aluno dele. Aristóteles nasceu numa cidade pequena do norte da Grécia, filho de um médico do rei da Macedônia, e chegou à Academia aos dezessete anos. Ficou vinte lá, até a morte do mestre. Depois foi ensinar o filho do rei, um garoto que viraria Alexandre, o Grande, e por fim abriu a própria escola, o Liceu, onde dava aula andando de um lado para o outro. Esse postal eu colei aqui há quinze anos, e por quinze anos expliquei a mesma coisa para quem parava para olhar. Platão aponta para cima, para o lugar das ideias perfeitas. Aristóteles estende a mão na horizontal.”

“Quer dizer o quê?”

“Que o bem se aprende aqui, com o chão debaixo do pé. Ele abria bicho para ver como era por dentro, catalogava centenas de espécies, escreveu sobre lógica, sobre física, sobre política, sobre poesia. Desconfiava de teoria que não aguentava o teste.” Dulce tocou o livro. “Você ia gostar dele.”

O livro se chamava Ética a Nicômaco, e o nome vinha de um Nicômaco que podia ser o filho ou o pai de Aristóteles, que nem os especialistas fecham essa conta. A pergunta era simples e enorme: o que é uma vida boa para um ser humano? E a resposta, para a surpresa de Maitê, começava por uma ideia de função.

“Cada coisa boa faz bem o que lhe é próprio”, disse a professora. “A faca corta, o olho enxerga. E o ser humano? O que é próprio dele é usar a razão, viver pensando e escolhendo. Vida boa, então, é usar isso bem, e a vida toda. Tem uma palavra grega difícil que se costuma traduzir por felicidade, mas que não é a alegria da sexta-feira. Aristóteles escreve que uma andorinha só não faz verão, e um dia bom também não faz uma vida boa.”

“Ele define pelo desempenho.”

“Pelo desempenho ao longo do tempo. Agora vem a parte que me interessa mais.” Deu dois toques no livro. “A coragem, a generosidade, a honestidade, tudo o que a gente chama de virtude. Ninguém nasce com isso e ninguém recebe pronto. Vira hábito. A palavra ética, aliás, vem de um termo grego que quer dizer costume.”

“Hábito”, repetiu Maitê, desconfiada.

“A gente aprende a construir casas construindo e a tocar lira tocando. Quem lê dez livros sobre lira e nunca encosta num instrumento vira conhecedor de lira, não músico. Com a coragem é igual: você faz atos corajosos pequenos até ficar corajosa. E tem um truque do livro: a virtude quase sempre fica entre dois erros. A coragem, entre o medo demais e a imprudência. A generosidade, entre a mão fechada e o esbanjamento. O ponto certo muda de pessoa e de dia, e quem acerta é quem treinou.”

Ninguém vira tocador de lira lendo sobre lira.

“Isso eu entendo”, disse Maitê. “É tolerância de projeto. Nada é exato, tudo tem uma faixa.”

“Pois ele ainda dedica dois livros inteiros à amizade, e diz que a melhor é a de quem deseja o bem do outro por ele mesmo, não pela utilidade nem pelo prazer. Mas isso fica para você achar sozinha.”

Ela perguntou quanto tempo tudo aquilo levava. Dulce respondeu que a vida inteira, e que não havia atalho que o livro conhecesse. A moça bufou. Tinha ido ali para ganhar tempo, e a professora lhe oferecia o mais lento dos caminhos.

“Não vou lhe mandar nenhuma tarefa grande”, disse Dulce. “Uma coisa só. Todo dia, na mesma hora, na mesma cadeira, dez minutos de leitura sem celular. Qualquer livro.”

“Preciso de métrica.”

“Marque num caderno. Fiz, não fiz. Sem nota. Eu corrigi prova a vida inteira e sei bem o estrago que uma nota faz.”

Maitê pagou os trinta reais ao rapaz do caixa, com uma nota de cinquenta, e esperou o troco, e já na saída ouviu, às costas, a pergunta do dia, dita sem pressa.

“O que você repete todo dia está construindo quem?”

III

Anotações de um Acampamento

Sobre uma semana de provas e um imperador que escrevia para si mesmo

Em outubro chegou com as olheiras da semana de prova e um caderno aberto na mão, como quem entrega um relatório.

“Fiz o que a senhora mandou. Marquei. Nove dias de quatorze.”

“Nove de quatorze é bom. E o que você notou?”

“Que na fila do restaurante universitário eu pego o celular antes de pensar. Todo dia, sem falha. É a única coisa que eu faço com disciplina.” Riu sem alegria. “Se o Aristóteles estiver certo, estou construindo uma pessoa que confere o celular.”

“Você está sendo muito honesta, e isso já é meio caminho. Ele diria que o primeiro passo é ver o que se repete. O segundo, que dá para trocar a repetição.” Dulce a estudou um instante. “Mas você não veio só me contar do celular.”

“Amanhã tenho prova de Estruturas e, na sexta, entrevista para um estágio numa construtora. Faz duas noites que o sono vai embora quando eu deito. A senhora tem algum livro que dê calma?”

“Calma não se vende em sebo, só em farmácia. Mas tenho uma coisa que ajuda. Eu dava esse autor na semana das provas, porque calouro ansioso precisa dele mais do que de qualquer outro.”

Foi buscar um volume pequeno, de capa azul, com a lombada colada com fita. Meditações, de Marco Aurélio. Contou primeiro do homem. Nascido em Roma no ano 121, adotado pelo imperador que o antecedeu, virou ele próprio imperador em 161 e governou até a morte, em 180. Passou quase todo o reinado em guerra, nas fronteiras do norte, perto do Danúbio, enquanto uma peste corria pelas cidades do império. Perdeu vários filhos. E à noite, no acampamento, escrevia anotações em grego, para ninguém.

“O livro não tinha título”, disse. “Nem foi feito para ser publicado. O nome que chegou até nós é só o mais conhecido entre vários. Em grego, algo como ‘para si mesmo’. É um homem conversando com a própria cabeça, doze cadernos de lembretes.”

“Um imperador precisava se lembrar de ficar calmo?”

“Todo dia. Ele escreve que de manhã vai encontrar gente intrometida, ingrata, arrogante, mentirosa, e que não deve se espantar, porque é assim que gente é. Escrevia para lembrar do que já sabia e esquecia na pressa do dia. Isso é o estoicismo, a escola dele. Não é frieza. É treino.”

“E qual é a ideia central?”

“Cabe numa linha. Nem tudo depende de nós.” Dulce abriu o livro numa página marcada com um pedaço de nota fiscal. “A prova de amanhã: estudar, dormir, chegar na hora, isso depende. A nota, o humor do professor, o tamanho da questão, não. A entrevista: saber o que a construtora faz, dizer a verdade sem se encolher, depende. Se o outro candidato tem tio lá dentro, não. Ele aprendeu essa divisão com um professor chamado Epicteto, que tinha sido escravizado e, depois de livre, virou mestre. O imperador agradece no livro a quem lhe emprestou as aulas dele. Reparou? O homem mais poderoso do mundo aprendeu com alguém que um dia fora escravizado e descobrira que só mandava na própria cabeça.”

O mais poderoso aprendeu com quem só mandava na própria cabeça.

Maitê ficou calada um tempo. Depois, com o cenho franzido:

“Mas se nada depende de mim, para que me esforço?”

“Você entendeu o contrário. Depende de você o esforço. O resultado, não. A diferença é essa.”

“Então é como o coeficiente de segurança”, disse devagar. “Eu calculo a viga com folga, faço a minha parte inteira, e não mando no vento. O vento vem, e eu já fiz o que cabia.”

“Isso eu não sei dizer. Mas parece estoico.”

Havia ainda o primeiro caderno, que Dulce achava o mais bonito. Em vez de regras, trazia uma lista de gente: o avô, a mãe, os professores, os amigos, e o que ele aprendera ou devia a cada um. O imperador começava o livro pelo que lhe tinham dado, e só depois falava do que fazer. Maitê virou algumas páginas com cuidado, e a professora deixou.

“Hoje à noite escreva numa folha o que depende de você amanhã. Só isso. O resto você deixa no papel, e o papel não perde o sono.”

Pagou os trinta reais e levou o livro. Na saída, Dulce chamou de novo, e a pergunta veio mansa.

“Do que te tira o sono, o que realmente depende de você?”

IV

O Homem de Roupão

Sobre uma dúvida que chegou na hora certa e um filósofo que duvidou de tudo de propósito

Dezembro encheu o Centro de pisca-pisca, camelô e gente com sacola. O sebo vendeu mais naquele mês do que em dois anteriores, porque livro usado é presente que cabe no bolso. Maitê apareceu no meio da tarde, de crachá de estagiária ainda no pescoço, e dessa vez não havia pressa nenhuma no joelho. Havia uma coisa pior, que parecia peso.

“Fiz a lista”, disse. “Risquei o que não dependia de mim. Sobrou menos do que eu esperava, e uma coisa que eu estava evitando: escrever para um professor pedindo orientação de pesquisa. Escrevi na mesma noite. Dormi.”

“Isso é ótimo.”

“Foi. Mas aí vi que eu passei na entrevista, que estou no estágio, que tudo deu certo, e acordei achando que não sei se quero nada disso. E se eu estiver enganada em tudo, professora? No curso, no estágio, em tudo o que eu acho que sei?”

Dulce sorriu como se tivesse visto chegar o ônibus certo. “Minha filha, você veio na hora. Tem um homem que decidiu duvidar de tudo de propósito.”

Pôs na mão dela um volume de bolso, gasto. René Descartes, francês, nascido em 1596, estudara num colégio de jesuítas e depois virou soldado, mais por curiosidade do mundo do que por vocação militar. Numa noite de novembro de 1619, contava-se, teve uma série de sonhos que o convenceram de que devia refundar o saber a partir do zero. Passou vinte anos na Holanda, longe das disputas de Paris, e foi lá que escreveu quase tudo.

“Em 1637 ele publica o Discurso do Método, em francês, para qualquer um ler. Junto vinham três ensaios científicos, e num deles, a Geometria, ele mostra que se pode descrever uma curva com números, desenhando dois eixos. Você usa isso todo dia.”

Maitê arregalou os olhos. “O plano cartesiano.”

“Cartesiano vem de Cartesius, o nome dele em latim. O mesmo homem que inventou o eixo duvidou de que o mundo existisse.” Dulce abriu o livro. “O método, no Discurso, são quatro regras. Só aceitar como verdadeiro o que se vê com evidência. Dividir cada dificuldade em quantas partes forem precisas. Ir do mais simples ao mais complexo, em ordem. E revisar tudo no fim, para não deixar nada escapar.”

“Isso é engenharia.”

“É Descartes, e a engenharia herdou. Mas as Meditações, de 1641, vão mais fundo. Ele se apresenta sentado perto do fogo, de roupão de inverno, papel na mão, e decide jogar fora tudo o que possa ser posto em dúvida. Primeiro, os sentidos. Eles já nos enganaram: a torre que parece redonda de longe e é quadrada de perto. Depois, o sonho. Você já sonhou que acordava?”

“Três vezes na mesma noite.”

“Pois então. Como ter certeza de que agora não é sonho? Por fim, ele inventa o pior: um gênio maligno, poderoso e enganador, que o engana até em conta de somar. Tudo cai. Mas ele percebe uma coisa. Para ser enganado, alguém precisa existir. Mesmo que tudo seja engano, o que está sendo enganado está ali, pensando. E ele escreve, em latim, que eu sou, eu existo, sempre que penso nisso.”

Maitê pegou o livro com um cuidado novo. “‘Penso, logo existo.’”

“Essa frase que anda por aí é de outro livro, o Discurso. Nas Meditações ele escreve de outro jeito. Quem faz resumo de uma frase só mistura os dois.” A professora riu baixo. “Pulei o Nietzsche para lhe dar o Descartes antes. Livro não vem pela data. Vem pelo estado de quem lê.”

A dúvida limpa o terreno. Morar nela é outra coisa.

“Mas então ele fica sem nada.”

“Fica com pouco. Eu estou aqui, e estou duvidando. Dali ele reconstrói: prova que Deus existe, que o mundo existe, que o corpo e a mente são coisas distintas. Muita gente acha que essa segunda parte não se sustenta, e discutiu isso por quase quatro séculos. Mas o gesto é o que ficou: ninguém duvida por desespero ali. Ele duvida como quem limpa um terreno antes de construir. A dúvida é ferramenta. A sua, a que ronda sem método, é outra: não limpa nada, só deixa tudo sujo.”

“E ele terminou bem?”

“Foi convidado por uma rainha, a Cristina da Suécia, para lhe dar aula. Ela marcava as lições às cinco da manhã, e ele, que a vida toda ficara na cama até tarde, pegou uma pneumonia naquele inverno e morreu, em 1650.” Dulce se ergueu para ajudar um senhor que procurava um dicionário, porque era assim que a cadeira dela funcionava, e antes de ir deixou a conclusão. “O que sobra no terreno limpo é pouco, mas firme. Dá para pisar.”

Maitê pagou os trinta reais e ouviu, quando já saía, a pergunta do mês.

“Em que você confia a ponto de apostar a vida, e por quê?”

V

Camelo, Leão e Criança

Sobre uma estagiária que cumpria ordens e um livro que ensina a desobedecer com método

Em fevereiro vieram as primeiras chuvas, uma garoa fina que ainda não alagava nada e só deixava o Centro com cheiro de calçada molhada. Maitê chegou com a camisa do estágio e o capacete amarelo pendurado na mochila, e começou pela resposta, porque já era o jeito dela.

“Pensei em confiar na matemática. Aí lembrei que ele duvidou até dela. Então pensei no ensaio de tração. A gente pega um corpo de prova e puxa até romper, para saber quanto aguenta. Eu confio no que foi levado até quebrar e não quebrou.”

“Boa resposta.”

“Só que quase nada do que eu penso sobre a vida passou por ensaio nenhum.”

“Então tem trabalho”, disse Dulce, e o canto da boca subiu. “O que mais?”

O que mais era o estágio. Mandavam, ela fazia. O engenheiro responsável dava uma instrução, ela não concordava, executava assim mesmo, e à noite ficava remoendo.

“Eu faço porque é o certo”, disse. “Porque assim é que funciona. Porque sou a estagiária.”

“E gosta?”

“Não.”

Dulce balançou a cabeça devagar. “Então eu tenho um livro que vai te incomodar.”

Era um volume grosso, de capa preta, e quase toda página trazia sublinhados a lápis, de alguém que sublinhava com raiva. Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche. A professora contou primeiro do homem. Friedrich Nietzsche nasceu em 1844 numa aldeia da Prússia, filho e neto de pastores luteranos, e perdeu o pai aos quatro anos. Aos vinte e quatro já era professor de filologia clássica na Basileia. Mas vivia doente, com dores de cabeça e a vista fraca, e em 1879 largou a universidade. Passou o resto da vida lúcida como um andarilho, em quartos alugados na Suíça, na Itália e no sul da França, escrevendo à mão, com uma pensão modesta e poucos leitores.

“Ele mesmo conta que cada parte do Zaratustra saiu em dez dias”, disse. “O livro veio em quatro partes, entre 1883 e 1885. A quarta ele mandou imprimir por conta própria, em quarenta exemplares, e deu alguns de presente. Em janeiro de 1889, em Turim, desabou. Passou onze anos sem voltar a si, cuidado pela mãe e depois pela irmã, e morreu em 1900.”

“E a irmã?”

“A irmã é uma história triste. Casada com um homem antissemita, ela tomou conta dos papéis depois da queda dele, editou o que quis e deixou o nome do irmão, que desprezava antissemitas, nas mãos de quem o usaria como bandeira. Levou décadas de trabalho de estudiosos honestos para limpar isso.” Dulce pousou a mão no livro. “Por isso eu digo: desconfie de frase de Nietzsche solta em rede social. É a pior maneira de ler.”

Explicou que o livro era escrito em forma de poema e parábola, imitando o tom de um livro sagrado, só que de cabeça para baixo. Zaratustra, o personagem, passa dez anos sozinho numa montanha e desce para contar o que aprendeu. No caminho encontra um eremita velho que ainda não soube que Deus morreu.

“Não é piada, nem festa”, avisou. “Nietzsche via a Europa continuar vivendo por valores de uma crença que já não sustentava ninguém, e ninguém tinha combinado o que botar no lugar. Achava aquilo perigoso. E achava que era também uma chance.”

“E o que ele propõe?”

Dulce pegou um papel e desenhou com o lápis do cabelo três bichos. Era a passagem de que mais gostava, e a que mais dera certo em sala. O primeiro era o camelo, que se ajoelha e pede que lhe ponham carga. Cada peso que dão, ele aceita, porque lhe disseram que é o dever, e atravessa o deserto assim. No deserto vira leão. O leão diz “eu quero” e enfrenta um dragão que traz em cada escama a ordem “tu deves”. Mas o leão só sabe dizer não, e para criar falta-lhe uma coisa. É aí que vira criança: inocência, esquecimento, brincadeira, um começo, um sim.

“O camelo carrega o que mandaram”, resumiu. “O leão diz não. A criança inventa.”

“Eu sou camelo”, disse Maitê, olhando o capacete na mochila.

“É um camelo que reclama, e camelo que reclama já está pensando em ser leão.”

Ela riu, e a risada saiu entre o riso e outra coisa. A professora deixou passar e continuou. Na primeira cena do livro, Zaratustra chega a uma praça onde a multidão espera ver um equilibrista andar numa corda. Ele fala do além-homem, que alguns traduzem por super-homem e que nada tem a ver com herói de gibi: é quem cria o próprio valor em vez de herdar um pronto. Ninguém liga. Então muda de tom e descreve o último homem, aquele que não quer mais nada além de conforto, que pisca e diz que inventou a felicidade. A multidão ri e pede que lhe deem esse último homem.

Valor que ninguém escolheu pesa igual a valor que ninguém examinou.

“Tem ainda uma ideia mais pesada, que aparece em mais de um lugar do livro”, acrescentou. “Imagine que esta vida, do jeito que é, com cada dor e cada tarde sem graça, voltasse igualzinha, infinitas vezes. Você diria sim?”

“Hoje?”

“Hoje não precisa responder. Essa vem de brinde.”

Antes de lhe entregar o livro, avisou, com um cuidado que Maitê ainda não conhecia nela, que aquilo não era autoajuda. Era como subir um morro de pedra solta: a gente escorrega, se machuca, e quase nunca desce igual. Pediu que lesse em voz alta, devagar, porque aquelas frases foram escritas para o ouvido. Maitê pagou os trinta reais no caixa, abriu o guarda-chuva, e na saída ouviu o último dever do dia.

“Qual valor seu nunca foi seu?”

VI

O Garçom Que Representava Bem

Sobre uma tarde de enchente e um livro que não aceita que alguém diga que não teve escolha

Em março, a chuva de verdade. O Centro alagou duas vezes na mesma semana, e o sebo passou a manhã com baldes espalhados pelo corredor, por causa das goteiras, e o rapaz do caixa subindo caixas de livro para as prateleiras de cima. Dulce estava na cadeira de palhinha, com os pés apoiados numa caixa de papelão e um guarda-chuva aberto sobre a cabeça, porque havia uma goteira que não respeitava ninguém. Maitê chegou com a obra parada pela água, o tênis na mão e a meia ensopada, e ficou na entrada pingando no capacho.

“Pensei duas semanas”, disse. “O valor que nunca foi meu é ser a que nunca erra. Achei que fosse ambição. Era medo de decepcionar quem apostou em mim.”

“Quem apostou?”

“Todo mundo que falou que seria desperdício eu fazer outra coisa.” Torceu a barra da calça. “Eu nunca tive escolha, professora. Desde os dezessete foi tudo empurrado.”

Dulce a ouviu e foi até a estante do fundo, devagar, desviando dos baldes, sem responder. Trouxe um livro enorme, de capa dura, do tamanho de um tijolo. O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre. Mais de setecentas páginas, publicadas em 1943, com a França ocupada.

“Esse eu não vou lhe mandar para casa”, avisou. “Ninguém lê isso em um ano. Mas a ideia principal cabe numa frase, e ele mesmo deu uma palestra em 1945 para explicá-la a quem não era filósofo.” Tirou uma brochura fina da bolsa de pano. “Vou lhe dar essa. O tijolo fica de enfeite.”

Contou do homem. Sartre nasceu em Paris em 1905, perdeu o pai com um ano de idade e cresceu na casa do avô, um professor, entre livros que ele dizia ter lido antes de saber ler. Estudou na Escola Normal Superior e conheceu ali, em 1929, a filósofa Simone de Beauvoir, com quem viveu uma parceria de uma vida, sem casamento. Foi prisioneiro dos alemães em 1940 e 1941. Escrevia nos cafés de Paris, e depois da guerra virou o filósofo mais famoso da Europa. Em 1964 recusou o Nobel de Literatura, por achar que um escritor não devia virar instituição.

“Agora a ideia. Ele usa o exemplo de uma faca de cortar papel. Um artesão primeiro pensa para que ela serve e depois a fabrica. A função vem antes do objeto. Com gente, Sartre diz, é o contrário. Primeiro a pessoa aparece, sem manual e sem encomenda, e só depois vai se definindo pelo que faz. A existência vem antes da essência. Ninguém nasce já sendo covarde, ou engenheira, ou boa filha.”

“Então não existe natureza humana?”

“Não existe projeto pronto. Daí a frase famosa: condenados à liberdade. Condenados, porque ninguém pediu para ser livre. Livres, porque mesmo quando você se recusa a escolher, está escolhendo não escolher. Não existe lado de fora.” Dulce tamborilou na brochura. “Na palestra, ele conta de um aluno que foi lhe pedir conselho, em plena guerra. O irmão tinha morrido na invasão alemã, o pai era do lado errado, e a mãe só tinha ele. Devia ficar cuidando da mãe ou ir lutar na França Livre? Sartre respondeu que ele era livre e devia escolher, isto é, inventar. Nenhuma regra de moral decidia por ele.”

“Que resposta cruel.”

“Ou a única honesta. Se ele tivesse ouvido uma regra, estaria só trocando de dono.”

Maitê enxugou o rosto com a manga. “A senhora está dizendo que a culpa é minha.”

“Culpa, não. Autoria. É diferente.” A professora ajeitou o guarda-chuva sobre a cabeça. “Sartre descreve um garçom de café que eu acho que você conhece. Ele se mexe com precisão demais, se inclina demais, carrega a bandeja demais, como quem faz o papel de garçom para se convencer de que é só aquilo. É a fuga mais comum que existe: dizer ‘eu sou assim’, ‘é o meu cargo’, ‘é o que esperam de mim’. Ele chama isso de má-fé. Você esconde a escolha atrás do papel. Ah, e quem cita ‘o inferno são os outros’ como se fosse do tijolo está errado. É de uma peça de teatro, de 1944.”

“Mas tem gente que não tem escolha de verdade!”

“Tem, e Sartre sabe. Ele viveu uma ocupação. Ninguém aí está dizendo que pobreza, doença ou ditadura não empurram. Empurram.” Dulce falou devagar, para que a frase ficasse. “O que ele diz é que, mesmo dentro de pouco espaço, a pessoa ainda responde ao que lhe fazem. A circunstância empurra. Quem desce a ladeira continua sendo quem desce.”

Ser empurrado não tira de ninguém a assinatura da descida.

Maitê ficou calada, olhando o balde. A goteira batia no fundo de lata com um som de relógio lento. Pensou no dia em que preencheu a matrícula, na facilidade de dizer sim e deixar que todo mundo estivesse certo por ela. Tinha achado, na época, que sim era a única resposta possível.

“Todo mundo disse”, falou enfim. “Mas fui eu que assinei.”

“Foi.”

“Custava caro não assinar.”

“Custava. A cara da família, um semestre perdido, o medo de errar de novo. Mas era sua.” A professora tocou o ombro dela, dessa vez com a mão inteira. “Não estou dizendo que era fácil. Estou dizendo que era sua. E quem descobre isso cedo ainda tem tempo de uma porção de outras escolhas.”

Ela pagou os trinta reais da brochura no caixa, e a água que escorria do guarda-chuva dela se juntou à dos baldes. Já na entrada, voltou-se, porque a pergunta do dia ainda não tinha sido feita, e dessa vez foi ela quem esperou.

“Onde você disse ‘não tive escolha’ e tinha?”

VII

A Pedra e a Encosta

Sobre uma tarde de maio e um livro que começa pela pergunta mais difícil

Em maio a chuva afinou, e a cidade voltou a ter céu. Dulce, não. Maitê notou na entrada: a professora estava mais devagar, com um cansaço que não era só da idade, e tossiu duas vezes antes de levantar o rosto. Ela já ia começando a resposta quando Dulce pediu que subisse na escada de rodinhas e pegasse um livro na última prateleira. Enquanto Maitê subia, foi a professora quem segurou a escada, com o pé firme na base e a mão trêmula num degrau.

“Eu me matriculei numa optativa de filosofia”, disse ela lá de cima, entre uma estante e outra. “Custou o horário do laboratório, que ia ser mais confortável. Meus colegas acharam estranho. Eu não disse que não tive escolha.”

“E como foi dizer?”

“Foi esquisito. E foi meu.”

Dulce sorriu sem dizer nada, com a mão ainda no degrau.

“Esse é o último dos sete”, disse, quando ela desceu. “E é o menor.”

Era um volume magro, quase panfleto, de capa descolorida. O Mito de Sísifo, de Albert Camus, um ensaio de 1942. Dulce o virou nas mãos, sopesando-o, e contou do homem. Camus nasceu em 1913 na Argélia, então colônia francesa. O pai morreu na guerra, em 1914, quando ele era bebê. A mãe, quase surda, mal sabia ler e limpava casas, e a família vivia num bairro pobre de Argel. Um professor primário, Louis Germain, viu o talento do menino e fez com que ele disputasse uma bolsa. “Eu sempre contei essa parte para os calouros”, disse. “Um professor de escola primária, que ninguém conhece, muda o rumo de um Nobel. Aos dezessete, a tuberculose acabou com o futebol, onde ele era goleiro, e com a ideia de que a vida lhe devia alguma coisa. Estudou filosofia, virou jornalista e, durante a ocupação, editou um jornal clandestino da Resistência. Em 1942 publicou o romance O Estrangeiro e, no mesmo ano, o Sísifo. Ganhou o Nobel em 1957, aos quarenta e quatro anos. Morreu em 1960, num acidente de carro, com uma passagem de trem que não chegou a usar no bolso.”

“A primeira frase do livro é a mais dura de todas, e eu vou lhe dizer sem enfeite, porque é assim que se diz. Ele escreve que o único problema filosófico realmente sério é o suicídio. Quer dizer: julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida.” Maitê ficou imóvel, e a professora esperou um pouco antes de continuar. “Escute o resto antes de se assustar. Ele faz a pergunta mais pesada que existe para poder recusar a saída. Não por esperteza. Por teimosia de viver.”

Explicou o que Camus chamava de absurdo. Não estava no mundo, nem na gente, mas no encontro dos dois: de um lado, o desejo humano de entender, de que tudo faça sentido; do outro, o silêncio de um mundo que não responde. Diante disso, havia quem desse um salto, que era acreditar numa esperança fora do mundo, e quem desistisse. Camus recusava os dois. Ficava no meio, de olhos abertos.

Dulce apanhou o celular de Maitê, pousado no braço da cadeira, e achou a imagem de agosto, a lista dos sete livros, com o resumo do último.

“Isso aqui diz que o livro afirma que a vida tem sentido. Afirma o contrário, e é por isso que o livro presta.”

Quando o sentido não vem de fora, disse, sobram três coisas, que Camus tira como consequências. A revolta: continuar olhando de frente, sem fingir resposta. A liberdade: se ninguém entrega o sentido pronto, ninguém tem o direito de mandar nele. E a paixão: viver o máximo possível, em quantidade e em intensidade, sem garantias.

“Parecido com Sartre”, disse Maitê.

“Parecem, e os dois foram amigos, até que um livro de Camus os separou, em 1952. Camus nunca aceitou ser chamado de existencialista. Sartre diz: você é livre, escolha e responda por isso. Camus diz: o mundo não responde, escolha assim mesmo, de olhos abertos.” A professora deu um meio sorriso. “E Sísifo?”

“Eu conheço a pedra.”

“Os deuses o condenaram a empurrar uma pedra até o topo de um morro, e a pedra rola de volta, e ele desce, e empurra de novo, para sempre. Parece o castigo perfeito. Mas Camus repara no momento em que Sísifo desce para buscá-la. Ele sabe o que o espera. E é naquela descida, de olhos abertos, que a pedra passa a ser dele. Camus termina dizendo que é preciso imaginar Sísifo feliz.”

A pedra é a mesma. Quem a empurra de olhos abertos já não é o mesmo.

“Feliz como propaganda?”

“Não. Feliz como quem sabe e continua. É outra felicidade.” Tossiu de novo, e se recompôs. “Tem lista e vídeo que entregam isso como motivação. Não é. É lucidez com teimosia.”

Maitê abriu o livro, passou os olhos por uma página e o fechou. “Eu queria um gabarito, no começo. Lembra?”

“Lembro. Hoje eu lhe dou o contrário: um enunciado sem gabarito. E você continua resolvendo.”

Maitê perguntou se ela acreditava naquilo. Dulce fechou o livro devagar, com o polegar entre as páginas, e respondeu que acreditava que a pergunta era boa. Já tinha respondido a ela cinco ou seis vezes na vida, e a resposta, toda vez, mudara de lugar.

“Essa pergunta é a do dia”, disse. “Dá para viver bem sem que o mundo responda?”

Esperou um instante.

“E essa eu também ainda estou respondendo.”

Saíram juntas às cinco e pouco, Dulce apoiada no braço de Maitê, pelo corredor dos livros sem valor até a calçada. Caminharam devagar até o ponto de ônibus perto da Praça José de Alencar, sem falar. Lá, a professora pousou a mão no ombro dela e perguntou as horas. Maitê levou a mão ao bolso, achou o celular e o deixou onde estava.

“Não sei”, disse.

Dulce achou graça.

VIII

O Que Ficou na Margem

Sobre um julho de vento e uma caixa de papelão deixada para trás

Na terça seguinte a cadeira de palhinha estava vazia, e na quinta também. O rapaz do caixa disse que dona Dulce nunca faltava duas vezes seguidas, mas que também nunca soube onde ela morava, nem o sobrenome. Maitê deixou o recado de que voltaria, e voltou, com a mochila num ombro só, e o vento de julho já tinha reaparecido na rua 24 de Maio quando ela viu, na terceira terça, que a cadeira continuava sem ninguém, com a lupa de cabo de osso esquecida no assento.

Foi nessa tarde que uma mulher de blusa verde parou diante do caixa, com um molho de chaves numa mão e uma caixa de papelão debaixo do braço, e perguntou se uma moça de mochila aparecia por ali às terças e quintas. O rapaz apontou. A mulher se chamava Marta, e era sobrinha. Disse que a tia morrera numa terça, em casa, durante o sono, e fora enterrada no sábado. Disse que tinha achado, entre os papéis, um recado com o nome do sebo e a descrição de uma moça com pressa, e que viera três vezes antes de acertar o dia. Maitê ficou parada, com a lupa na mão, e quis perguntar quantos anos a professora tinha e viu que nunca soubera.

“Ela deixou isto”, disse Marta. “Escreveu na tampa: para a moça da mochila, do sebo. Falou que você ia entender.”

Dentro da caixa havia um lápis curto, mordido na ponta, e um caderno escolar de capa dura. Maitê sentou na cadeira de palhinha, que rangeu como sempre, e o abriu no colo. Eram sete páginas escritas, uma para cada tarde: a data, o nome do livro e, logo abaixo, a pergunta daquele dia, na letra miúda e reta de quem corrigiu prova a vida inteira. A caverna, a lira, o acampamento, o homem de roupão, o camelo, o garçom, a pedra. Embaixo de cada pergunta, um espaço em branco do tamanho de uma resposta.

Passou os dedos pelo papel e viu que a primeira página trazia a data de agosto, em letra firme, e que nas últimas a letra tremia. Não havia bilhete, nem recado, nem conselho. A professora tinha feito o que sempre fez: entregar a pergunta e sair da frente.

Marta ficou um momento calada, mexendo nas chaves. Disse que não tinha pressa de arrumar os livros da tia, e que podia deixar a caixa com quem soubesse o que fazer com ela. Maitê assentiu. Ajeitou a ponta do lápis na unha e abriu o caderno na primeira página, onde estava a pergunta da sombra. Leu devagar. Depois foi à última, a da pedra, e ficou ali um bom tempo, com a ponta do lápis sobre o espaço em branco.

Escreveu uma linha. Apagou. Escreveu de novo, mais curta, e dessa vez deixou. O que ela escreveu é dela.

Levantou-se com o caderno na mão, e a cadeira, aliviada, rangeu de novo. Na saída, o vento de julho entrou pelo corredor e virou as páginas para um lado e para o outro, e ela não correu para fechá-las.

Uma pergunta por tarde,
sete tardes num ano de vento e de chuva.

A sombra na parede,
a lira, o acampamento,
o roupão junto ao fogo,
o camelo que reclama,
o garçom que escolhe
e a pedra que desce com quem a empurra.

Ninguém lhe entregou a resposta.
Deixaram o lápis,
o espaço
e o vento virando as páginas.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem já entrou num sebo atrás de uma resposta e saiu com uma pergunta melhor.

Ainda aprendendo a ler as margens, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura, I e II · a pressa que entrou no sebo, a caverna e a lira
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