Ensaio · Absurdo · Escrito XXX
A Pedra, o Pássaro e o Rio
O mito de Sísifo lido a partir de quatro tradições que já sabiam o que fazer com a repetição eterna
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I
O herói absurdo
II
O pássaro e o mar
III
A roda que gira
IV
Lenha e água
V
A água e a pedra
Sísifo foi, segundo os gregos, o mais astuto dos mortais, e sua astúcia é o que explica o tamanho do castigo que recebeu. Rei de Corinto, ele enganou a própria morte não uma, mas duas vezes. Na primeira, quando Tânatos, a personificação da morte, foi até ele para levá-lo, Sísifo o convenceu a experimentar as próprias algemas que trazia consigo, e as fechou nele, prendendo a morte e impedindo, por um bom tempo, que qualquer mortal no mundo pudesse morrer. Na segunda, já no além, conseguiu persuadir Hades a deixá-lo retornar brevemente ao mundo dos vivos, sob o pretexto de repreender a própria esposa por não ter realizado os rituais fúnebres corretos. Uma vez de volta à luz do sol, Sísifo simplesmente se recusou a voltar, vivendo mais alguns anos até a morte finalmente alcançá-lo de verdade.
Por essa insolência repetida contra a ordem cósmica, os deuses não escolheram para ele um castigo de dor, nem de fogo, nem de tormento físico convencional. Escolheram algo mais preciso e, de um jeito estranho, mais assustador: condenaram-no a empurrar uma pedra enorme montanha acima, para sempre. Toda vez que a pedra se aproxima do topo, ela escapa de suas mãos e rola de volta ao ponto de partida, obrigando Sísifo a descer e recomeçar. Não há conclusão possível. Não há acúmulo de progresso de um dia para o outro. Há apenas a garantia absoluta de que amanhã será, em cada detalhe relevante, idêntico a hoje.
É essa estrutura, não a dor física, que torna o castigo de Sísifo um dos mitos mais reaproveitados da história do pensamento humano. Porque a experiência de empurrar algo que nunca chega a lugar nenhum, de repetir uma tarefa sem progresso cumulativo visível, não é exclusividade de reis gregos condenados por deuses. É, em maior ou menor grau, a textura de boa parte da vida comum. E por ser tão universal, a pergunta que o mito levanta atraiu, ao longo dos séculos, respostas de tradições muito distintas entre si, que raramente são colocadas para conversar na mesma sala. Este ensaio propõe justamente essa conversa: a leitura ocidental mais famosa do mito, seguida por três respostas orientais que chegaram, cada uma por caminhos próprios, a formas distintas de lidar com a mesma pedra.
I
O herói absurdo
Sobre Camus e a decisão de imaginar Sísifo feliz
A leitura mais conhecida do mito no mundo ocidental vem de Albert Camus, que fez de Sísifo o símbolo central de toda a sua filosofia do absurdo. Para Camus, o absurdo nasce do choque entre a necessidade humana de sentido e o silêncio do universo diante dessa necessidade. Não há resposta cósmica que justifique o sofrimento, nem punição que corresponda proporcionalmente à culpa, nem garantia de que o esforço será recompensado. O mundo, simplesmente, não responde às perguntas que fazemos a ele. Sísifo, empurrando a pedra sem esperança de conclusão, é a imagem mais pura dessa condição.
O momento mais revelador do mito, para Camus, não é o esforço de empurrar a pedra montanha acima. É a descida. Enquanto empurra, Sísifo está ocupado, absorvido pela tarefa física, quase sem espaço mental para refletir sobre o próprio destino. Mas quando a pedra rola e ele começa a caminhar de volta, montanha abaixo, com as mãos vazias, ele tem, segundo Camus, plena consciência do que o espera. Sabe exatamente que vai recomeçar a mesma tarefa, sem alteração, sem esperança de que desta vez será diferente. É nesse instante de lucidez total, caminhando sozinho de volta à base da montanha, que Camus localiza a verdadeira dignidade do personagem.
Sísifo não finge que a pedra vai ficar no topo algum dia. Não inventa um deus que vai recompensá-lo depois. Encara o próprio destino sem véu nenhum, e ainda assim decide continuar.
É por isso que Camus termina seu ensaio filosófico com a frase que se tornaria uma das mais citadas do século vinte: é preciso imaginar Sísifo feliz. Não porque a tarefa deixou de ser absurda, mas porque a felicidade, para Camus, nunca dependeu de a tarefa fazer sentido. Dependeu, sempre, da lucidez com que se decide continuar empurrando mesmo sabendo que não fará sentido algum. A revolta de Sísifo não está em vencer a pedra, algo que ele jamais conseguirá. Está em recusar-se a ser vencido por dentro, mesmo sendo vencido por fora, todos os dias, para sempre.
II
O pássaro que tenta preencher o mar
Sobre o mito chinês de Jingwei, e a diferença entre punição e luto
Muito antes de Camus escrever sobre Sísifo, e muito longe da Grécia, a tradição chinesa registrou, no Clássico das Montanhas e dos Mares, um mito com uma estrutura estranhamente parecida, mas nascida de uma motivação completamente diferente. Conta-se que Nüwa, filha do lendário Imperador Yan, afogou-se no Mar Oriental enquanto navegava. Sua alma, incapaz de aceitar aquela morte, transformou-se num pequeno pássaro de cabeça listrada, que passou a ser chamado Jingwei. Todos os dias, desde então, o pássaro voa até as montanhas, apanha pequenos gravetos e pedrinhas com o próprio bico, e os deixa cair no oceano que a matou, na tentativa de preenchê-lo completamente e, assim, vingar-se dele.
A tarefa, evidentemente, nunca vai terminar. O oceano é imenso, o pássaro é minúsculo, e não existe quantidade de pedrinhas capaz de fechar essa conta. Nesse sentido estrutural, Jingwei enfrenta exatamente o mesmo tipo de repetição infinita e aparentemente fútil que Sísifo enfrenta na montanha. Mas há uma diferença que muda tudo, e que a leitura ocidental do mito grego às vezes deixa escapar por estar focada demais na questão da punição divina: Sísifo é condenado por outros, de fora, como castigo por uma transgressão específica. Jingwei escolhe a própria repetição eterna, de dentro, como resposta ao luto e como desafio lançado contra a força que a matou.
Um carrega a pedra porque foi obrigado. O outro carrega pedrinhas porque decidiu, por conta própria, que a dor da perda exigia alguma forma de resposta, mesmo sabendo que essa resposta jamais seria suficiente.
A tradição chinesa não lê Jingwei como vítima de um castigo cruel. Lê como símbolo positivo de determinação diante do impossível, frequentemente invocado em contextos de perseverança contra obstáculos que parecem maiores do que qualquer esforço individual poderia superar. A mesma estrutura de repetição infinita, olhada de outro ângulo cultural, deixa de ser punição e se torna, em vez disso, uma forma de honrar aquilo que se perdeu, continuando a agir mesmo sem esperança realista de vitória completa.
III
A roda que gira sem parar
Sobre samsara, karma e a busca indiana pela saída da repetição
A tradição védica e hindu oferece uma resposta de escala completamente diferente das duas anteriores. Em vez de um único indivíduo condenado, ou um único pássaro em luto, o hinduísmo descreve a repetição infinita como condição cósmica universal, que atinge, sem exceção, toda alma existente. Samsara é o nome desse ciclo: nascimento, vida, morte, e renascimento, repetidos indefinidamente, movidos pelas leis do karma, as consequências acumuladas de ações passadas que determinam as circunstâncias de cada nova existência. Nessa visão, todos empurram a própria pedra, vida após vida, sem exceção alguma, até que consigam, através de disciplina espiritual sustentada ao longo de muitas encarnações, alcançar moksha, a libertação definitiva do ciclo inteiro.
É aqui que este ensaio encontra sua tensão filosófica mais rica. Camus recusa, de forma explícita e insistente, qualquer saída transcendente para o problema do absurdo, chamando essa recusa de fidelidade honesta à condição humana real, sem promessas que a razão não pode sustentar. A tradição hindu propõe exatamente o oposto: uma saída real, buscada com absoluta seriedade ao longo de milênios de prática espiritual organizada, com métodos, disciplinas e mestres dedicados inteiramente a encontrar o caminho para fora da roda.
O Bhagavad Gita, texto sagrado que já apareceu de relance em ensaios anteriores desta coleção, oferece uma ponte inesperada entre essas duas posições aparentemente inconciliáveis. O conceito de karma yoga ensina que se deve agir com excelência total dentro do próprio dharma, cumprindo os deveres muitas vezes repetitivos da existência cotidiana, sem se apegar aos frutos dessa ação, sem calcular se o esforço vai ou não ser recompensado. É a disciplina que se pratica enquanto a libertação final ainda não chegou, e que pode levar, segundo essa tradição, muitas vidas inteiras até se completar.
Para o hinduísmo, existe um horizonte final onde a roda para de girar. Para Camus, a roda nunca para, e fingir que vai parar seria a própria definição de má-fé filosófica. Mas o gesto interno pedido em ambos os casos é surpreendentemente parecido.
IV
Cortar lenha, carregar água
Sobre o zen budismo e a repetição depois da iluminação
Há um dito muito conhecido na tradição zen que costuma ser mal compreendido na primeira leitura: antes da iluminação, cortar lenha, carregar água. Depois da iluminação, cortar lenha, carregar água. Lido rapidamente, o dito parece sugerir que a iluminação espiritual não muda absolutamente nada na vida prática de quem a alcança, o que soaria como um argumento contra qualquer busca espiritual séria. Mas essa leitura superficial perde o que o dito realmente ensina, que é bem mais sutil, e curiosamente mais próximo da resposta de Camus do que qualquer outra tradição oriental discutida até aqui neste ensaio.
As tarefas repetitivas da existência não desaparecem com a sabedoria, nem com décadas de meditação, nem com nenhum tipo de despertar espiritual, por mais profundo que seja. O que muda, segundo essa tradição, não é a tarefa, é a relação interna estabelecida com ela. Antes do despertar, cortar lenha era fardo, um meio penoso para um fim distante, um obstáculo tedioso a ser vencido a caminho de outra coisa supostamente mais importante. Depois do despertar, cortar lenha deixa de ser meio para se tornar o próprio caminho, praticado com atenção plena, sem a resistência interna que antes transformava a tarefa simples numa fonte constante de sofrimento psicológico.
Essa aproximação entre o zen e Camus merece ser notada com cuidado, porque nenhum dos dois promete escapar da pedra, do mesmo jeito que nenhuma das outras tradições ocidentais discutidas prometeu isso. Os dois, cada um a seu modo, propõem uma mudança na postura de quem empurra, não uma fuga da tarefa em si. Mas o caminho até essa aceitação é radicalmente diferente entre as duas tradições. Camus chega até ali através da razão lúcida e de um gesto quase combativo de revolta consciente contra o absurdo. O zen chega a uma aceitação muito parecida por um caminho oposto: o esvaziamento gradual do ego que insiste em julgar cada tarefa como boa ou ruim, agradável ou tediosa.
Dois caminhos filosoficamente distantes, um ocidental e racional, outro oriental e contemplativo, chegando a um destino estranhamente parecido: fazer a mesma coisa, indefinidamente, sem que essa repetição destrua por dentro quem a realiza todos os dias.
V
A água que não briga com a pedra
Sobre o taoismo, wu wei, e a possibilidade de nunca ter sido preciso revoltar-se
Fecha este ensaio a tradição que oferece a proposta mais radicalmente distinta de todas as que já foram discutidas. O taoismo de Lao Tzu introduz o conceito de wu wei, frequentemente traduzido de forma simplificada como não-ação, mas que descreve, com mais precisão, uma ação que não força contra a natureza intrínseca das coisas, que se move de acordo com o fluxo natural dos acontecimentos em vez de tentar impor sobre eles uma vontade estranha.
Lao Tzu recorre, repetidamente, à imagem da água para ilustrar esse princípio. A água é, segundo ele, a coisa mais cedente que existe no mundo, e justamente por isso, a mais poderosa. Ela nunca briga com a pedra que encontra pelo caminho. Simplesmente contorna, flui ao redor do obstáculo, encontra a fenda mais fina e escorre por ela, e ao longo de tempo suficiente, desgasta e esculpe a própria pedra até transformá-la em outra coisa, sem jamais ter travado batalha alguma contra ela. A força da água não está na resistência que ela oferece. Está, paradoxalmente, na ausência completa de resistência.
Sob essa luz específica, a pergunta que este ensaio vem perseguindo desde a abertura, seja revoltar-se contra a repetição como Camus propõe, escapar dela como o hinduísmo busca, ou aceitá-la contemplativamente como o zen ensina, ganha uma quarta possibilidade que nenhuma das tradições anteriores chegou a oferecer com a mesma radicalidade: talvez a pedra e a montanha nunca tenham sido, de fato, um inimigo a ser enfrentado de nenhuma dessas três formas. As estações do ano se repetem indefinidamente, ano após ano, e ninguém, em circunstância normal, as chama de absurdas ou trágicas. O rio corre até o mar e retorna como chuva, repetindo esse ciclo há bilhões de anos, sem que essa repetição pareça, a nenhum observador atento da natureza, motivo de tragédia existencial.
Lao Tzu sugere que talvez Sísifo só precisasse deixar de enxergar a própria tarefa como imposição hostil vinda de fora, e passasse a enxergá-la como parte do ritmo natural das coisas, tão desprovida de drama quanto o nascer do sol.
Essa é a resposta mais silenciosa entre as quatro apresentadas neste ensaio, e talvez, por isso mesmo, a mais difícil de aceitar para uma sensibilidade formada dentro da tradição ocidental, que tende a valorizar o confronto, a revolta e a superação como sinais de dignidade humana. Lao Tzu propõe, em vez disso, que a dignidade também pode residir em deixar de lutar contra aquilo que, de todo modo, sempre vai se repetir.
Um grego empurra a pedra e se revolta.
Um pássaro chinês carrega pedrinhas e não desiste.
Um hindu gira na roda e busca a saída.
Um monge corta lenha, sem julgar a lenha.
Um rio mais antigo que todos eles
nunca perguntou se devia continuar correndo.
Quatro respostas.
Nenhuma errada.
Talvez a pergunta nunca tenha sido
como escapar da pedra.
Talvez fosse sempre
que tipo de mãos
você decide ter,
enquanto ela sobe.
Dedicatória
Este escrito é dedicado aos trabalhadores anônimos, que dia após dia nos entregam preciosas horas da sua vida em troca de esperança.
Descendo a montanha, de mãos vazias e cabeça erguida, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?