Escólio · Crime e Castigo · Escrito CLX
O Crime Começa Antes do Golpe
Sobre Raskólnikov, a teoria que queria transformar assassinato em ideia e a culpa que nenhuma inteligência consegue abolir
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Aba I
Abertura, I e II · A alça, o quarto e a velha
Aba II
III e IV · O homem de carne e o investigador
Aba III
V e VI · Sônia, Svidrigáilov e Dúnia
Aba IV
VII a IX · Bakhtin, Levinas e o budismo
Aba V
X a XII · A confissão, Quincas Borba e a alça desfeita
Um homem costura, por dentro do casaco, uma alça de pano.
Faz isso sentado, com as mãos tremendo, num quarto onde mal cabe de pé, e confere o resultado como quem corrige um desenho: a alça fica sob a axila esquerda, onde nada aparece do lado de fora. Ele pensou nisso com cuidado. Não dá para atravessar uma rua com um machado na mão, e escondê-lo sem apoio denunciaria o braço rígido. A alça resolve. A cabeça do machado fica presa, a mão no bolso segura o cabo para que não balance, e o casaco largo, quase um saco, cobre o resto.
Sobre a mesa há uma tábua fina e uma tira de ferro embrulhadas em papel e amarradas com um nó difícil. Parecem uma cigarreira de prata. Servem para prender o olhar de alguém por um segundo.
Antes disso, ele contou os passos até a porta. Já os contara uma vez sem querer, perdido em pensamentos, e agora sabe de cor: setecentos e trinta, nem um a mais. Diz a si mesmo que vai ao lugar para um ensaio, e usa mesmo essa palavra.
Nada aconteceu ainda. Ninguém foi ferido, nenhuma lei foi quebrada, a polícia não tem o que olhar. Mas um objeto foi costurado por dentro de uma roupa, uma distância foi medida em passos, e uma mentira foi embrulhada em papel.
Ele se levanta, veste o casaco e se olha de lado, com a mão no bolso, para conferir se alguém notaria.
O casaco cai bem.
I
O Quarto e a Teoria
Sobre o lugar onde uma ideia cresce sozinha
O homem do casaco se chama Raskólnikov, e o livro em que ele vive é Crime e Castigo, publicado em 1866 por Fiódor Dostoiévski. Quem o escreveu sabia o que era esperar uma pena. Dostoiévski nasceu em Moscou, em 1821, e em abril de 1849 foi preso por frequentar um círculo de jovens que discutia ideias socialistas. Em dezembro daquele ano levaram os condenados a uma praça de São Petersburgo para o fuzilamento. A ordem do czar chegou no último instante: tudo era encenação, e a pena virou quatro anos de trabalhos forçados num presídio de Omsk, na Sibéria, seguidos de serviço militar. Quando voltou, escreveu Memórias da Casa dos Mortos e Notas do Subsolo. Em 1866, afundado em dívidas, depois de perder a esposa e o irmão, publicou o romance de um homem que mata e depois precisa continuar vivendo.
Este escrito é uma anotação à margem desse livro. Não o resume inteiro. Pergunta por que o crime ficou pronto antes do golpe.
Raskólnikov mora num quarto miserável sob o telhado, quase um armário, e a febre e a pobreza o separaram dos outros. O espaço é a forma física de um pensamento que se fecha sobre si. Dostoiévski já mostrara esse tipo em Notas do Subsolo, num homem que prefere ruminar a ideia a viver entre gente. A mãe e a irmã chegam por carta. Marmieládov, um bêbado de taverna, entrega a Raskólnikov a história da própria humilhação e, com ela, a de Sônia, a filha que se vende para sustentar a família. A cidade está cheia de pessoas que sofrem, e Raskólnikov faz desse sofrimento matéria da sua teoria.
A pobreza ajuda a explicar o crime. Não o explica inteiro. O romance diz já na primeira página que ele está esmagado pela pobreza, e o pesquisador Roberto Wu, da Universidade Federal de Santa Catarina, lembra o ambiente intelectual em que a história nasce. Nos anos 1860, parte da juventude russa acreditava que o crime era produto do meio e que a ciência, o progresso e o cálculo do bem geral o fariam desaparecer. Tchernichévski, em Que Fazer?, defendia um "egoísmo racional", herdeiro do utilitarismo: quem soubesse o que é melhor para todos agiria assim. Dostoiévski dá essa tese à voz de um homem inteligente e a deixa encontrar uma cabeça humana.
Um quarto sem ninguém de quem discordar é a melhor estufa para uma ideia.
Raskólnikov não mata só porque sofre. Mata porque quer saber se é do tipo de homem que pode decidir quem deve sofrer em nome de um futuro melhor. A privação construiu o quarto. O orgulho abriu nele uma saída por cima da humanidade comum.
II
A Velha Que Virou Ideia
Sobre o dia em que uma pessoa passa a ter função
Aliena Ivánovna é uma agiota. Explora a necessidade dos pobres, guarda os objetos que eles penhoram e parece a Raskólnikov uma vida de pouco valor que só produz dano. O crime ganha forma quando ele deixa de ver a mulher e passa a ver o papel: a usurária, o parasita, a vida inútil, o obstáculo cuja remoção libertaria dinheiro para muitas outras vidas.
O raciocínio tem cara de conta. Raskólnikov escrevera um artigo em que dividia a humanidade em ordinários, que obedecem à lei, e extraordinários, a quem seria permitido passar por cima dela quando isso abrisse caminho para uma ordem nova. O exemplo dele era Napoleão. Em outro momento, o argumento veste uma roupa de ciência: se as descobertas de Kepler e Newton só pudessem chegar ao mundo à custa de dez ou cem vidas, Newton teria o direito, e até o dever, de eliminá-las. Na teoria, a velha cabe na conta com folga.
A conta fecha com folga até alguém entrar na sala.
A realidade tem o péssimo hábito de devolver singularidade aos conceitos. A velha não morre como "a usurária". Morre como alguém diante de um machado. O corpo não é uma categoria, e o sangue não é nota de rodapé. A ação que parecia cálculo vira uma sequência de gestos difíceis, desordenados e irreversíveis.
Então entra Lisavieta, meia-irmã da velha, que chega sem ter sido convocada pela teoria. Raskólnikov a mata para não ser descoberto. A segunda morte é o fracasso da abstração. Ele queria cometer um crime de autor e descobre que um crime é uma cadeia de acontecimentos que ninguém controla por inteiro.
III
O Homem Que Não Era de Bronze
Sobre a teoria que previu o próprio fracasso
Raskólnikov não quer saber só se a velha merece morrer. Quer saber se ele consegue atravessar a morte sem se quebrar. Mais tarde, na confissão a Sônia, ele despe a própria teoria. Não matou para ajudar a mãe, nem para virar benfeitor da humanidade, nem para ficar com o dinheiro. Matou, diz, sem casuística, para si, porque precisava saber se era "um piolho, como todos, ou um homem". A velha era o objeto visível. O alvo era ele.
O detalhe mais cruel é que a teoria tinha previsto o fracasso. Em suas ruminações, Raskólnikov pergunta por que quase todos os crimes são descobertos, e responde que o criminoso, justo na hora em que mais precisa de razão e de precaução, sofre um eclipse da vontade e da razão e age com uma imprudência quase infantil. O extraordinário, pensava ele, estaria imune a esse eclipse. Então Raskólnikov mata e deixa a porta aberta. Desmaia, volta à cena do crime, fala demais. O crítico Edward Wasiolek resumiu o enredo numa frase seca: Raskólnikov quer ser pego.
Ele tenta se consolar com os grandes. Napoleão esmagou, tomou, sacrificou exércitos e saiu da história como ídolo. Raskólnikov conclui que esses homens não eram de carne, eram de bronze. Ele é de carne. Pode repetir que a velha era nociva, que o dinheiro ajudaria a mãe e a irmã, que a história está cheia de violências maiores. Cada argumento volta ao mesmo ponto: ele não conseguiu fazer do assassinato uma ideia distante o bastante para deixar de sentir o peso de uma pessoa morta.
O corpo é um argumento que a inteligência não consegue vencer.
O fracasso não prova só que ele é sensível. Prova que a teoria era mais fraca do que o corpo que pretendia dominar.
IV
Porfíri e o Castigo Antes da Sentença
Sobre o castigo que não precisa correr
Porfíri Pietróvitch, o juiz de instrução, não é o policial que junta pistas até prender o culpado. Percebe que Raskólnikov já mora dentro do crime. Conversa, insinua, deixa espaços, volta ao artigo do homem extraordinário para ver o efeito no próprio autor. Num momento ironiza: talvez os extraordinários devessem usar algum uniforme, para não serem confundidos com os ordinários. Raskólnikov responde que só os ordinários cometeriam essa confusão, e que a diferença obedece a uma lei natural ainda desconhecida. É uma boa resposta. É também a resposta de alguém que precisa muito de que ela seja verdade.
Porfíri entende que, para certos crimes, a primeira punição é continuar existindo dentro da explicação que se inventou para agir. Raskólnikov não consegue estar com os outros sem suspeitar que veem o seu rosto verdadeiro. A culpa não chega como uma voz dizendo "você fez o mal". Chega como desorganização: febre, desmaio, irritação, orgulho, vontade de confessar e vontade de negar na mesma tarde. Ele quer ser descoberto e quer provar que ninguém o descobre, porque as duas vontades servem ao mesmo desejo, parar de viver dividido.
Porfíri lhe dá dois dias, aconselha a confissão e não o prende. Quando um pintor se declara culpado por engano, é a confissão de Raskólnikov que o livra da condenação. E porque o investigador guardou silêncio sobre o que sabia, a confissão pôde ser livre, e a pena saiu mais leve. Ele não coloca a culpa em Raskólnikov. Retira as distrações que permitiam não vê-la.
V
Sônia Não Oferece Desculpa
Sobre a dupla recusa
Sônia vive sob outra forma de brutalidade. Para sustentar a família, se prostitui, e a sociedade que a condena é a mesma que a empurra para a condição que depois usa como motivo de condenação. O romance não a apresenta como alguém que venceu a miséria por força de caráter. A bondade dela não apaga a violência da situação. E Sônia também não se absolve: diz a Raskólnikov que é uma grande pecadora.
Por isso a relação entre os dois não cabe na fórmula "a moça pura salva o criminoso". Sônia sabe que uma pessoa pode ser esmagada pelas circunstâncias sem deixar de responder pelo que faz. Não transforma o crime em desculpa social e não reduz Raskólnikov ao crime. Essa dupla recusa é o que permite que ela o acompanhe. Ele quer falar de motivos, de teorias, de condições, de Napoleão, de utilidade. Ela insiste no que a teoria não comporta: duas pessoas morreram, e ele precisa reconhecer isso sem procurar, no mesmo instante, uma fórmula que o ponha acima da dor.
Acompanhar sem desculpar nem reduzir é o trabalho mais raro.
Ela lê com ele a história de Lázaro, o homem que voltou do túmulo. A leitura não é mágica. A ressurreição não desfaz a morte, e a leitura não apaga o assassinato. Oferece uma linguagem para imaginar que alguém atravesse a morte moral sem continuar fingindo que nada aconteceu. E vem com uma instrução prática, quase física: que ele vá a um cruzamento, se curve, beije a terra que manchou e diga em voz alta, para o mundo, que matou.
Sônia não diz que Raskólnikov não é culpado. Fica perto o bastante para que ele possa, enfim, suportar a palavra.
VI
Svidrigáilov, Dúnia e a Ausência de Mundo
Sobre a liberdade sem vínculo
Svidrigáilov aparece como a possibilidade sombria. Também circula entre desejo, dinheiro, poder e transgressão. Onde Raskólnikov ainda sofre porque não consegue calar a consciência, Svidrigáilov parece ter aprendido a viver como se nenhuma regra interna fosse necessária. É o que Raskólnikov imagina que um homem livre poderia ser.
A liberdade de Svidrigáilov não produz grandeza. Produz vazio. Ele pode fazer o que quiser e não encontra um mundo em que o querer continue significando alguma coisa. A ausência de limites não o torna extraordinário. Torna-o incapaz de permanecer ligado aos outros. Wu observa que o romance põe Sônia e Svidrigáilov como duplos de Raskólnikov: os dois se chamam de pecadores sem esforço, ela com seriedade, ele com ironia. Raskólnikov é o único dos três que evita a palavra para si.
Dúnia, a irmã, esclarece o outro lado. Não está ali só para ser protegida. Reconhece o perigo, recusa a sedução do poder e enfrenta Svidrigáilov sem aceitar o papel de objeto no jogo dele. Mostra que resistir não exige a forma grandiosa de uma teoria. Pode consistir em não deixar que outro defina o preço da sua liberdade.
Svidrigáilov leva à pergunta mais assustadora do livro: se alguém pudesse abandonar de vez a culpa, o que restaria dele? A resposta não é a felicidade. É a ausência de mundo. O romance não lhe dá futuro.
VII
A Ideia Que Vivia Sozinha num Quarto
Sobre Bakhtin e o evento vivo entre vozes
O crítico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), em Problemas da Poética de Dostoiévski, publicado em 1929 e refeito décadas depois, chamou de polifonia o que torna esses livros estranhos: uma pluralidade de vozes e consciências independentes, que não se fundem na do autor. Num romance de tese, as personagens existem para transmitir a ideologia de quem escreve. Em Dostoiévski, cada uma pensa por conta própria e pode contrariar o autor.
A consequência importa para a teoria de Raskólnikov. Para Bakhtin, uma ideia não é uma coisa que mora dentro da cabeça de alguém. É um evento vivo, que acontece no encontro entre consciências e procura a resposta do outro. A ideia de Raskólnikov foi gerada no quarto, onde ninguém a contestava, e ali ficou perfeita. Quando ele sai para a rua, ela é obrigada a viver. Marmieládov a desmente com a miséria, Razumíkhin com a amizade, Porfíri com a paciência, Sônia com a recusa, Svidrigáilov com um espelho, Dúnia com a coragem. A teoria não é derrubada por um argumento melhor. Fica exposta a vozes que ela não previu.
Bakhtin notou ainda uma ressonância curiosa. A velha que ri em silêncio no sonho de Raskólnikov lembra a condessa de A Dama de Espadas, de Púchkin, e os dois textos tratam do mesmo "napoleonismo" no começo do capitalismo russo. A ideia estava no ar da cidade antes de estar no quarto dele.
Um escólio precisa devolver a pergunta a quem lê. Quantas ideias nossas ainda são perfeitas porque nunca saíram do quarto?
VIII
O Rosto Que a Teoria Não Viu
Sobre Levinas e o outro que excede o conceito
O filósofo francês Emmanuel Levinas (1906-1995) fez do rosto o centro de uma obra, Totalidade e Infinito, de 1961. Totalidade é o que não admite exterioridade: um sistema que contém tudo e reduz cada coisa a um lugar dentro dele. A teoria dos homens extraordinários é uma totalidade em miniatura. Tem um critério, uma escala e um ponto para a velha, o de peça substituível.
O rosto, para Levinas, é o que não cabe nisso. Não é um fenômeno entre outros nem uma imagem guardada na memória. É a presença do outro que resiste ao conceito sem usar força, apenas com a sua vulnerabilidade, e a primeira coisa que diz, antes de qualquer palavra, é que não se deve matá-lo. Levinas chega a notar que o outro é o único ser que podemos querer matar, porque é o único que escapa ao nosso poder de compreendê-lo por inteiro. A tentação e a proibição nascem no mesmo lugar.
Leia Lisavieta por essa lente. A velha, depois de reduzida a "usurária", já tinha deixado de ter rosto no argumento. Lisavieta nunca chegou a entrar nele. Entrou na sala sem ser convidada pela teoria e foi a prova de que o outro excede qualquer conceito que se faça dele. Para Levinas, o neutro e o impessoal, a lei geral, a conta, a categoria, são a forma mais sutil de violência contra o outro, porque tornam o golpe quase desnecessário: já se matou antes, ao deixar de olhar.
O crime começa antes do golpe, no instante em que o rosto se torna função.
IX
A Intenção Já É o Ato
Sobre o budismo antigo e o crime que se monta por dentro
No budismo antigo há um texto curto sobre isso. O Nibbedhika Sutta, do Anguttara Nikaya (livro dos seis, discurso 63), põe na boca do Buda uma definição que parece simples: a intenção é o que se chama ação. Depois de intencionar, a pessoa age pelo corpo, pela fala e pela mente.
Aplique isso a Raskólnikov, e a cronologia do crime muda de lugar. A alça costurada, os passos contados, o penhor falso embrulhado em nó difícil, a palavra "ensaio" usada para uma visita que já era o próprio ato: tudo isso é ação, no sentido do texto, e já tinha acontecido. O golpe é a última peça de um crime que vinha sendo montado por dentro. Raskólnikov dizia a si mesmo que nada estava feito. Quem costura a alça por dentro do casaco sabe o que está fazendo.
Quem costura a alça já sabe o que vai pendurar nela.
O budismo antigo e o cristianismo ortodoxo de Dostoiévski nasceram a mais de vinte séculos de distância e a muitos milhares de quilômetros, e nada indica que se conhecessem. Coincidem num ponto: o ato começa dentro. Wu mostra que Dostoiévski recusa a leitura do crime como puro produto social e a desloca para a culpa e o pecado, essa palavra que Sônia usa e Raskólnikov evita. No fim do romance, ele ainda diz a si mesmo que cometeu um erro, e não um pecado. Erro se corrige com uma conta melhor. Pecado, ou intenção que já pesava antes do golpe, só se enfrenta olhando para dentro.
Isso não encurta a culpa de ninguém. Move o lugar onde ela pode ser reparada: antes do machado, e não depois.
X
A Confissão em Voz Alta
Sobre dizer e compreender, de Petersburgo ao Cabo
Raskólnikov confessa, e o romance escolhe não terminar aí. A confissão é um movimento em direção à verdade, não a verdade inteira. Ele pode dizer o que fez antes de compreender o que fez a si mesmo. A condenação organiza o lado de fora da história: dá nome ao ato, fixa uma pena, oito anos de trabalhos forçados, e devolve o homem à ordem social. O problema de dentro continua. Como Porfíri ficou calado sobre o que sabia, a confissão foi livre. Isso a tornou dele, e só dele.
Há uma instituição moderna que apostou nessa distância entre dizer e compreender. Na África do Sul, depois do fim do apartheid, uma lei de 1995 criou a Comissão da Verdade e Reconciliação, presidida pelo arcebispo Desmond Tutu. Quem tivesse cometido atos com motivação política podia pedir anistia, mas só a recebia se fizesse uma revelação completa dos fatos, e os atos tinham de ser proporcionais ao objetivo. As audiências eram públicas e transmitidas. Mais de sete mil pessoas pediram anistia, e menos de novecentas a receberam. A Comissão se pôs entre dois caminhos conhecidos: a punição dos julgamentos de Nuremberg e a anistia geral, sem voz pública, como no Chile.
Raskólnikov não matou por política, e a Comissão não teria poder para absolvê-lo. A semelhança é de outra ordem. Nos dois casos, a verdade dita em voz alta, diante de outros, é a condição mínima de qualquer reparo, e nos dois casos ela só abre uma porta. Depois de dizer, é preciso ainda viver com o que foi dito.
Dizer em voz alta é só o primeiro gesto de uma reparação.
A sociedade pode punir o assassinato. Só Raskólnikov pode abandonar a identidade que tentou construir por meio dele.
XI
Quincas Borba e as Batatas
Sobre a teoria que também escolhe vencedores
O Brasil teve a sua versão cômica desse mesmo vício. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis apresenta Quincas Borba, um filósofo mendigo que inventou o Humanitismo. Em Quincas Borba, publicado em folhetim a partir de 1886 e em livro em 1891, ele explica a doutrina ao herdeiro Rubião, no capítulo VI, com uma parábola: duas tribos famintas e um campo de batatas. A conclusão cabe numa frase: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas." O Humanitismo faz da destruição de uns uma etapa natural da vida de todos. É uma teoria perfeita para quem está do lado das batatas.
Os críticos leem ali uma sátira ao positivismo, ao cientificismo e ao darwinismo social do século XIX, o mesmo século em que o romance russo foi escrito. Machado e Dostoiévski vestem a mesma pergunta de modos opostos. O brasileiro trata com riso o que o russo trata com febre. Rubião herda a fortuna, se enxerga como vencedor e conclui que precisa ser duro e implacável. Termina pobre e doente, derrotado pela doutrina que o seduziu.
Em ambos, o mecanismo é o mesmo: uma pessoa é tomada por uma categoria. O vencido, a usurária, o ordinário. Quem sustenta a categoria nunca se pergunta em qual dos dois lados da frase vai cair no dia seguinte.
Toda categoria é confortável até o dia em que a categoria somos nós.
XII
A Alça Que Se Desfaz Devagar
Sobre a ideia que não morreu por inteiro
Raskólnikov é condenado a oito anos de trabalhos forçados na Sibéria, e Sônia vai com ele. No presídio, o orgulho dele está ferido, mas ele ainda acha que errou, não que pecou, e se mantém distante dos outros presos, enquanto Sônia faz amizade com eles. Sob o travesseiro há um exemplar do Novo Testamento que ela lhe deu. Quando o livro acaba, faltam sete anos de pena, e a transformação está só começando. O romance não oferece a tranquilidade de um homem plenamente recuperado.
Isso é mais honesto do que um final em que a confissão apaga tudo. Uma pessoa não abandona uma teoria só porque descobriu o sofrimento que ela causou. Às vezes continua amando a própria inteligência mesmo depois de conhecer o dano. Continua querendo estar certa. Continua procurando um jeito de se sentir excepcional.
O verdadeiro castigo de Raskólnikov é descobrir que a excepcionalidade não o elevou acima da humanidade. Só o separou dela. O castigo não é apenas perder a liberdade. É perder a fantasia de que liberdade é não depender de ninguém. Por isso importa a presença de Sônia na Sibéria: ela não substitui o processo interior nem o enfeita de religião. Representa a continuidade de um vínculo. Quem queria estar acima dos outros precisa voltar a existir entre eles.
Talvez Crime e Castigo nunca tenha tratado só de um assassinato. Talvez trate da tentação de viver como se a inteligência pudesse nos conceder uma licença moral, como se entender as causas da pobreza, da violência e da injustiça nos autorizasse a decidir quais vidas podem ser sacrificadas, como se uma justificativa ampla bastasse para tornar suportável um ato concreto. Raskólnikov queria provar que era extraordinário. Descobre que a parte mais humana dele é a incapacidade de deixar os mortos desaparecerem dentro de uma teoria.
A alça costurada por dentro do casaco não se desfaz de uma vez. Desfaz-se devagar, ponto por ponto, e quem a desfaz precisa de alguém por perto que não ofereça desculpa. O crime começou quando ele transformou uma pessoa em hipótese. A recuperação começa quando aceita que nenhuma hipótese é grande o bastante para ocupar o lugar de uma pessoa.
A alça foi costurada por dentro do casaco
antes de existir um machado na mão.
Setecentos e trinta passos foram contados
antes de existir uma porta.
Uma teoria pode estar certa em tudo
e ainda assim não caber numa pessoa.
Sônia leu a história do homem que voltou do túmulo
sem prometer que os mortos voltariam.
A confissão foi dita em voz alta,
porque o que só se pensa
ainda pode ser negociado.
A costura se desfaz devagar,
e quem a desfaz
precisa de alguém por perto que não ofereça desculpa.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem já usou a própria inteligência para justificar o que o coração não aprovava.
Ainda aprendendo a ouvir quem a teoria deixou de fora, Santos Moisés.
Este escrito faz parte de
Este escrito lhe fez companhia?