Fábula · Sucesso e Aparência · Escrito CLIX

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O Sino Que Tocou Sozinho

As Conversas do Terreiro, IV: uma fábula sobre sucesso, aparência e o preço de parecer vencedor

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Aba I

Abertura, I a III · O sino, a primeira exposição e o último ninho

Aba II

IV a VI · A escada, o pavão e o que fica atrás do tecido

Aba III

VII a IX · A prova, o sino e o novo prêmio

Aba IV

X a XII · O que a fábula pergunta, o medo e a taça cheia

Aba V

XIII a XV · O cuidado, a fachada e o chão

Na Fazenda das Quatro Vozes havia um sino pendurado no alto do celeiro.

Ninguém sabia ao certo quem o colocara ali. Uns diziam que servia para chamar os animais na hora da distribuição do milho. Outros juravam que só tocava em ocasiões graves ou festivas: casamento, nascimento, visita de fazenda distante. Durante muitos anos o sino ficou calado, com a corda atada a um prego, e a ferrugem foi escrevendo nele uma pele da cor da terra.

O vento passava e o sino não respondia. As andorinhas faziam ninho no beiral e não tinham medo dele. Os pintinhos aprendiam a correr à sombra do bronze antes de aprender o nome de qualquer animal.

Uma tarde, o novo administrador da fazenda atravessou o terreiro com um papel dobrado debaixo do braço. Parou diante do celeiro, olhou para o sino, olhou para os animais que cuidavam da própria vida, e achou tudo quieto demais para uma terra que se dizia próspera.

Foi então que mandou chamar o galo.

I

O Sino e o Anúncio

Sobre quem anuncia o que ainda não entendeu

O administrador decidiu organizar a Grande Semana do Sucesso, e o anúncio ficou por conta de Estouro. O galo subiu ao telhado do galinheiro e gritou por tanto tempo que assustou um bando de pardais.

“ATENÇÃO! COMEÇA HOJE A GRANDE SEMANA DO SUCESSO! SERÃO PREMIADOS OS ANIMAIS MAIS PRODUTIVOS, MAIS ADMIRADOS E MAIS VITORIOSOS DA FAZENDA!”

Os animais saíram dos abrigos. Rumina ergueu os olhos do capim.

“Mais vitoriosos em quê?”

Estouro abriu as asas.

“Em tudo.”

“Como se mede isso?”

“Com uma lista.”

Farofa pousou no telhado do celeiro.

“Quem fez a lista?”

“Eu.”

“E quem decidiu os critérios?”

“Também eu.”

Baltazar, que passava com a bolsa de couro, parou junto à cerca.

“Quais são os critérios?”

Estouro tirou um papel do bolso e leu, marcando cada item com uma batida do pé.

“Primeiro: quantidade de trabalho. Segundo: quantidade de riqueza. Terceiro: quantidade de elogios. Quarto: quantidade de animais que sabem o seu nome. Quinto: capacidade de parecer feliz mesmo quando as coisas vão mal.”

Rumina mastigou devagar.

“Por que parecer feliz é critério de sucesso?”

“Porque quem é bem-sucedido não pode parecer derrotado.”

Baltazar olhou para o sino.

“E quem receberá o prêmio?”

“O animal que subir mais depressa na vida.”

“Subir para onde?”, perguntou Rumina.

Estouro apontou para o topo do celeiro.

“Para cima.”

Farofa inclinou a cabeça.

“E se alguém preferir permanecer no chão?”

“Então não terá entendido a competição.”

Ele desceu do telhado e caminhou pelo terreiro de peito inflado, com o passo de quem já recebeu o prêmio.

“Durante a semana toda, os animais vão mostrar suas conquistas. Quem juntou mais sacos de milho, quem fez o abrigo maior, quem tem melhor aparência, quem trabalha até mais tarde, quem tem a carroça mais bonita e quem recebe mais convites para festa será observado pelo Comitê do Sucesso.”

“Quem está no comitê?”, perguntou Rumina.

“Eu sou o presidente.”

“E os outros membros?”

“Os outros ainda não sabem que foram escolhidos.”

Baltazar suspirou.

“Começamos mal.”

II

A Primeira Exposição

Sobre o que cabe e o que não cabe numa tabela

A semana começou com uma exposição no terreiro. Cada animal devia apresentar o que considerava sua maior conquista.

Os cavalos exibiram as carroças que haviam puxado. Os porcos mostraram os depósitos que construíram. As galinhas trouxeram cestos de ovos. As ovelhas empilharam a lã em montanhas macias. Os cães provaram que conseguiam vigiar a noite inteira sem dormir. Estouro circulava entre os grupos, anotando.

“Excelente produção.”

“Bela aparência.”

“Grande número de admiradores.”

“Pouco brilho, mas muita disciplina.”

Quando chegou a vez de Rumina, ela se aproximou sem carregar nada.

“Qual é a sua conquista?”

Rumina olhou para o chão.

“Aprendi a entender por que algumas regras da fazenda parecem iguais e produzem resultados diferentes.”

Estouro ficou imóvel.

“Você não trouxe um objeto?”

“Não.”

“Não construiu nada?”

“Construí algumas perguntas.”

“Perguntas não entram na competição.”

“Por quê?”

“Porque não podem ser contadas.”

Rumina pensou um instante.

“Uma pergunta pode mudar uma decisão. Uma decisão pode mudar a vida de muita gente. Isso não conta?”

Estouro escreveu duas palavras e um ponto: difícil de medir. Depois, mais duas: baixa visibilidade.

Baltazar se aproximou.

“Nem tudo que importa cabe numa tabela.”

“E se não cabe numa tabela, como vamos saber quanto vale?”

“Talvez o problema seja perguntar quanto vale antes de perguntar para que serve.”

O galo fingiu não ouvir.

Farofa pousou sobre a tabela, bem em cima dos números.

“Tem uma coluna para ‘quem ajudou os outros a crescer’?”

“Não.”

“E para ‘quem impediu que um problema piorasse’?”

“Também não.”

“E para ‘quem continuou de pé depois de perder quase tudo’?”

“Farofa, isto é uma competição de sucesso, não uma reunião de sentimentos.”

“Talvez você esteja confundindo sentimentos com vida”, disse Rumina.

Medir é fácil. O trabalho está em saber o que a medida deixou de fora.

III

O Último Ninho

Sobre o trabalho que existe para que nada desabe

No segundo dia, chamaram uma galinha chamada Lídia para apresentar sua conquista.

Ela não tinha celeiro grande, não botava a maior quantidade de ovos e não conhecia animais importantes. Vivia perto do muro, num ninho pequeno.

Estouro olhou as anotações.

“Você trouxe três ovos.”

“Sim.”

“Há galinhas com dez.”

“Eu sei.”

“Construiu alguma coisa?”

“Consertei o ninho.”

“É pouco.”

Lídia olhou para Baltazar.

“Meu ninho estava caindo. Passei semanas procurando palha seca, porque a boa ficava longe e eu não podia deixar meus filhotes sozinhos.”

Rumina se aproximou.

“Você cuidou deles enquanto fazia o conserto?”

“Sim. Um deles estava doente.”

“E manteve os três vivos?”

“Mantive.”

Baltazar examinou o ninho. Uma das laterais estava amarrada com fios de capim. Havia marcas de bico na palha. A estrutura era pequena, mas aguentava o vento.

“Isso é uma grande conquista”, disse.

Estouro coçou a crista.

“Mas não aparece muito.”

“É por isso mesmo”, respondeu Baltazar. “Há trabalhos cujo resultado é evitar que algo desabe. Quando tudo continua de pé, ninguém vê o esforço.”

Farofa desceu perto do ninho.

“Lá de cima, vi a Lídia carregando palha durante cinco madrugadas.”

“Por que você não contou?”, perguntou Rumina.

“Porque ninguém perguntou.”

Lídia olhou para o pombo.

“Talvez nem todo trabalho queira virar notícia.”

Farofa calou. Guardou o que sabia no bico, como quem guarda uma semente, e não contou a ninguém.

IV

A Escada

Sobre subir porque os outros estão subindo

No terceiro dia, Estouro mandou construir uma escada no centro do terreiro. Os carpinteiros a encostaram no celeiro e, para que não tombasse, amarraram o alto dela à parede com a corda velha do sino, que estava ali, esquecida, atada a um prego.

A escada tinha dez degraus. No último, uma placa: ANIMAL BEM-SUCEDIDO.

Subia-se um degrau por conquista reconhecida pelo comitê. O primeiro era de quem trabalhava muito. O segundo, de quem tinha bens. O terceiro, de quem era admirado. O quarto, de quem mandava em outros. O quinto, de quem tinha aparência saudável e elegante. Os outros cinco se chamavam influência, prestígio, produtividade, felicidade e legado.

No alto, Estouro pendurou uma coroa de palha.

“Quem chegar ao último degrau será o grande vencedor.”

“E quem não chegar?”, perguntou Rumina.

“Poderá tentar de novo no ano que vem.”

“E se alguém não quiser subir?”

“Ficará lá embaixo.”

Baltazar examinou a escada.

“Quem construiu?”

“Os carpinteiros.”

“Eles vão concorrer?”

“Não. Estão ocupados trabalhando.”

Farofa voou ao redor da armação.

“Tem um problema.”

“Qual?”

“A escada não leva a lugar nenhum.”

“Leva à vitória.”

“Depois do último degrau?”

“Depois a gente vê.”

Rumina encostou o casco na madeira.

“Uma escada sem destino faz todo mundo subir só porque os outros estão subindo.”

“Isso se chama ambição”, respondeu Estouro.

“Ou medo de ficar para trás”, disse Baltazar.

Os animais começaram a subir. Um cavalo chegou ao terceiro degrau, um porco ao quarto, uma galinha muito jovem ao segundo. Os que estavam embaixo olhavam para cima com vergonha.

“Você está em que degrau?”, perguntou um carneiro a outro.

“Dois.”

“Eu estou em três.”

“Você ganhou o quê?”

“Não sei. Mas estou acima de você.”

A escada começou a ranger.

V

O Pavão e a Comitiva

Sobre o sucesso que não trabalha sozinho

No quarto dia, chegou à fazenda um pavão chamado Próspero.

Trazia penas de um azul que fazia as galinhas pararem de ciscar, uma carroça coberta de tecido e uma pequena comitiva de animais que o seguiam para todo lado.

Estouro correu para recebê-lo.

“Próspero! O que você fez para ser tão bem-sucedido?”

“Muitas coisas”, respondeu o pavão. “Construí um abrigo amplo, tenho dois depósitos cheios, conheço animais importantes e nunca deixo que me vejam preocupado.”

Estouro anotou depressa.

“Magnífico. Você é o favorito da semana.”

Rumina chegou perto.

“Você trabalha sozinho?”

Próspero sorriu.

“Não. Tenho muitos ajudantes.”

“Eles também serão reconhecidos?”

“Eles recebem pagamento.”

“Isso responde à pergunta?”

“Pagamento é reconhecimento.”

Baltazar observou a comitiva. Alguns carregavam caixas. Outros seguravam tecidos. Um era tão jovem que mal conseguia puxar a carroça.

“Quantas horas eles trabalham por dia?”

“O necessário.”

“Quem define o necessário?”

“O resultado.”

Farofa voou até o telhado e olhou lá de cima.

“Alguns dormem no chão, ao lado da carroça.”

Próspero abriu as penas.

“É escolha deles.”

“Eles poderiam escolher outra coisa?”, perguntou Rumina.

O pavão demorou a responder.

“Todos sempre podem escolher.”

Baltazar olhou para a estrada, onde não havia abrigo, comida nem outro trabalho.

“Escolha sem saída é só obrigação com outro nome.”

Estouro não gostou.

“Não vamos transformar o sucesso de Próspero em acusação. Ele venceu porque trabalhou.”

“Mas não trabalhou sozinho”, disse Rumina.

“Todo sucesso depende de alguma ajuda”, respondeu Próspero. “Isso não diminui meu mérito.”

“Não diminui”, concordou Baltazar. “Reconhecer a rede que sustenta uma conquista não apaga o esforço de quem a liderou. Só impede que ele vire história de herói solitário.”

Próspero subiu os dez degraus. A madeira rangeu mais forte. No alto, ele abriu a cauda, e os animais aplaudiram. Estouro pôs a coroa de palha em sua cabeça.

“Eis o animal bem-sucedido da Fazenda das Quatro Vozes!”

Próspero olhou ao redor.

“Agora todos devem procurar ser como eu.”

Lídia, que olhava de longe, perguntou:

“E quem vai cuidar dos filhotes enquanto a gente trabalha para parecer com você?”

Ninguém respondeu.

Quem escolhe sem alternativa apenas obedece com mais educação.

VI

O Que Fica Atrás do Tecido

Sobre quem carrega a imagem de quem aparece

Naquela noite, Rumina não conseguiu dormir. Foi ao bebedouro e encontrou Baltazar.

“Você está inquieta”, disse ele.

“Não entendo uma coisa. Se todo mundo quer ter sucesso, por que tantos parecem cansados e tristes?”

“Talvez porque tenham aprendido que o sucesso é uma imagem que precisa ser mantida.”

“Como assim?”

“Há coisas que precisam ser feitas para viver. E há coisas que são feitas para parecer que estamos vivendo bem.”

“Qual é a diferença?”

“Às vezes nenhuma. Às vezes toda.”

Farofa pousou perto deles.

“Vi uma coisa na comitiva do Próspero.”

“O quê?”

“Um burrinho chamado Caju. Carrega caixas até tarde e não aparece em nenhuma pintura. Quando Próspero mostra a carroça, Caju fica atrás do tecido.”

“Por quê?”, perguntou Baltazar.

“Porque o sucesso não pode parecer pesado.”

Rumina foi até a carroça. Caju dormia em pé, com a cabeça baixa. Havia no lombo uma faixa de pelo gasto, onde a correia roçava todos os dias. Ao ouvir os passos, ele acordou depressa e ajeitou o corpo.

“Está tudo bem”, disse, antes que alguém perguntasse.

“Você parecia cansado.”

“Não posso parecer. Se eu pareço cansado, a carroça parece pesada.”

Rumina ficou calada um tempo.

“E ela é?”

Caju olhou para as caixas e não respondeu.

Rumina voltou ao bebedouro e escreveu na terra, com o casco: o que é escondido para que alguém pareça bem-sucedido?

Baltazar leu e assentiu.

“Às vezes uma pessoa aparece no topo porque muitas ficaram embaixo, segurando a escada.”

Rumina olhou a pergunta no chão. Não a apagou.

Ninguém aparece no retrato carregando o que sustenta o retrato.

VII

A Prova

Sobre o trabalho que só se conta quando aparece

No quinto dia, Estouro anunciou uma prova.

“Cada animal vai mostrar quanto consegue trabalhar sem parar. Vence quem produzir mais numa única jornada.”

Os animais se organizaram. Os cavalos puxaram carroças. Os porcos carregaram pedras. As galinhas ciscaram sem levantar a cabeça. As abelhas foram convocadas a fazer mel o dia inteiro. Até os animais doentes foram chamados.

Lídia não apareceu. Estouro foi procurá-la.

“Você precisa entrar na prova.”

“Não posso. Um dos meus filhotes está com febre.”

“Mas a competição é importante.”

“Para você.”

“Para a fazenda inteira.”

“Se eu deixar meu filhote sozinho, ele pode morrer.”

Estouro ficou dividido entre a regra e o que via.

“Você poderia cuidar dele depois.”

“Doença não espera o fim da competição.”

Rumina chegou com uma cuia d’água.

“Quantos estão trabalhando agora porque outros estão cuidando de filhote, de doente, de velho?”

Estouro não respondeu.

Farofa olhou a fazenda lá de cima e pousou ao lado dele.

“Contei três que não estão na prova. Uma vaca que cuida da mãe, um cavalo que acompanha o irmão ferido e um cachorro que passa a noite vigiando. Todos dizem que não trabalham. Sem eles, outros não poderiam trabalhar.”

Baltazar chegou devagar.

“Chamamos de trabalho o que dá para exibir e contar. O cuidado fica de fora porque não faz pilha de sacos nem de pedras.”

“Mas alguém precisa fazer o trabalho que aparece”, disse Estouro.

“Precisa. E alguém precisa sustentar o chão onde ele acontece.”

A corrida durou até o sol cair. No fim, os que mais produziram receberam aplausos. Mas havia muitos feridos. Dois desmaiaram. Um bezerro se perdeu da mãe. O filhote de Lídia piorou.

Estouro subiu no barril para anunciar o vencedor.

O sino tocou antes que ele abrisse o bico.

Ninguém havia puxado a corda.

VIII

O Sino Que Tocou Sozinho

Sobre o aviso que ninguém quis ouvir

Todos olharam para o alto.

Baltazar foi até o celeiro e achou a corda esticada como um fio de arco. Ela descia do sino, passava pelo prego e chegava ao alto da escada, onde os carpinteiros a haviam amarrado. Cada vez que a escada oscilava, a corda puxava o sino.

Ele pôs a mão na madeira. Estava tremendo.

“A competição faz a escada tremer”, disse. “A escada faz o sino tocar.”

“O sino está avisando alguma coisa”, disse Rumina.

Estouro franziu a testa.

“É apenas um sino.”

“Todo sino é apenas um sino até alguém perguntar por que está tocando”, disse Farofa.

Baltazar olhou do sino para a escada, e da escada para os animais caídos na terra.

“Quanto mais gente sobe, mais a escada puxa a corda. O sino não está anunciando sucesso. Está anunciando excesso.”

Rumina olhou os degraus.

“Então a própria escada mostra quando subir está custando mais do que a pessoa tem.”

“Mostra.”

“Por que ninguém percebeu antes?”

“Porque todos olhavam para o topo.”

Os animais começaram a descer, um a um, devagar. Próspero tirou a coroa de palha.

“Eu não sabia que a escada fazia isso.”

“Você nunca olhou para baixo”, disse Caju.

A frase bateu no pavão com mais força do que uma patada.

Estouro segurou o papel da competição. As patas tremiam um pouco.

“Se o sino toca quando produzimos demais, talvez a prova tenha sido mal pensada.”

Baltazar escorou a escada com uma estaca e desatou a corda do prego. O sino parou.

Ninguém comemorou.

Uma escada só mostra o caminho de quem sobe.

IX

O Novo Prêmio

Sobre medir uma vida de outro jeito

Na manhã seguinte, os animais se reuniram de novo. Estouro não subiu ao telhado. Sentou-se no chão, junto à cerca, de crista baixa.

“Preciso mudar a pergunta da Semana do Sucesso.”

Farofa pousou ao lado dele.

“Qual era a antiga?”

“Quem chegou mais alto?”

“E a nova?”

Estouro olhou para Baltazar.

“Quem viveu melhor?”

“Melhor em que sentido?”, perguntou Rumina.

O galo respirou fundo.

“Eu sabia que você ia perguntar isso.”

Rumina sorriu.

“Podemos começar separando uma coisa da outra”, disse Baltazar. “Alcançar o que consideramos importante é uma. Fazer os outros acreditarem que alcançamos é outra.”

“E qual é o importante?”, perguntou um cavalo.

“Quem decide?”, devolveu Baltazar.

Os animais se entreolharam. Próspero falou primeiro, olhando para Caju.

“Eu achava que sucesso era ter mais. Agora vejo que ter mais pode fazer outros carregarem mais peso.”

“E nós puxamos uma carga maior para ela parecer leve”, murmurou Caju.

Lídia, que chegara com o filhote já se recuperando, disse:

“Para mim, sucesso foi atravessar uma semana difícil sem perder meus filhos.”

O cavalo que cuidava do irmão ferido acrescentou:

“Para mim, foi trabalhar sem largar quem precisava de mim.”

Uma abelha falou:

“Para nós, é fazer o mel sem acabar com a colmeia.”

Farofa perguntou, baixo, quem vendia as receitas de como subir, e quem ficava mais rico cada vez que um animal se sentia atrasado. Ninguém quis responder em voz alta.

Naquele ano não houve um vencedor. Houve quatro nomes, dados em voz baixa: cuidado, a quem sustentou a vida dos outros; coragem, a quem atravessou uma dificuldade sem fazer do sofrimento um espetáculo; cooperação, a quem entendeu que nenhuma conquista é de um só; e autonomia, a quem escolheu o próprio caminho em vez de perseguir uma escada que lhe deram. Estouro recebeu um quinto, que não estava em lista nenhuma: revisão, por ter mudado de ideia diante dos fatos.

Achou o nome pouco grandioso, mas aceitou.

“Revisão parece menos importante do que vitória.”

“Às vezes revisar uma ideia é mais difícil do que ganhar uma disputa”, disse Rumina.

No último dia, os animais desmontaram a escada. A madeira virou bancos, prateleiras e abrigos. A placa ANIMAL BEM-SUCEDIDO virou uma tábua para marcar o calendário da distribuição do milho. A corda voltou ao prego do sino, frouxa.

Próspero repartiu parte do que havia juntado. Não entregou tudo, e ninguém o tratou como santo. Os animais apenas passaram a perguntar, de vez em quando, se a riqueza dele estava sendo feita à custa de um peso que os outros não podiam recusar. A pergunta mudou o jeito dele de administrar.

Estouro deixou de falar em vencedores e fracassados quando via um animal cansado. Rumina continuou perguntando, mas aprendeu a não transformar toda resposta em outra tarefa impossível. Farofa passou a distinguir notícia de exposição: nem toda história verdadeira precisava ser contada para a fazenda inteira. Baltazar continuou ensinando, mas começou a perguntar aos que o procuravam que vida desejavam construir, em vez de só explicar como funcionavam as estruturas.

X

O Que a Fábula Pergunta

Sobre o sucesso que cabe numa vida e o que a escada deixou de fora

A Grande Semana do Sucesso tinha cinco medidas: trabalho, riqueza, elogio, nome conhecido e cara de feliz. Ninguém na fazenda era contra nenhuma delas. Quem não quer um abrigo firme, uma despensa cheia, o respeito dos vizinhos? A fábula não condena o desejo de crescer, de realizar, de melhorar de vida. Ela pergunta o que acontece quando só essas cinco coisas passam a contar.

O que não conta some. Some o cuidado da Lídia, carregando palha por cinco madrugadas. Some a vaca que acompanha a mãe, o cavalo que fica ao lado do irmão ferido, o cachorro que vigia sem que ninguém peça. Some o cansaço do Caju atrás do tecido. E some o sino, porque um sino só avisa quem consegue ouvi-lo, e quem olha para o topo da escada não escuta o que range embaixo.

Daí as perguntas que a fazenda deixou no terreiro. Quem sustenta o sucesso de quem aparece no alto? Existe liberdade real para escolher outro caminho, ou só quem tem uma estrada que leve a outro lugar pode escolher? Quem ganha alguma coisa quando todos acreditam estar atrasados? O que uma vida precisa alcançar para ser considerada digna? E é possível vencer sem transformar os outros em perdedores?

Esta fábula chama seis vozes para conversar com o terreiro, cada uma ligada a um dos bichos: um romance nigeriano, um livro chinês, uma cientista política do cuidado, um sociólogo do palco, uma socióloga do sorriso por obrigação e um poeta do sertão do Ceará. Nenhuma delas deu resposta à fazenda. Todas já tinham estado lá.

XI

Estouro e o Medo de Parecer Pequeno

Sobre a ambição que é medo com outro nome

Há um romance que conhece muito bem o Estouro.

O Mundo se Despedaça foi publicado em 1958 pelo nigeriano Chinua Achebe e se passa entre os igbos, num tempo em que a idade era respeitada, mas a conquista era venerada. Um provérbio daquele povo diz que a criança que lava as mãos pode comer com os reis. Okonkwo, o protagonista, lavou as mãos cedo. Ainda muito jovem já era o campeão de luta da região, e depois ganhou terra, colheita, esposas e títulos. Era o Próspero da sua aldeia, com a diferença de que o romance não deixa ninguém admirá-lo em paz.

Porque Achebe conta o que havia por trás. A vida inteira de Okonkwo era dominada pelo medo do fracasso e da fraqueza. Não era medo dos deuses nem da floresta. O medo mais fundo era de si mesmo: de que alguém descobrisse nele a sombra do pai, um homem de flauta e dívidas, que preferira a música ao trabalho. Okonkwo passou a odiar tudo o que o pai amava, a delicadeza e o ócio. Só mostrava a raiva, porque mostrar afeto lhe parecia fraqueza, e só a força merecia aparecer.

Leia o Estouro por esse espelho. A lista dele termina com a capacidade de parecer feliz mesmo quando as coisas vão mal, e ele explica que quem vence não pode parecer derrotado. Anunciava a vitória do telhado com a voz mais forte do terreiro, e talvez vivesse com medo de ser o último a saber que perdera. Quando Baltazar disse que a ambição às vezes é só medo de ficar para trás, o galo fingiu não ouvir, e fingir não ouvir é o que o medo faz de melhor.

Imagine Rumina perguntando, numa noite sem plateia, de quem ele tem medo de se parecer. Estouro demoraria. Diria que de um galo de outra fazenda, que dormia no poleiro de baixo e nunca anunciou nada. Depois acrescentaria, mais baixo, que aquele galo dormia bem.

Achebe não condena Okonkwo por querer subir. Mostra o preço de subir sem poder ser gentil: a fortaleza que ele levantou em volta de si ficou do tamanho do seu medo.

Ambição é o nome que o medo usa quando quer ser aplaudido.

XII

Rumina e a Taça Cheia

Sobre saber quando parar

Rumina fez a mesma pergunta a semana inteira, de formas diferentes: vitoriosos em quê, subir para onde. Ninguém lhe deu um endereço. Mas existe um livro chinês pequeno, que a tradição atribui a Lao Zi e que tem mais de dois mil anos, o Tao Te Ching, e que passa quase todas as páginas fazendo a pergunta dela sem usar a palavra sucesso.

No capítulo 44, o livro pergunta o que é mais caro: a fama ou a própria vida? A vida ou os bens? E o que dói mais, ganhar ou perder? A resposta vem em duas linhas. Quem ama demais uma coisa paga caro por ela, e quem acumula demais perde muito. Quem sabe contentar-se não passa vergonha, e quem sabe parar não encontra perigo. A escada de dez degraus era uma estrutura sem esse saber: cada degrau pedia o seguinte, e o último prometia uma coroa depois da qual só havia um "depois a gente vê".

No capítulo 9, o livro oferece duas imagens que Baltazar poderia ter pendurado na parede do celeiro. Encher a taça até a borda e ela derrama. Afiar a lâmina demais e ela perde o fio. Quando a casa se enche de ouro e de jade, ninguém consegue guardá-los. O capítulo termina com um conselho que soa estranho para qualquer escada: retirar-se quando a obra está feita.

O sino do celeiro era essa taça. Quando a escada pesou demais, ele transbordou em som.

Rumina tem o defeito dos que perguntam bem: não sabe parar. Cada resposta vira outra pergunta, e cada pergunta vira outra tarefa. O livro de Lao Zi também é para ela. Saber quando parar vale para o trabalho, para a riqueza e para o pensamento. Uma pergunta que não deixa ninguém descansar acaba virando, ela mesma, uma escada.

Saber quando parar vale também para as perguntas.

XIII

Baltazar e o Cuidado Que Ninguém Conta

Sobre o trabalho que sustenta o que aparece

Baltazar sabia carregar as coisas e quase nunca contava o que carregava. Uma cientista política americana, Joan Tronto, passou a vida explicando por que isso acontece com o cuidado.

Para ela, cuidar não é um sentimento bonito. É um trabalho com etapas. Primeiro, notar que alguém precisa. Depois, assumir a responsabilidade de responder. Depois, fazer o trabalho com competência. Por fim, conferir se o cuidado deu certo e se o outro ainda precisa. Olhe de novo o ninho da Lídia. Ela notou que a parede cedia, assumiu o conserto sozinha, procurou palha seca longe de casa por cinco madrugadas e ainda conferiu, olhando os filhotes, se aquilo bastava. As quatro etapas, completas, sem um único aplauso.

Em Moral Boundaries, de 1993, e em Caring Democracy, de 2013, Tronto mostra por que o cuidado quase nunca aparece no que chamamos de trabalho. A sociedade rebaixa a importância de cuidar justamente para preservar o poder de quem pode não cuidar. Ela dá a isso um nome incômodo: irresponsabilidade privilegiada, o jeito como a divisão do trabalho e os valores de uma época deixam alguns escaparem das tarefas de cuidado.

Próspero tinha uma versão perfeita dela. Os ajudantes recebiam pagamento, e com esse pagamento ele comprava o direito de nunca saber quem cuidava de quem dormia no chão ao lado da carroça. Não era vilania. Era um arranjo em que alguém estava dispensado de cuidar, e o arranjo se chamava sucesso. Um dos capítulos de Caring Democracy tem um título que serviria de lema ao Comitê: os durões não cuidam. Num terreiro em que vencer exigia parecer forte, cuidar custava pontos. Por isso a vaca, o cavalo e o cachorro diziam que não trabalhavam.

Tronto não pede que todos virem cuidadores abnegados. Diz que todo mundo precisa de cuidado, que todo mundo pode cuidar, e que uma sociedade decente distribui essa tarefa à vista de todos, com a voz de quem cuida e de quem é cuidado. Numa fase posterior da obra ela acrescentou uma quinta etapa, cuidar com: as pessoas envolvidas decidem juntas do que se precisa. Foi o que a fazenda fez, de improviso, na manhã seguinte ao sino, quando cada um contou em voz alta o que tinha sustentado. Baltazar passou a vida explicando estruturas. Naquela manhã aprendeu a deixar que cada um dissesse a sua.

XIV

Farofa e a Fachada

Sobre quem aparece, quem descansa e quem sorri por ofício

Farofa conhecia a fazenda inteira de cima, e foi de cima que viu o que dois sociólogos explicaram em livros.

O primeiro é Erving Goffman, canadense, que publicou em 1956 A Representação do Eu na Vida Cotidiana, depois de estudar uma pequena ilha escocesa de agricultores. Ele concluiu que a convivência se parece com um teatro. Cada pessoa tem uma fachada, feita de cenário, aparência e maneira: a carroça de tecido, as penas, o sorriso do Próspero. Mas todo palco tem bastidor, o lugar onde se guarda a ilusão, onde o ator descansa e prepara o papel seguinte. Goffman dizia que manter a frente separada dos fundos é o que sustenta a representação. Caju era o bastidor de Próspero. Vivia atrás do tecido porque, se o público o visse, a carroça deixava de parecer leve.

A segunda é Arlie Hochschild, americana, que em 1983 publicou The Managed Heart (em tradução livre, O Coração Administrado). Estudou comissárias de bordo de uma companhia aérea, treinadas a sorrir e a sentir simpatia como parte do trabalho. Chamou isso de trabalho emocional, e enxergou o custo: quem faz isso por ofício pode se estranhar do próprio sorriso, que já não parece seu, e até do que realmente sente. É o quinto critério do Estouro, a capacidade de parecer feliz mesmo quando as coisas vão mal. A fazenda tinha transformado em competição o que, no avião, é um emprego.

Farofa, que espalhava notícias, aprendeu naquela semana que mostrar é uma forma de poder, e que mostrar sem pedir licença pode ser uma forma de invadir. Lídia lhe disse que nem todo trabalho quer virar notícia. Goffman diria que ela tinha direito a um bastidor.

Quando Farofa passou a perguntar antes de contar, o terreiro ganhou uma coisa que a escada nunca deu a ninguém: um lugar para descansar do papel.

Sorrir por obrigação cansa mais do que carregar a carroça.

XV

O Sino Que Fica

Sobre quem escolhe o chão

Resta a pergunta que Farofa fez no primeiro dia e que Estouro respondeu mal: e se alguém preferir permanecer no chão?

No Ceará, um homem respondeu com a vida. Antônio Gonçalves da Silva nasceu em 1909 num sítio da Serra de Santana, em Assaré, e ficou conhecido como Patativa do Assaré, por causa do canto de um pássaro do Nordeste. Era lavrador e poeta de tradição oral, e plantava milho, mandioca, algodão e feijão. Teve um livro de grande sucesso, Cante lá que eu canto cá, de 1978, cujo título já é uma resposta: você canta aí do seu jeito, eu canto aqui do meu. Teve uma estrada com o seu nome em 1989 e um memorial aberto em vida, em 1999. E continuou onde nasceu. Morreu em Assaré, em 2002, aos 93 anos.

Patativa não subiu a escada e também não ficou embaixo dela. Tinha um chão, que era o lugar onde o milho nasce. Ele lembra que o contrário de subir não é cair: é ficar de pé num lugar escolhido, sem pedir licença a ninguém que meça. E quem escolhe isso muitas vezes enxerga melhor o que a escada esconde, porque olha de baixo. Seus poemas falam do povo do sertão, dos que padecem, e não de quem sobe.

O chão não é o último degrau. É onde o milho nasce.

O sino continuou pendurado no celeiro. Ninguém o tirou. A corda voltou ao prego, frouxa, e hoje só toca quando alguém a puxa com a mão. De vez em quando, quando o trabalho se acumula demais, um animal vai ao celeiro e puxa. O som atravessa o terreiro e lembra a todos que uma vida pode parecer produtiva enquanto se torna insustentável. Ninguém precisa explicar o que ele quer dizer. Basta parar o que se estava fazendo e olhar para o chão.

Nota. Esta fábula fala de esgotamento e de cuidado com quem adoece. Ela não substitui avaliação nem acompanhamento profissional. Se algo disso pesa em você, o CVV atende pelo 188, todos os dias, a qualquer hora.

O sino ficou no alto do celeiro.
Quando a corda estica, alguém ouve.

A escada virou banco,
prateleira, abrigo e calendário de milho.

Quatro nomes foram dados em voz baixa:
cuidado, coragem, cooperação, escolha.
Um quinto, para o galo: revisão.

Atrás do tecido, o burrinho aprendeu a dizer cansado.
Na frente do tecido, o pavão aprendeu a olhar para baixo.

No chão, a galinha consertou o ninho
e ninguém precisou aplaudir.

Vencer talvez seja viver
sem precisar que outra vida desça um degrau
para a nossa parecer mais alta.

Dedicatória

Este escrito é dedicado a quem sustenta a escada sem aparecer no retrato, e a quem aprende a descer dela sem se sentir menor.

Ainda aprendendo a medir de outro jeito, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura, I a III · O sino, a primeira exposição e o último ninho
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