Ensaio · Identidade · Escrito CXXIII
Cozinhar-se
Sobre o tempero que transforma sem apagar, e a cozinha como prática de construção de si
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Aba I
Abertura, e o gosto que faz identidade
Aba II
A técnica de Ding, e a mesa do ubuntu
Aba III
A mistura brasileira, e o fechamento em dedicatória
Existe um instante na cozinha que separa quem apenas segue receita de quem, de fato, cozinha: o momento em que o tempero cai na panela e some de vista sem sumir de verdade. Ele se dissolve na carne, no caldo, no grão, e a partir dali deixa de existir como coisa isolada. Passa a existir como sabor que atravessa tudo o mais, sem nunca mais poder ser separado do prato pronto.
Ninguém prova o alho separado da carne depois que os dois cozinharam juntos por horas. O que chega à mesa não é a soma de ingredientes que ainda guardam fronteira entre si. É uma coisa nova, produzida pelo encontro, que não existiria se cada elemento tivesse ficado isolado no próprio recipiente. A cozinha, entendida com esse rigor, é talvez a mais antiga tecnologia humana de transformação sem apagamento.
Este ensaio nasce de uma suspeita simples: que essa mesma lógica, a de elementos que se combinam e se transformam sem se anular, descreve também como um ser humano se constrói ao longo da vida. Não somos a soma bruta de tudo que vivemos, empilhado como ingredientes ainda crus numa tigela. Somos o resultado de um cozimento contínuo, onde cada experiência entra, se mistura ao que já estava lá, e produz um sabor novo que só existe porque aquele encontro específico aconteceu.
Quatro tradições, olhando para a mesma panela a partir de ângulos diferentes, ajudam a temperar essa ideia com mais precisão do que a metáfora sozinha consegue oferecer.
O tempero não desaparece na panela. Ele se torna o sabor inteiro, sem deixar de ser, no fundo, o que sempre foi.
I
O Gosto e a Identidade
Sobre Brillat-Savarin e o paladar como retrato de quem se é
O advogado, juiz e gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin publicou, em dezembro de 1825, semanas antes de morrer, um livro que fundou praticamente sozinho o gênero do ensaio gastronômico: Fisiologia do Gosto. Nele está a frase que sobreviveu ao autor e virou provérbio: diz-me o que comes, dir-te-ei quem és.
A frase costuma ser lida como brincadeira leve sobre hábitos alimentares, mas Brillat-Savarin a sustentava com seriedade incomum para a época. Para ele, o prazer da mesa não era luxo supérfluo nem fraqueza a ser disciplinada. Era um dos poucos prazeres que, vividos com moderação, não cansam nunca, e por isso mesmo revelavam algo estável sobre o caráter de quem os cultivava.
Há uma diferença importante entre comer e saber comer, que Brillat-Savarin explorava com atenção quase científica. Comer é necessidade biológica, igual em todos os animais. Saber comer, prestar atenção ao que se come, entender por que aquele tempero funciona com aquele ingrediente, cultivar preferência refinada ao longo dos anos, é construção deliberada de gosto, e gosto, nesse sentido amplo, é sempre também identidade em formação.
Vale notar que esse gosto formado ao longo da vida nunca termina de se formar. Uma criança que recusa pimenta hoje pode, vinte anos depois, procurá-la ativamente, sem que isso represente contradição ou fraqueza de caráter. O paladar amadurece por exposição repetida, por curiosidade cultivada, às vezes por um único encontro marcante com um prato que reorganiza, de uma vez, toda a hierarquia anterior de preferências. A identidade construída à mesa, como qualquer identidade, é processo contínuo, não retrato fixado de uma vez para sempre.
Transposta para a vida fora da cozinha, a ideia ganha alcance maior. As escolhas que uma pessoa faz repetidamente, o que ela busca, o que recusa, o que aprende a apreciar depois de anos de exposição, formam um paladar existencial tão específico quanto qualquer paladar culinário. Ninguém nasce sabendo do que gosta. Aprende, prova, erra a mão no tempero algumas vezes, até que um conjunto de preferências relativamente estável comece a emergir e a ser reconhecido, pelos outros e por si mesmo, como identidade.
II
A Técnica e a Matéria
Sobre o Cozinheiro Ding e o conhecimento que dispensa força
No terceiro capítulo do livro que leva seu nome, o filósofo chinês Zhuangzi, do século IV antes da era comum, conta a história do Cozinheiro Ding, que desossava bois para o senhor Wen Hui com uma destreza tão precisa que parecia dança. O som da lâmina cortando as fibras seguia um ritmo perfeito, cada movimento das mãos e dos ombros encaixado no seguinte, sem nenhum esforço visível.
Impressionado, o senhor Wen Hui perguntou como aquela habilidade havia sido alcançada. Ding respondeu que, nos primeiros anos de trabalho, via apenas o boi inteiro diante de si, uma massa opaca e resistente. Depois de três anos de prática, deixou de ver o boi inteiro. Passou a enxergar, no lugar dele, a estrutura interna do animal: as juntas, os espaços vazios entre músculo e osso, os caminhos naturais por onde a lâmina podia passar sem encontrar resistência alguma.
A lição de Ding não é sobre acumular técnica no sentido de força ou repetição mecânica. É sobre um tipo de conhecimento que se aprofunda até enxergar a estrutura real da matéria com que se trabalha, e então mover-se de acordo com essa estrutura, em vez de impor sobre ela uma vontade externa. A lâmina de Ding, ele contava, durava anos sem precisar de amolação, porque nunca cortava osso. Só passava pelos vãos que já existiam.
Cozinhar bem exige algo parecido: conhecer a matéria com profundidade suficiente para saber onde ela cede sozinha e onde resiste. E o mesmo vale para construir a própria vida. Boa parte do sofrimento evitável vem de insistir em cortar onde há osso, forçar mudança onde a estrutura interna da situação, ou da própria pessoa, ainda não permite passagem. A maestria, em qualquer domínio, talvez seja menos acúmulo de força e mais essa capacidade paciente de enxergar os vãos por onde o movimento já quer ir.
O taoísmo chama esse tipo de ação de wu wei, frequentemente traduzido como não fazer ou ação sem esforço, embora nenhuma das duas traduções capture bem a ideia. Não se trata de passividade nem de deixar tudo ao acaso. É agir com tanta atenção à estrutura do que se tem diante de si que a ação certa deixa de exigir esforço visível, porque já está alinhada com o caminho que a própria matéria oferece. Um cozinheiro experiente corta a cebola sem pensar em cada movimento. Um cozinheiro iniciante luta contra a cebola inteira, e se cansa antes de terminar.
III
O Outro e a Mesa
Sobre o ubuntu e a mesa como lugar onde a pessoa se completa
Em várias línguas do sul da África, um provérbio resume uma filosofia inteira: umuntu ngumuntu ngabantu, em zulu, ou sua variante em xhosa, que se traduz aproximadamente como uma pessoa é pessoa através de outras pessoas. O conceito ficou conhecido no mundo todo pelo nome ubuntu, e o arcebispo sul-africano Desmond Tutu foi um dos que mais contribuíram para explicá-lo fora do continente.
Tutu descrevia o ubuntu como a compreensão de que a própria humanidade está amarrada, de modo inseparável, à humanidade de quem está ao redor. Não é generosidade opcional. É reconhecimento de que ninguém se torna plenamente pessoa sozinho, isolado, sem relação. Nelson Mandela contava uma imagem simples para ilustrar o mesmo princípio: um viajante que chega a uma aldeia não precisa pedir comida ou água, porque as pessoas já oferecem antes mesmo de ele pedir.
A mesa, nessa tradição, não é cenário neutro onde comida acontece de ser servida. É o próprio lugar onde a comunidade se confirma como comunidade, e onde cada pessoa se confirma como pessoa através do gesto de alimentar e ser alimentada. Cozinhar para alguém, nesse sentido, nunca é ato apenas técnico. É declaração de que aquela outra pessoa importa o suficiente para receber tempo, atenção e cuidado transformados em prato.
Levada para a construção de si, essa ideia corrige um risco presente nas duas tradições anteriores: o de tratar o cozimento da própria identidade como projeto solitário, feito sozinho numa cozinha fechada. Não se cozinha, e não se constrói pessoa, isolado do mundo. O gosto que se forma, a técnica que se aprende, amadurecem em contato com outras pessoas, à mesa, na troca, no gesto de servir e ser servido, que é sempre, por baixo da comida em si, um gesto de reconhecimento mútuo.
Há uma diferença entre cozinhar como transação e cozinhar como dádiva, que o ubuntu ajuda a esclarecer. Numa transação, o prato é produto trocado por dinheiro ou reciprocidade equivalente. Numa dádiva, o prato carrega dentro de si o tempo de quem o preparou, e por isso não se paga de volta com equivalência exata, apenas se retribui, de outra forma, em outro momento, com outro prato ou outro gesto de cuidado. É esse circuito de dádiva, mais do que qualquer receita específica, que o ubuntu identifica como o verdadeiro alimento sendo trocado à mesa.
IV
A Mistura e a Origem
Sobre Câmara Cascudo e a identidade que nasce de encontro, não de pureza
O historiador e folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo passou duas décadas viajando pelo Brasil, entrevistando cozinheiras, feirantes e ex-escravizados, até publicar, em 1967, História da Alimentação no Brasil, o mais completo estudo já feito sobre como o país se alimenta e por quê. A obra descreve o que Cascudo chamou de tríplice legado: a herança indígena, a africana e a portuguesa, que, misturadas, refogadas e temperadas ao longo de séculos, formaram a cozinha brasileira que hoje parece óbvia e única.
O método de Cascudo importa tanto quanto a conclusão a que chegou. Ele não deduziu o tríplice legado de teoria abstrata, sentado numa biblioteca. Foi a campo, ouviu quem realmente cozinhava, registrou receitas que corriam risco de desaparecer sem nunca terem sido escritas, e viajou até a África para entender a origem de ingredientes e técnicas que já pareciam brasileiros de nascença. A identidade de um povo, para Cascudo, só se compreende rastreando com paciência os caminhos concretos por onde os ingredientes de fato viajaram, não impondo sobre eles uma narrativa de origem única e conveniente.
Não existe, na reconstrução de Cascudo, um momento anterior de pureza culinária brasileira que a mistura teria corrompido. A cozinha brasileira nasce já misturada. A mandioca indígena, o azeite de dendê africano, o trigo e o açúcar portugueses não chegaram a um prato pronto e o contaminaram. Eles são o prato. Sem qualquer um dos três, aquilo que se come no Brasil simplesmente não existiria na forma que existe.
Há uma lição de identidade escondida nesse fato culinário, muitas vezes citado sem se explorar sua implicação mais funda. A pergunta que interessa não é de onde vieram os ingredientes que compõem alguém, como se pureza de origem fosse valor a preservar. É como esses ingredientes, vindos de lugares e histórias distintas, muitas vezes marcadas por violência e desigualdade profundas, se encontraram e produziram algo que nenhum deles, sozinho, teria produzido.
Aplicada à construção pessoal, essa lição desarma qualquer busca por um eu original e puro que precisaria ser protegido de influência externa. Não existe, atrás das camadas de experiência, relação e cultura que formaram alguém, uma versão anterior mais autêntica esperando para ser resgatada. O que existe é o prato como ele é agora, resultado de misturas que já aconteceram e que não podem ser desfeitas sem destruir o próprio prato.
V
A Panela Como Espelho
Fechamento
A cena de abertura deste ensaio, o tempero que desaparece na panela sem deixar de existir, ganha agora contorno mais preciso depois de passar pelas quatro tradições percorridas. Brillat-Savarin mostrou que o gosto formado ao longo de uma vida é retrato de identidade em construção. O Cozinheiro Ding mostrou que a maestria está em enxergar a estrutura da matéria e mover-se de acordo com ela, não contra ela. O ubuntu mostrou que nenhum cozimento de si acontece isolado, sempre em relação, sempre à mesa com alguém. E Cascudo mostrou que misturas de origens diferentes não corrompem identidade nenhuma: fundam identidade nova.
Cozinhar-se, à luz dessas quatro vozes, não é encontrar uma receita fixa e repeti-la para sempre, nem é jogar ingredientes aleatórios numa panela sem critério algum. É o trabalho contínuo e paciente de provar, ajustar, aprender onde cada elemento novo encontra espaço para se dissolver sem que o prato inteiro se perca. Alguns temperos entram e definem tudo o que vem depois. Outros precisam ser dosados com cuidado, para não dominar o que já estava lá antes deles.
Talvez a única diferença real entre uma vida cozinhada com atenção e uma vida vivida sem esse cuidado seja esta: não o que entrou na panela, porque tudo, cedo ou tarde, acaba entrando, mas se alguém prestou atenção suficiente ao processo para saber por que aquele resultado específico tem o sabor que tem. Isso não garante um prato perfeito. Garante, ao menos, que quem provar saiba dizer com clareza do que aquele sabor é feito.
Não existe receita final para essa panela, porque ela nunca para de cozinhar enquanto há vida. Novos temperos continuam chegando, alguns bem-vindos, outros impostos por circunstância que ninguém escolheu. O que muda, com o tempo e com atenção, não é a certeza sobre o resultado, mas a disposição para provar de novo, ajustar o que ainda pode ser ajustado, e aceitar que o prato de hoje, por mais bem temperado que esteja, ainda vai receber mais um ingrediente amanhã.
O tempero entra na panela e some de vista.
Não some de fato: vira o sabor inteiro.
Brillat-Savarin dizia que somos o que comemos.
Ding via, no boi, os vãos por onde a lâmina passa sozinha.
Ubuntu lembra que ninguém cozinha, nem se cozinha, sozinho.
Cascudo encontrou o Brasil numa panela de três povos.
Cozinhar-se não é seguir receita nem improvisar sem critério.
É provar, ajustar, esperar, provar de novo.
No fim, ninguém separa mais o tempero da carne.
Só resta o prato, e o sabor que só existe porque ele foi feito assim.
Dedicatória
Este texto é dedicado a quem cozinha para alguém, mesmo quando ninguém está olhando.
Ainda temperando a próxima panela, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?