Contos · Ofício · Escrito CLXXVI
O Acerto
Uma gráfica pequena, uma assinatura no banco, uma máquina para ligar na manhã seguinte e as folhas que se jogam fora até a primeira boa
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Aba I
Abertura, I e II · A manhã depois da assinatura, a caneta seca e a cláusula
Aba II
III e IV · A gráfica que seguiu funcionando e os dois pedidos
Aba III
V e VI · A conta que não fecha e a primeira folha boa
Ela acordou às cinco e dez, sem despertador e sem motivo. Durante cinco meses aquele horário tinha sido o de um pensamento que acorda antes do corpo, sempre o mesmo, sempre a mesma conta. Naquela manhã o pensamento não veio. O corpo acordou sozinho, com o hábito de acordar e mais nada.
Vestiu a roupa da véspera, que estava na cadeira, e foi a pé até a gráfica, três quadras no escuro. Levantou a porta de enrolar devagar, para não acordar a rua, e o cheiro veio ao encontro dela: tinta, solvente, papel úmido, a mistura que as roupas dela nunca mais perderam. Ligou o disjuntor geral. A máquina estava onde estava, quieta, com a boca dos rolos aberta.
Prendeu uma chapa, encheu o tinteiro, ajeitou uma pilha de papel sem pensar em trabalho nenhum. Só queria ver a máquina andar. Apertou o botão. As primeiras folhas saíram borradas, tortas, com as cores fora de lugar, e caíram na bandeja uma por cima da outra. Ela ficou olhando aquilo cair.
I
A Caneta sem Tampa
Sobre o dia depois de um acordo
A caneta estava sobre a mesa do escritório, ao lado da pasta azul. Regina a tinha deixado ali sem tampa na tarde anterior, quando passou na gráfica só para largar os papéis e saiu sem falar com ninguém. A ponta secou. Ela riscou o canto de uma folha e nada veio. A assinatura de ontem tinha sido a última coisa que aquela caneta escreveu.
Ontem tinha sido assim: uma sala de reuniões no segundo andar da agência, uma mesa oval, o ar-condicionado forte demais. O gerente, de gravata torta, empurrando folhas. O advogado da distribuidora de papel numa tela, com a câmera cortando a testa dele. Quarenta e uma páginas. Regina Lacerda rubricou uma por uma e assinou a última com o nome inteiro, como o pai tinha ensinado, sem levantar a caneta no meio. Quando acabou, o gerente estendeu a mão e disse “parabéns”, e ela não entendeu de quê, como se tivesse feito aniversário.
Ninguém aplaudiu. Não havia por que aplaudir. Desceu pela escada porque o elevador estava ocupado e, na calçada, percebeu que não sentia nada que tivesse nome. Dirigiu até em casa com o rádio desligado, comeu pão em pé na cozinha e dormiu doze horas, de roupa.
Tinham sido cinco meses de uma rotina sem nada de dramático por fora. Acordar, vestir uma blusa que não parecesse de quem deve, atravessar a cidade até uma sala de espera. Havia uma cadeira de plástico azul na agência onde ela sempre se sentava, e acabou reconhecendo o desenho das manchas no carpete. Aprendeu o nome das atendentes. Aprendeu a diferença entre proposta e contraproposta e, depois, entre contraproposta e última contraproposta, que nunca era a última. Ela, que passara trinta anos vendendo prazo de entrega, passou a viver do prazo dos outros.
A pasta dizia o resto, e ela já tinha lido o resto quatro vezes: sessenta parcelas mensais, a primeira para dali a trinta dias. Oito mil e quatrocentos reais por mês, mais ou menos, durante cinco anos. A dívida de antes era uma montanha sem forma, e agora tinha forma, calendário e dia de vencimento, o dez. Regina fez a conta de cabeça, como fazia com tudo. Na última parcela, estaria com cinquenta e nove anos.
Acordo assinado não é dívida paga. É dívida com endereço.
Tinha sido o maior esforço da vida dela, e tinha servido para o que servia: para não quebrar naquele mês. Era pouco e era tudo. Sentou-se na cadeira do pai e ficou ali, sem ligar o computador, sem abrir o e-mail, com a caneta seca entre os dedos. Lá atrás, na oficina, a máquina que ela esquecera ligada girava em vazio, mastigando ar.
II
A Garrafa e a Cláusula
Sobre festejar cedo e ler tarde
Seu Nonato chegou às sete, como todo dia desde 1985, e encontrou a máquina ligada e a patroa na cadeira do pai. Olhou uma coisa e outra. “Deu certo?”, perguntou. “Assinou”, disse Regina. Ele balançou a cabeça devagar, aprovando a resposta e a diferença entre as duas palavras, e foi vestir o avental. Aos sessenta e três anos, tinha as mãos manchadas de preto até o punho e um jeito de ouvir a máquina que ninguém mais ali possuía. Dizia, sem exagero, quando uma pinça estava dois milímetros fora do lugar só pelo barulho.
Almir, o contador, apareceu no meio da manhã com uma garrafa de espumante de supermercado enrolada em jornal. “Não é para comemorar”, avisou, antes que ela dissesse qualquer coisa. “É para respirar.” Beberam às quatro da tarde, no escritório, em copos de café, com Davi e Nonato encostados na porta, sem saber direito se podiam entrar. Regina riu de uma bobagem de Almir, riu de verdade, pela primeira vez em meses, e por quarenta minutos a gráfica pareceu a de antes: barulhenta, suja e dela.
A garrafa dura quarenta minutos. A cláusula dura cinco anos.
À noite, sozinha na cozinha, com a pasta aberta sobre a mesa, chegou à cláusula nona. Vencimento antecipado: duas parcelas em atraso e o saldo inteiro voltava a ser devido, sem o desconto que ela tinha penado meses para conseguir. Releu duas vezes. Era a cláusula que todo contrato tem, e Regina sabia disso, e mesmo assim sentiu o estômago se fechar como uma mão.
Pegou o caderno de capa dura em que anotava as contas e começou a listar. Cortar o seguro do galpão. Renegociar o aluguel. Cobrar os três clientes que deviam desde março. Vender a guilhotina velha, que quase não usavam. Vender o carro? Riscou o carro. Escreveu até as três da manhã, e a lista foi virando plano, e o plano foi virando cronograma. Quando fechou o caderno, percebeu que já estava na batalha seguinte, e que o dia depois da assinatura tinha passado sem que ela o visse.
III
O Que Chegou Enquanto Ela Negociava
Sobre uma gráfica que seguiu funcionando
Nos dias seguintes, Regina fez uma coisa que não fazia havia meses: andou pela gráfica olhando. A oficina cheirava igual, mas parecia mais arrumada do que ela a deixara. As bandejas de papel estavam etiquetadas na letra de Davi. O quadro de pedidos, que ela mesma costumava atualizar, tinha sido atualizado por outra mão, mais redonda, e nenhum prazo estava vencido.
Descobriu então o que acontecera enquanto passava as manhãs na fila dos bancos e as tardes ao telefone com advogados. A gráfica tinha trabalhado. Cardápios, receituários, convites de formatura, os cadernos de um colégio, as notas do cartório da esquina, que pagara em dia. Uma cliente nova, dona de uma doceria, pedira duas mil etiquetas e voltara para buscar mais. Ninguém achara importante contar, porque ninguém quis somar mais um assunto aos que ela já carregava.
Enquanto ela brigava pela gráfica, a gráfica continuou sendo gráfica.
Davi, que fazia vinte e dois anos naquele mês e entrara como faxineiro, aprendera o registro sozinho. Regina achou o caderno dele numa gaveta: desenhos de pinça, de guia lateral, de rolo, com setas e anotações do tipo “Nonato faz assim: gira meia volta e espera”. Ele passara meses de intervalo de almoço observando as mãos de Nonato e copiando o que via, como quem decora uma língua. Nonato, por sua vez, tinha deixado de fazer certos serviços sozinho. Ensinava por teimosia e por cansaço: os joelhos já não aguentavam o dia inteiro em pé.
A blanqueta da máquina fora trocada em junho. A nota estava no nome de Nonato, que nunca pediu reembolso. Regina entrou na oficina com a nota na mão e não soube por onde começar. Ele a viu, viu o papel, e foi direto: “Era isso ou parar a máquina, dona Regina. A senhora estava no banco.” Ela quis devolver o dinheiro ali mesmo, e ele recusou, e discutiram um minuto e meio, e ela acabou descontando o valor, sem alarde, na folha do mês.
Também tinha acontecido isto, e foi o que mais doeu: Nonato completara quarenta anos de ofício em abril, e ninguém se lembrou, ela inclusive. Soube por acaso, quando Almir foi atualizar a ficha dele. “Seu Nonato”, disse. “Quarenta anos.” Ele ergueu as sobrancelhas, sem graça. “Quarenta e um em dezembro. A senhora tinha outras coisas.” E voltou para a máquina.
IV
Dois Pedidos
Sobre o trabalho que paga e o trabalho que ensina
Dois pedidos chegaram na mesma semana, e o contrato ainda não tinha dez dias.
O primeiro veio por telefone, de uma rede de supermercados da região: folhetos de oferta, toda semana, em cores, em tiragem grande. Pagava bem e pagava certo. Era o tipo de trabalho que ela teria perseguido durante anos, e agora que chegava, caía numa gráfica de uma máquina só, que teria de rodar de noite para dar conta. Havia um problema a mais: o papel viria da mesma distribuidora a quem ela devia, e a distribuidora, com toda a razão, exigia pagamento antecipado. Regina anotou tudo. Já fazia de cabeça a conta de como cobriria as primeiras parcelas com aquilo.
O segundo chegou a pé. Dona Cacilda, sessenta e oito anos, coordenadora do grupo de mães do bairro, parou à porta com uma pasta plástica contra o peito e esperou ser convidada. Dentro da pasta havia páginas escritas à mão: receitas. Bolo de milho, doce de leite de panela, a canjica da avó de alguém. Queria um livreto de trinta e duas páginas, trezentos exemplares, para vender na festa da paróquia e pagar a reforma da cozinha comunitária. Falou rápido, com medo do preço, e contou duas vezes quanto o grupo tinha juntado.
Regina fez a conta antes de terminar de ouvir. Papel, chapa, tinta, a hora da máquina, a dobra, o grampo. O que dona Cacilda tinha não cobria o custo. Cobriria, talvez, o papel. E a máquina ocupada por três dias era máquina que não rodava o trabalho que paga. Pensou em dizer não, com jeito. Já tinha a frase pronta quando Davi, atrás dela, limpando as mãos num pano, falou baixo:
“Dona Regina, posso rodar eu? Com o seu Nonato do lado.”
Ela se virou. Ele estava vermelho, mas sustentou o olhar. Regina lembrou do pai, que a largou sozinha diante daquela mesma máquina aos dezenove anos e saiu para fumar na calçada. Ela estragou muita folha naquela tarde. Quando o pai voltou e viu a maculatura empilhada no chão, olhou, contou de cabeça e disse: “Aprendeu o preço do papel.” Foi tudo o que disse.
Aprender numa gráfica custa papel. Sempre custou.
V
Primeiro a Dívida, Depois a Vida?
Sobre uma conta que não fecha por inteiro
Almir ouviu a decisão em pé, encostado na porta do escritório, com a pasta de extratos sob o braço. Não discutiu logo. Esperou que ela terminasse, tirou os óculos e esfregou os olhos.
“Regina, você acabou de assinar sessenta parcelas. Cada folha que o menino jogar fora é dinheiro que você não tem.”
“Eu sei.”
“E o trabalho dos supermercados vai entrar de noite. Quem roda de noite?”
“Nonato e eu.”
“Você, de noite, numa máquina, com a empresa nas costas.” Ele balançou a cabeça. “Então a conta não fecha.”
Regina demorou a responder, e quando respondeu falou devagar, como quem confere cada palavra antes de pagar por ela.
“Fecha neste mês. No mês que vem, não sei. Em março, talvez falte. Eu sei fazer essa conta, Almir, é a única que faço o dia inteiro.” Fez uma pausa. “O que a conta não me diz é quem vai estar nessa máquina daqui a cinco anos. Nonato vai ter quarenta e seis de casa e uma coluna que não vai aguentar. Se o menino não aprender agora, eu vou estar pagando a parcela e procurando alguém que saiba regular uma pinça.”
Almir olhou para ela por um bom tempo.
“Você está me dizendo que vai gastar papel para o caso de a gente chegar lá.”
“Estou dizendo que não quero chegar lá sem ter feito mais nada além de pagar.”
Ele recolocou os óculos. “Isso não é plano, é teimosia.”
“Pode ser as duas coisas.”
“E se a gente não chegar?”
Era a pergunta que ela não tinha feito em voz alta durante cinco meses, porque cada vez que a fazia a resposta chegava inteira e a impedia de levantar da cama. Ali, de pé na oficina, ouvindo a pergunta dita por outra pessoa, percebeu que ela pesava menos. Não porque houvesse resposta.
A pergunta pesa menos dita por outra boca. A resposta continua sendo: não se sabe.
“Então o menino terá aprendido a regular uma pinça”, disse. “E dona Cacilda terá o livro dela.”
Almir não respondeu. Pegou a pasta, saiu, voltou, e deixou sobre a mesa um bloco de notas fiscais. “Faça a nota da dona Cacilda com desconto de associação”, murmurou. “Se alguém perguntar, eu invento um.” E foi embora antes que ela agradecesse.
VI
O Contador
Sobre a primeira folha que sai e as que vêm depois
No sábado de manhã, a oficina estava vazia, a não ser por três pessoas e uma máquina. Davi, com o avental novo, o primeiro que Regina lhe dera. Nonato, de braços cruzados, dois passos atrás dele. E Regina na porta do escritório, onde ninguém a chamou e ninguém a mandou sair.
Davi prendeu a chapa. As mãos tremiam um pouco, e ele esperou o tremor passar antes de apertar o parafuso. Encheu o tinteiro, ajustou a molha, ergueu a pilha de papel, regulou o ar, e olhou para Nonato, que não disse nada. Respirou. Ligou.
As primeiras folhas saíram tortas, com o amarelo avançando sobre o vermelho e uma faixa de tinta de menos na borda. Caíram na bandeja uma sobre a outra. Davi levou a mão ao botão para parar.
“Deixa cair”, disse Nonato.
“Tá errado, seu Nonato.”
“Tá errado agora. É por isso que ela cai primeiro.”
Davi soltou o botão. Ficou olhando as folhas que se amontoavam, ruins, brilhantes, cheirando a tinta fresca, e Regina reconheceu no rosto dele a expressão que tivera aos dezenove anos, a de quem tem certeza de que está gastando dinheiro de alguém. Nonato esticou o braço por cima do ombro do rapaz e girou um parafuso um quarto de volta. Não disse mais nada. A máquina continuou.
A folha torta ensina o que a boa só confirma.
O contador do painel marcava as folhas passadas, e Davi o zerou depois do acerto, como Nonato mandou. Os algarismos voltaram a zero e, num instante, começaram a subir. Uma folha saiu inteira, limpa, com o texto no lugar e as cores se encontrando na medida. Davi pegou-a pela ponta e a estendeu a Regina sem uma palavra.
Era a página catorze do livreto. Uma receita de bolo de milho, com a letra de alguém reproduzida em tipografia, “ponha o fubá com carinho”, e embaixo, em corpo menor, o nome de uma avó. A tinta estava fresca e deixou uma sombra preta no polegar dela.
“A da senhora foram duzentas e dezoito”, disse Nonato, baixo, olhando para a máquina. “Eu contei.”
Regina riu pelo nariz. Segurou a folha mais um instante. Pensou no dia dez do mês seguinte, nos oito mil e quatrocentos reais, na cláusula nona, na primeira noite de folheto, em março, em tudo o que faltava saber. Devolveu a folha a Davi. “Pode seguir”, disse.
Ficou ali, de pé, ouvindo a máquina. No começo era só barulho. Depois o barulho virou ritmo, e o ritmo foi se tornando coisa de todo dia, dessas que a gente só nota quando param. O contador subia. Ela não foi olhar quanto faltava para sessenta.
A primeira folha sai torta.
A segunda cai melhor.
Ninguém imprime sem jogar fora alguma.
Sessenta parcelas pela frente
e uma pilha de papel limpo.
O contador sobe sem saber de contrato.
Acerto de contas, acerto de máquina:
a mesma palavra para o que se combina
e para o que se ajusta enquanto se trabalha.
O que vem depois do acerto
ninguém assina.
Roda-se.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem já fechou um acordo difícil e acordou no dia seguinte com a mesma máquina para ligar.
Ainda aprendendo a deixar a primeira folha cair, Santos Moisés.
Este escrito faz parte de
Este escrito lhe fez companhia?