Ensaio · Propósito · Escrito X

X

O Gesto e a Catedral

Como realizar cada coisa com propósito

Ouvir este escrito · narrado

0:00--:--
1×

Abertura e I–II

O propósito vertical · O propósito horizontal

III–IV

O ponto de cruzamento · A consagração do gesto

V

O advérbio

Existe uma pergunta que a nossa época transformou em indústria. Qual é o meu propósito?

Livros inteiros prometem ajudar você a encontrá-lo. Cursos, retiros, testes de personalidade, mentores especializados em descobrir o que você veio fazer no mundo. A premissa por trás de toda essa indústria é sempre a mesma, e raramente é examinada: a de que o propósito é um substantivo. Uma coisa. Algo que existe em algum lugar, escondido ou esquecido, esperando ser encontrado, e que uma vez encontrado resolve a questão de uma vez por todas.

Mas e se a premissa estiver errada? E se propósito não for um substantivo, mas um advérbio? Não o que você faz, mas o modo como faz? Não uma resposta que se descobre uma vez, mas uma qualidade que se imprime, ou não se imprime, em cada gesto?

Essa mudança gramatical parece pequena. Ela muda tudo. E é a tensão que esse ensaio quer habitar: porque existem duas tradições inteiras de pensamento sobre o propósito, cada uma com sua força e seu ponto cego, e a vida que vale a pena viver acontece exatamente no ponto onde as duas se cruzam.

I

O Propósito Vertical

A primeira tradição é a do sentido maior. O propósito como direção que atravessa e organiza a vida inteira, de cima para baixo.

Aristóteles deu a ela o fundamento mais sólido que existe. Cada ser, dizia ele, carrega um telos: uma finalidade inscrita na sua natureza, aquilo para o qual ele existe e em direção ao qual ele se realiza. A bolota existe para ser carvalho. O olho existe para ver. E o ser humano existe para realizar a sua forma mais plena, que Aristóteles identificava com a vida da razão e da virtude. O propósito, nessa visão, não é inventado: é descoberto. Está lá, na estrutura do que você é, esperando ser realizado.

Vinte e três séculos depois, Viktor Frankl deu a essa tradição a sua confirmação mais dramática. Nos campos de concentração, ele observou que os que sobreviviam com mais inteireza não eram os mais fortes, mas os que tinham um porquê. Citando Nietzsche: quem tem um porquê suporta quase qualquer como. O propósito vertical é isso: o porquê que fica de pé quando tudo o mais desaba, a direção que organiza as escolhas, que hierarquiza o que importa, que dá norte nos dias de névoa.

A força dessa tradição é inegável. Quem tem um propósito vertical não se perde em cada encruzilhada. Não precisa redecidir a vida toda semana. Tem um critério para dizer não, que é a capacidade mais escassa da vida contemporânea.

Mas há um limite. E ele é menos visível porque se disfarça de virtude. Quem vive apenas no eixo vertical trata os dias como meios. O presente vira corredor para o futuro da missão. As pessoas, sem que ele perceba, viram instrumentos ou obstáculos do projeto. É o pai ausente que trabalha pelo futuro da família e não percebe que a família está acontecendo agora, sem ele. É o idealista que ama a humanidade e maltrata o garçom. É o construtor de legado que atravessa a própria vida olhando para um horizonte que recua na mesma velocidade em que ele avança.

O propósito vertical, sozinho, tem um defeito estrutural: ele adia. E o que se adia indefinidamente tem outro nome: o que não acontece.

II

O Propósito Horizontal

A segunda tradição é mais discreta e veio, em grande parte, de fora do Ocidente. É a tradição da presença completa dentro de cada ato. O propósito não como direção que atravessa a vida, mas como qualidade que habita o gesto.

Na cerimônia do chá japonesa, preparar e servir uma xícara é um ato completo em si mesmo: cada movimento importa, não porque leva a algum lugar, mas porque é. O mestre zen que varre o pátio não está varrendo para ter um pátio limpo. Está varrendo. E nesse gerúndio absoluto mora uma forma de propósito que a mente ocidental, treinada para perguntar para quê, tem dificuldade de reconhecer.

Simone Weil, que era ocidental até a medula e mesmo assim chegou lá por conta própria, formulou o princípio: a atenção absoluta é oração. Independente do objeto. Atenção plena dada a um problema de geometria, a uma pessoa que sofre, a uma tarefa doméstica, tem o mesmo valor espiritual, porque o que importa não é o objeto da atenção, é a qualidade dela. O gesto feito com atenção inteira já é, em si mesmo, uma forma de propósito realizado.

A força dessa tradição é o que ela devolve: o presente. Nada é meio. Tudo é fim. A vida não está adiada para depois da missão: está acontecendo agora, neste gesto, e este gesto basta.

Mas há um limite aqui também. E ele é mais sutil. Presença sem direção não distingue o que merece atenção. Você pode lavar a louça com presença plena todos os dias por trinta anos e, no fim, descobrir que a presença era real mas a vida não foi a lugar nenhum que importasse para você. A atenção plena, sozinha, não responde à pergunta sobre o que vale a pena receber atenção. Ela aperfeiçoa o como e silencia sobre o quê.

E há a versão degradada, que o nosso tempo produziu em escala industrial: o mindfulness de mercado. A presença ensinada como técnica de produtividade, como ferramenta para tolerar o sem-sentido com menos sofrimento. Respire fundo, esteja presente, aceite o momento, e volte para a reunião que não deveria existir.

Isso não é propósito horizontal. É anestesia com vocabulário contemplativo.

III

O Ponto de Cruzamento

Imagine um copista medieval. Ele está num scriptorium, debruçado sobre um pergaminho, escrevendo uma letra. Uma única letra, com tinta que ele mesmo preparou, num gesto que exige atenção completa: a espessura do traço, a curva exata, o espaçamento. Ele faz essa letra como se fosse a única coisa que existe no mundo. E em certo sentido, naquele momento, é.

Mas a letra está dentro de uma palavra, que está dentro de uma página, que está dentro de um livro que vai levar anos para ser concluído e que talvez ele não veja pronto. E o livro está dentro de algo maior ainda: a preservação de um saber que atravessa gerações, a construção de uma biblioteca, uma catedral de palavras erguida por mãos que nunca se conheceram.

Cada letra: horizontal. A catedral: vertical. O copista vive no cruzamento.

Ele não está adiando a vida em nome da obra: a vida dele está inteira em cada letra. E não está perdido num presente sem direção: cada letra pertence a algo que a transcende. O gesto e a catedral não competem. Um dá presença ao outro; o outro dá sentido ao um.

Aristóteles, que fundou a tradição vertical, deixou também, quase escondida, a chave conceitual desse cruzamento. É uma distinção que pouca gente fora da filosofia acadêmica conhece, e que merece ser mais famosa do que qualquer conceito de autoajuda: a distinção entre kinesis e energeia.

Kinesis é o movimento que se define pelo seu fim externo. Construir uma casa é kinesis: enquanto a casa não está pronta, a ação está incompleta. O valor está no resultado; o processo é o preço que se paga por ele. Emagrecer, ser promovido, terminar o projeto: kinesis. A lógica da kinesis é a lógica do ainda-não.

Energeia é diferente. É a atividade que está completa a cada instante de sua realização. Quem dança já dançou. Quem contempla já contemplou. Quem ama já amou. Não há um momento futuro em que a dança finalmente se completa: ela se completa o tempo inteiro, enquanto acontece. A lógica da energeia é a lógica do já.

E aqui está a descoberta para a qual esse ensaio inteiro estava caminhando:

Realizar cada coisa com propósito é viver as kinesis da vida com a qualidade de energeia.

Fazer o que leva a algum lugar, porque a vida precisa de direção, de um modo que já vale agora, porque a vida só acontece agora. Construir a casa, sim. Mas construí-la de tal forma que cada gesto de construção esteja completo em si: a atenção ao tijolo, o cuidado com a medida, a presença no trabalho das mãos. O resultado continua importando. Mas ele deixa de ser o único depositário do valor. O valor se distribui por todo o caminho.

Alasdair MacIntyre, filósofo contemporâneo, deu a isso uma formulação prática: toda prática humana tem bens externos e bens internos. O bem externo do trabalho é o salário, o reconhecimento, o resultado. O bem interno é o que só se obtém fazendo bem a própria coisa: a excelência do gesto, o domínio crescente do ofício, a satisfação que não depende de ninguém estar olhando. Quem trabalha só pelos bens externos vive em kinesis perpétua: sempre incompleto, sempre esperando o pagamento. Quem descobre os bens internos transformou o mesmo trabalho em energeia.

IV

A Consagração do Gesto

Como isso acontece, na vida concreta? Não por técnica. Por algo mais antigo, que as tradições religiosas conheciam bem e que pode ser recuperado sem nenhuma doutrina: a consagração.

Consagrar um gesto é dedicá-lo a algo. É a diferença entre varrer a casa para ter uma casa limpa e varrer a casa como expressão de cuidado com o espaço onde a sua vida acontece. O movimento físico é idêntico. O que muda é a relação interna de quem varre com o que está fazendo. No primeiro caso, o gesto é serviço: paga-se um preço para obter um estado. No segundo, o gesto é expressão: ele diz, em ato, algo sobre quem você decidiu ser.

E essa é a pergunta que destrava tudo. Não a pergunta utilitária que fazemos por reflexo diante de cada tarefa, para que serve isso, mas outra, mais funda:

O que isso expressa?

A reunião tediosa serve para alinhar o projeto. Mas o que ela pode expressar? Talvez o respeito com que você trata as pessoas mesmo quando o contexto não merece. O e-mail burocrático serve para cumprir um protocolo. O que ele expressa? Talvez a clareza que você se recusa a abandonar mesmo no que é pequeno. A refeição preparada serve para alimentar. O que ela expressa? O cuidado com quem vai comer, incluindo quando quem vai comer é você.

Nem todo gesto pode ser consagrado, e fingir o contrário seria desonesto. Há tarefas que são apenas tarefas, e dias em que a única expressão possível é a perseverança. Mas a quantidade de gestos consagráveis numa vida comum é muito maior do que a vida distraída permite ver. E cada gesto consagrado é um ponto onde o vertical e o horizontal se tocam: a direção da vida inteira, comprimida e presente num único ato feito com atenção.

O copista não escrevia letras bonitas apesar da catedral, nem construía a catedral apesar das letras. As letras eram a catedral, no único tamanho em que uma vida humana pode tocá-la: o tamanho do gesto.

V

O Advérbio

Voltemos à pergunta do início, agora com tudo o que foi construído no caminho.

Qual é o meu propósito? A pergunta, formulada assim, procura um substantivo. E substantivos, uma vez encontrados, viram posse: algo que se tem, se declara, se exibe. O propósito-substantivo tem a mesma fragilidade de tudo que se possui: pode ser perdido, roubado pela circunstância, esvaziado pelo tempo.

O propósito-advérbio não pode. Porque ele não está em lugar nenhum esperando ser encontrado. Está disponível em cada gesto, como uma qualidade que você imprime ou não imprime no que faz. Ele não responde o que devo fazer da minha vida de uma vez por todas. Responde uma pergunta menor e mais poderosa, mil vezes por dia: como vou fazer isto que está diante de mim?

O vertical dá a direção: sem ele, a presença vira deriva. O horizontal dá a presença: sem ele, a direção vira adiamento. O cruzamento dá a vida: cada gesto completo em si mesmo e, ao mesmo tempo, pertencente a algo maior.

Você não precisa achar o seu propósito. Precisa decidir o que cada gesto seu vai expressar. Começando pelo próximo.

No gesto simples de mais um dia, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

Abertura e I–II · O vertical · O horizontal
Biblioteca