Ensaio · Acedia · Escrito LXXXVIII

LXXXVIII

O Demônio do Meio-Dia

Sobre a acedia, o sentimento que os monges nomearam e nós esquecemos de nomear de novo

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I

Abertura, e a palavra que ninguém traduziu

II–III

O retrato clínico de 1.600 anos atrás, e Tomás de Aquino

IV–V

O contraponto moderno, e ecos no cotidiano

Por volta da quarta hora do dia, quando o sol egípcio já pesava sobre as celas de pedra, um monge do deserto começava a sentir algo estranho acontecer com o tempo. O relógio parecia ter parado. O sol, que minutos antes se movia normalmente pelo céu, agora dava a impressão de estar imóvel, como se o dia tivesse decidido durar cinquenta horas em vez de vinte e quatro. O monge olhava pela janela da cela. Depois olhava de novo. Saía, media com os olhos a distância que faltava até a hora do almoço, voltava para dentro, sentia um ódio repentino pelo próprio lugar onde vivia, pelos próprios irmãos de comunidade, pelo próprio trabalho manual que minutos antes fazia sentido e agora parecia a coisa mais inútil do mundo.

Os monges do século quatro tinham um nome para isso. Chamavam de akēdia, e diziam que era obra de um demônio específico, o mais perigoso de todos, porque diferente da gula ou da luxúria, que atacam sempre pelo mesmo ponto do corpo, esse demônio podia se disfarçar de qualquer coisa. Chamavam-no de demônio do meio-dia.

I

A Palavra Que Ninguém Traduziu

Evágrio Pôntico e João Cassiano

Quem primeiro sistematizou essa experiência foi Evágrio Pôntico, monge e erudito que viveu entre 345 e 399 no deserto egípcio, formado na tradição da filosofia grega antes de trocar a vida urbana pela vida contemplativa. Evágrio catalogou oito pensamentos maus, os logismoi, que assaltavam a mente de quem tentava viver em silêncio e oração: a gula, a luxúria, a avareza, a tristeza, a ira, a vanglória, o orgulho, e, em sexto lugar na lista, a acedia. A palavra vem do grego kēdos, que significa cuidado, preocupação, atenção genuína com algo. O prefixo a nega. Akēdia é, literalmente, a ausência de cuidado. Não a preguiça de quem não quer fazer nada, mas a incapacidade de se importar com qualquer coisa, mesmo continuando a fazer tudo.

No livro Praktikos, Evágrio descreveu o ataque desse demônio com um detalhe que atravessa os séculos sem perder força: ele cerca a alma inteira, sufoca a mente, faz o monge odiar o próprio lugar, odiar os próprios irmãos, odiar o trabalho manual que antes sustentava tanto o corpo quanto a oração. Outros demônios, escreveu Evágrio, atacam como o sol nascendo ou se pondo, afetando só uma parte da alma por vez. O demônio do meio-dia envolve a alma inteira.

Um século depois, João Cassiano, discípulo espiritual de Evágrio, levou esse ensinamento do deserto egípcio para a Gália, no que hoje é o sul da França, fundando mosteiros e escrevendo o tratado Institutas, dedicando um livro inteiro, o décimo, exclusivamente à acedia. E aqui está o detalhe que mais me marcou nessa pesquisa: ao traduzir a lista inteira de Evágrio do grego para o latim, Cassiano traduziu sete das oito palavras sem dificuldade. A gula virou gula. A luxúria virou luxúria. A avareza virou avareza. Só uma palavra ele decidiu não traduzir. Deixou acedia como estava, em grego, dentro do texto latino, porque nenhuma palavra do seu próprio idioma dava conta do que aquilo realmente era.

Uma palavra que resiste à tradução não é um capricho de quem escreve. É a prova de que a experiência descrita é real demais para caber em qualquer sinônimo já disponível.

II

O Retrato Clínico de 1.600 Anos Atrás

De pecado a sono

A descrição que Cassiano deixou do monge tomado pela acedia é, sob qualquer critério moderno, um retrato clínico. Ele escreve que o monge acometido passa a sentir como se nunca fosse ficar bem naquele lugar, a menos que saia dele. Sente fome súbita e cansaço súbito, mesmo sem ter feito esforço físico que justifique nenhum dos dois. Olha repetidamente pela janela. Sai da cela sem motivo, volta, sai de novo. Desenvolve o que os relatos da época chamam de ódio pelo lugar, ódio pela própria vida ali, ódio até pelos livros que antes lia com prazer, e um profundo desânimo diante do trabalho manual que, no mundo monástico, era tão ligado à oração quanto o próprio silêncio.

O que torna esse relato tão perturbador de ler hoje é o quanto ele se parece com descrições contemporâneas de exaustão e desmotivação crônica, escritas mil e seiscentos anos antes de qualquer manual de psicologia existir. Os monges não tinham diagnóstico. Tinham observação atenta e uma linguagem espiritual para nomear o que observavam. E o que observavam era gente que continuava presente fisicamente, cumprindo o horário, indo à cela, participando das orações, mas que por dentro tinha parado de se importar com qualquer coisa daquilo.

Quando essa lista de oito pensamentos maus atravessa o Mediterrâneo e chega até o papa Gregório Magno, algo se perde no caminho. Entre 578 e 595, enquanto escrevia a Moralia in Job, seu extenso comentário sobre o livro bíblico de Jó, Gregório revisa a lista de Cassiano e funde a acedia com a tristitia, a tristeza da lista original, reduzindo oito vícios a sete. Do resultado dessa fusão nasce o que conhecemos hoje como um dos sete pecados capitais: a preguiça. É um encolhimento drástico. A palavra que descrevia um estado inteiro da alma, capaz de assumir qualquer forma, vira sinônimo de simplesmente não querer trabalhar. A acedia original era mais estranha e mais honesta do que isso: incluía uma inquietação agitada, o impulso de sair correndo do próprio lugar, tanto quanto incluía a inércia. Não era um só sintoma. Era a incapacidade de encontrar sentido em ficar onde se está, disfarçada tanto de cansaço quanto de agitação, dependendo do dia.

Séculos mais tarde, Tomás de Aquino tentaria costurar essa fenda de volta. Ao escrever sobre os vícios capitais, ele usa a expressão tristitia sive acedia, tristeza ou acedia, tratando as duas quase como sinônimos, mas reintroduzindo, dentro da definição de tristeza, boa parte do peso espiritual que Gregório havia deixado de fora. É como se a palavra original, mesmo apagada do vocabulário oficial, insistisse em voltar pela porta dos fundos toda vez que alguém tentava descrever com precisão aquele estado específico de desânimo que não é bem tristeza e não é bem preguiça.

Preguiça é não querer fazer nada. Acedia é fazer tudo e não conseguir se importar com nenhuma parte disso.

III

Tomás de Aquino e o Peso Que Não Tem Nome Próprio

O antídoto estrutural de São Bento

Setecentos anos depois de Evágrio, o teólogo Tomás de Aquino ainda encontra necessidade de tratar da acedia como conceito distinto, mesmo já dissolvida oficialmente dentro da preguiça. Na Suma Teológica, Aquino a define como uma espécie de tristeza pesada que recai sobre a mente de tal forma que nenhuma atividade agrada mais a pessoa, uma tristeza especificamente diante do bem espiritual, na medida em que esse bem é divino. Para Aquino, a acedia é o primeiro pecado contra a alegria da caridade, porque se opõe justamente ao deleite espiritual que deveria nascer de amar aquilo que se ama.

Há algo notável nesse detalhe: mesmo tratando a acedia como vício, Aquino reconhece nela uma dimensão de peso, de tristeza que oprime, que a diferencia claramente da simples preguiça corporal. Ele está descrevendo algo mais próximo do que hoje chamaríamos de anedonia, a incapacidade de sentir prazer mesmo nas coisas que deveriam dar prazer, do que de indolência. A regra de São Bento, escrita ainda no século seis, já havia proposto um antídoto estrutural para esse mal: o voto de estabilidade, que obriga o monge a permanecer numa única comunidade pela vida inteira, um contraponto direto ao impulso da acedia de sempre querer fugir para outro lugar, como se o problema fosse o lugar, e não a relação da pessoa com qualquer lugar em que estivesse.

IV

O Contraponto Moderno

Kathleen Norris e a Organização Mundial da Saúde

A palavra acedia praticamente desaparece do vocabulário comum depois da Idade Média, sobrevivendo só em tratados especializados de teologia. Foi a escritora norte-americana Kathleen Norris quem a resgatou para o público geral, em 2008, no livro Acedia & Me, argumentando que se trata do vício da nossa época, quase completamente desconhecido pelo nome, mas onipresente na prática. Norris descreve reconhecer o padrão em si mesma: aquele tédio profundo com a própria situação de vida, aquela agitação que faz pular de uma distração para outra sem nunca se fixar em nenhuma, aquela sensação de que, se ao menos as circunstâncias fossem outras, tudo estaria bem, e a circunstância seguinte revelando exatamente a mesma inquietação. O que ela argumenta, e que me parece o ponto mais importante do livro inteiro, é que a acedia não é falta de fé nem falta de disciplina. É um estado que pode acometer justamente as pessoas mais comprometidas com aquilo que fazem, precisamente porque só quem se importa de verdade com algo é capaz de sentir, com tanta intensidade, o vazio de não conseguir mais se importar.

O paralelo mais direto que a medicina contemporânea oferece hoje é o burnout. Em maio de 2019, a Organização Mundial da Saúde incluiu oficialmente o burnout na undécima revisão da Classificação Internacional de Doenças, descrevendo-o como síndrome resultante de estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso, caracterizada por exaustão, distanciamento mental crescente em relação ao próprio trabalho, e sensação de ineficácia. Não é coincidência que a definição da OMS, quase mil setecentos anos depois de Evágrio, reconheça exatamente os dois sintomas que os monges do deserto já haviam descrito: o esgotamento e o distanciamento afetivo daquilo que antes fazia sentido.

A diferença é que a OMS trata o burnout como fenômeno estritamente ocupacional, ligado ao ambiente de trabalho, enquanto a acedia, na concepção original dos monges, era mais ampla: dizia respeito à relação inteira da pessoa com o próprio compromisso de vida, seja ele espiritual, profissional ou afetivo. Talvez precisemos das duas palavras. Uma para nomear o esgotamento específico do trabalho. Outra para nomear algo mais antigo e mais silencioso: a incapacidade de continuar se importando com aquilo que, um dia, escolhemos amar.

O burnout tem data de nascimento oficial: maio de 2019. A acedia tem mil e seiscentos anos de história documentada dizendo a mesma coisa com outras palavras.

V

Ecos no Cotidiano

Fechamento

Não é difícil reconhecer o demônio do meio-dia na vida contemporânea, só que hoje ele não precisa mais de uma janela de cela para atacar. Basta um celular na mesa. O gesto do monge olhando repetidamente para fora, medindo quanto falta para o dia acabar, virou o gesto de checar o telefone a cada poucos minutos, sem necessidade real nenhuma, só para interromper o próprio tempo antes que ele se torne insuportável de habitar sozinho. A inquietação que fazia o monge sair da cela sem motivo é a mesma que hoje troca de aba do navegador antes mesmo de terminar de ler o parágrafo anterior.

O que os monges entenderam, e que talvez valha a pena reaprender, é que a acedia não se resolve trocando de lugar, de emprego, de relacionamento, de aplicativo. O voto de estabilidade de São Bento não era ingenuidade medieval. Era a percepção precisa de que o impulso de fugir costuma ser sintoma, não solução. Quando tudo parece igualmente sem sentido, mudar de cenário só adia o encontro com a própria incapacidade momentânea de se importar. A pergunta que a tradição inteira, de Evágrio a Kathleen Norris, deixa em aberto não é como evitar sentir isso algum dia. É o que fazer quando, inevitavelmente, o sol parar de se mover no meio da tarde e o trabalho que você ama parecer, de repente, a coisa mais vazia do mundo.

A resposta que os monges praticavam era simples de descrever e difícil de cumprir: ficar. Continuar na cela mesmo sem vontade nenhuma de estar ali. Continuar o trabalho manual mesmo sentindo que não tem sentido nenhum naquele instante. Não porque a acedia seja mentira, ela é real e pesada, mas porque ceder ao impulso de fugir, historicamente, nunca resolveu o problema, só o transportou para o próximo lugar.

Talvez o antídoto mais antigo contra o vazio de sentido não seja encontrar um sentido novo. Seja ficar tempo suficiente para descobrir que o sentido antigo ainda está lá, só temporariamente encoberto.

O sol para ao meio-dia
e o relógio finge que esqueceu de andar.
Não é o mundo que ficou vazio,
é você que esqueceu, por um instante,
como se importar com ele.
Fique. O sol volta a se mover
assim que você para de olhar pela janela.

Dedicatória

Este texto é dedicado a todo aquele que, num dia comum, sentiu o tempo parar e o próprio trabalho perder o sentido, e mesmo assim ficou.

Ainda no meu lugar às quatro da tarde, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · A Palavra Que Ninguém Traduziu
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