Fábula · Solidão · Escrito CLXIX
O Animal no Meio de Todos
As Conversas do Terreiro, VI: uma fábula sobre solidão, amizade e o trabalho de pertencer
Ouvir este escrito · narrado
Aba I
Abertura e I a III · O meio de todos, a solidão e a amizade
Aba II
IV e V · A festa e o reconhecimento
Aba III
VI e VII · A ponte e o lugar
Aba IV
VIII a XI · Quatro vozes para a conversa
Na Fazenda das Quatro Vozes, havia um animal que estava sempre no meio de todos.
Ele atravessava o terreiro quando as galinhas se reuniam, descansava perto do bebedouro quando as vacas chegavam e sentava-se junto ao portão quando os animais esperavam visitas.
Seu nome era Téo.
Téo era um cão pequeno, de pelo marrom e olhos atentos. Conhecia todos os caminhos da fazenda e raramente perdia uma conversa. Mesmo assim, ninguém sabia dizer qual era a sua conversa preferida.
Quando a conversa acabava, os animais se despediam.
“Até amanhã, Estouro.”
“Boa noite, Rumina.”
“Nos vemos cedo, Baltazar.”
Quase nunca diziam:
“Até amanhã, Téo.”
Não porque não gostassem dele. Téo era prestativo: guardava o portão, avisava quando alguém chegava, conhecia o nome dos filhotes. Era útil para todos, mas não era íntimo de ninguém.
I
A Presença Que Não Era Percebida
Sobre estar perto sem estar ligado
Certa manhã, Estouro organizou uma reunião sobre o novo sino. Téo ajudou a arrumar as caixas e ficou sentado atrás delas durante toda a conversa. Quando terminou, todos saíram conversando.
“Você vai conosco?”, perguntou uma galinha.
“Para onde?”
“Não sei. Vamos ver.”
A galinha correu para alcançar as amigas. Téo ficou parado. Farofa, que observava do telhado, desceu até a cerca.
“Você não vai?”
“Não sei para onde eles vão.”
“Você poderia perguntar.”
“Poderia.”
“Então por que não pergunta?”
Téo olhou para os animais que se afastavam.
“Tenho medo de descobrir que não queriam que eu fosse.”
Farofa voou até o celeiro.
“Você sabe que Téo fica sozinho?”, perguntou a Rumina.
“Ele está sempre no meio dos animais.”
“Talvez ele esteja cercado, mas não acompanhado.”
Baltazar, que consertava uma roda, ouviu a conversa.
“Estar perto não é o mesmo que estar ligado. Proximidade é uma distância pequena. Vínculo é saber que nossa presença importa para alguém e que também podemos contar com essa pessoa.”
“Téo está presente em quase todas as atividades”, disse Estouro. “Deve estar satisfeito.”
“Presença não prova pertencimento”, disse Rumina. “Um animal pode estar presente por hábito, medo ou falta de outro lugar para ir.”
Estar cercado de gente é uma coisa. Ter a quem contar é outra.
II
O Que É Solidão?
Sobre o que se carrega sem dizer
Os quatro foram conversar com Téo, que olhava a estrada perto do portão.
“Você se sente sozinho?”, perguntou Rumina.
“Eu? Não. Estou sempre com os outros.”
“Você tem alguém a quem contar o que não contaria para todos?”, perguntou Farofa.
“Não sei.”
Baltazar sentou-se ao lado dele.
“Solidão não é apenas estar sem pessoas. É sentir que ninguém conhece o que acontece dentro de nós, ou que não há lugar seguro para levar aquilo que sentimos.”
“Eu conheço todos os animais, mas eles não me conhecem”, disse Téo. “Uma vez tentei contar algo sobre mim. Um cavalo perguntou se eu sabia quem havia chegado pelo portão.”
Farofa fechou as asas.
“Desde então, passei a falar apenas do portão.”
III
A Amizade Não Nasce Pronta
Sobre o que a gente nunca achou importante contar
Rumina convidou Téo para caminhar pelo pomar.
“O que você gosta de fazer quando ninguém precisa de você?”, perguntou ela.
Téo parou.
“Ninguém nunca perguntou isso.”
“Gosto de ouvir o vento nas folhas secas. Gosto de correr quando chove. Gosto de guardar pedras lisas.”
“Por que você nunca contou?”
“Não parecia importante.”
“Talvez uma amizade comece quando alguém considera importante aquilo que você achava pequeno demais para contar.”
Mais adiante, Baltazar carregava uma caixa.
“Posso ajudar?”, perguntou Téo.
“Pode, mas não precisa. Você pode ficar comigo sem estar prestando um serviço.”
Sentaram-se sob uma árvore e, durante algum tempo, não falaram.
“Então por que estou aqui?”, perguntou Téo.
“Porque podemos estar juntos sem uma tarefa entre nós.”
Na fazenda, quase todos os encontros começavam com um pedido e terminavam quando o pedido era atendido.
IV
A Festa Que Ninguém Queria Perder
Sobre saber dizer não sem desaparecer
Naquela semana, a fazenda fez uma festa para celebrar o início das chuvas. Téo pôs as mesas, carregou os bancos e pendurou as fitas.
Durante a festa, circulou entre todos, trazendo o que lhe pediam: o balde azul, a corda.
Quando a música começou, todos dançaram. Téo ficou perto do portão, e Farofa pousou em seu ombro.
“Eu também não sei dançar, mas daqui de cima parece que ninguém sabe muito.”
Téo riu. Foi uma risada curta, mas verdadeira.
Estouro veio chamá-lo para o concurso de latidos. Rumina perguntou:
“Você quer ir?”
“Não.”
“Então não precisa.”
“Mas ele vai ficar irritado.”
“Pode ficar. A amizade também precisa suportar um não.”
Téo sentiu algo novo. Até então, pensava que pertencer era estar disponível quando chamavam. Talvez também fosse poder recusar um pedido sem desaparecer da relação.
Estouro sentou-se perto dele.
“Estou tentando descobrir como é estar aqui porque quero, e não porque alguém precisa de alguma coisa”, disse Téo. “Você se sente sozinho?”
“Eu sou muito conhecido.”
“Não foi isso que perguntei.”
O galo ficou calado. Depois disse:
“Às vezes, quando paro de falar, não sei se alguém continua comigo.”
“Podemos ficar em silêncio, até que um dos dois queira dizer alguma coisa.”
Ficaram quase um minuto calados. Para Estouro, pareceu uma hora. Para Téo, pareceu o primeiro minuto em que não precisava desempenhar uma função.
Poder dizer não e continuar dentro da relação também é uma forma de pertencer.
V
Ser Visto, Ser Reconhecido
Sobre a diferença entre multidão e comunidade
No dia seguinte, Rumina escreveu no quadro do terreiro:
Uma multidão é uma comunidade?
“Comunidade é uma rede de relações, responsabilidades, memórias e formas de cuidado”, explicou Baltazar. “Pode ser grande, mas precisa ter algum modo de reconhecer as pessoas que a formam.”
“Se todos conhecem o nome de uma pessoa, mas ninguém percebe sua ausência, talvez o conhecimento seja apenas cadastro”, acrescentou Farofa.
Rumina escreveu duas expressões: ser visto, ser reconhecido.
“Ser visto é estar no campo de visão de alguém”, disse Baltazar. “Ser reconhecido é ter sua experiência considerada.”
“Eu era visto porque trabalhava no portão”, disse Téo. “Não era reconhecido porque ninguém perguntava como eu estava.”
“Eu era ouvido porque gritava”, disse Estouro. “Não era escutado.”
“Eu era procurado por respostas”, disse Baltazar. “Nem sempre como alguém que também precisava de companhia.”
VI
A Ponte Quebrada
Sobre estar perto do problema e longe da responsabilidade
Alguns dias depois, a ponte de madeira que ligava o campo ao pomar quebrou. Sem ela, os menores atravessavam lama e os mais velhos não passavam sozinhos.
“Precisamos saber por que ela quebrou”, disse Baltazar.
Farofa trouxe a notícia de que os animais do campo tinham pedido o conserto havia meses.
“Quem recebeu o pedido?”
“Todos ouviram. Ninguém ficou responsável.”
Téo olhou para a ponte.
“Todos estavam perto do problema, mas ninguém estava ligado a ele o bastante para cuidar.”
“Uma comunidade não é apenas compartilhar benefícios”, disse Baltazar. “Também é compartilhar responsabilidades.”
Reconstruíram a ponte juntos e criaram uma escala de manutenção e um modo de registrar os pedidos antes que algo quebrasse.
“Você deveria ser responsável pela ponte”, disse Estouro.
“Não sozinho”, respondeu Téo.
“Está aprendendo a pedir companhia.”
Foi então que Téo propôs uma noite por semana sem reunião, competição ou tarefa. Só comida, espaço e tempo. Os animais se sentaram em círculos pequenos, e a pergunta era: o que você gosta de fazer quando ninguém espera nada de você?
Uma galinha disse que gostava de ouvir a chuva. Estouro disse que estava treinando escutar.
“Eu gosto de correr na chuva e guardar pedras lisas”, disse Téo.
“Você pode mostrar suas pedras?”, perguntou a galinha ao seu lado.
“Posso.”
No fim da noite, havia um pequeno monte de pedras sobre um pano. Os animais ouviram Téo explicar onde achara cada uma, não porque precisassem de alguma coisa, mas porque queriam conhecê-lo.
VII
O Animal no Meio de Todos
Sobre pertencer sem provar que se merece
A noite dos círculos durou meses. Nem todos se tornaram amigos de todos, e isso também foi importante aprender: comunidade exige respeito e espaço para vínculos diferentes, não intimidade com todo mundo.
Certa manhã, Téo não apareceu no portão. O portão ficou aberto, e Estouro anunciou o problema com grande volume.
“Cadê Téo?”
Dessa vez, a pergunta não era sobre o trabalho que ele fazia.
Téo estava doente, cansado, com febre e sem vontade de falar.
“Você quer companhia?”, perguntou Rumina.
“Quero, mas não quero conversar.”
“Podemos ficar em silêncio.”
Baltazar sentou-se perto da porta. Estouro trouxe água e, pela primeira vez, não fez anúncio algum. Farofa voltou com uma pedra lisa do riacho.
A comunidade não resolveu a doença no lugar de Téo. Mas ele não precisou atravessá-la sozinho.
Quando voltou ao trabalho, a fazenda não havia se tornado perfeita, mas agora havia nomes para procurar e pessoas que perceberiam seu silêncio.
“Você ainda se sente sozinho?”, perguntou Rumina.
“Às vezes. Mas agora a solidão não parece uma prova de que ninguém se importa. Às vezes é apenas um sentimento que posso contar a alguém.”
Do telhado, Farofa viu os animais ainda separados em grupos, com suas distâncias e seus pequenos conflitos. Mas viu também caminhos entre eles, que existiam porque alguns animais decidiram construir passagem.
Pertencer não é estar no meio de todos. É saber que existe um lugar onde podemos chegar sem precisar provar que merecemos ficar.
A solidão deixa de ser uma sentença quando vira algo que se pode contar a alguém.
VIII
Rumina e as Duas Solidões
Sobre Robert Weiss e a diferença entre ter gente e ter vínculo
Em 1973, o sociólogo americano Robert Weiss propôs, em Loneliness: The Experience of Emotional and Social Isolation, que solidão não é uma coisa só. A solidão social vem da falta de uma rede mais ampla. A emocional, da falta de um vínculo íntimo e seguro. As duas são independentes: dá para ter uma rede enorme e passar fome de vínculo.
Téo é esse caso. A fazenda inteira o conhecia, e ele não tinha vínculo. Por isso a pergunta de Rumina, "você tem alguém a quem contar?", acerta onde "você tem companhia?" erra. Na teoria de Weiss, a emocional só passa com uma relação íntima, e a social só com acesso a uma rede, e a fazenda precisou das duas. Por isso o fim da fábula não promete que a solidão acabe: ela passa a ter com quem ser contada.
IX
Baltazar e o Mutirão
Sobre Antonio Candido e o bairro que se faz de ajuda mútua
Em Os Parceiros do Rio Bonito, tese defendida em 1954 e publicada em 1964, Antonio Candido estudou o modo de vida do caipira paulista em Bofete, no interior de São Paulo. Descobriu que a unidade da vida social era o bairro rural, um agrupamento de famílias unidas pelo convívio e pela ajuda mútua, e que o mutirão, seu momento mais visível, era trabalho coletivo com uma parte de festa.
É o que Baltazar diz diante da ponte quebrada: comunidade é dividir também as responsabilidades. No mutirão, trabalho e festa não eram coisas separadas, e a fazenda reinventa essa mistura com a escala de manutenção e a noite sem tarefa. Candido descrevia um modo de vida que já mudava depressa, então a lição não é voltar a ele, e sim lembrar que comunidade se faz de combinados pequenos, com alguém responsável por eles.
X
Farofa e o Amigo que É o Caminho Inteiro
Sobre o Buda, Ananda e a metade que era o todo
Num discurso do cânone páli, o Sutta Upaddha, o discípulo Ananda diz ao Buda que a boa amizade é metade da vida santa. O Buda responde que não: é a vida santa inteira, e muitos se libertaram do sofrimento por terem nele um amigo admirável.
Farofa era conhecido pelas notícias que trazia, e não pela pessoa que era sem notícia nenhuma. Quando pousa no ombro de Téo na festa e fica, sem pedir nem entregar nada, faz o que a tradição budista chama de amizade admirável: a que acompanha o caminho do outro, aprende com ele e o apoia. Nessa leitura, ela não enfeita a vida boa. É a própria vida boa em movimento.
XI
Estouro e a Festa Sem Motivo
Sobre Chinua Achebe e a razão de se reunir
Em O Mundo se Despedaça, de 1958, Chinua Achebe põe na boca do velho Uchendu uma explicação sobre as festas. Quem chama os parentes para comer não o faz para livrá-los da fome, porque todos têm comida em casa. E, quando a aldeia se junta ao luar na praça, não é por causa da lua, que cada um vê do próprio quintal. Reúnem-se porque é bom reunir-se.
Estouro achava que, sem atividade, os animais ficariam entediados. A noite dos círculos mostrou o contrário: ninguém precisava de nada, e foi a noite em que Téo mostrou as pedras. Uchendu falava com tristeza de uma união que via se desfazer, e a fábula não a promete. Mostra só que ela se refaz quando alguém cria um lugar onde estar junto não precisa de pretexto.
Téo guardava o portão
e sabia o nome de todos.
Faltava alguém procurar o dele.
Perto é uma distância.
Ligado é um nome
que alguém busca quando você não vem.
Pedras lisas sobre um pano,
uma ponte que ninguém cuida sozinho,
uma noite sem tarefa.
Pertencer é chegar
sem provar que merece ficar.
Dedicatória
Este escrito é dedicado a quem está sempre no meio de todos e espera, em silêncio, que alguém pergunte.
Ainda aprendendo a perguntar, Santos Moisés.
Este escrito faz parte de
Percursos
Ouvir em fila
Este escrito lhe fez companhia?