Ensaio · Desejo · Escrito XXVII

XXVII

A Régua que Não Volta

Sobre o que a comparação desloca, para sempre, no que já bastava

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I

O sabor que bastava

II

O que o forasteiro trouxe

III

A régua que sobe

IV

Fumar de novo

A estrada era de terra batida, dessas que voltam com a chuva e endurecem com o sol até virarem quase pedra, e a bandeirante vinha rodando havia horas quando o motor decidiu que não aguentava mais. O ponteiro da temperatura, que já vinha subindo devagar desde o meio da tarde, cravou no vermelho de uma vez, e o carro parou soltando uma fumaça branca e fina que se misturava à poeira ainda suspensa no ar. Era final de tarde, umas cinco horas, aquele momento em que o calor do dia começa a ceder mas ainda não vira frio nenhum, só um alívio.

Ali perto havia uma casa sem reboco, os tijolos à mostra, mas com uma varanda pequena, coberta, que projetava uma sombra generosa sobre o chão de terra batida em frente à porta. E sentado no parapeito dessa varanda estava um homem, tragando um cigarro de fumo de corda enrolado à mão, o cheiro forte chegando antes mesmo dele ser visto direito, um cheiro que não tinha nada de refinado e, ainda assim, parecia ocupar o espaço inteiro daquele entardecer com naturalidade. O homem olhava para o horizonte sem pressa nenhuma. Não era o olhar de quem espera alguma coisa. Era o olhar de quem já tinha recebido, naquele dia, tudo o que precisava receber. Ele tinha trabalhado a terra desde cedo, e agora, com o corpo cansado do jeito bom de cansaço, fumava e agradecia, cada trago um pequeno ritual sem plateia, sem necessidade de ser visto por ninguém para valer a pena.

O estrangeiro, parado ao lado do carro fumegante, bateu palmas na direção da casa, o jeito antigo de chamar alguém quando ainda não existia campainha nem telefone. O homem da varanda se levantou sem pressa e caminhou até a cerca. A conversa foi curta e prática: o carro esquentou, o senhor tem água? Tinha. Trouxe um balde para o radiador, indicou um banco na sombra da varanda, e disse que era melhor esperar o motor esfriar direito antes de seguir viagem, que ali mesmo dava para aguardar.

O sol foi baixando enquanto os dois conversavam, a princípio sobre o carro, depois sobre a terra, depois sobre nada em especial, do jeito que conversas entre estranhos que não têm pressa de ir embora costumam se render ao simples prazer de existir junto. O cheiro do fumo de corda continuava subindo, forte, quase áspero, e em algum momento da noite que já tinha caído por completo, o estrangeiro lembrou que trazia consigo, guardado com cuidado no carro, um charuto cubano, dos bons, dos que não se encontram em qualquer lugar. Ofereceu para dividir. O agricultor aceitou, talvez por curiosidade, talvez só pela cortesia de retribuir a companhia com companhia.

Fumaram os dois, ali na escuridão da varanda, o carro esfriando devagar ao lado da cerca. E quando o motor finalmente deu sinal de que aceitaria seguir viagem, o estrangeiro se despediu agradecido pela água, pelo banco, pela paciência de um homem que não devia nada a ele. O agricultor, por sua vez, agradeceu de outro jeito, por algo que não sabia ainda nomear direito: a experiência de ter provado, uma única vez na vida, um sabor completamente diferente de tudo que já tinha fumado. Os dois se separaram gratos, cada um à sua maneira, sem imaginar que um deles ia sair dali pagando, nos dias seguintes, um preço que a noite não deixou entrever.

I

O sabor que bastava

Sobre a suficiência antes da comparação

Antes de qualquer coisa, vale entender exatamente o que aquele homem tinha, e por que aquilo já era, de fato, muito. Epicuro, o filósofo mais mal compreendido da história ocidental, tratado por séculos como sinônimo de gula quando pregava exatamente o oposto, propôs uma classificação dos desejos que explica com precisão cirúrgica o que estava em jogo naquela varanda. Existem desejos naturais e necessários, como beber água quando se tem sede. Existem desejos naturais mas não necessários, como preferir uma água mais fresca quando a sede já não é urgente. E existem desejos vãos e vazios, que não nascem de nenhuma necessidade real, mas da comparação, da vaidade, da posição social diante dos outros. O cigarro de fumo de corda, tragado ao entardecer depois de um dia inteiro de trabalho na terra, pertencia à primeira categoria disfarçada de simplicidade: um prazer ganho, ancorado numa necessidade real de descanso e de reconhecimento silencioso pelo próprio esforço. Não era o melhor fumo do mundo. Era o fumo suficiente para aquele homem, naquele momento, depois daquele dia específico.

A suficiência não é o mesmo que pobreza de desejo. É a coincidência exata entre o que se deseja e o que se tem. Todo o edifício ético de Epicuro se apoiava nessa ideia, contrariando a fama de hedonista descontrolado que a posteridade lhe atribuiu injustamente: a felicidade não vem de maximizar o prazer disponível, vem de calibrar o próprio desejo até que ele caiba, sem sobra e sem falta, dentro do que a vida real pode oferecer. Um homem que deseja exatamente o que tem não está resignado, não está conformado por falta de opção. Está livre de uma categoria inteira de sofrimento que a maioria das pessoas carrega sem nunca conseguir nomear: o sofrimento discreto e constante de sempre querer um pouco mais do que se tem, mesmo quando o que se tem já seria suficiente.

A régua daquele homem, até aquele momento, media a vida pelo que ela de fato era. E era essa a sua riqueza, embora ninguém, vendo de fora, fosse chamá-la assim.

II

O que o forasteiro trouxe, sem saber que trazia

Sobre como a exposição desloca, sem aviso, o ponto de referência

Jean-Jacques Rousseau distinguiu duas formas de amor-próprio que raramente são notadas como distintas, e que ajudam a entender com precisão o que aconteceu naquela noite. Há o amour de soi, o cuidado natural que todo ser vivo tem consigo mesmo, suficiente e sem comparação, voltado apenas para a própria conservação e bem-estar. E há o amour-propre, o amor-próprio que só existe em relação aos outros, que precisa de espelho, de comparação, de hierarquia para sequer fazer sentido. O primeiro é paz. O segundo, para Rousseau, é a raiz de quase todo sofrimento social, porque uma vez que o valor de alguma coisa passa a ser medido pela comparação com outra coisa, ele deixa de ter valor absoluto e passa a flutuar para sempre, refém do que existe ao lado.

Foi exatamente isso que aconteceu na varanda, sem que nenhum dos dois homens tivesse essa intenção, sem malícia de nenhum dos lados. O charuto cubano não era apenas um objeto de melhor qualidade. Era uma nova unidade de medida, introduzida sem aviso numa escala que, até aquela noite, não tinha com o que se comparar. O cigarro de fumo de corda nunca havia sido ruim. Ele só se tornou, retroativamente, insuficiente, no exato instante em que uma alternativa superior entrou no campo de possibilidades daquele homem. Antes da comparação, o cigarro era a vida inteira, era o entardecer completo. Depois dela, o mesmo cigarro virou apenas o que restava depois que a experiência mais plena já tinha ido embora com o carro do estrangeiro.

A psicologia contemporânea deu nome a esse fenômeno décadas depois de Rousseau tê-lo intuído filosoficamente sem nenhum instrumento científico à disposição: o fenômeno do nível de adaptação, mais conhecido como esteira hedônica. Toda vez que um novo patamar de prazer é experimentado, o sistema nervoso recalibra silenciosamente o que considera normal, e o patamar anterior, que antes era sentido como pleno e suficiente, passa a ser sentido como carência. Não é fraqueza de caráter, não é ingratidão, não é um defeito pessoal daquele agricultor específico. É apenas como a mente humana processa prazer: não por valor absoluto, mas por diferença em relação ao que veio antes.

Ninguém roubou nada daquele homem naquela noite. Só lhe mostraram, sem querer, o tamanho exato do que ele não sabia que estava faltando.

III

A régua que sobe e não desce

Sobre a irreversibilidade da comparação e o preço dos bens posicionais

Há uma assimetria cruel em como a régua da suficiência se move: ela sobe com facilidade e desce com uma resistência quase física, quase geológica. Economistas que estudam o que chamam de bens posicionais, aqueles cujo valor depende inteiramente de comparação social e não de utilidade absoluta, descreveram esse mecanismo em termos de mercado e de consumo coletivo, mas ele opera de forma idêntica dentro de uma única vida, ao longo do tempo, sem que seja preciso nenhuma comparação com outras pessoas além da própria versão anterior de si mesmo. Uma vez que se experimenta um patamar mais alto, ele se torna, quase instantaneamente, a nova linha de base. E toda experiência abaixo dessa nova linha, mesmo que continue sendo objetivamente boa, passa a ser sentida como perda.

O agricultor não ficou mais pobre, em nenhum sentido material, depois daquela noite. Continuou tendo a mesma casa, a mesma terra para trabalhar, o mesmo cigarro de fumo de corda à disposição todos os dias. A única coisa que mudou foi invisível e, por isso mesmo, mais devastadora do que qualquer perda material poderia ser: mudou o que sua mente aceitava, sem questionar, como suficiente. Esse é o núcleo do paradoxo que este ensaio quer expor sem pretensão de resolvê-lo facilmente, porque ele não tem solução simples: a mesma experiência que amplia o repertório de uma vida pode, ao mesmo tempo, empobrecer a capacidade dessa vida de se contentar com o que já tinha antes de ampliar esse repertório. Conhecer mais nem sempre enriquece. Às vezes, apenas ensina a sentir falta de algo que, até então, nem sequer existia como possibilidade.

Há uma velha história, contada de tantas formas ao longo do tempo que ninguém mais sabe apontar a origem exata, sobre um pescador que descansava à sombra do próprio barco depois de pescar o suficiente para o dia. Um homem de negócios, vendo aquela cena, começou a explicar como o pescador poderia expandir, comprar mais barcos, contratar mais gente, abrir uma empresa de pesca, até um dia poder se aposentar rico e passar os dias descansando à sombra do próprio barco. O pescador, sem se alterar, perguntou o que ele imaginava que estava fazendo naquele exato momento. A história costuma ser contada como elogio simples à vida sem ambição. Mas, lida com mais cuidado, ela também é um aviso: o pescador só continuava livre porque nunca tinha ouvido, de fato, a proposta de outra vida possível. Bastava não ouvir. O agricultor da varanda não teve essa sorte. Ele ouviu, tragou, sentiu na própria boca a diferença, e não teve mais como desouvir o que já tinha sentido.

Não existe régua que volte sozinha ao lugar onde estava antes. Ela precisa ser movida de volta, à força, por alguém disposto a pagar o preço dessa reeducação silenciosa.

IV

Aprender a fumar de novo

Sobre a possibilidade, difícil mas real, de reconciliar-se com o suficiente

Se a régua não desce sozinha, resta perguntar se existe alguma forma de movê-la de volta, deliberadamente, sem depender simplesmente de nunca mais encontrar um charuto no caminho, o que seria, de todo modo, uma solução frágil demais para se apoiar. Henry David Thoreau, que foi viver sozinho numa cabana à beira de um lago justamente para testar até onde a vida podia ser simplificada sem perder substância nenhuma, escreveu que um homem é rico na proporção das coisas que pode dispensar. A frase soa, à primeira leitura, como elogio ingênuo à pobreza, até que se perceba o que ela realmente propõe: riqueza, para Thoreau, não é a quantidade de prazeres disponíveis a um homem, é a quantidade de prazeres dos quais ele não depende para se sentir bem. Um homem que passa a precisar do charuto cubano para que fumar continue valendo a pena é, nesse sentido bem preciso, mais pobre do que era antes de prová-lo, mesmo tendo agora, objetivamente, mais referências de sabor do que tinha antes.

Há também, nas tradições contemplativas do sul e do leste asiático, um conceito que descreve com exatidão o estado que aquele agricultor perdeu naquela noite, e que precisaria, com esforço deliberado, reconstruir: uma equanimidade que não rejeita o prazer quando ele aparece de forma inesperada, mas que também não constrói identidade nem expectativa permanente em torno da repetição futura desse mesmo prazer. A diferença entre saborear um charuto excepcional uma única vez, como acontecimento isolado e completo em si mesmo, e passar a exigir charutos excepcionais para que qualquer fumo continue valendo a pena, é exatamente a diferença entre experiência e apego. O primeiro enriquece sem cobrar nada depois. O segundo empobrece, silenciosamente, tudo o que vier depois dele.

Isso não significa que o agricultor devesse ter recusado o charuto naquela noite, e este ensaio não pretende sugerir isso em nenhum momento. Recusar uma experiência boa por medo do que ela pode custar depois é uma forma de pobreza ainda mais severa, a pobreza de quem nunca se arrisca a sentir nada além do que já conhece. A questão real não é evitar experiências melhores. É desenvolver, depois delas, a disciplina interna de tratá-las pelo que de fato foram, um momento excepcional e não repetível, em vez de deixar que elas reescrevam, sem aviso e sem permissão, o que se passa a exigir de todos os momentos futuros. Isso é raro. Exige uma espécie de maturidade emocional que a maior parte de nós só constrói depois de perder, algumas vezes na vida, a paz que tinha antes de conhecer algo melhor.

Dois homens fumaram juntos, uma noite,
e os dois, ao final, agradeceram.
Um pela ajuda.
O outro por um sabor que nunca tinha provado.

Nenhum dos dois sabia
que só um deles ia pagar por aquilo depois.

O cigarro não mudou.
A terra não mudou.
O entardecer, no dia seguinte,
foi exatamente igual ao anterior.

Só a régua mudou.
E a régua, uma vez movida,
não pergunta se você está pronto
para viver com ela no novo lugar.

Prove o que quiser provar.
Mas aprenda, depois,
a não deixar que o melhor
sequestre o que já era suficiente.

Dedicatória

Este escrito é dedicado ao agricultor sem nome que, numa varanda sem reboco, ofereceu água, banco e tempo a um estranho, e que, sem saber, me ensinou o preço verdadeiro de um gosto melhor.

Ainda aprendendo a fumar o suficiente, Santos Moisés.

Este escrito lhe fez companhia?

I · O sabor que bastava
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