Escólio · Conhecimento · Escrito XLVIII
A Régua Que Mede o Que Não Devia
Escólio sobre três textos: Herbert Spencer, John Stuart Mill e Rabindranath Tagore
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I
A prova que termina
II
O que se decora
III
O que os três viram
Um pássaro selvagem canta ao amanhecer sem que ninguém tenha lhe ensinado a melodia. Um dia, alguém decide que aquele canto não basta, que o pássaro precisa ser educado, e o prende numa gaiola. Não porque o odeie. Porque acredita, sinceramente, que está fazendo o bem.
Este Escólio comenta três textos escritos em três países e três décadas diferentes, sem que seus autores jamais tenham se falado, e que chegam, cada um por seu caminho, à mesma ferida: o momento em que a régua que deveria medir o aprendizado passa a substituí-lo.
I
O exame como fim
Sobre Herbert Spencer e o conhecimento que evapora com a prova
O filósofo inglês Herbert Spencer, em *Educação: Intelectual, Moral e Física* (1861), descreveu com precisão fria o que acontece assim que um exame termina. Segundo ele, uma vez passados os exames, os livros são deixados de lado, e a maior parte do que foi adquirido, por nunca ter sido organizado internamente, logo escapa da memória. O que resta, escreveu Spencer, é praticamente inerte, porque a arte de aplicar o conhecimento nunca chegou a ser cultivada, restando pouca capacidade real de observação precisa ou de pensamento independente.
Spencer não estava descrevendo alunos preguiçosos. Estava descrevendo o resultado inevitável de um sistema que trata o exame como destino final da aprendizagem, não como verificação de um processo que deveria continuar depois dele. Quando a régua vira o objetivo, o que ela mede deixa de importar assim que ela é atendida.
Quando o exame vira o objetivo, o que ele deveria medir deixa de importar assim que ele é atendido. O conhecimento que sobra é o que nunca precisou ser decorado para a prova.
Spencer ia além, e essa parte do argumento é ainda mais incômoda: ele descrevia o próprio currículo escolar de sua época como organizado ao redor daquilo que impressiona socialmente, o conhecimento ornamental, latim, grego, história de reis e batalhas, em vez daquilo que realmente sustenta a vida de quem aprende. A régua, para Spencer, não estava apenas mal calibrada. Estava medindo a coisa errada desde o início.
II
Decorar detalhes, compreender princípios
Sobre John Stuart Mill e o limite estrutural do exame
O filósofo inglês John Stuart Mill, em seu discurso inaugural como reitor da Universidade de St Andrews em 1867, tocou no mesmo ponto por outro ângulo, mais voltado à formação universitária do que à escola básica. Mill defendia que a função de uma universidade não é ensinar uma profissão, isso cabe às escolas técnicas, mas formar o tipo de mente capaz de usar bem qualquer profissão depois.
Nesse discurso, Mill fez uma distinção que continua atual: a diferença entre um profissional que apenas enche a memória com detalhes decorados e um profissional capaz de compreender e exigir princípios reais por trás da própria prática. Um advogado pode ser competente sem educação geral ampla, dizia Mill, mas só a educação geral o torna capaz de ser um advogado que pensa, não apenas um que executa procedimentos memorizados.
Decorar e compreender deixam o mesmo rastro numa prova. Só um dos dois continua existindo depois que ela termina.
Isso importa porque revela um limite estrutural da régua, não apenas um mau uso dela. Um exame consegue verificar, com razoável precisão, se alguém decorou o detalhe certo. Nenhum exame, por mais bem desenhado que seja, consegue verificar com a mesma precisão se alguém aprendeu a compreender o princípio por trás do detalhe. E como decorar é mais fácil de medir do que compreender, todo sistema educacional pressionado por resultados mensuráveis tende, com o tempo, a empurrar o ensino na direção do que é fácil de medir, não do que realmente importa.
III
A fábula do papagaio
Sobre Rabindranath Tagore e a gaiola dourada
O poeta indiano Rabindranath Tagore levou essa mesma crítica a um território que nem Spencer nem Mill ousaram: a fábula. Em *O Treinamento do Papagaio*, publicada originalmente em bengali em 1918, Tagore conta a história de um rei que decide que um pássaro selvagem, ignorante por nunca ter recitado escrituras, precisa ser educado.
A corte constrói uma gaiola de ouro. Contrata um exército de escribas para produzir livros suficientes. Os sobrinhos do rei, encarregados da tarefa, decidem que o método mais seguro é enfiar as páginas dos livros diretamente no bico do pássaro, já que ele se recusa a lê-las por conta própria. Para que o pássaro não se distraia voando, suas asas são aparadas. Para que não escape, é acorrentado ao poleiro dentro da própria gaiola dourada.
O pássaro definha. Para de cantar. Eventualmente morre, ainda com páginas de livro entaladas no bico, sem nunca ter aprendido coisa alguma. A corte, ao inspecionar o processo, declara a educação um sucesso completo, porque todos os procedimentos corretos foram seguidos à risca, com todo o rigor que o método exigia.
IV
O procedimento correto, o fim perdido
Sobre a ironia que amarra os três textos
A ironia final de Tagore é o ponto onde os três textos se encontram. A corte do rei não declara a educação um fracasso apesar da morte do pássaro. Declara sucesso, porque mede o processo, não o resultado. O procedimento foi seguido, os livros foram devidamente enfiados, o método foi respeitado do início ao fim. Que o pássaro tenha morrido sem aprender nada não figura entre os critérios de avaliação.
O procedimento seguido à risca virou, na fábula de Tagore, prova mais forte de sucesso do que a vida do próprio pássaro.
Essa é exatamente a régua que Spencer descreveu décadas antes, num registro mais sóbrio: o exame que verifica se o conteúdo foi corretamente ministrado, não se algo realmente foi aprendido. E é a mesma distinção que Mill traçou entre decorar e compreender, aplicada agora não a um estudante universitário inglês, mas a um pássaro numa gaiola dourada do outro lado do mundo. Três textos, três registros completamente diferentes, filosófico, oratório, fabular, e a mesma régua sendo desmontada por três ângulos.
V
O que a régua não devia medir
Sobre o que os três autores, na verdade, queriam
Nenhum dos três autores era contra avaliar. Spencer queria uma medida melhor, baseada no que realmente prepara para a vida completa. Mill defendia exames sim, mas subordinados à formação de princípios, não substitutos dela. Tagore não propôs método nenhum na fábula, mas fundou, anos depois, uma escola real, Santiniketan, tentando construir na prática o oposto exato da gaiola dourada que havia imaginado.
O que os três recusavam, cada um a seu modo, era a régua que mede apenas o que é fácil de medir, e por isso, com o tempo, redefine silenciosamente o que conta como aprendizado. Quando o exame vira o alvo, o pássaro aprende a engolir páginas. Não aprende a voar. E ninguém, na corte, percebe a diferença, porque a régua nunca foi desenhada para medir voo.
Um pássaro selvagem cantava ao amanhecer
sem que ninguém tivesse lhe ensinado a melodia.
Alguém decidiu que aquilo não bastava,
construiu uma gaiola de ouro,
contratou escribas, encheu prateleiras de livros.
As páginas foram enfiadas no bico,
as asas foram aparadas,
o poleiro foi acorrentado por segurança.
O pássaro morreu engasgado de texto,
e a corte declarou sucesso,
porque o procedimento tinha sido seguido à risca.
Existe conhecimento que se decora para a prova
e evapora assim que ela termina.
Existe conhecimento que se compreende,
e esse fica, mesmo sem exame algum para provar que ficou.
A régua nunca foi o problema.
O problema é quando ela decide, sozinha,
o que vale a pena ser aprendido.
Dedicatória
Este escólio é dedicado aos pássaros que engoliram páginas demais e ainda assim se lembram de como se voa.
Ainda com as asas inteiras, Santos Moisés.
Este escrito lhe fez companhia?